Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 29 de novembro de 2014

Duas lendas da Lagoa dos Cordões

Na margem do Rio das Mortes, ao longo de sua várzea, formam-se algumas lagoas nos rebaixamentos, anualmente renovadas pela invasão das águas de enchente. Em Santa Cruz de Minas algumas nunca foram batizadas, mas outras, por peculiaridades específicas, foram nominadas: Lagoa do Cará (nome de um peixe ciclídeo), Lagoa Vermelha, Lagoa do Cascalho e Lagoa dos Cordões, esta, a maior e mais profunda.

As margens da Lagoa dos Cordões eram pontos de lazer, sempre frequente de se ver banhistas e pescadores. Também difundida no meio popular duas narrativas assombradas para aquelas águas, além das tradicionais estórias do caboclo-d'água, que dizem surgir ali também.

Vejamos resumidamente as duas lendas:


A Noiva Encantada

Dizem que, vez por outra, alguém vê, de repente, uma noiva andando cabisbaixa na beirada da Lagoa do Cordões. Reconhecida logo pelo seu vestido branco matrimonial, expressa tristeza e em breve desaparece como uma bruma matutina. 

Narra-se que certa feita, fazem muitos anos, uma jovem fora obrigada pela família a se casar com um homem que não gostava de jeito nenhum. Muito contrariada, fugiu correndo do altar e no auge do desespero atirou-se na Lagoa dos Cordões, onde morreu afogada. 

Sua alma infeliz vaguei por lá, entre água e terra, entre dois mundos, aparecendo eventualmente como se pedisse socorro através de sua tristeza.



Tropa do Além

O povo acredita que nas margens da Lagoa dos Cordões, a altas horas da noite, aconteça uma assombrosa manifestação: ouve-se ao longe cavalos relinchando, muitos, e um intenso tropel, e um homem a gritar como que campeando os animais.

Os cavalos vão se aproximando, e se reconhece pelo aumento da nitidez do barulho, que vai ficando forte. O corpo então arrepia anunciando que aquilo é coisa de outro mundo.

E surge a visagem: uma tropa de cerca de quarenta cavalos absolutamente brancos, tangidos por um só peão invisível, que brada tocando animais fantasmagóricos.

Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli
** Informante: populares, Santa Cruz de Minas, 1994.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Quadrinhas de amor - parte 4

Dando prosseguimento à série "Quadrinhas de amor", na quarta parte seguem mais sessenta trovas populares coligidas em Santa Cruz de Minas mas possivelmente de várias origens. Como já foi dito noutros números desta série, o povo apropria, cria, recria, adapta... e neste processo perpetua a arte versificada na temática do amor, desde o platônico ao irônico, da paixão à desilusão. Eis o mostruário:


Verde é verde,
Eu queria estar agora
Rosa é rosa;
Aonde está seu pensamento,
Seu rosto é bonito,
Beijando sua boca,
Sua boca é gostosa.
E pagando meu sofrimento.


Passei por cinco rosas,
O papel brigou com a tinta,
Todas cinco eu beijei,
A tinta pediu perdão,
Passei por vários rapazes,
Aceito um beijinho,
Só por você me apaixonei.
Com todo amor no coração.


Fui no livro do destino,
Menino da boca doce,
Minha sorte procurar,
Lábio de porcelana,
Em suas páginas encontrei,
Um beijinho seu,
Que nasci pra te amar.
Me sustenta uma semana.


Roubei um beijo,
Dizem que amar é sorte,
Custou uma bofetada,
Sorte pra quem não tem;
Roubei o segundo, o terceiro,
Como eu não tenho,
Já não custou nada.
Não posso amar ninguém.


Estou zangado contigo,
Sonhei que o fogo gelava,
Não quero mais te ver,
Sonhei que a neve queimava,
Os beijos que tenho comigo,
Depois o mais impossível,
Eu quero te devolver.
Sonhei que você me amava.


Assentei na beira d’água,
A roseira dá a rosa,
Para ver peixinho nadar,[1]
Dá também o botão,
Ai, meu Deus, que coisa ruim,
Eu te dei o meu amor,
Namorar pra não casar.
Para ganhar seu coração.


Lá do céu caiu um cravo,
Meu amor me de um fora,
De tão alto desfolhou,
Pensando que eu choraria;
Dentro dele estava escrito
Eu não choro por pai nem mãe,
O nome do meu amor.
Não vou chorar por porcaria ...[2]


Me chamaste de criança,
A rosa para ser rosa
Eu aceitei com muito ardor,
Precisa de espinho,
Pois mesmo sendo criança,
O amor para ser amor
Estou louquinha de amor.
Precisa de carinho.


Menina, quando eu morrer,
Quer saber meu nome,
Vai na cova me adorar,
Vá à noite no jardim:
Para ver o teu corpinho,
Meu nome está escrito
Faz o meu ressuscitar ...
Numa folha de jasmim.


O mundo não é dois mundo,
O cravo também se muda
O céu não tem duas cores,
Do jardim para o deserto,
Quem não tem um coração,
De longe também se ama
Não pode ter dois amores.
Quem não se pode amar de perto.


Amo a rosa branca
Meu caro beija-flor,
Que nasceu em teu jardim,
Que mora na pedra oca,
Amo tuia mãe querida
Todo moreno bonito,
Que criou você pra mim.
Merece um beijo na boca.


Sou uma jovem criança,
Quem ama sofre calado,
Que neste mundo apareço,
Ocultando sua dor,
Amar e não ser amada,
Não há silêncio mais lindo
Isto eu não mereço.
Que o silêncio de amor.


Amo uma linda menina,
O teu sorriso é lindo,
Que tanto me faz sofrer,
Sói me traz felicidade,
O meu maior desejo
Por viver longe de ti,
É nos braços dela viver.
Vivo sempre com saudade.


Brilham cinco estrelas no céu,
Todo amor que morre,
Brilham cinco rosas no jardim,
Me deixa sem ar;
Brilham mais os teus olhos,
Todo amor que começa,
Quando olham para mim.
Me ensina a respirar.


Deitada na cama
Beijo na testa é respeito,
Seu lindo nome escrevi,
Beijo no rosto é carinho,
Soletrando letra por letra,
Beijo no queixo é vontade
Sorrindo adormeci.
De subir mais um pouquinho...


Dos pássaros da mata
Neste dia de festa
O mais lindo é o beija-flor;
Se quiseres ser feliz,
Da casa da minha sogra
Me dê um beijo na testa
O mais lindo é meu amor.
E outro abaixo do nariz.


Desde que ti conheci,
Na folha da bananeira
Começou meu sofrimento,
Seu nome vou escrever,
O seu rosto encantado,
Se eu não for feliz contigo,
Não me sai do pensamento.
Com outro não vou ser.


A toalha cobre a mesa,
Dizem que a felicidade
O tapete cobre o chão,
É visita inesperada
Queria saber quem é
Aparece de repente
Que cobre seu coração.
E vai sem dizer nada.


Meu coração foi voando
Eu fui à beira do mar
Dentro do seu foi cair;
Para ver se te esquecia,
Lá dentro quebraram as asas
Mas o barulho do mar
Nunca mais pude sair.
O teu nome repetia.


De amigo para amiga,
Rua da saudade
Começou nossa amizade,
Esquina do coração,
Mas agora te confesso
Esse é o endereço
Que te amo de verdade.
Onde encontra meu coração.


O rei nasceu para o trono
No mar navega o barco,
O peixe nasceu para o mar,
No barco navega os ventos,
Eu nasci neste mundo
As ondas dos teus cabelos
Somente para te amar.
Navegam em meu pensamento.


Estava no jardim
São João andou no mundo
Quando tudo escureceu,
Para todos batizar
Num sonho de rosas,
Eu nasci neste mundo
Você apareceu.
Somente para te amar.


O pavão perdeu as penas
O amor é como uma seta
Os peixes perderam a escama
Lançada em direção,
Estou perdendo tempo
Não tem alvo, nem meta,
De amar quem não te ama.
Não escolhe o coração.


Eu queria ser um barco
Dois corações unidos
Para atravessar o oceano,
Tem um viver delicado:
E dizer bem baixinho
Não pode o meu coração
Ai, como eu te amo!
Viver do seu separado!


Tu és um cravo
Saudade, palavra doce,
Eu, um beija-flor;
Que traduz tanto amargor;
Hei de colher o mel
Saudade é como se fosse
Com um beijo de amor.
Um espinho cheirando a flor.


Tanta boca me beijou,
O coração e os olhos
Tanta boca já beijei;
São dois companheiros leais;
Mas os beijos mais gostosos
Quando o coração sente dor,
Foram aqueles que te dei.   
Logo os olhos dão sinais.


As garotas afirmam
Eu vi uma abelha
E disso elas tem razão
Pousando com muito amor,
O beijo dado na boca
Na sua boca vermelha
Explode o coração.
Pensando ser uma flor.


Quando amares alguém,
Não sou boa jardineira
Saiba escolher:
Nas terras do coração,
Não entregue seu coração
Sempre planto amor-perfeito,
Ao primeiro que aparecer.
Nasce sempre uma ilusão.


Se eu fosse um passarinho,
Não te dou meu coração
Voaria para te ver;
Porque não posso arrancar;
Como não tenho asas
Arrancando sei que morro,
O jeito é te esquecer.
E morrendo não posso te amar.


Do jardim eu quero a rosa,
Se meu coração partisse
Da rosa, o botão;
Te daria um pedacinho;
Da carta eu quero a resposta,
Mas como ele não parte
E de você seu coração.
Lhe dou inteirinho...



[1] - É uma fórmula-feita de composição que aparece em variantes, como por exemplo: “Eu cheguei lá na beira do rio / para ver o peixinho nadar, / avistei a coroa do rei, / ela estava do lado de lá!” (congado (catupé), Ribeirão de Santo Antônio (Resende Costa/MG), 1996); ou: “Eu sentei na beira d’água / para ver os peixinhos nadar, / logo veio o peixe-espada / jogando água pro ar...” (calango, Brumado de Cima (São João del-Rei/MG), 2013).  
[2] - Deu um fora: expressão popular – esquivar-se de um afeto, afastar-se de um relacionamento. 


* Texto: Ulisses Passarelli
** Coleta e informação: Maria Aparecida de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.
*** Obs.: não deixe de ler os comentários de abertura às postagens anteriores desta série, que naturalmente são equivalentes para a quarta parte: 





segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Marujos de terra firme


O mineiro é alvo de muita anedota por causa de sua vida interiorana, distante do mar. A primeira vez que o natural de Minas Gerais vê o mar e nele entra para um banho é motivo de piadas. Em nosso grande estado, o quarto em dimensão territorial, o único "mar" conhecido é "o de morros": montanhas e mais montanhas, ondulando a linha do horizonte a perder de vistas. 

O que dizer então da tradição mineira em torno dos marujos no interior continental? 

Fato é que nos meios folclóricos, talvez um tanto pelo desejo do mar, outro tanto pela influência dos colonos portugueses, que deixaram aqui fortíssima marca cultural (e eram grandes povos navegadores), várias tradições se construíram sobre a figura dos marinheiros. 

Assim, a cultura popular enumera entre as modalidades de congado, uma, que se liga pela temática às lides marítimas. Chamam-lhe conforme a região e a variante de marujos, marujos do rosário, marinheiros e ainda marujada. O congadeiro participante deste tipo de guarda é via de regra chamado "marujeiro". 

A extensão territorial de sua presença é vasta no Brasil e longe deste texto está a pretensão de historiá-los no país, pois desde autos quinhentistas de Portugal e vilancicos espanhóis de séculos atrás é possível rastrear suas origens. As matrizes temáticas e textuais trazidas ao Brasil sofreram aqui influências regionais, sobretudo pela força do elemento cultural afro-brasileiro, que adequou o costume das danças de marinheiros ao ciclo festivo do rosário e dos reis negros. 

No Pará é típico e tradicionalíssimo o grupo de marujada da região de Bragança; pelo imenso Nordeste do país, marujadas e suas versões mais desenvoltas, os fandangos e cheganças, estes mantendo mais fortemente o elemento ibérico, foram conhecidos desde o Piauí à Bahia, sobretudo ao longo da costa, já em franco ocaso. Em alguns estados sua força adentrou pelo seco sertão, a exemplo de Sergipe. Pelas terras são-franciscanas da Bahia, ao longo do vale do grande Rio da Integração Nacional, as marujadas são ainda vivas e vivazes, com sua rítmica característica e chapéus multicores. 

Daí para baixo, Minas é o grande celeiro, desde o norte do estado, da zona de Montes Claros, e mais além até Itamarandiba, daí ao vale do São Francisco e deste rumo sul às cabeceiras, posto que no sudoeste é frequente para as bandas de Passos, Itaú de Minas e Guaxupé. No centro-oeste também é conhecido, como se depreende de vários grupos a partir da área de Itapecerica. No centro do estado até o meio-norte também é muito difundido, de Congonhas do Norte, São Gonçalo do Rio Preto, Diamantina, Serro para a área metropolitana (Roça Grande, General Carneiro, Vespasiano, etc.), onde se emenda com os numerosos grupos do Quadrilátero Ferrífero até bem abaixo, esbarrando no limite leste dos Campos das Vertentes, em Carandaí, Caranaíba e Barbacena. Conselheiro Lafaiete é um grande centro das guardas de marujos. Pelo interior das Vertentes o destaque é o grupo de Dores de Campos

Este congado, ora com e ora sem entrecho dramático com cenas de lutas de espadas e disputas de poder entre personagens de nomes militarizados, varia de indumentária à marinheiro, de branquinho, quépis, casquetes, caxangás, palas com debruns azuis e pequenas âncoras aplicadas, até uma farda distinta, como prevalece no citado Quadrilátero Ferrífero até as Vertentes: de quépi, muito enfeitado em belos padrões de desenhos de lantejoulas e outros bordados de vidrilhos, com um longo jogo de fitas caindo pela nuca quase até os pés, cujo balançar confere um belo efeito visual; roupa branca em geral, mas não obrigatoriamente; longas faixas de crochê de cores variegadas trespassadas do ombro ao peito, presa na cintura do lado oposto e de pontas soltas e pendentes, terminadas com pompons ou franjas quase rente ao solo. 

Por aqui nas Vertentes os marujos tem a percussão por base musical, com muitos tambores. São três filas de dançantes que trabalham com várias coreografias ensaiadas e mormente balançam o corpo em sincronia como se imitassem o movimento de um navio ao sabor das ondas. 

A temática dos versos alude como todo congado aos santos protetores, Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora Aparecida, aos reis e rainhas, como também a assuntos que evocam o oceano. É comum ouvir cantos que falam em remar, areia, sereia, mar, embarcações ...


"A sereia,
ela mora d'outro lado do mar;
para ver a sereia,
marinheiro tem que remar..."
(marujos "N.S.da Guia", Carandaí, 2010)

"Tem chorado, marinheiro ...
Chora com muita razão!
Marinheiro que vai para a guerra,
ai... não sabe se volta ou não!"
(marujos "N.S.Aparecida", Conselheiro Lafaiete, 1997)


Fato é que mesmo nos grupos de congados que não são marujos os temas correlatos se apresentam eventualmente: 

"Marinheiro do mar,
que brinca bem,
puxa fieira, 
reinado en'vém!"
(congo, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei), 2014)

"Ôh, marinheiro, 
que leva nessa canoa?
Leva ouro, leva prata,
leva muita coisa boa!"
(moçambique, Passa Tempo, 2011)

"Ôh, marinheiro!
Marinheiro na beira do mar..."
(catupé, Coronel Xavier Chaves, 1998)


A presença dos marujos no conjunto dos congados é entendida e justificada pelos congadeiros em geral, em razão das tenebrosas histórias dos navios negreiros, mas localmente surgem outras explicações.

Além do significado supra, o tema dos marinheiros também aparece noutro campo: nos trabalhos religiosos dos terreiros de matriz africana. Uma das sete linhas da umbanda é a de Iemanjá e sob seu comando uma das sete falanges é a dos marinheiros, conjunto de espíritos de antigos marinheiros (de fato!). São guias da direita, que quando incorporam no médium se manifestam com gritos e gírias próprios. Gostam de dançar passos de marujada e de danças antigas, em voga nas tabernas portuárias de antanho. Fumam charuto ou cigarro comum, de papel, tomam cerveja ou vinho, tendo a toalha branca de trabalho enrolada na garrafa. A oferenda inclui um peixe frito num prato branco, sem tempero algum. É frito sem sal, que só se põe na hora da entrega sob a forma de um delicado filete, salpicado sobre o peixe na longitudinal, desde a cabeça ao rabo. O chefe da falange dos marinheiros é Tarimá (ordenança de Iemanjá), coordenando as ações de vários outros marinheiros: Zé da Proa, Martim Pescador, Maresia, etc. Um ponto de abertura de sua linha: 

"Vou por meu barco n'água,
para navegar,
vou pedir licença a Zambi,
proteção de Iemanjá!

Iemanjá! 
Ôh, Iemanjá!
Rainha das Ondas, 
Sereia do Mar!"
(São João del-Rei, 1999)

Por fim, embora o assunto dos marinheiros seja vasto e contemple muito mais considerações e conteúdo, aqui apenas passado em breve revista, resta dizer que aqui em São João del-Rei o termo "marinheiro" tem ainda um emprego inusitado, no âmbito do linguajar popular: chama-se assim aos grãos escuros de arroz, destoando de imediato do visual dos grãos típicos, alvos, quando se vai escolher no processo de limpeza, antes de lavar para o cozimento. Diz-se: "achei um marinheiro..." Existe ainda a palavra "amarujo", uma referência ao sabor amargo não intenso. Assim, em referência à conhecida fruta cítrica: "a lima tem um amarujo..."

1- Marujos "Santa Efigênia" de Barbacena/MG, 18/08/1996.
Festa de N.S.do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG. 

2- Marujos "Sereia do Mar" de Congonhas/MG, 11/06/2011.
Festa do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG. 

3- Marujada de São Brás do Suaçuí/MG, 30/05/2004.
Festa do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG. 

4- "Guarda de Marinheiro de São Jorge", de Vespasiano/MG, 30/06/2013.
Festa do Rosário, Ibituruna/MG.

5- "Guarda de Marujos São Sebastião", General Carneiro (Sabará/MG), 09/01/2010.
Festa do Rosário, Padre Faria (Ouro Preto/MG).

6- "Banda de Congado São Francisco de Assis e Nossa Senhora Aparecida", Ouro Branco/MG, 09/01/2010.
Festa do Rosário, Padre Faria (Ouro Preto/MG).

7- Marujos, Santana dos Montes/MG, julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.

8- Marujos, Alto Rio Doce/MG, julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG. 

9- Marujos, Gajé (Conselheiro Lafaiete/MG), julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG. 

10- Marujos, Caranaíba/MG, julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG. 

11- Marujos, Barra do Itaberaba/MG, julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG. 

12- Marujos, Catas Altas da Noruega/MG, julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG. 

13- Marujos, Miguel Burnier (Ouro Preto/MG), julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG. 

14- Marujos, Senhora de Oliveira/MG, julho/1992.
Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG. 

15- "Banda de Congada N.S. do Rosário", Dores de Campos/MG,23/10/2010.
Festa do Rosário em Dores de Campos/MG. 

16- "Guarda Nossa Senhora da Guia", Carandaí/MG, 23/10/2010.
Festa do Rosário em Dores de Campos/MG. 

Notas e Créditos

* Texto e foto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: 3- David Passarelli; 2- Maria Aparecida de Salles Passarelli; demais fotografias - Ulisses Passarelli
*** Assista aos vídeos abaixo:

Marujos, Conselheiro Lafaiete

Marujos, Carandaí

domingo, 23 de novembro de 2014

Santa Cecília: música e fé se irmanam em São João del-Rei

Ontem, 22, em muitos lugares viu-se, ouviu-se, sentiu-se... os louvores que cá na Terra prestam os humanos com seus instrumentos à querida santa padroeira dos músicos: Santa Cecília. A vivência musical atinge em São João del-Rei uma dimensão sublime, pelo volume e pela qualidade de que se reveste. 

A cidade vivenciou agora em novembro uma semana de atividades musicais e na Catedral do Pilar instrumentos de sopro e arco, vozes e acordes, se harmonizam em homenagens a Santa Cecília. No Cajuru, distrito sob os auspícios do Arcanjo São Miguel, a banda de música local, sob o título desta santa querida, a homenageia numa festa singular, muito expressiva. 

No Rio das Mortes também é lembrada pela Lira do Oriente. E aqui na zona urbana, pelas sedes das corporações, é de praxe se ver uma imagem dela num oratório ou suporte, ou um quadro na parede, silencioso, mas ouvindo tudo, como se vivo fosse, porque viva é, tal e qual a fé dos músicos que a amam. 

Música e religião desde sempre se harmonizaram nesta terra e sobreviveram lado a lado em equilíbrio de ambiência, como num ecossistema, só que sócio-cultural. As corporações seguiram e ainda seguem a um calendário litúrgico de numerosas novenas e procissões. Os compositores deixaram sua marca para tais celebrações, com obras específicas para este ou aquele ato religioso. Dos corais emanam frases sacras. 

E assim persevera a musicalidade são-joanense, uma geração após outra, sensível e extraordinária, enfrentando seus dilemas, seus conflitos de sobrevivência, suas pelejas intrínsecas mas sem esquecer sua aliança com o sagrado, estabelecida desde os primórdios de nossa vila tricentenária. 

Música e fé se irmanam na tradição são-joanense. Uma cena do distrito de
Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Terra de Nhá Chica. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli, 19/10/2014
** Não deixe de ler: 




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Velhas medidas

Em sua interação com o ambiente e com os semelhantes, o homem criou a necessidade das medidas. Distâncias, demarcações, pesos, alturas... para obras, comércio, propriedade, arquitetura, quantidade.

Mundo afora existem ou existiram muitas medidas, algumas organizadas de forma sistemática, outras de nomes curiosos, desses que dá vontade de saber quanto é, ou quanto vale: côvado, arrátel, nó, balaio...

Algumas das velhas medidas não tinham a exatidão das atuais. Assim sendo exigia-se das autoridades ações regulamentares, exercidas pelos almotacéis. Eram membros do Senado da Câmara, como se chamava na terminologia colonial a atual Câmara Municipal, mas com a diferença de agregar os três poderes. O almotacel tinha a prerrogativa de fiscalizar o sistema de pesos e medidas e ainda de tabelar o preço dos alimentos e regular sua distribuição, com o direito a sair pela rua em correição munido da vara própria, como acontecia em São João del-Rei e o demonstrou GAIO SOBRINHO (2010): "Por vinte oitavas de ouro que deu por quatro varas de Almotacés ao Procurador João Pinto do Rego por um mandato de 18 de dezembro de 1720." (recibo 168, pg.29). Outro exemplo: (...) "nesta vila de São João del-Rei, Minas do Rio das Mortes, e sendo aí em as casas do Juiz Ordinário, pela ordenação José Martins Duarte, aonde foram vindos Francisco Carvalho da Silva e Simão de Oliveira Pereira, para haverem tomar posse das varas de Almotacés" (acórdão 01, pg.117, 01/09/1740).

No auto de correição de 13/03/1740, nesta cidade, segundo a mesma fonte, consta que todos os membros do dito senado "em Corpo de Camara sahirão compostos e alvorados com as varas da Camara e derão correyção Geral pellas Ruas publicas desta Villa em tudo que lhe pertencia" ... e é assim que, o procurador, o alcaide, o aferidor, o almotacel e mais vereadores, publicamente punham-se a fiscalizar os erros de posturas nas ruas, punindo com ordens de multas, prisões e açoites.

"Dois pesos, duas medidas" é uma expressão popular muito usada nesta região para se referir às pessoas que agem de uma forma com o pobre e de outra com o rico, ou, de uma maneira com o humilde e de outra com o poderoso, sendo rigorosas com o primeiro e complacentes com o segundo. É uma expressão de opróbrio, lançada sobre o indivíduo parcial em suas atitudes: "fulano é homem de dois pesos e duas medidas." (*) Virá esta expressão da época dos almotacéis? Será que na aferição das medidas eles tratavam em igualdade pequenos e grandes comerciantes?

Nestas correições que aconteciam de tempos em tempos, os almotacéis verificavam os pesos e medidas dos comerciantes, no ato de aferir para bem geral da população. Neste mesmo auto supracitado, consta que Luiz Alves da Costa foi condenado a pagar três oitavas de ouro por não ter balança de pesar pólvora. Noutro auto, de 18/07/1809, a correição olhou se os vendeiros da vila de São João del-Rei estavam "correntes de suas licenças para as mesmas negociaçoins assim como também marcos balansas pesos e medidas tudo com aquella certeza e aseio que tem de obrigação estarem e juntamente examinarem se tem almotaçado para venderem pelos preços que se lhes determinar nas ditas Almotacerias sem que possam exceder as mesmas". Todas as citações supra se referem à obra do Professor Antônio Gaio Sobrinho. 

Foram numerosas e muito variáveis as velhas medidas. A variação ia com o tempo, sistema e região e por isto a vemos hoje por aproximação. Antigos documentos as revelam e o povo do interior ainda conserva algumas. Possivelmente a que ainda permanece com mais força seja a arroba. A palavra tem procedência árabe e como medida de massa equivale à quarta parte do quintal, ou seja, 25 libras (cada libra tem pouco mais de 453 gramas). A arroba não tem uma medida única pois varia em regiões espanholas e em Portugal. Adotamos a medida de 14,688kg (= 32 arrateis), na prática da pecuária arredondado para 15kg. "Boi de .... (tantas) arrobas"; "banda de porco de ... arrobas" (**). São expressões ainda muito comuns. 

A légua diminuiu seu uso mais ainda não perdeu de todo o prestígio. Medida predileta de distância, variando entre 6 e 7 km, tornou-se sinônimo de longínquo nas narrativas lendárias e nos contos populares: "o cavaleiro viajou léguas e léguas..." Nos primórdios das vilas do ciclo do ouro, a medição do próprio território jurisdicional se dava por légua. Assim, São João del-Rei foi estabelecida em vila no ano de 1713 com território demarcado no ano seguinte, de 2 léguas em quadra; a vizinha Tiradentes, então chamada São José del-Rei, em 1718, com meia légua em quadra, logo depois alterada para meia em circunferência, ensinou Canabrava Barreiros. A mudança foi motivo de longas discussões territoriais entre as duas câmaras devido à geração de uma sobreposição de área, gerando conflitos na área do Córrego.

O pião de ordinário se fazia a partir do pelourinho, símbolo da autoridade constituída. As terras concedidas pelo rei a fazendeiros que iam colonizar os ermos inóspitos eram verdadeiros latifúndios, também medidos em léguas, tantas de frente (testada) e tantas de fundo, para desenhar uma poligonal. Esses grandes lotes eram as sesmarias e quando se referiam a terrenos de mineração (bem menores) eram chamados "datas": uma data de terra. Cabia ao guarda-mor regular esta função, tal como o nosso pioneiro, fundador e patrono, Tomé Portes del-Rei.  

O alqueire é uma medida de terra que o hectare tende a derrubar por completo. Mas teimosamente o homem do campo ainda se refere às propriedades em alqueires, sobretudo na referência às fazendas maiores que sobrevivem ao fatiamento em sítios. Fala-se alhures em alqueire do norte, alqueire goiano (alqueirão), alqueire baiano, alqueire paulista e para nós interessa o alqueire mineiro, de 48.400m2

No serviço rural de capina de um terreno agrícola, mede-se de ordinário uma área chamada "tarefa", que no mínimo deve ser cumprida num dia. Bons capinadores conseguem cumpri-la e mais um tanto, talvez até outra tarefa. A tarefa de roça é medida com varas de bambu, que por sua vez são medidas em palmos (cerca de 20-22cm). Vara de 12 palmos, vara de 10 palmos. A tarefa é marcada no chão estendo a vara em alinhamento para formação de um quadrado de terreno: assim, uma tarefa de 12 varas tem a extensão de um quadro com 12 varas em cada face.

A dúzia era medida muito popular nos mercados para aquisição de frutas, tais como bananas e outras, substituída pelo peso, ante reclamações, que alegam a carestia que a mudança trouxe. A dúzia persiste em voga para a compra de ovos.

O pão era na unidade: tantos centavos um pão de sal, tantos um pão doce. Hoje é no peso. Diz o povo que aquilo que passa na balança traz miséria, referindo-se à fartura de outrora, quando os produtos vinham em sacas e balaios.

No tempo da safra de jabuticaba ainda vemos vendedores as oferecerem aos litros, medidos em latas de óleo de soja, aos fregueses, de porta em porta, ou estacionados nalgum logradouro público. Aqui em São João del-Rei ainda é comum, como em criança o via igualmente com a gabiroba, na entrada do verão e hoje a acerola. Fruta a litro!

Existem, por outro lado, medidas intangíveis, que se prendem ao simbolismo da linguagem: "vamos bater um dedo de prosa"... "me dá dois dedos de café"... "volto num minutinho"...

A título de mera curiosidade eis algumas medidas:

- Alqueire:dividi-se em duas modalidades mais conhecidas - alqueire mineiro: 48.400 m2 de terra e alqueire paulista: 24.200m2 de terra, embora existam outros tipos.
- Onça: como medida de líquidos equivale a aproximadamente 28 a 29 ml; como medida de massa varia de 28 a 31 gramas, aproximadamente.
- Jarda:medida de comprimento equivalente a 36 polegadas.
- Pé: medida de comprimento equivalente a 12 polegadas.
- Braça: 2,22 metros
- Quilate: como medida de massa equivale a 200 miligramas; no caso do ouro é medida de pureza, sendo que o puro tem 24 quilates.
- Légua: medida de distância equivalente a 3.000 braças, o que dá 6.600 m. Na prática o homem do campo considera a légua por arredondamento para 6 km.
- Litro: 1/40 do alqueire (terra). 
- Quarta: 10 litros de terra (quarta parte do alqueire)
- Dúzia: 12 unidades.
- Saca/saco: equivale a 40kg. 
- Polegada: 2,54 centímetros
- Milha: medida de distância aproximada em 1.609,344 metros.

Em São João del-Rei, segundo Antônio Gaio Sobrinho, na ata da sessão 35 da Câmara, de 26/06/1865, consta a leitura de uma circular ministerial que determinava a implantação do Sistema Métrico Francês em substituição ao sistema de pesos e medidas então vigente no império. A lei que impunha a mudança era a 1.157, exatamente de três anos antes.

Muitas gerações eram arraigadas ao sistema antigo de pesos e medidas. A mudança trouxe descontentamentos. No Nordeste do Brasil houve mesmo em alguns estados fortes manifestações populares contra a implantação do sistema métrico, que encarecera o produto final nas feiras e diminuíra o ganho dos comerciantes. Revoltosos promoviam ataques destruindo editais, quebrando as medidas e jogando fora os pesos. Ficou conhecida como a Revolta do Quebra-quilos. Aconteceu entre 1874-5 e foi sufocada pela repressão imperial.

Antigos pesos de balança. Acervo do autor. 

Referências Bibliográficas

BARREIROS, Eduardo Canabrava. As vilas del-Rei e a cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1976.
GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010, 260p. p.36, 60, 138, 160-2.

Referências na Internet

Wikipédia. Acesso em 20/11/2014.

Notas e Créditos


* No lastro deste pensamento existe um provérbio nas Vertentes que prescreve: "pau que dá em Chico, dá em Francisco", ou seja, a punição pelo erro deve ser igual, indiferente de quem seja o culpado... Lembrando que, "Chico" é apelido derivado imediatamente de Francisco. 
** Banda: no sentido exposto indica a metade: uma banda - meio porco, cortado no sentido longitudinal. Termo muito usual na região. 
***Texto: Ulisses Passarelli
**** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014
***** Informante: José Cândido de Salles, 23/01/1999, Santa Cruz de Minas