Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

São Miguel, arcanjo guardião

O dia de hoje é consagrado ao respeitadíssimo Miguel, o arcanjo, o santo, aquele que segundo  a Bíblia expulsou satanás do céu (Ap. 12, 7). É lembrado, venerado ou respeitado em várias religiões em muitas partes do mundo: em várias correntes do cristianismo (catolicismo romano e ortodoxo, adventistas, testemunhas de Jeová, mórmons, anglicanos, luteranos, na fraternidade branca), no judaísmo, no islamismo, no espiritismo. 

No Brasil, nos terreiros de religiões de matriz africana, goza de imenso prestígio. Vi em 2002 sua invocação antes de começar sessões de quimbanda na região do Cassoco, no centro de São João del-Rei. Nos terreiros e tendas de umbanda via de regra sua imagem está em posição de destaque e ganha uma vela branca na abertura dos trabalhos, pois recebe o título de Rei Chefe da Umbanda, elevadíssimo supervisor geral de todas as linhas e falanges de espíritos. 

Prestigiado pelos católicos sob o título "Glorioso Príncipe da Milícia Celeste" é considerado líder da corte angelical e comandante dos exércitos divinos. É invocado contra espíritos do mal, nos exorcismos, e em sufrágio das almas, de quem é guardião. O demônio estremece diante de seu nome e poder, sendo ele fidelíssimo a Deus, elevadíssimo na esfera hierárquica celeste.

Pesa nossos pecados e méritos com muita justiça, procedimento decisivo para o julgamento final. Daí ser representado com uma balança na mão. Tem o poder de resgatar almas aprisionadas em locais de sofrimento, de acordo com a ordem suprema e merecimento. 

Diante destes atributos e do título bíblico de "Um dos Primeiros Príncipes" (Dan. 10, 13), seria de fato esperado sua extrema popularidade, com reflexos nas expressões religiosas e folclóricas. 


Pintura popular no verso de uma camisa de congadeiro de
Santa Cruz de Minas, representando São Miguel subjugando o demônio - 2014.



Em Santa Cruz de Minas foi fundado no ano de 2004 um congado em honra ao glorioso arcanjo pelo Capitão Luís Pereira dos Santos, mais tarde passado para o Capitão Danilo Francisco de Assis, em cujas mãos permanece. A fotografia acima mostra a parte das costas da camisa de um congadeiro desse grupo, com a pintura popular representativa do patrono daquele catupé. O grupo pode ser visto retratado abaixo.


O congado de São Miguel, em Santa Cruz de Minas - 2004. 

Na Candonga (Tiradentes/MG), durante a festa da padroeira neste ano, foi benta a Gruta de São Miguel, uma iniciativa comunitária sob a liderança e idealização de Luís Pereira do Santos, congadeiro supracitado. Idealiza-se levantar uma festa para o arcanjo naquela localidade.


Gruta de São Miguel, Candonga (Tiradentes/MG), 2014.


A devoção a este santo é muito arraigada nas Vertentes. Em São João del-Rei a Irmandade de São Miguel e Almas data de 1716 e persiste atuante na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, cuidando da festa em sua honra. O altar de São Miguel neste magnífico templo é o altar lateral da direita, com a grande e antiga imagem do santo ao centro, aqui retratada, de autoria desconhecida, que se diz ter pertencido à igreja velha do Pilar que houve no Bonfim antes da construção da catedral (1721). É ladeada por dois outros arcanjos, Gabriel e Rafael, de confecção recente por artistas da terra (*). A irmandade está relacionada também à devoção às almas, tanto que num escudo neste altar se encontra a pintura alusiva ao purgatório e ainda, às segundas-feiras, se responsabiliza pela missa em sufrágio aos mortos.

Imagem de São Miguel Arcanjo.
São João del-Rei, Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar.

A festa em questão, em São João del-Rei, é antecedida por um tríduo noturno, seguido da celebração festiva, ouvindo-se músicas sacras orquestradas, de Geraldo Barbosa de Souza, João Feliciano de Souza, Martiniano Ribeiro Bastos e Padre José Maria Xavier, executadas pela Lira Sanjoanense. A procissão no dia principal, conta com a saída do grande andor com as imagens dos três arcanjos no dia 29 de setembro, com acompanhamento pela Banda de Música Theodoro de Faria. A festa porém prossegue com uma nova procissão, ou antes rasoura, dedicada aos Anjos da Guarda, dia 02 de outubro, com grande participação de crianças. 


Imagem de São Miguel Arcanjo.
São Miguel do Cajuru
(São João del-Rei) - 1999.



Na zona rural o maior destaque é a devoção que lhe é atribuída no distrito de São Miguel do Cajuru desde tempos iniciais da mineração aurífera nesta vila são-joanense. Aí foi erigida a capela, hoje matriz, de São Miguel Arcanjo, que ainda hoje sedia importante festividade capaz de congregar grande parte da população rural daqueles arredores. A programação é intensa e concorrida e a tradição de se fincar um mastro ao santo querido permanece. 


Mastro de São Miguel Arcanjo.
São Miguel do Cajuru
(São João del-Rei) - 2000. 



Em Santa Cruz de Minas recolhi certa feita uma versão do Romance de São Miguel, uma composição poética popular, cantada, que narra como o arcanjo, atendendo a um pedido de Nossa Senhora, vai até o inferno acompanhado de três anjos para resgatar uma alma tomada por satanás (**): 


"_ Ôh Miguel, ôh, Miguel!
Leva três anjos na guia,
vá buscar aquela alma, 
traz na tua companhia!

_ Ôh, de casa, ôh de casa!
(O inferno estremeceu...)
Vim aqui, buscar uma alma,
que Jesus Cristo me deu!

_ Vai-te, embora, ôh Miguel 
que essa alma eu não te dou,
que ainda ontem faz três dias
que essa alma aqui chegou!

_ Eu daqui não saio,
nem que passa quinze ano,
que ainda ontem faz três dias
dessa alma reclamando...

_ Ôh, gente, venha ver
o milagre de Maria, 
ontem estava no inferno, 
hoje no céu de alegria."


Existem outras versões regionais deste canto notável, como ouvi na Candonga (Tiradentes) e Santa Rita do Ibitipoca (***). Desta última:  


"Ôh, Miguel, tu vai no inferno, 
leva três anjos na guia
vai apanhar aquela alma
traz na tua companhia. 

Ela agora está sofrendo, 
já pagou o que ela fez, 
Agora chegou a hora
e chegou a sua vez." 


A Oração de São Miguel é reveladora das esperanças que o povo fiel nele deposita: 


"São Miguel Arcanjo, 
valei-nos no combate,
contra os embustes e ciladas do demônio!
Ordene-lhe, Deus,
instantemente pedimos, a vós, São Miguel Arcanjo,
digníssimo Príncipe da Milícia Celeste: 
precipitai no inferno a satanás
e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo a perder as almas!
São Miguel, São Gabriel, São Rafael ...
Milícias todas do céu, 
legião dos anjos da bem-aventurada Virgem Maria, 
rogai por nós e valei-nos. 
Amém." 


O grande guerreiro Miguel desta forma marcou profundamente o imaginário popular. As tradições cristãs fizeram dele o guardião supremo, invencível, de ação fulminante e irrevogável. Como diz o Livro de Enoch, ele "preside à virtude dos homens e comanda as nações" (19: 5) e quem for seu inimigo terá Deus por inimigo, segundo o Alcorão (2: 98). 

Referências na Web

Miguel (arcanjo). Wikipédia. Acesso em 29/09/2014.

Referência Bibliográfica

Bíblia Sagrada. São Paulo: Ave Maria, 1965.
O Alcorão. Tradução Mansour Chalita. Rio de Janeiro.
O Livro de Enoch: o livro das origens da cabala. São Paulo: Hemus, 1977. 212p.
Piedosas e solenes tradições de nossa terra. São João del-Rei: Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 1997. v.2. 


* Escultura: Miguel Randolfo de Ávila. Policromia: Carlos Magno de Araújo. Datam de 1981.
** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1995, moradora de Santa Cruz mas natural da zona rural de Bias Fortes. 
*** Informante: Júlio Prudente de Oliveira, 1996. 
**** Texto e fotos: Ulisses Passarelli
***** Foto da camisa com pintura de S. Miguel: Iago C.S. Passarelli, 07/06/2014.

sábado, 27 de setembro de 2014

Oração de São Cosme e São Damião

Hoje é o "verdadeiro dia das crianças", sempre o tenho repetido, a cada 27 de setembro que Deus me permite assistir de novo. A criançada buliçosa por essas horas já demanda pelas ruas pedindo balas, recebendo guloseimas, correndo despreocupadas por aí, insaciáveis do açúcar bendito deste dia. 

A alegria delas é notória e não atinge apenas aqueles mais abastados que tem a oportunidade de ganhar um presente dos pais como no 12 de outubro. A satisfação é mais espontânea e disseminada. 

Nos terreiros de matriz africana a atividade religiosa neste dia é extraordinária com oferendas para os erês (entidades espirituais da Linha das Crianças), sob à égide dos dois santos queridos, além de Doum. Na grande mescla cultural do brasileiro, também muitos devotos dos santos gêmeos, sem nenhuma ligação com os terreiros, oportunizam às crianças a distribuição de balas e guloseimas, para sua grande alegria. 

Em São João del-Rei uma velha oração abaixo transcrita demonstra a fé popular nos santos queridos, que foi cedida por uma pessoa desde sempre, extremamente católica. 


São Cosme e São Damião
Irmãos em Jesus Cristo
Peço de todo coração
Alcançai-nos as graças que eu vos peço (...)
São Cosme e Damião.
Aqui estamos

Irmãos queridos
E vos pedimos com fervor
Protegei-nos agora e sempre
Pedimos com fé e a amor.

Peço a cura para uma enferma
Tenho esperado com aflição
Alcançai-me de Jesus Cristo
Irmãos Cosme e Damião
Aqui estamos

Pedimos com fé e amor
Dê a paz ao mundo inteiro
Sossego aos nossos corações
Pede Maria medianeira.
Aqui estamos

Abençoai as crianças
E também os anciãos
Protegei a mocidade
Irmãos Cosme e Damião

Peço socorro para os desempregados
Pois aflitos eles estão
Os moços e pais de família
Socorrei nossos irmãos.

Livrai-nos da peste, fome e guerra
Atendei esta oração
Guiai-nos para o bom caminho
Irmãos Cosme e Damião
Aqui estamos.




Oferendas de balas para os erês da Linha das Crianças,
num congá de umbanda de São João del-Rei, diante da
imagem de São Cosme, São Damião e Doum.  



Notas e Créditos


* Informante: minha bisavó materna, Luíza dos Santos, São João del-Rei, Centro, a partir de um manuscrito da própria, datado de 01/05/1962. 

** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O Dia Maior das Mercês

Desde a madrugada de ontem, quando os foguetes e os acordes da Banda Municipal Santa Cecília irromperam a alvorada festiva em São João del-Rei, o dia todo, um intenso ambiente devoto e festivo parte da colina das Mercês. 

Do alto da bela igreja a palavra evangelizadora ecoa pela cidade invocando a Santa Mãe, rogando mercês, sublimando louvores, admoestando deslizes. A Orquestra Lira Sanjoanense com a notória marca de vida desde o remoto ano de 1776, se esmera na execução de partituras sacras de nossos compositores. 

O povo vem, entende o convite do sino. Na Mais Barroca Cidade de Minas, a noite de 24 de setembro, revela a solidez de uma expressão devocional, calcada em séculos de uma tradição, que não dá mostras de arrefecimento. Pelo contrário, desabrocha num vigor notável. 

Os patronos São Pedro Nolasco e São Raimundo Nonato também saíram à rua em procissão à dianteira do andor da Santa Mãe. A Banda de Música Theodoro de Faria esteve esplêndida como de costume. Não poderia faltar, a execução da tradicional  Marcha das Mercês, de Luiz Baptista Lopes. 

O costume dos foguetórios em nossas festas religiosas atinge o ponto máximo nas Mercês, digno de ser chamado de espetáculo pirotécnico, pela seleção de cores, sons, tipos, posicionamento, sincronia e segurança, desenhando o céu com luzes. 

Nas imagens abaixo podem ser apreciados alguns momentos, deixando saudades aos devotos que assistiram e desejo de conhecer naqueles cuja presença não foi possível. 

Igreja das Mercês no seu dia maior. 
A Santa Mãe das Mercês.

São Pedro Nolasco e Nossa Senhora das Mercês em seus andores.

São João del-Rei, Terra Cristã. 

Devoção.

Flagrante do espetáculo pirotécnico. 

Multidão de fiéis no largo.

Tapete de rua: o brasão mercedário.
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O folclore dos dentes - parte 4


Os dentes na poesia popular

A música e o canto estão profundamente agregados à vida humana e o brasileiro não foge à regra. Nossos povos formadores eram muito afeitos ao canto e à dança, observava Mestre Cascudo (*): 

"filho de raças cantadeiras e dançarinas o brasileiro, instintivamente, possui simpatias naturais para essa atividade inseparável de sua alegria. Canto e dança  são as expressões de sua alegria plena. É a forma de uma comunicação mais rápida, unânime e completa dentro do país."

De fato não seria compreensível que os dentes, que tanto significam no panorama da cultura popular, ficassem de fora da poesia cantada ou recitada no Brasil. Um estudo neste sentido nos estados revelaria precioso material folclórico.

Em virtude da imensidão que tal pesquisa representaria, não obstante sua relevância, ora limita-se esta página a expor uma pequena coleção de versos populares que colhi em São João del-Rei na década de 1990, salvo indicação em contrário. 

Figuram os dentes em peças soltas do cancioneiro folclórico: 

Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Vou no doutor, ôh!

Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Tô! E tô! E tô!

"Tô" é corruptela comum de "estou", por contração, assim como "doutor" é pronunciado "dotô". Correm variações destes versos. Alguns grupos folclóricos de catupé os absorveram e congadeiros de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas os cantam.

Ainda entre congados tem-se outros exemplos, mesmo nos catupés destas cidades (**): 

Dentin' de ôro ...
Dentin' de ôro, adornado de marfim!
Nêgo véio gosta de toco, 
morena gosta de mim, ai, ai!

No congo do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno é corrente esta cantiga em ritmo de caixa corrida, uma homenagem ao reinado: 

Ela é bonitinha,
ela é engraçadinha,
tem dentin' de ôro,
ô senhora rainha!

O uso do dente de ouro foi muito comum. Nos tempos idos era representativo de fartura, ostentação de posses. Depois, elemento estético, favorecido pela abundância em Minas Gerais e excelência do metal nobre para trabalhos protéticos. Coroas, facetas e incrustações usando o nobre metal marcaram época e se disseminaram. Grupos ciganos ainda o conservam a tal ponto de ser-lhes característico nesta região, daí, o povo dizer, que, quando alguém tem vários dentes com aplicação de ouro, parece um cigano. Não é de espantar que o dentinho de ouro marcasse a poesia folclórica. 

Houve mesmo um facínora nos sertões alcunhado "Dentinho de Ouro", de quem restou parca informação, fragmentada nos versos de um velho romance. Colhi ainda duas quadras originárias de Bias Fortes, nos limites culturais entre as Vertentes e a Zona da Mata mineira: 

Num sabe o que aconteceu,
lá na zona do sertão:
mataram Dentin' de Ôro,
era o rei dos valentão!

No dedo dele tinha
um anel tão grande!
Tinha um anel de ôro,
com duas pintas de sangue... 

Ainda mais um exemplo, como uma quadrinha de amor procedente do Elvas (Tiradentes/MG) (***)

Você está rindo pra mim
vi seus dentes lumiar.
Os meus eram de ouro,
eu arranquei para te dar. 

Nas brincadeiras infantis o dente também é lembrado, como neste terceto recitado dos meus tempos de molecagem:

Vicente Cachorro-quente,
caiu na enchente,
quebrou dois dentes!

Os dentes deixaram uma forte influência na criação cultural do povo. Em muitas direções pode ser rastreada, com contribuições em todos os estados da federação. Nossa região, de velha colonização desde o ciclo do ouro pela força bandeirante e emboaba não poderia ficar de fora. Na próxima parte do "Folclore dos Dentes" serão abordadas as ações curativas sobre as afecções dentárias. 


Notas e Créditos

* CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1984. 435p. p.37. 
** Esta quadra do "dentinho de ouro" tem esta variante como trova, informada em Santa Cruz de Minas pela Sra. Elvira Andrade de Salles:

"Tenho o meu dentin' de ôro,
adornado de marfim;
os moço nas pras moça, 
as moça nasceu pra mim."

*** Gentilmente cedida por Luthéro Castorino da Silva, a quem agradeço. 
****Texto: Ulisses Passarelli

domingo, 21 de setembro de 2014

Festa do Rosário no Bairro São Geraldo

Acontece neste momento, em pleno dia de Santa Efigênia, a Festa do Rosário no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei. A missa matutina congregou na igreja do redentorista São Geraldo Magela muitos congadeiros de São João del-Rei e de cidades visitantes, como Coronel Xavier Chaves, Conceição da Barra de Minas, Conselheiro Lafaiete, Cláudio e Barroso. 

O largo demarcado por quatro mastros (Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, São Benedito e Santo Antônio Catigeró) apresenta-se animado e ritmado por vários estilos de congado. 

Como uma nota digna de louvor notou-se hoje a presença do mais novo congado da região, o Moçambique Santa Efigênia, de São João del-Rei, do próprio bairro, sob os cuidados do experiente Capitão Tadeu Nascimento de Sousa. o grupo fez sua primeira apresentação pública hoje, na festa. 

Na parte da tarde, divididos em dois cortejos, os congados buscam os reis e rainhas e sua corte para a chamada. Conclui-se com apresentações culturais tais como a capoeira e o maracatu, e, por fim, com a descida dos mastros, às 18 horas. 

De parabéns a comunidade por mais esta realização, muito tradicional, iniciada em 1958. De um modo especial fica consignada a parabenização à Associação de Congado Santa Efigênia e ao Grupo de Inculturação Raízes da Terra pelo êxito das festividades.


O novo grupo: Moçambique Santa Efigênia, de São João del-Rei.

Congadeiros na missa durante a Festa do Rosário. 

Congado de Barroso.

Mastro de Santa Efigênia em primeiro plano e ao fundo o do Rosário. 


Rei e Rainha da guarda de marujos de Conselheiro Lafaiete. 

A querida Santa Efigênia. 


Notas e Créditos

* Texto e fotos (21/09/2014): Ulisses Passarelli

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Devoção Mercedária em São João del-Rei

Junto com a primavera, chega o tempo das Mercês... 

Nossa Senhora das Mercês é uma das muitas invocações marianas que se enraizaram na Minas Colonial, sobretudo como uma devoção dos escravos forros e crioulos, como se dizia na terminologia separatista daquela época. Seus devotos se reuniram em confraria que tinha entre outros atributos o de libertar cativos pela compra da alforria. Na fachada de sua igreja em São João del-Rei, um símbolo de corrente com algemas abertas é bem representativo de sua primitiva função.

Entre uma moldura de rocalhas no frontispício, grilhões revelam a
função libertadora dos mercedários. Igreja das Mercês, São João del-Rei. 

Nesta cidade, a imagem da santa querida naturalmente despertou interesse de muitos adeptos de seu título, vestida em cores suavíssimas, de braços abertos, sempre acolhedores, como se esperasse sempre mais filhos para envolver em seu manto protetor; olhar terno, bem maternal, sereno e dulcíssimo, mas também, paradoxalmente, um pouco tristonho, como se estivesse com pena de seus filhos sofredores; cabeça levemente inclinada para um lado, pendente, complacente... Buquê na mão, coroa resplandecente à cabeça. Mãe e Rainha, Protetora e Libertadora. O ícone perfeito, o modelo de cristandade e o símbolo da esperança, a fomentar uma fé inabalável.


Imagem de Nossa Senhora das Mercês da igreja desta invocação em São João del-Rei.
Acervo da Venerável Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês. 


A Igreja das Mercês de São João del-Rei, como a vemos hoje, é bem diferente da primitiva, de 1751, que tinha forma de panteão romano. Sofreu profundas remodelações em 1808 e 1853, quando ganhou a atual fachada, a mais graciosa da cidade, com sua torre separada do corpo, tendo à direita uma pitoresca alameda ajardinada e com fontes e à esquerda o cemitério da ordem. Pela dianteira um cruzeiro do século XIX fica fronteiro à escadaria de acesso, calçada de pedras.

Igreja das Mercês, São João del-Rei.

Algumas intervenções vieram mais tarde às grandes mudanças, como no ano de 1900, conforme revelou O Combate:

"Estão terminadas as obras de decoração da Igreja das Mercês, desta cidade. Ficou realmente muito linda a pintura do forro e do resto da igreja, exceção feita do figurado que podia ter ficado mais perfeito. O resto da pintura faz honra ao pincel do hábil artista João Faccini, que teve real gosto na realização do serviço a seu cargo. A igreja está muito melhorada pelo que merece encômios a atual mesa administrativa, composta dos irmãos abaixo, cujos nomes damos para conhecimento dos confrades todos: Juiz Joaquim Paulino, Secretário Eduardo Barreto, Tesoureiro Capitão Carlos da Cunha (farmacêutico), Procurador Olympio Pio."

Outro jornal da cidade, A Nota, em 1917, noticiava novos melhoramentos na igreja, quando o sodalício conclamava os confrades para ajuda em socorro do telhado:

"A mesa administrativa desta arquiconfraria faz um apelo aos seus inúmeros confrades no sentido de ser auxiliada na reconstrução do telhado da Igreja das Mercês. Esta reconstrução que se impõe com a maior urgência, tinha sido resolvida levar efeito sem mais ônus para os senhores confrades, dentro dos próprios recursos financeiros do cofre da arquiconfraria. Aconteceu, porém, que iniciado o serviço de retelhamento, verificou-se a absoluta e urgente necessidade de reforma de todo o madeiramento superior, do reboco externo, e, ainda mais, de um ... (ilegível) da frente em iminente estado de perigo. Assim, a arquiconfraria recorre aos bons confrades, esperando que um ... (ilegível) concorrer com qualquer auxílio para o empreendimento desta obra de extrema necessidade." 

Quanto às festividades, foram sempre célebres. Em 1935 A Tribuna noticiava a chegada da festa, já deixando claro a importância da música nas celebrações e destacando nomes de compositores da terra:

"Com toda a pompa iniciam-se hoje as festividades de honra e louvor de N.S. das Mercês. Pelo programa profusamente distribuído, pode-se avaliar que os festejos deste ano serão imponentíssimos e não sofrerão solução de continuidade as tradicionais festas mercedárias. As novenas serão precedidas de belíssimas ouvertures pela Orquestra Lira Sanjoanense, que executará ainda partituras apropriadas dos eméritos musicistas Pe. José Maria, Presciliano Silva e outros. Abrilhantará as missas das 5 1/2 e 7 1/2, com acompanhamento ao harmônio, o sr. prof. Bento Ernesto Júnior, ilustre belestrista e nosso companheiro de redação."

Notícias jornalísticas de São João del-Rei sobre a igreja e festa das Mercês.
Acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.


Bento Ernesto Júnior é uma figura humana ímpar no cenário cultural da cidade que está ainda a merecer estudos biográficos. Quando da supressão da Festa do Divino de Matosinhos em 1924, ele foi a figura mais relevante com seus argumentos na luta junto à autoridade eclesiástica em prol do retorno da festividade. É autor das letras dos hinos de São João del-Rei e do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, dentre tantas composições poéticas.

A música até hoje tem sua real importância na festa. Nos esclarece o utilíssimo livro Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra que desde sua fundação, a Orquestra Lira Sanjoanense cuida da parte musical no festejo executando: 


"Obras de Presciliano Silva (Veni e Domine), Padre José Maria Xavier (Hino e Antífona), Luiz Baptista Lopes (Jaculatórias), Pe. João Batista Lehmann (Hino de Entrada); João Feliciano de Souza e Luiz Baptista Lopes - coros processionais (Ave Maria Stella). Luiz Baptista Lopes, João Feliciano de Souza, Carlos dos Passos Andrade, Alberto Wilson de Castro, compuseram Missas e as dedicaram a Nossa Senhora das Mercês." (p.140)

A novena é concorrida. Do alto da colina ecoam os violinos e preces, que culminam em tocante cerimônia no dia maior, 24 de setembro, com uma procissão muito tradicional na qual comparecem diversas irmandades com os hábitos típicos, além das bandas de música Municipal Santa Cecília e Theodoro de Faria. As festas de largo com sonorização e suas barraquinhas de víspora e de comes e bebes são muito típicas e agregam bastante gente. Ponto querido de entretenimento, desde longa data, elas propiciam um momento de confraternização, onde se conheceram muitos casais da cidade, que, por vezes, se mantiveram juntos até o matrimônio. 

Por derradeiro é mister lembrar que finda a comemoração de Nossa Senhora das Mercês, as festividades prosseguem por mais um dia, 25 de setembro, consagrado a Nossa Senhora do Parto, com missa às 19 horas, seguida de rasoura, e, por fim, bênção para as gestantes e crianças. 


Referências Bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996.  104p.
Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra. São João del-Rei: Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 1997. v.2: novenas, tríduo, setenário, quinquena e meses.


Referências Hemerográficas

O Combate, n.16, 14/10/1900, São João del-Rei
A Nota, n.70, 21/07/1917, São João del-Rei
A Tribuna, n.1.290, 15/09/1935, São João del-Rei

Notas e Créditos 

*Texto e fotos (2014): Ulisses Passarelli
** Foto da imagem de Nossa Senhora: Iago C.S. Passarelli, 17/04/2014
*** Leia também: Salve o Dia das Mercês!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Prece de Santo Amaro

Das muitas devoções coloniais herdadas pelos são-joanenses, algumas há, que, sem ter merecido festa própria, por não terem alcançado a popularidade de outros santos, se tornaram menos difundidas e em ocaso. Uma destas devoções é a Santo Amaro, também chamado São Mauro, invocado contra certas doenças, tais como problemas ortopédicos, reumáticos e dores articulares resultantes da gota. É patrono dos portadores de deficiência física, título recebido graças à cura, pela força da oração, de um menino aleijado. 

Amaro era monge beneditino, italiano, da Nórcia, região da Úmbria, século VI. Era filho do Senador Eutíquio e da fidalga Júlia, nascido em 512. Ingressou ainda criança na vida religiosa monástica. É considerado o primeiro seguidor do próprio fundador de sua ordem religiosa, o abade São Bento. Seu dia votivo é 15 de janeiro, data de sua morte por contaminação pela peste, no ano 584. O episódio mais propalado de sua vida foi o ato extraordinário de caminhar sobre as águas, para salvar do afogamento um outro monge também canonizado, Plácido, seu primo. Santo Amaro teria fundado em Glanfeuil (França), um mosteiro beneditino, após peregrinação desde o Monte Cassino (Itália), acompanhado de outros monges, com a intercorrência de vários episódios milagrosos. 

Abaixo transcrevo uma oração consagrada a este santo, conhecida em São João del-Rei:


Oh! Deus que fizestes Santo Amaro andar a pé, enxuto, sobre as águas para nos dar um exemplo de sua obediência, concedei-nos pois imitarmos o que as suas virtudes ensinam e mereçamos compartilhar de sua recompensa. Por Cristo, Nosso Senhor, Amém. Pela invocação da Imaculada Mãe de Deus e sempre Virgem Maria e pela intercessão de São Bento e Santo Amaro, livrai-nos desta enfermidade ... pelo poder de Deus Pai, a sabedoria de Deus Filho e a virtude do Espírito Santo, amém. Como for de seu beneplácito, assim seja, assim se faça em ti, conforme podes e desejas, para honra e glória da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. A benção de Deus Onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre nós e permaneça para sempre, amém.


Imagem de Santo Amaro na Igreja do Carmo de São João del-Rei.
Acervo da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo. 

Referências na Web

São Mauro, Wikipédia  (acesso em 17/09/2014, 21:50 h)
Milagres e graças alcançadas por Santo Amaro ou São Mauro, Breviário (acesso em 17/09/2014, 21:50 h)
Santo Mauro (Amaro), O Arcanjo no Ar (acesso em 17/09/2014, 21:50 h)


* Texto e foto (2014): Ulisses Passarelli
** Informante da oração: Aluísio dos Santos, 1995.  

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Multidão festeja o Senhor Bom Jesus em 2014

Seguindo firme a tradição religiosa, concluiu-se ontem, em Matosinhos, mais uma grande festa em honra ao padroeiro do bairro, o Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Após concorrido período preparatório de novena, com várias celebrações e a passagem de diversos celebrantes, a 14 de setembro foi comemorado o dia maior do jubileu.

Uma grande movimentação tomou conta do largo nesta festa de 2014. Estava cheio de barraquinhas de comes e bebes. No adro, além do tradicional leilão de gado e prendas, um grande palco armado propiciou shows e nas tendas aconteceu o tradicional jogo do víspora e vendas de pastéis e refrigerantes. 

Enfeites de bandeiras vermelhas e amarelas nos postes do adro, demarcavam as cores votivas e uma profusa iluminação completava o tom festivo externo. 

O altar estava muito florido, aliás, com primor, evocando a primavera. Destaque para as galhadas secas com flores artificiais amarelas, em papel-crepom, lembrando a exuberante florada dos ipês amarelos, típicos desta quadra do ano. 

As missas e pregações se sucederam muito concorridas e eloquentes, num forte momento de evangelização. Uma multidão gigante ordeiramente lotou o adro e o largo. Ao cair da noite, em duas longas filas ocupou a Avenida Josué de Queiroz. A alguns anos atrás o andor era levado sobre carro motorizado aberto. De uns tempos para cá, para contentamento geral, o andor voltou a ser carregado pelos fiéis na forma tradicional, sobre os ombros, não obstante seu grande peso. 

Notou-se a presença de muitos membros de irmandades da cidade e de crianças vestidas de anjos. A banda local, do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, repleta de jovens, sob a competente batuta de Ronaldo Medeiros, deu uma nota de arte e alegria à procissão. O fluxo imenso de devotos comprovou, ainda, mais uma vez este ano, que esta é uma das maiores procissões de São João del-Rei, senão a maior delas. 

A veneranda imagem Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

A procissão ganha as ruas.
A imagem é guarnecida pela Irmandade do Santíssimo Sacramento. 

Multidão de devotos presentes no grande jubileu. 

Enfeites florais do altar evocam a chegada da primavera
e se inspiram nos ipês amarelos, fartamente floridos nesta quadra do ano. 

Notas e Créditos 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli

sábado, 13 de setembro de 2014

Santa Efigênia, santa milagrosa

O que sabemos de Santa Efigênia procede da "Legenda Áurea", trabalho hagiográfico da Idade Média, devido ao Arcebispo de Gênova, o dominicano Giacomo de Varazze. 

Esta santa foi uma princesa africana do primeiro século do cristianismo, da Núbia (atual Etiópia), ao nordeste daquele continente. Era filha do Rei Eggipus e da Rainha Eufenisa. Seu país era pagão e politeísta. Foi então, que poucos anos após a crucificação de Jesus, o Apóstolo São Mateus, acompanhado de dois discípulos foram fazer pregações em Noba, capital daquele reino. Não tiveram grande êxito mas a Princesa Efigênia converteu-se fortemente ao cristianismo. Por esta razão foi condenada à morte na fogueira, mas salvou-se milagrosamente deste terrível sacrifício, fato que fez com que outras pessoas se convertessem. Fundou um mosteiro para virgens. Mais tarde, com a morte de seu pai, o trono foi assumido pelo tio Hirtacus, que o usurpou do irmão de Efigênia, Efrônio, herdeiro legítimo. Pondo-se a desejá-la e persegui-la, o tio ateou fogo ao convento, mas novamente, por forças milagrosas o fogo não a vitimou: apagando-se, reacendeu no castelo de Hirtacus, colocando-o em fuga e pondo fim ao seu governo. Efigênia viveu e faleceu em absoluto estado de graça, sendo festejada a 21 de setembro.

Seu nome teria origem grega, significando "nascida forte". Em  latim, "Ephigenia", e em português também grafada como Ifigênia e, popularmente,“Santa Figêna”. 

Uma antiga tradição a considera santa carmelita, sem contudo haver um embasamento convincente. Em razão disto é comum sua imagem mostrá-la com vestes na cor daquela ordem religiosa. Segura nas mãos uma casinha saindo fogo pelas janelas e porta, ou na dianteira, representação simbólica de sua história acima narrada. 

GAIO SOBRINHO registrou uma narrativa de lamentável cunho racista, contra a qual se manifestou contrariamente, tal qual o faço neste momento de transcrição:

"Conta-se, sem fundamento, que Ifigênia era branca e muito formosa. Por despertar a cobiça de muitos pretendentes, rogou a Deus que lhe mudasse a fisionomia. Tornou-se, então, negra e de olhos esbugalhados, como a vemos na imagem."

Sobre tal discriminação o notável autor escreveu e com ele comungo:

"Fora o conteúdo racista que transparece neste particular, com certeza inverídico, e que denuncio, cabe-me acrescentar que feiura não é sinônimo de negritude, muito pelo contrário". 

Existe representação hagiográfica desta santa como uma mulher branca, exemplificada por uma fotografia anexa nesta postagem. 

Sendo negra, foi desde longa data tomada como padroeira dos escravos e por conseguinte de suas expressões culturais. O viajante austríaco Johann Baptiste Emmanuel Pohl (*) viu o congo de Traíras/GO (atual Niquelândia) num festejo em honra a esta santa, no ano de 1819. 

Em Barbacena/MG tem igreja própria e nomina um bairro, local de festa congadeira, cantada e recantada pela guarda de marujos local. Nestas festas encontram-se mastros dedicados a ela, como todo ano vemos no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei. Vi também em Passa Tempo. Os congados a louvam: 


“Viva meu São Benedito! 
Viva Santa Santa Efigênia! 
Viva a Senhora do Rosário 
e Maria Madalena!” 
(Marinheiros, Passos, 1997)

“Esse toco é meu, 
querem me tomar ...
minha Santa Efigênia 
vai me ajudar!” 
(Catupé, São João del-Rei, Bairro São Dimas, Capitão Zé Camilo, 1994). 

Na área do Quadrilátero Ferrífero os congados do tipo marujo não se cansam de venerá-la com carinho e respeito. É santa popular: 


"Santa Efigênia,   BIS
ôh, santa milagrosa!
Eu vi o que ela fez...   BIS
Nós viemos louvar!"
(Marujos, Conselheiro Lafaiete, 1995)

Fora deste âmbito, Santa Efigênia é protetora dos sem teto, dos que vivem de aluguel e apegando-se a ela consegue-se adquirir casa própria. Em São João del-Rei é comum as pessoas fazerem uma novena a ela para alcançar a aquisição de uma habitação. É uma aproximação à figuração de sua imagem, com uma casinha ou capela, que carrega numa das mãos.


Bela e artística imagem de Santa Efigênia, fev.1997.
Igreja de N.S. do Carmo. São João del-Rei/MG.
Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo. 


Santa Efigênia em representação iconográfica de mulher branca.
Capela de Nossa Senhora das Vitórias, 2013.
São Sebastião das Vitória (São João del-Rei/MG). 

Bandeira de congado de Resende Costa
representando Santa Efigênia em pintura popular. 2012. 

Referências na Web 

Santa Efigênia - Cruz Terra Santa (acesso 13/09/2014, 14:50h)
Ifigênia da Etiópia - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h)
Jacopo de Varazze - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h)

Referências Bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos negros estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997.

Notas e Créditos

* Viagem ao interior do Brasil empreendida nos anos de 1817-1821. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976. 
** Texto e fotos: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Na minha terra se fala assim - parte 6

A beça – gíria em desuso: demais, muito. “Gosto dela à beça”.
Agradar a Deus e ao diabo – expressão que indica o ato de agradar a pessoas de ideologias muito diferentes; tomar uma atitude que agrade a bons e maus ao mesmo tempo.
Agradar a gregos e troianos – idem.
Água de batata – qualquer líquido muito ralo, pouco consistente, não concentrado. Café fraco. “Este suco está uma água de batata.”
Água morna – sujeito apático, de baixo poder de decisão, sem pró-atividade.
Áh... áh! – interjeição que indica uma negativa veemente: “Deus me livre”, “de jeito nenhum”, “não quero”, “nem pensar”.
Aluado – abestalhado, idiota. Diz-se em especial de quem está sob influência mística da lua.
Amarujo – de sabor ligeiramente amargo. “A lima é boa mas tem um amarujo”.
Amoitar – esconder, ocultar.
Amuado – entristecido, sorumbático, cabisbaixo.
Angu de caroço – confusão, balbúrdia, discussão, desavença.  
Angu perdido – expressão de desdém para indicar animal ou pessoa inútil, que só traz problemas. “fulano é angu perdido...”
Antigório – muito antigo, antiquado, ultrapassado.
Ao léu – ao Deus dará; entregue à própria sorte. Sem ninguém que controle.
Aonde o Judas perdeu as botas – lugar inculto e muito distante. Ermo, recôndito.
Aparelhado – 1- disposto em parelha, ou seja, aos pares. Lado a lado. Frente a frente. 2- equipado de aparelhos. 3- madeira cortada em máquinas próprias, com arestas nítidas, angulações exatas, que não se consegue com desbaste manual.
Arzinho – pitada, pequena porção. “Põe mais um arzinho de sal que a comida está insonsa”.
Assim, assado – expressão indicativa de modo, quase sempre acompanhada de gesticulação reveladora. Deste jeito. Feito desta forma. Construído desta maneira. “Juntou os paus aparelhados, os pregos, ferramentas e fez a mesa assim, assado.”
Avalentuado – valente, valentão, corajoso, brigão, rixento.
Azucrinar – perturbar, amolar, atentar, tirar o sossego.
Babaca – xingamento contra indivíduo indesejável, que desperta antipatia por suas ações inconvenientes. Idiota, boçal.
Babau! – interjeição indicativa de fim. Acabou, morreu, finalizou. “O carro veio correndo muito, caiu no buraco e babau!”
Badulaque –1-  traste, cacareco, tralha, coisas imprestáveis. 2- em sentido pejorativo, pessoa muito feia e desajeitada.
Bafafá – confusão, tumulto, disse-me-disse. “A festa foi um bafafá danado!”
Baita – “bitelo”, grande, avolumado, gigante, bruto. “Era um baita d’um touro!”
Bala – estar tonto por ação de bebida alcoólica; embriaguez. “Saiu do bar na maior bala...”
Balaio de gato – confusão, desorganização, desordem (de pessoas ou objetos). “O escritório dele é um balaio de gato”.
Baleia – pejorativo: mulher muito obesa. “Orca”.
Bambu vestido – pejorativo: pessoa muito magra e alta.
Banana – indivíduo bobo, palerma, de pensamento e atitudes lentas. Letárgico. “Bananão”.
Bancar – 1- fazer-se de; simular que é algo. “Bancou o político, subiu na cadeira e começou a falar”. 2- assumir a despesa; pagar os custos de. “Pode trocar por minha conta. Se tiver diferença eu banco.”
Barata tonta – pejorativo: pessoa desorientada. Quem começa um serviço não o termina e já parte para outro e assim sucessivamente.
Barranco – pedaço grande de um certo alimento. “Nhaco”, “torete”. “Tirou um barranco de bolo e comeu”.
Bazulaque – pejorativo: pessoa desajeitada; pessoa excessivamente obesa. Vide: badulaque.
Beleléu – indicativo de fim ou sumiço. De paradeiro desconhecido. “Viajou pro norte e beleléu!”. “Foi pro beleléu!”.
Bicho do mato – sujeito anti-social. Quem não gosta de conviver com outros. Misantropo.
Bico! – interjeição de ordem de silêncio. Equivale a: “cala a boca!”. “bico fechado”.
Bigoloto – 1- espécie de bolo ordinário, de massa grosseira, estufado, ressecado. “Embatumado”, “balofo”. 2- por analogia ao bolo antes citado, diz-se, pejorativamente, de pessoas gordas.
Biriboca – de plausível origem indígena, indica local distante e sem civilização. Como lugar, equivale a “Aonde o Judas perdeu as botas”.
Biscate – “quebra-galho”. 1- serviço informal. Trabalho autônomo ocasional. Modo de ganhar um dinheiro extra por uma atividade sem registro trabalhista. “Fazer um biscate”. 2- amante, concubina, comunhão carnal com uma mulher fora do casamento. “Ter um biscate”.
Bitelo – grande, volumoso. “Pescou um bitelo d’um bagre lá no poção”.
Boboca – bobo, palerma, sem expediente. Ver: babaca.
Boca de latrina – pejorativo: 1- pessoa com forte halitose. Caso extremado de mau hálito. 2- pessoa que profere ofensas e palavrões com frequência. “Boca do inferno”.
Boi sonso – falso, fingido, dissimulado; que aparenta tranquilidade, mas esconde grande esperteza. Quem se faz de amigo, mas prejudica sorrateiramente. Um dito popular proclama como verdade: “Boi sonso é que arromba curral”, ou seja, de onde não se espera é que o perigo vem.
Bola sete – pejorativo: gordo, obeso. Referência à cobiçada bola do jogo de sinuca.
Bolo fofo – pejorativo: gordo, obeso.
Briga de foice no escuro – situação perigosa de conflito, onde não se sabe quem ganhará. Caso de difícil decisão e elevado risco.
Brutelo – o mesmo que ‘bitelo”. Abrutalhado, grande. “O garrote era um brutelo”.
Bucho – 1- estômago. “Encher o bucho” = comer em demasia. 2- útero. “Encher o bucho” = engravidar. 3- pessoa antipática, malquista. “Fulano é um bucho”.
Busundum – pejorativo: gordo, obeso. “Ôh, busundum!” (insulto: gorducho, gordão). 


* Texto: Ulisses Passarelli 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Manuscritos em cédulas

No campo da folk-comunicação, um mecanismo de manifestação popular escrita bastante difundido é o dos manuscritos em cédulas monetárias, sobretudo em forma de corrente. Com este nome o blog já disponibilizou e analisou uma vintena de exemplares colhidos em São João del-Rei, como se pode ler no texto lincado ao fim desta postagem.

No contexto geral, as correntes em notas tem o objetivo de trazer para quem as escreve, recebe e replica, boa sorte e abundância (simbolizada materialmente no dinheiro), em nome de santos populares, quase sempre os santos gêmeos São Cosme e São Damião (ícones da fartura, gemelidade, duplicação, multiplicidade), Santa Rita de Cássia (protetora nas causas impossíveis, invocação dos momentos de angústia por uma dívida que oprime ou na falta de trabalho remunerado) e São Judas Tadeu (patrono das causas perdidas, contra o desespero).

O cunho supersticioso cede ante uma manifestação de fé, que do mundo abstrato se materializa escrita em letras mal traçadas, segundo as regras gramaticais (aqui transcritas com fidelidade aos originais), mas leais à fé emanada de práticas informais da religiosidade popular.

Os dez exemplares ora expostos foram encontrados em notas circulantes em Barbacena, Tiradentes e Santa Cruz de Minas. Mantém uma unidade estilística e de finalidade, inclusive quando comparada a outras coletas (*), como as de PELLEGRINI FILHO (2009). O último exemplar tem um cunho motejador, estando numa categoria que sem acreditar na corrente, adota seu estilo para brincar ironicamente com o próximo, usando do mesmo mecanismo de comunicação popular.

Fragmento de uma cédula de dois reais com manuscrito.

*  *  *

01- "Quem pegar nesta nota nunca ficarrar sem dinheiro Esta nota Edi são damião e di sao cosme Passar 3 nota." (sic, Barbacena, 26/09/1999).

02- "Santa Rita de Cassia Quem Pegar nesta nota nunca lhe Faltara Dinheiro." (sic, Tiradentes, março/2003)

03- "Boa Sorte para quem pegar esta nota São Cosme e São Damião lhe proteja que nunca falte nada Escreva em 3 notas e passe para frente. Não quebre a corrente." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/03/1999). 

04- "Quem pega esta nota vai ganhar muito dinheiro em nome de Cosme e Damião e dará Boa Sorte escreva em 5 notas" (sic, Santa Cruz de Minas, 25/09/1999).

05- "Quem pegar esta Nota tera seu dinheiro multiplicado em lovor a Cosme e Damião. Não quebre esta corrente escreva em 3 Notas." (sic, Santa Cruz de Minas, agosto/2002).

06- "Cosme e Damião ajuda quem pegar esta nota escreva 7 nota nao quebra correte." (sic, Santa Cruz de Minas, 11/05/2003).

07- "São Cosme e São Damião, não deixa faltar dinheiro a quem nesta nota pegar não quebre a corrente. Escreva em 7 notas." (Santa Cruz de Minas, 10/08/2004)

08- "São Judas Tadeu faça quem pegar nesta nota não fique sem dinheiro faça 7 copias." (sic, Santa Cruz de Minas, 18/01/2001)

09- "Santa Rita de Cassia para quem pegar esta nota não lhe faltara Dinheiro. Escreva em 3 notas." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/10/2000)

10- "Escreva isso em 7 notas e terá sorte... para quem receber ASS: Rafael." (sic, Santa Cruz de Minas, 04/07/2001)


Referências Bibliográficas

PELLEGRINI FILHO, Américo.  Comunicação Popular Escrita. São Paulo: Edusp, 2009. 696p.il + CD

Notas e Créditos

* A título de comparação, eis um exemplar que colhi no Rio Grande do Norte: "Quem pegar nesta nota hei de ser muito feliz e dinheiro não vai faltar a correte São Cosme e São Damião Escreve em 8 notas." (sic, Natal, 11/05/1998)

** Texto: Ulisses Passarelli

*** Leia também: CORRENTES