Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 29 de julho de 2014

Tabus Alimentares

Um campo curioso das tradições populares é o da restrição a certos tipos de alimentos em situações específicas. Para aqueles que acreditam, estes tabus tem uma força extraordinária de proibição, qual fosse uma lei rigorosa. Só que não vem em decreto. Não está datada nem assinada. Mas segue-se por respeito e temor.

O povo curiosamente separa os alimentos mais temidos em frios e quentes, nomenclatura que num paradoxal contexto, nada tem a ver em si, com a temperatura do prato; refere-se antes à caloria para o corpo, pouca ou muita, respectivamente. Mas este conceito de caloria é muito mais abstrato que o dado pelos nutricionistas. Não pode ser medida em kcal/mg. Não é a caloria energética para as células; é a caloria digestiva. A digestão é tão mais custosa de se concluir quanto mais "quente" é o alimento. Mas comidas frias também atrapalham. Frutas em geral são "frias", como todas as bananas. Se comer tarde, pára no estômago, não digere, porque esfria as vísceras. Daí o ditado corriqueiro: "banana cedo é ouro, de tarde é prata, de noite mata." Ainda sobre as bananas o povo considera "pesadas" para a digestão as do grupo das caturras (nanica, nanicão ou saquarema, d'água, santo antônio) e as de panela (marmelo e chifre de boi ou da terra - a primeira de fritar, a segunda de cozinhar), prescrevendo ingerir com parcimônia no horário adequado. As demais variedades de banana são "leves" e pode-se comer um pouco mais: ouro, pão (= ouro da mata), prata, pacovã (= pacova), são tomé (= figo, rosa ou crioula) e maçã. 

Ainda sobre o caso da caloria, veja-se o exemplo da pimenta, alimento "quente". Quando o povo compara a variedade malagueta com a cumarim, diz que esta última é muito quente, até perigosa para os rins. Porém no paladar, a primeira arde muito mais. Eis que não há correlação entre "temperatura" e ardência e o conceito folclórico de caloria. A pimenta puta-que-pariu também é muito calórica. As pimentas em pó outrossim tem sua classificação: a pimenta do reino é mais quente que a pimenta de macaco (= pimenta de pau), esta, um tempero comum na zona rural para carnes e feijões.

Exite ainda o conceito de reimoso, isto é, o alimento que tem muita "reima" (reuma). É algo ainda mais intangível, como se fosse uma caloria exacerbada, não em quantidade, mas em qualidade. "Uma caloria muito calórica", capaz de propiciar o desenvolvimento de afecções cutâneas tais como petéquias (manchas), prurido (coceira), eritema (vermelhão, rubor) e erupções (brotoejas, empolados, perebas), sugerindo um processo de alergia alimentar. A digestão é muito lenta e cheia de efeitos colaterais. Entre os alimentos reimosos estão a carne suína (toicinhos), o chocolate, o amendoim e a gordurosa carne do jaú (peixe siluriforme, pimelodídeo de grande porte, Zungaro zungaro).

Outro aspecto correlato é engulir sol ou engulir lua. A pessoa quando está se alimentando deve se resguardar de ficar exposta diretamente a estes astros, pois neste momento, fica vulnerável à sua influência. Então, se ficar olhando demais para estes astros no instante da alimentação, ou se olhar para seu reflexo dentro de um prato (comer ao ar livre...), seu encanto entra pela boca da pessoa e ela fica lerda, idiota, abobada, prisioneira da magia do astro. A digestão fica difícil, com sintomas desagradáveis. Uma vez diagnosticado o mal, a solução é benzer a pessoa três dias seguidos com uma toalha virgem e água de mina, contida numa garrafa branca ou transparente. 

As restrições que cercam o alimento prendem-se por vezes a questões religiosas. Alguns adeptos dos terreiros de matriz africana tem restrições ditadas pelos guias e orixás em conformidade aos alimentos votivos. Daí dizer-se: "não como carne de frango porque meu santo não permite". Se o sujeito teima, passa mal, adoece, cai em fraqueza. A Bíblia prescrevia desde longas datas suas limitações para a carne vermelha não sangrada: "não comereis nada que contenha sangue" (Lev. 19: 26). O Alcorão prescreve uma proibição: "Ele vos proíbe somente o animal morto, o sangue e  carne de porco e tudo que tenha sido sacrificado sob a invocação de um nome que não o Seu. Aquele, contudo, que for forçado pela necessidade sem desejar transgredir ou se rebelar, não pecará. Deus é clemente e misericordioso" (2: 173). O catolicismo recomenda aos fiéis o jejum da carne vermelha na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão, mas tem fiel que livremente estende a recomendação a todo o período da quaresma ou ainda a toda a sexta-feira do ano, sem comer carne, a não ser um peixe, ou na falta deste, ovos. 

Pelo campo religioso se enveredaria a perder de vista no tempo e na etnografia de antigos povos, na busca de influências primevas, que alcançaram pela mescla cultural, de uma forma ou outra, o campo do nosso folclore alimentar. Mas esta postagem não foi programada para andar por estes caminhos. 

O assunto pincelado se ilustra por arremate por uma lista de um pequeno punhado de tabus alimentares difundidos nos Campos das Vertentes, mas em especial anotados em São João del-Rei. 


Caju do campo, cajuzinho ou cajuí: Capela do Saco (Carrancas/MG). 09/07/2013.

Banana-pão. São João del-Rei. 21/03/2016. 

Cruá ou melão-caboclo, também chamado maracotão, por confusão com outra fruta.
Conceição da Barra de Minas. 07/12/2014.  

Labaça, uma variedade de almeirão. São João del-Rei. 04/01/2015. 

Pimenta puta-que-pariu. São João del-Rei. 11/03/2015.  

Pé de porco. Santa Cruz de Minas. 09/06/2016.  

- não pode comer banana e tomar café em seguida, pois a pessoa "dá acesso " (crise de epilepsia);
- não pode almoçar e chupar lima em seguida, pois sendo uma fruta bastante fria faz a comida parar no estômago;
- não comer banana à noite: é indigesta;
- não misturar manga ou jabuticaba com leite: dá congestã e pode até matar;
- não comer carne branca e vermelha ao mesmo tempo, pois dá "doença de pele branca" (vitiligo);
- pepino é indigesto, frio. Tirando-se sua casca faz menos mal;
- não se come pepino maduro;
- ao preparar o pepino, corta-se e se descarta suas duas pontas. Os lados cortados devem ser esfregados para sair seu veneno;
- alimentos cortados à faca fazem mal porque ficam impregnados pela ferrugem do metal, no caso de uma manga cortada aos pedaços em vez de ser chupada, ou da couve, picada, em vez de rasgada;
- comer couve durante o período menstrual provoca mal cheiro do fluxo sanguíneo;
- mulher de resguardo não pode comer torresmo, porque é quente, afeta o bebê e atrasa a recuperação da mãe.
- verduras favorecem a digestão, dando leveza e fluidez ao bolo alimentar. Acredita-se que se colhidas na lua nova tem a tendência ao amargor, sobretudo as do grupo dos almeirões. Combinadas com alimentos mais pesados como as carnes de porco favorecem sua digestão.

É o que o povo diz e pratica. 


Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O pequeno e sagaz lambari

Lambari é a designação comum dada a dezenas de espécies de pequenos peixes caracídeos de água doce, sobretudo dos gêneros Astyanax, Hyphessobrycon, Hemmigramus, Oligosarcus, Cheirodon e Moenkhausia, dentre outros. Em alguns lugares são conhecidos pelos nomes genéricos de piaba e piquira, além dos demais nomes específicos. 

Situados mais na base da cadeia alimentar aquática, os lambaris são peixinhos muito importantes no equilíbrio ecológico, devorando larvas de pernilongos e servindo de alimentação a peixes maiores, aves, cágados, cobras d'água, rãs. O homem também o busca, apesar de tão pequeno, tendo-o como elevado tira-gosto, passado no fubá ou na farinha de trigo, frito, acompanhado por arroz ou angu, cerveja ou cachaça.   

No interior mato-grossense, milhares de lambaris são cozidos pelos pantaneiros em caldeirão, por longo tempo, para extração do "azeite de peixe", um óleo comestível usado na culinária regional.

Rendeu no sul mineiro o nome de uma cidade, bela estância hidromineral. É também o nome de um rio, no oeste de Minas Gerais, afluente da margem esquerda do Rio Pará, na Bacia do São Francisco. 

Na cultura popular o lambari é sinônimo de coisa pequena, miúda, desprezível, inofensiva: 

Eu comi saci assado, 
na farofa de fubá; 
peixe grande não me engasga,
lambari quer me engasgar... (*) 

Segundo a mesma fonte de informação é o nome de uma entidade espiritual, o Caboclo Lambari. Seu ponto nos terreiros de matriz religiosa africana é: 

Lá no mato tem, 
na lagoa mora; 
lambari de ouro, 
tá puxando tora! 

Com pequenas variações seu ponto é cantado nos nossos jongos de roça e congados. 

Lá no mato tem,
lá embaixo mora;
lambari de ouro,
na lagoa mora.

Aliás, os cantadores de jongo e de sua variante, o caxambu, de fato usam da imagem do lambari para indicar pequenez, figurando-o no desafiante como sinal de menosprezo, como ouvi de cantadores capixabas (**):

Êh, lambari!
Tá pelejando pra subir a cachoeira!
Êh, lambari!
Mas deixa de tanta zoeira ...

Outro exemplo do Espírito Santo (***) :

Licença, jongueiro velho!
Joguei meu anzol,
no oco da sapucaia,
lambari comeu a isca,
surubi tá na tocaia ...

No nosso desaparecido esquinado o peixinho representava o esperto, o atrevido, que chega primeiro que o grande, reflexo de sua esperteza em roubar a isca do pescador sem ser fisgado: 

Isquei o meu anzol,
fui no rio pegar dourado;
lambari comeu a isca,
eu perdi meu requebrado. 

Além destes aspectos simbólicos nas cantorias folclóricas, o lambari povoa algumas simpatias curiosas. Em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, para aprender a nadar o processo é engolir três lambaris vivos. Senão isto ao menos a sua bexiga natatória (devido à flutuação que propicia). No Brumado de Cima ouvi a apenas dois anos, que para curar bronquite, na Sexta-feira da Paixão, pega-se um lambari e com ele ainda vivo o doente cospe na sua boca e a seguir solta-o de novo no rio, para que o peixinho leve o mal por água abaixo. 

Lambari-prata ou lambari do rabo amarelo (Astyanax bimaculatus).
 Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG.



Notas e Créditos
* Informado por Damião Guimarães, 2002, São João del-Rei, como ponto de demanda do Exu Sete Catacumbas, mas também o ouvi cantado livre dos rituais de terreiro, entre a versalhada do calango regional. Existe localmente a variante do último verso: "Santo Antônio puxando tora".
** De um jongo durante a Festa de São Benedito em São Mateus/ES, dezembro/1991.
*** Originário da cidade de Jerônimo Monteiro. Fonte: GEAQUINTO, M. Neila. Um caxambu capixaba. Folclore, Vitória, Comissão Espírito-santense de Folclore, jan./1965-dez.1966, n.82. 
**** Texto: Ulisses Passarelli
***** Foto: Iago C.S. Passarelli, 28/06/2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A crendice da transmutação

No passado havia a crença da transmutação, cuja essência era a possibilidade de, em situações tais, uma forma de vida se transformar em outra. A biologia revela a impossibilidade deste acontecimento. 

Chegou-se a teorizar o assunto como se fora científico, justificando por este artifício o surgimento de bichos na "carne morta" (*): os devoradores gerando podridão, nada mais seriam que carne transformada em larva. 

Claro que a evolução da ciência derrubou por terra semelhante crença, ao provar cabalmente, que as larvas surgiram de ovos depositados por moscas, atraídas pelo cheiro da carne em putrefação. Num experimento, se a carne for isolada das moscas por uma tela-mosquiteiro, não surgem as larvas.

Mas a crença da transmutação, tão propalada pelos alquimistas, persistiu nos meios folclóricos. Nos anos noventa ouvi de uma sexagenária em Santa Cruz de Minas, que crina de cavalo, cortada e atirada num córrego de águas ferruginosas, teria o poder de se transformar em serpentes depois de um certo prazo.

Numa postagem anterior, o Folclore das Cobras - parte 1, foi descrita a mudança da raiz da guaipeva em serpente.

Decerto a mais popular das transmutações é a do morcego, muito popular aqui em São João del-Rei na década de 1970 e ainda ouvida por aí: o morcego é um rato, que depois de velho cria asa e perde a cauda. 

Escrevendo da vizinha São Tiago, a Professora Ermínia Resende também aludiu a esta transformação imaginativa: "há muita crença de que morcego é rato velho".

É uma crendice de expansão geográfica bem mais larga, mostra-nos Hitoshi Nomura, conhecida em terras paulistas e outras. 

Monteiro Lobato aproveitou-a no conto “Os negros”: 

“Mal entramos, morcegos ás dezenas, assustados com a luz, debandaram ás tontas, em voejos surdos. _ Macacos me lambam se isto aqui não é o quartel-general de todos os ratos de asas deste e dos mundos vizinhos”. 

O morcego é animal considerado tenebroso, cuja figura é vinculada ao sombrio, ao mal, associação de imagens ao seu hábito de vida. 

Nos terreiros de umbanda o povo reconhece o exu-morcego, entidade da linha esquerda, muito prestigiado. 

Em verdade, o morcego desperta relativamente poucas crendices, quiçá pela repulsa que o homem nutre por ele. É devido aos seus hábitos e aspecto, sobretudo, pela hematofagia, característica de um número limitado de espécies. Obviamente a temida transmissão da hidrofobia contribui para esta aversão.

Morcegos em repouso numa mangueira em São João del-Rei.

Referências Bibliográficas

LOBATO, Monteiro. Negrinha. 22.ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. p.51. 

NOMURA, Hitoshi. Os mamíferos no folclore. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 1996. Coleção Mossoroense, n.890, série C, 146p. Verbetes: Morcego e Vampiro.

RESENDE, Ermínia de Carvalho Caputo. Acaso são estes os sítios formosos? Brasília: Estações, 2008. 211p. p.72-74.


Notas e Referências 

* Carne morta: expressão indicativa de carne exangue. O sangue é símbolo vital. Carne ainda com sangue é "carne viva", expressão coloquial, consagrada pelo uso.

**Texto: Ulisses Passarelli

*** Fotografia: Cida Salles, 25/07/2011

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Derla

Derla é um arco de madeira terminado por um gancho de ferro em cada extremo, que se leva às costas, apoiado aos ombros, para se carregar em cada gancho um balaio com verdura, legume, rizomas comestíveis e frutas. 

Em São João del-Rei, as mulheres italianas e suas descendentes vinham das colônias de imigrantes com suas derlas, trazendo esses mantimentos para a venda na cidade, colhidos em suas propriedades. O ponto de reunião era a esquina da Rua Frei Cândido com Avenida Leite de Castro, no Bairro das Fábricas, beirando a linha férrea da EFOM, do Trem do Sertão.

Esta cena saudosa e pitoresca que presenciei na infância nos anos 70, desapareceu por completo. 

Derla.

* Texto e foto: Ulisses Passarelli  

terça-feira, 22 de julho de 2014

Benedito é nosso rei!

No Bairro São Dimas, em São João del-Rei, desde 1958, o Congado São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, um catupé, ecoa seus louvores e lamentos ritmados pelos tambores artesanais. Foi fundado e mantido por quarenta anos pelos esforços do Capitão Luís Santana (*), com ajuda e participação de filhos, parentes, amigos e vizinhos. 

Com participação em muitos festejos, dentro e fora desta cidade, o capitão havia aprendido a tradição com antigos e renomados chefes de congado, sobretudo em Coronel Xavier Chaves, Ritápolis e no Bairro Tijuco. Seu próprio grupo foi escola para muitos congadeiros, alguns começados na infância e que se mantiveram como membros até a fase adulta. 

Além do aspecto devocional e folclórico, o congado de Luís Santana carregou durante anos a bandeira de lutas contra o racismo e a discriminação, sendo ele um ativista na área. 

Sua última saída na dianteira do grupo foi em 1998. Esteve com o catupé na Festa do Divino de Matosinhos e depois na do Rosário do São Geraldo, quando então, questões de saúde o afastaram de conduzir o terno de dançantes. Foi nomeado Capitão de Honra do Jubileu do Espírito Santo e como tal, ficava sentado numa cadeira à entrada do adro, empunhando a bandeira de seu grupo, com sua farda congadeira, altivo e respeitoso na tarefa de recepcionar cada congado visitante. Honrou este posto até o falecimento, em 2002. 

Felizmente o grupo se manteve de pé. Depois do turbilhão da perda do grande mestre, seu filho Moacir Santana, com a ajuda da esposa e a fidelidade de animados congadeiros, persevera na dianteira do congado em plena atividade, sendo sem dúvidas o grupo mais antigo da zona urbana de São João del-Rei. 

Aproveitando este ensejo segue como registro um conjunto de trinta cantigas tomadas de uma gravação em fita cassete de 1997, que fiz na Festa do Rosário do Bairro São Geraldo, do grupo em questão. Os dísticos dominam os cantos, como é típico nos catupés regionais e retratam os momentos iniciais da festa, de visita aos mastros (Rosário, S.Benedito, Sta.Efigênia e N.S.Aparecida) e à capela, com louvores ao redentorista São Geraldo. Entre eles destaque para as expressões curtas, mas de uma intensidade dramática e devocional de forte apelo identitário, tais como... "Benedito é nosso rei!"

Congado indo para a Festa do Rosário do Bairro São Geraldo em 1997, tendo o Capitão Luís Santana à frente, no reco-reco. A fotografia flagra a chegada à Capela do Rosário do Bairro São Dimas, para tomar a bênção, antes de partir para a festa no São Geraldo, batucando rua afora. 

1- A bandeira é santa, meu Deus! 
A bandeira é santa, meu Deus! 

2- Céu, céu, céu! BIS 
Esse mundo é enganador ... 

3- Oh, louvado seja, meu Deus! 
Oh, louvado seja, meu Deus! 

4- Ô quem manda no mundo é Deus, 
ai, Nossa Senhora! - bis 

5- O barulho no beco está fervendo! 
Quando eu penso que pago estou devendo ... 

6- Tira o pé da poeira, Mané! - bis 
Marimbondo te morde no pé ... (oi!) – bis 

7- Quando chega a hora é hora! – bis 
Vamos com Deus e Nossa Senhora! – bis 

8- Lá no céu Adão, 
ao romper do dia, 
quero ir lá no céu, BIS 
nos pés da Virgem Maria! 

9- Êh, Santana! – bis 
Abre a porta do céu, São Pedro! – bis 

10- Êh, capitão daná! – bis 
eu vim pra cumprimentar! – bis 

11- Oh, meu Deus, que viva, ah! - bis 
Ora viva quem sabe ler ... – bis 

12- Seja noite, seja dia, 
o rosário é de Maria! 

13- Deus te salve, ó cruz santa 
oi, neste campo sereno, 
onde Cristo foi pregado, 
meu Jesus de Nazareno! 

14- Oi, segura a peteca, 
não deixa cair, 
segura a menina, 
não deixa fugir ... 

15- Ô não joga poeira, olha lá! 
Ô não joga poeira, olha lá! 

16- Eu vim de longe 
estou chegando agora, 
com o favor de Deus 
e Nossa Senhora! 

17- Benedito é nosso rei! 
Benedito é nosso rei! 

18- Ê Nossa Mãe do Rosário! 
Ê Nossa Mãe do Rosário! 

19- Ê Nossa Senhora! 
É nossa Mãe do Rosário! 

20- Pai de Deus é criador! 
De Nossa Senhora! 

21- Olha lá, olha lá! 
Olha lá Nossa Senhora. 

22- Ê Nossa Senhora, 
eu cheguei agora! 

23- Ê Santa Efigênia, 
demorei, cheguei agora! 

24- Ê nossa padroeira, 
a Senhora Aparecida! 

25- Viva Deus, que viva, ah! 
A Senhora Aparecida! 

26- Padroeira do Brasil, 
a Senhora Aparecida! 

27- Também é da raça negra, 
a Senhora Aparecida! 

28- Ô seu padre abre a porta, BIS 
negro velho quer entrar! 

29- Ora viva Nossa Senhora! 
Mãe de Deus, acode cá! 

30- Êh, meu São Geraldo! - bis 
Êh, Nossa Mãe do Rosário! - bis 


* Era natural do povoado do Pombal, São João del-Rei,onde nasceu em 1929, filho do respeitado sr. Afonso Santana. 
**Texto, foto e acervo: Ulisses Passarelli  

sábado, 19 de julho de 2014

Jogatina além de Matosinhos

É muito propalado, que a invasão de bancas de jogos de azar foi o fator que desencadeou, a noventa anos, a paralisação da Festa do Divino de Matosinhos, em São João del-Rei. Foi oportunamente demonstrado nas postagens O Problema da Jogatina e Efeitos da Romanização: considerações gerais, que muito embora, o vício tenha de fato lastrado pela festa, esta justificativa foi um pretexto oficial para atingir outros objetivos, ligados ao processo de romanização. 



Como de fato, os jogos de azar mudaram a fisionomia do festejo tradicional e dele tolheram o que tinha de melhor. Os jornais são-joanenses da época possuem vários registros desta atividade em Matosinhos. A Nota, por exemplo, em 1917, dizia expressamente: "muita jogatina e pouca religião, todos ganham" (nº22) e "todo mundo está cansado de saber que todos jogam durante os festejos de Matosinhos" (nº25).

Porém, o seguimento das pesquisas revelou que não somente Matosinhos foi vitimado por este vício. Nas duas primeiras décadas do século XX, o mal costume invadiu também outras partes da cidade independente de festas. Ainda o mesmo jornal, no mesmo ano supracitado (edição nº60) revela a presença dos jogos na Rua Paulo Freitas (Bairro das Fábricas) e a compara a Matosinhos em dia de festas, como mostra a fotografia abaixo. 

 

"A rua Paulo Freitas está parecendo o largo de Mattosinhos nos dias da tradiccional festa ... A meninada installou alli um 'jaburu', onde os botões e favas são disputados como se valesse muito bom dinheiro. A polícia precisa volver as suas vistas para o caso, porque bem pequeno é que se adquire o vício."
  

Fato é, que em verdade, o problema explodiu nos anos vinte mas já andava sério bem antes. O contundente jornal A Farpa, em 1901 (nº8) já dizia sintomaticamente: 

"Está grassando a epidemia do jogo n'esta cidade. Em cada rua uma banca, em cada bairro uma tavolagem, em cada canto uma roda de jogatina.". 

A matéria fez um diagnóstico e clamou por ação policial, pedindo providências "que não devem atingir só o pobre e o fraco; devem ser iguaes para todos, porque todos são iguaes perante a lei", abordando o velho problema e deixando antever que o vício atingia todas as classes sociais. O texto foi publicado em outubro, fora das épocas festivas de Matosinhos e em verdade nem cita este bairro.


Também o Ten-Ten, no setembro de 1907, citou a presença do jogo, dizendo-o relativamente atenuado pela chegada de novas melhorias à cidade: "bellas diversões, novos e magnificos jornaes, fabricas, clubs, associações..." 


Mas foi de fato uma fase. O jogo voltou a crescer e nem a paralisação da festa de Matosinhos não o extirpou. Bem mais tarde, em 1938, no centro da cidade, a pavuna tomava conta da Rua Artur Bernardes, a ponto do jornal Diário do Comércio clamar pelas autoridades sob a insinuação de São João del-Rei ser o "Paraíso dos Jogadores"

Como se vê o caso de Matosinhos não foi isolado. O jogo foi nessa época um imenso problema social. A continuidade das pesquisas certamente revelará os episódios seguintes desta infeliz página de nossa história. 

Referências Hemerográficas

A Farpa, n.8, 27/10/1901
A Nota, n.22, 28/05/1917
A Nota, n.25, 31/05/1917
A Nota, n.60, 11/07/1917
Diário do Comércio, n.170, 04/10/1938
Ten-Ten, n.1, 15/09/1907

Notas e Créditos

* Texto e fotomontagens: Ulisses Passarelli
** Fonte: acervo digital, site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG
*** Obs.: todos os jornais aqui citados eram publicados em São João del-Rei  

Parabéns pra você... dois anos no ar!

Hoje é aniversário do TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES. Com muita satisfação completamos dois anos no ar, superando as adversidades diárias. Vencemos a primeira prova de fogo das estatísticas, mantendo a página ativa com suas (agora) 360 postagens, cerca de 44.000 visitas (incluindo diariamente um grande número de internacionais) e constantes acréscimos de conteúdo. 

O blog tem buscado variar os temas sem sair de sua diretriz, perpassando a memória ferroviária, as festas religiosas, os costumes, as superstições, medicina popular, história, folk-comunicação, literatura oral, toponímia, defesa ecológica, folguedos e danças folclóricas, ritos, lúdica, lendas e mitologia, poesia folclórica, festejos, etc. 

O ecumenismo sinaliza para este blog o valor da cultura dentro das religiões e um caminho para a educação e a paz.

O ideal traçado foi mantido com fidelidade: difundir os valores da tradição regional, ressaltar o papel dos mestres da cultura popular, dar visibilidade ao folclore, escrever sobre a história não oficial, anunciar festejos típicos, fazer observações sobre o seu caminhar, despertar o interesse pela pesquisa, registro e preservação. A isenção político-partidária foi mantida e a finalidade lucrativa nunca conquistou esta página eletrônica. O ativismo cultural é o motor deste blog. 

Se o blog sobreviveu até aqui é porque abnegados companheiros o acharam merecedor e ajudaram a divulgar as postagens pela mágica dos links. A eles agradecemos, bem como a todos os visitantes, assíduos ou eventuais, nacionais ou estrangeiros. O número crescente de interessados nos assuntos aqui tratados é o estímulo para a continuidade. 

1- O querido carnaval, desde os tempos do entrudo, envolve muitos elementos da cultura popular.
Nesta fotografia, máscaras usadas pelo bloco Os Caveiras, de São João del-Rei,
trabalho em papel machê do artista Delci Vieira. Década 1990. 

2- Bambus votivos: à esquerda, bambu-catendê, na Serra de São José (Coronel Xavier Chaves); à direita, bamburecema, na Igreja Velha, em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei) _ plantas votivas dos orixás das matas e dos caboclos, empregadas em rituais nos terreiros de matriz africana e que o povo usa para fazer rodilhas contra mau-olhado ... Ano de 2014.

3- Capela de São José, Águas Santas (Tiradentes), do final do séc.XIX.
Nas capelas e igrejas acontecem as festas populares, onde o povo mescla sua fé às tradições. 2014.

4- Nos distritos as manifestações folclóricas são vigorosas, como este congo
de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), unindo colorido, musicalidade, dança e devoção. 2013.

5- Nalguns cruzeiros o povo ainda se reúne em maio para as rezas e cantorias dedicadas à Santa Cruz,
como neste, em Trabanda do Corgo  ("Outra Banda do Córrego"), distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno

 (São João del-Rei). 2014.

6- Resquícios da outrora pujante EFOM, jazem à espera de restauro, utilidade e valorização,
como esta velha estação abandonada em Nazareno. 2014. 

7- A fé se manifesta concretamente no depósito de ex-votos nas "salas de milagres",
a exemplo destes, de natureza ortopédica, no Santuário da Santíssima Trindade, em Tiradentes. 2014. 

8- A tradição das folias de Reis é muito arraigada à região, tendo no "Encontro de Capelinha",
em Mercês de Água Limpa (São Tiago), um de seus pontos altos.
Esta foto de 2009 mostra a presença de um grupo de Lavras. 

9- As grutas são pontos muito tradicionais de reunião de fiéis para preces e festejos.
Esta, consagrada a São José, situa-se na Avenida dos Independentes, no Recreio das Alterosas,
Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei. 2014.

10- As festas do Rosário revelam a grande força do devocionário popular, onde os congadeiros
dançam e cantam sua fé. Igreja do Rosário, Dores de Campos, 2010. 

11- Porteira típica nas imediações do Montividiu (São João del-Rei), 2013.
As porteiras despertam temor por se creditar a elas morada de espíritos assombrosos...

Ao passar por uma porteira deve-se  fechá-la sem deixar que bata, para não atraí-los. Dá azar. 

12- Uma típica cerca de bambus, ladeia uma placa indicativa de direção para um povoado de São João del-Rei.
A toponímia valoriza uma família relevante no povoamento regional. Os nomes dos lugares e ruas devem ser preservados. Distrito de São Miguel do Cajuru. 2013.


Notas e Créditos

* Texto e fotos (2, 3, 5, 8, 9, 10, 11,12): Ulisses Passarelli
** Demais fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Assista ao nosso novo vídeo:


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Não disse que era querida? ...

Sob o título de Festa do Carmo, festa querida, a postagem passada tratava de aspectos gerais da devoção a Nossa Senhora do Carmo e o desenrolar de suas festividades. O dia maior se concluiu ontem. O movimento de devotos e a qualidade do evento apresentado comprovaram, irrefutavelmente, que a festa é de fato querida. 

Não é exagero qualificá-la entre as maiores e mais animadas da cidade, reveladora da força do cristianismo mariano. Também não é para menos. Do remoto 1727 correm notícias da existência de uma imagem da Virgem do Carmo venerada na Matriz do Pilar, quando existia a Confraria do Escapulário. O escapulário é uma peça religiosa de tecido usada pendente ao pescoço. É constituído de duas tiras ou cordões paralelos, em cujos extremos se prende de cada lado um pedaço de pano, num dos quais está estampado o emblema carmelita e no outro a imagem da Virgem do Carmo. As cores votivas são o marrom e o bege. Passado sobre as escápulas (daí seu nome), pende de um lado sobre o peito e de outro sobre as costas, protegendo o devoto pela dianteira como um guia e na retaguarda como um guardião. Existem escapulários de outras invocações, mas o do Carmo goza de especial confiabilidade entre o povo católico. 

A Confraria do Escapulário passou à condição de irmandade em 1732, quando principiou a edificação da igreja própria e finalmente foi elevada a Ordem Terceira em 1746. O respeitável sodalício ainda vive em plenitude e prepara anualmente a magnífica festividade de seu orago, festa querida do povo são-joanense. Afinal, tradição se faz e firma com a repetição, seriedade e fé. 

Os fiéis aglomeram ao redor do imponente templo do Carmo, que se ilumina para a sua festa maior. 

A Mãe Santa, em pesado andor florido, marcha pelas ruas ante palmas e persignações,
 carregada pelos terceiros carmelitas. O povo balbucia preces e súplicas à sua passagem.

Como um Prior Geral da Ordem, São Simão Stock também sai honrosamente às ruas coloniais em seu andor. 

Da torre o sineiro observa o a festa, aguardando o momento do dobre. 

Uma tradição: o tapete de serragem colorida estampa na pavimentação de pedra o brasão do Carmelo.

Cartuchos de amêndoa não podem faltar. Seu pitoresco colorido evoca a alegria da cultura popular e
seu doce sabor nos remete à infância.

Em honra a Nossa Senhora do Carmo, fogos de artifício _ cascatas, apitos, rojões, lágrimas ...
O andor paralisa a caminhada, recebendo o agrado e cedendo a graça. 

Empunhando um conjunto de lanternas procissionais,
os devotos aguardam a saída da procissão para compor um abre-alas, uma guarda de honra. 

Movimento social nas barraquinhas de doces, comes e bebes, víspora e entre os tradicionais vendedores ambulantes,
de milho verde, pipoca, balões multicores para a criançada, algodão doce, beijo quente, maçã do amor e amêndoas. 

Diante do Mercado Municipal uma multidão passa lenta, serpenteando pelas velhas ruas, movida pela fé e embalada pelos acordes das bandas, como a centenária Theodoro de Faria, aqui retratada.

Referências Bibliográficas

Piedosas e solenes tradições de nossa terra. São João del-Rei: Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 1997. v.2.


* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli
*** Veja também o vídeo:                         PROCISSÃO DO CARMO - SJDR - 2014  

terça-feira, 15 de julho de 2014

Festa do Carmo, festa querida

São João del-Rei é uma terra mariana. São muitos os templos dedicados a Nossa Senhora e dentre eles tem destaque arquitetônico o da Virgem do Carmo, pela imponência aliada à graciosidade das linhas. Sobre ele escreveu GAIO SOBRINHO: 

"A linda Igreja do Carmo (1733) preferida da colônia libanesa local, teve seu frontespício construído a partir de 1787 sob a competente direção de [Francisco de] Lima Cerqueira. Tem torres octagonais, com a raridade única de frestas nas arestas." (p.27)

A devoção à Senhora do Monte Carmelo, como também se diz, é paralelamente ligada à das almas. Existe uma crença _ e aqui em São João del-Rei ela é muito arraigada _ que Nossa Senhora do Carmo resgata almas do purgatório, no primeiro sábado após a morte. Neste sentido, gozam de uma graça especial as que em vida terrena foram suas devotas e morreram cingidas de seu escapulário. LIMA Jr. associou esta concepção às raízes judaicas ligadas aos cristãos novos dos tempos coloniais no estado: 

"Aos sábados, acendia-se diante do oratório uma vela, que deveria arder até o fim do dia, costume judaico que se cristianizou, transformando-se em culto de Nossa Senhora do Carmo pelas almas do purgatório." (p.140)

De longa tradição na cidade as comemorações promovidas pela Ordem Terceira do Carmo estão anualmente entre as mais frequentadas, sem dúvidas, um dos maiores eventos católicos do município. A novena conta com muitos fieis e no dia maior tem um grande fluxo de devotos, que também lotam as barraquinhas no largo. A procissão reúne uma multidão. Há uma grande riqueza musical durante o festejo, com a execução de importantes peças de nosso vasto repertório barroco. Não bastasse, a programação ainda prossegue pelos dias subsequentes com o tríduo de Santo Elias. 

Em 1926 as páginas jornalística d'A Tribuna registraram o movimento da Festa do Carmo: 

Esteve deslumbrante o encerramento das festividades consagradas, no magnífico templo carmelitano, á excelsa Virgem, no dia 16 do vigente. A mesa da ordem, tendo à sua frente os dedicados sanjoanenses srs. Antonio de Assis Pereira, Alberto Custodio de Almeida Magalhães, Fernando Cotrim Moreira de Carvalho, e cel. José de Assis Sobrinho, merece os maiores elogios pelo brilhantismo que deu, esse anno, às festas do Carmo. A missa solene foi ás 11 horas, sendo celebrada pelo revmo. commissario da ordem, Pe. João Fonseca. Á noite houve profissão de irmãos, sermão eloquente pelo vigário da parochia, padre José Maria Fernandes, absolvição, “Te Deum Laudamus” e benção do SS. Sacramento. A concorrência de fiéis foi enorme. Na frente da egreja tocou a excellente banda de musica do 11º regimento, durante os leilões em beneficio da casa parochial.

No ano de 1932 os festejos foram notavelmente concorridos pela comemoração do bicentenário do início das obras de ereção do templo carmelita. Jornais são-joanenses daquele julho atestaram o seu brilhantismo, a exemplo de duas edições de A Tribuna. O Folha Nova dedicou um número especial à comemoração, abaixo retratada sua primeira página.

Edição especial do jornal Folha Nova em homenagem à Festa do Carmo.

Vem se conservando como uma das festas mais queridas da cidade. Tem no dia 16 de julho o ponto culminante, em pleno inverno. O povo simples marca esta data com carinho e nela, todos os anos aproveita para podar as roseiras e figueiras (*), garantia de uma boa produção no verão. 

Roseiras podadas a 16/07/2013, no dia consagrado a Nossa Senhora do Carmo. São João del-Rei. 

Mas não é comemorada apenas na cidade. Na zona rural também este título mariano é alvo de animados festejos, a exemplo dos povoados do Fé (junto com São Vicente de Paulo) e Caquende, ambos em São João del-Rei; e nas limítrofes Brasilinha, distrito de Madre de Deus de Minas e Jaguara, distrito de Nazareno, lugares de onde é padroeira. As festas rurais tem também uma vasta programação e conseguem reunir intensamente população local e das comunidades, povoados e vilas do derredor. 

No Jaguara, comunidade quilombola, consta pelo jornal Diário do Comércio, que em 1938, a festa foi aberta com um tríduo preparatório, tendo missa cantada no dia maior, pelas 11 horas. A procissão e o Te Deum laudamus foram à tarde. Os sacerdotes responsáveis foram o Padre Francisco Leopoldino Neto e o Cônego Heitor Augusto de Assis. 

Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Jaguara (Nazareno/MG), 2013. 

Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Caquende, 2013. 

Festa religiosa na comunidade do Fé, 2012.

Notas e Créditos

* A poda das figueiras obedece à contagem das gemas de brotação, cinco, a partir da ponta para a base, cortando-se após a quinta. 
** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
*** Acervo jornalístico: site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei/MG
**** Agradecimentos e oferecimento: ao sr. Vicente Mário dos Santos, do Caquende, baluarte das tradições do lugar. 
***** Para saber mais a respeito desta devoção não deixe de ler: NOVENA DE NOSSA SENHORA DO CARMO: ORVALHADA PÉTALA MUSICAL E BARROCA DE SÃO JOÃO DEL-REI

Referências hemerográficas

A Tribuna, São João del-Rei, nº: 768, 22/07/1926; 1.128, 10/07/1932 e 1.130, 31/07/1932
Diário do Comércio, São João del-Rei, n.96, 03/07/1938
Folha Nova, São João del-Rei, n.19, 17/07/1932

Referências bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades: um passeio histórico e turístico por São João del-Rey. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 90p.il. p.26-29.
LIMA JÚNIOR, Augusto de. A Capitania das Minas Gerais: origens e formação. 3.ed. Belo Horizonte: Instituto de História, Letras e Arte, 1965. 

domingo, 13 de julho de 2014

Estoque: um antigo brinquedo

No tempo da era digital, no imenso interior do país algumas crianças ainda se lembram de velhos brinquedos de outrora e os conservam em sua lúdica. Um deles é o estoque, como o chamamos por onomatopéia em São João del-Rei, um brinquedo cujo nome procede do som seco que emite quando dispara. 

Consiste num gomo de bambu, vazado, colocando-se num extremo a munição _ pequenos frutos ou sementes _ sob pressão, empurrada no extremo oposto por um êmbolo do mesmo material, que, à medida que se empurra, imprime força cada vez maior sobre a munição, por pressão de ar dentro do canudo de bambu, até que irrompe do outro lado com um estrondo seco, que dispara longe a semente. 

O brinquedo ainda envolve as crianças do Brumado de Cima, no distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, onde foram feitas as fotos abaixo, que falam melhor que as palavras. Com o estoque brincam de mira, vendo quem é melhor para atingir um alvo inerte, como uma lata sobre um mourão de cerca, ou qual estoque faz mais barulho, ou ainda, qual consegue atingir maior distância ou altura. 

Frutos de caneleira: munição natural para o brinquedo do estoque.

Um estoque feito de bambu verde, vendo-se a peça desarmada e armada.

Posição de disparo do estoque. 


* Em alguns lugares do interior paulista o estoque é chamado "xipoca".
** Texto e foto da posição de disparo: Ulisses Passarelli
*** Demais fotos: Iago C.S. Passarelli, 21/12/2013.


sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Gavião e o Sapo

Um boi pastava numa baixada. Enquanto isto, o gavião pousou no alto do galho e de lá desceu até o lombo do boi para catar carrapatos e bernes. Cata daqui, bica dali, o rapineiro tirava os parasitas do couro. No meio da grama tinha um sapo e o boi sem avistá-lo, pisou em cima dele. O sapo ficou chatinho com o peso e os olhos estatalados. O gavião perguntou: 

Sapo-cachorrinho (Physalaemus cuvieri).
Leptodactilidae. Serra de São José, Tiradentes/MG.
_ Uai, sapo, o quê que você está fazendo aí?
_ Tô apiando esse boi ... respondeu orgulhoso, fingindo uma força que não tinha.
_ E você lá tem força pra isso?!
_ Justamente. 

Nisso o boi mudou a mão de lugar e soltou o sapo, todo amassado. O gavião olhou bem para ele e falou: 

_ Quer saber de uma coisa? Não vou catar carrapato nesse boi mais não. Eu vou é comer você ...

E de um voo rasante e ligeiro meteu as garras no sapo e carregou ele pelos ares. 

Numa moita de capim logo adiante estava a mulher do sapo. Olhou para cima, viu o gavião passando com o almoço preso nos pés. Gritou: 

_ ôh, marido! Aonde você vai?
_ Eu não vou, ele é que me leva... 
_ Você volta aqui na terra?
_ Só se for cuspido ou escarrado, que eu tô com sete unha no ouvido encravado ...

Sapo-bode (Thoropa miliaris). Leptodactilidae. Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG.
Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli
** Informante: Júlio Prudente de Oliveira, 1996, Santa Rita do Ibitipoca/MG.
*** Apiar, apiando: levantando, erguendo. Estatalado: arregalado, esbugalhado, saliente. Mulher do sapo: expressão vulgar para se referir à rã (conferir em: Os bratáquios no folclore)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Quadrinhas de amor - parte 2

Poesia singela, em estrofes de quatro versos. É o que ora se apresenta. A veia poética popular revela a intensidade do sentimento, o carinho, o desejo, mas não extravasa explicitamente a sexualidade. As trovas de base folclórica repisam desilusões amorosas, sinais de carinho, idílios, esperanças de receber atenção de um bem-querer. 

As jovens estudantes até a primeira metade dos anos noventa usavam escrever no cabeçalho de cada folha do caderno de matérias da escola, uma trova do tipo das que aqui se apresentam, ou até mesmo, compor cadernos inteiros só de quadras de amor. É a fonte de boa parte dessa coleção fragmentada neste blog. 

Prosseguindo a divulgação segue mais cinquenta exemplares, coletados na década de 1990 de diversas informantes em Santa Cruz de Minas. As notas de rodapé trazem comentários complementares e um link para acessar a primeira edição da coletânea, cujos comentários introdutórios são de leitura indispensável à compreensão do conjunto. 

*  *  *

A roseira dá a rosa,
No Dia dos Namorados
A rosa dá o botão;
Mandei-te um verso, meu bem,
Eu te dei o meu amor
Mas se pudesse mandaria
Pra ganhar seu coração.
O universo também.


Eu queria ser um barquinho,
Acabou-se o prazer, 
Para atravessar o oceano
Foram desfeitos nossos laços.
E dizer-te bem baixinho,
E agora, como fico,
Ai! Como te amo!
Longe dos teus abraços?


Você disse que me ama,
Vai, cartinha amorosa, [1]
Amor não é assim;
Vai por este mundo sem fim,
Batendo papo com os outros,
Vai dizer aquela ingrata
Fazendo ciúme em mim ...
Que nunca esqueça de mim.


Com os olhos eu te vi,
Dizem que o beijo é venenoso,
Com meu sorriso eu te amei,
Que até pode matar.
Com uma lágrima te deixei,
Prefiro morrer envenenada
Mas nunca te esquecerei.
Do que ficar sem beijar.


O rei nasceu para o trono,
O alecrim pra ser cheiroso,
Os peixinhos para o m ar,
Tem que ser amassado,
As estrelas para o céu,
O beijo pra ser gostoso,
Eu para te amar.
Tem que ser demorado.


Tudo na vida acontece,
Eu vou colocar
Tudo na vida tem fim,
Seu retrato no chiqueiro
Só uma coisa te peço,
Pra quando tratar dos porcos
nunca se esqueça de mim.
Tratar de você primeiro...


Não jogue
Na janela do meu quarto
A casca da laranja fora,
Corre água sem chover,
Porque ainda tenho esperança
São as lágrimas dos meus olhos,
De chamar sua mãe de sogra.
Que rolam por não te ver.


A lua tá muito alta, [2]
O sol tá muito alto,
Tá perto de ver a Deus,
Já bateu na ferradura,
Esses seus olhos, menino,
Esse teu amor, menino,
Tá perto de ver os meus.
Tá me fazendo ternura.


Menino, esses teus olhos,[3]
Menino, esses teus olhos,
São dois navios brilhantes,
Pode mais que do que justiça,
De dia é duas tochas,
Os teus olhos me prendeu,
De noite, dois diamantes.
Domingo, depois da missa.


Bota fogo na fundanga[4],
Ajuntei com a saudade,
Tira esse mal de mim;
entrei junto num  balão,
Numa fumaça que sobe
Suspiro por ser pequeno
Traz meu amor pra mim. 
Arrematou meu coração.


Suspiro com a saudade
Suspiro com a saudade,[5]
Plantei junto num canteiro,
Foi lá em casa passear,
Suspiro facilitou,
Suspiro demorou,
Saudade nasceu primeiro.[6]
Saudade tá pra chegar.


O marmelo é boa fruta[7]
Comprei  papel na loja,
Enquanto não apodrece,
Pintei com tinta de tesouro;
O amor é muito bom
Não há dinheiro que pague,
Enquanto não aborrece.
Duas horas de namoro.


Meu amor, não veste preto,
Subi na bananeira,
Preto é luto fechado.
Balancei pra lá, pra cá. [8]
Deixa o preto para mim,
Tive com meu bem nos braços
Que sou triste, apaixonado.
Mas não pude aproveitar.


Adeus, joazeiro verde,
Balança que pesa ouro, [9]
Aonde o sol é vertente;
Não pode pesar marfim,
Adeus, boquinha de cravo,
Se você namora outra,
Coração de muita gente ...
Seu amor não servirá pra mim.


Tenho fome, tenho sede,
Quando te olhei,
Não é de pão, não é de vinho,
Teu olhar me fascinou,
Tenho fome do teu abraço,
Logo me apaixonei,
E sede dos teus carinhos.
Quando você me beijou.


Breve foi,
Perto da minha janela,
Breve serei,
Tem um pé de amora,
Mas de você,
Tenho esperança de ainda
Nunca esquecerei.

Chamar sua mãe de sogra.
Dizem que o beijo
Lutei a vida inteira,
É um pecado horroroso,
Para ficar com meu bem,
Óh, meu Deus!
Mas depois fiquei sabendo,
Que pecado gostoso!
Que ele gostava de outro alguém.


A flor do mato cai,
Te amei no passado,
No frio e no calor,
Te amo no presente;
Eu também quero cair,
Se o futuro permitir,
Nos braços do teu amor.
Te amarei eternamente.


Não me dê flor amarela,
A cigarra quando canta
Que não estou desesperada,
É prenuncia de calor,
Me dê flor rosa,
Meu coração quando suspira
Que estou apaixonada. [10]
É falta de teu amor.


Quero te amar sinceramente,
A sete chave
Não pretendo te enganar,
Partia meu coração,
Só espero que não ponhas,
Mas um dia destravada,
Outra em meu lugar.
Deixei-a nas tuas mãos.


Não quero caneta,
Não quero mais amar,
Nem lápis de marfim;
Pois faz a gente sofrer.
Só quero saber mesmo,
Aquele que a gente ama
Se você gosta de mim.
Não sabe agradecer.


Só porque está resfriado
O coração é malvado,
Me recusa um beijinho,
Só faz aquilo que senti;
Vá, não seja malvado,
Só faz a gente gostar,
Me transmita um microbinho...
De quem não gosta da gente.


Entre as flores fui nascida,
Me dê a chave do seu coração,
Entre as folhas fui criada,
Quero abrir, quero entrar,
Numa noite iluminada,
Para ver se lá tem alguém,
Por seus lábios fui beijada.
Invadindo meu lugar...


Não quero falar contigo,
Na horta da minha sogra
Juro a todo momento;
Tem um pé de alecrim.
Mas quando chego perto de ti,
O alecrim nasceu pra ela,
Esqueço meu juramento.
O filho dela nasceu pra mim.


Eu queria ser um copo,
Palpei meu lado esquerdo
Um copo eu queria ser,
Não achei meu coração;
Para beijar sua boca,
De repente, me lembrei,
Quando água for beber.
Que estava em tuas mãos.


* Texto: Ulisses Passarelli
** Agradecimentos especiais pela inestimável ajuda na coleta a Cida Salles.
*** Veja também a primeira parte desta postagem: QUADRINHAS DE AMOR - parte 1 



[1] - Quadrinha na qual o enunciado parte de um homem, exceção nesta coleção.
[2] - Esta trova faz par com a seguinte, “o sol tá muito alto”. Versos paralelísticos.
[3] - Verso-feito, difundido.
[4] - Fundanga, ou fundenga: pólvora, na terminologia dos terreiros religiosos de matriz africana nesta região. Esta trova prende-se ao ritual de queimar um pouco de pólvora para tirar da pessoa males espirituais, tais como demandas com inimigos, inveja, mau-olhado. Registra fielmente o momento que o pedido desejado tem mais força.
[5] - Verso-feito.
[6] - Noção-feita. Os caxambuzeiros de Santo Antônio de Pádua/RJ, cantam este ponto: “O galo mais o pintinho, / dormiu junto no poleiro; / o galo facilitou, / o pinto piou primeiro.”, referência ao cantador novato, que se atreve a cantar antes do mestre.
[7] - Verso-feito. Exemplo, da mesma origem: “O marmelo é boa fruta, / que dá na ponta da vara / quem ama mulher casada / não tem vergonha na cara.”
[8] - Verso-feito. Exemplo, canto do congo de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei, déc.1990): “Cheguei na porta da igreja, / balancei pra lá, pra cá, / eu vi Nossa Senhora / em pezinha no altar.”
[9] - Verso-feito. Exemplo no congado, canto de catupé de São João del-Rei, Capitão Luís Santana, Bairro São Dimas, 1993: “Minha peneira que coa, que coa, / é peneirinha de indaiá, / ai, balança que pesa ouro, / não pode pesar metá...” (metal). Outro: “Ai, Joventina, / filha de seu Juvenal, / é hora de tirar leite, / que o bezerro quer mamar / balança que pesa ouro / não pesa qualquer metal...” (Boi de Reis, parte da toada do Baile da Masseira; São Gonçalo do Amarante/RN, 1997).
[10] - Interessante referência à simbologia das cores.