Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 29 de junho de 2014

Tico-tico: passarinho atrevido

Um pequeno pássaro emberizídeo, batizado por onomatopeia "tico-tico", Zonotrichia capensis, de vasta distribuição geográfica no país, goza de grande popularidade. Nos currais, sempre frequenta o cocho de tratar das vacas, na cata de farelos; as hortas, as beiras de silos, ao redor de moinhos, os pastos são seus locais prediletos.

Tico-tico na Serra de São José.

Na cultura popular ganhou fama de atrevido, topetudo, talvez por sua valentia de investir contra aves bem maiores na defesa de seu ninho. Essa característica ficou registrada num canto de mutirão coligido no povoado da Restinga (Ritápolis/MG):

Êh... tico-tico,
ai, que bicho atrevido!
Trepa no pau,
vê o mundo como vira ... ah-êêê!

No linguajar congadeiro o seu atrevimento é comparado ao do capitão rival, aquele que não sabe respeitar a individualidade do outro grupo, os limites do equilíbrio entre as guardas na festa. Daí surge uma demanda e o verso vem provocador: 

Eu tenho minha saia, 
de renda de bico, 
apanha laranja
no chão tico-tico!

Seu ninho com frequência é parasitado pelo pássaro icterídeo Molothrus bonariensis, oportunista que deixa ali seu ovos para o pequeno tico cuidar dos filhos adotivos. Molothrus tem muitos nomes populares que variam conforme a região: curro-curro, chupim, mestiço, vira-bosta, gaudério, dentre outros. Desse detalhe há uma expressão coloquial nas Vertentes: "não estou para criar filhos dos outros igual tico-tico" ou "não sou tico-tico para criar filhote de curro-curro...", uma referência desdenhosa à criação de filhos adotivos. 

O passarinho povoa também quadrinhas populares avulsas, do imenso refraneiro, que corre nas Vertentes de Minas, como as quadras paralelísticas expostas a seguir, coletadas em São João del-Rei:

Tico-tico veio de Minas,
calçadinho de botina,
sabiá respondeu,
sai daqui, canela fina.

Tico-tico veio de Minas,
calçadinho de espora,
com a calcinha remendada
e a bundinha de fora.

Há uma fábula por aqui corrente, que ouvi no Bairro São Dimas, nesta cidade, que narra o seguinte: o gavião, rapineiro incorrigível, pelejava para pegar o tico-tico. Toda vez que investia velozmente em voo a pique, o pequeno tico-tico negaceava um esvoaçar para um lado ou outro, com muita habilidade e rapidez, e fugia sempre das garras mortais. O gavião foi desanimando. Pensou numa estratégia e pôs em prática: se fizesse amizade com o pássaro, sem demonstrar agressividade, conquistaria sua confiança e assim, podendo chegar bem perto, daria o golpe fatal. Foi chegando de longe, falando à distância, que nunca mais ia tentar pegá-lo, que estava arrependido, que tinha mudado o jeito de ser, que agora só queria amizade com ele... O tico-tico, muito desconfiado, permitiu a aproximação para observar o verdadeiro comportamento do perseguidor. O gavião, muito dissimulado, veio com uma "conversa mole" (*) de aprender com o tico aquelas voadas repentinas, escapadas extraordinárias para os lados, para frente, de ré, de todo jeito pois tinha muitos inimigos maiores e poderia ser útil. O tico-tico sempre "com um pé atrás" (**) ensinou alguma coisa, meio por fora, meio de perto, mas nunca com perfeição e jamais ensinou tudo o que sabia. Correram as aulas. O gavião muito atento era bom aluno, aprendia tudo rápido. Afoito, certo dia achou que já sabia o bastante para matar o tico-tico com os próprios ensinamentos dele. Começou a buscar a ocasião propícia. Foi então que um dia, viu-o empoleirado num galho comprido e retilíneo, dormindo. Não poderia ter hora melhor. Veio num voo ágil e rasante pensando em dar uma reviravolta bem cima dele. Mas não percebeu a tempo, senão em cima da hora, que o pequeno professor estava com um olho aberto. Foi o que salvou o tico. Ele deu uma cambalhota para baixo do galho e o gavião passou direto, embaraçando na ramaria até arrancar um monte de penas. O pássaro voou para um cipoal seguro e de longe o gavião, muito sem graça, gritou para ele: 

_ Uai, amigo tico-tico! Nunca vi ninguém dormir assim, com um olho aberto...
_ É... gavião, quando o amigo não é certo, um olho fechado outro aberto... 

E fugiu para outra região distante.

Notas e Créditos


* Conversa mole: expressão popular - assunto bobo, cujo real interesse está oculto
** Com um pé atrás: expressão popular - com desconfiança.
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Foto: Iago C.S. Passarelli, 29/06/2014
***** Informantes: mutirão, Ernane Luís da Silva, Restinga do Meio (Ritápolis-MG), 23/09/1998; congado, Raimundo Camilo, São João del-Rei, Bairro São Dimas, 2002; quadras, Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro,1992; fábula, Luís Santana, São João del-Rei, Bairro São Dimas, 1998.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ditados - parte 1

Já algumas vezes este blog tem registrado o modo de falar coloquial, corrente nos meios populares na Microrregião Campos das Vertentes. Por vezes, durante a narrativa das lendas, contos e fábulas tem sido inserido este vocabulário típico. Mas a via principal tem sido a postagem intitulada "Na minha terra se fala assim", já com quatro partes publicadas e outras por vir. 

Ora o assunto é reforçado com a primeira parte de uma coleção de ditados. Os provérbios populares são sentenças linguísticas de fundo filosófico, muitas vezes revestidas em cores regionais e no geral, tem raízes etimológicas muito antigas. O povo os detém na memória e sabe empregá-los a cada oportunidade correta, contextualizados para transmitir uma mensagem, um ensinamento, pontuar uma reflexão. É o legítimo saber não institucionalizado, passado de geração em geração pela força da oralidade.

Ouvidos pudicos, por vezes rejeitam os ditados em virtude de suas palavras chulas ou expressões pouco elegantes usadas para transmitir uma verdade. Mas é assim mesmo - a verdade dói, ensina o povo.  

Segue abaixo uma lista dos primeiros cinquenta provérbios seguidos de uma curta explanação interpretativa. Foram coligidos em São João del-Rei no último decênio mas extravasam seus limites municipais para toda a circunvizinhança e muitas vezes são conhecidos igualmente em regiões distantes. 

*  *  *

A cobra que não anda não engole sapo – é preciso esforço para alcançar resultados.

A noite, todos os gatos são pardos - a noite oculta aparências verdadeiras. Certas situações igualam a todos.

Avançar na lua pensando que é queijo - o mesmo que "ir com muita sede ao pote", no sentido de se fartar daquilo que deve ser buscado com parcimônia. Sentido opcional, conforme o contexto do diálogo: abusar de uma situação sem saber as consequências do resultado. 

Cavalo dado não se olha os dentes – não é educado observar defeitos nos presentes ganhos. O provérbio se inspira no costume de ver a idade do cavalo pelo aspecto dos dentes. Variante: "Cavalo dado não se olha a idade".

Cavalo picado por cobra tem medo de mangueira - quem foi ofendido por algo tem medo do que é semelhante.

Contar com o ovo no cu da galinha - Fiar numa situação que ainda não se concretizou; diz-se quando se confia com certeza em algo que ainda na aconteceu. 

De boas intenções o inferno está cheio – alusão aos que se disfarçam por trás de boas intensões mas em verdade estão revestidos de pretensões escusas, interesses maldosos.

De tanta paciência, a minhoca ficou sem osso - resignação em excesso gera inoperância; paciência de mais tolhe as atitudes. Referência à apatia. 

Deus dá o frio conforme o cobertor – as dificuldades da vida não são maiores que a providência divina. As dificuldades que enfrentamos são aquelas que de fato temos capacidade de enfrentar e resolver.

Deus é justo não é injusto – ditado de afirmação categórica da justiça divina, na qual se deve confiar acima de tudo e todos. Enunciado nos momentos de grande dificuldade. 

Dor de barriga não dá uma vez só – podemos precisar de uma pessoa mais de uma vez na vida, por isto não se deve esquecer ou fazer pouco caso de quem nos faz um favor, do que presta solidariedade.  

Em casa de ferreiro, espeto é de pau – na casa ou vida pessoal de um especialista o fato que domina tão bem é feito de improviso. Faz para outrem mas não para si próprio. 

Em casa de pobre o pão sempre cai com a manteiga para baixo – expressão fatalista usada para indicar a falta de sorte que o pobre carrega.

Enquanto Deus existir, urubu não come folha – Deus não desampara. A providência divina sempre encaminha para um bom resultado. Não se está sozinho.

Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço – Aja conforme minha filosofia, não conforme meus atos (pois razões subjetivas podem pesar na mudança de direção do fazer).

Festa de jacu, inhambu não entra – expressão que se refere a divisão de classes sociais; castas não se misturam no convívio social. Referência à discriminação.

Fica perto de quem está cagando mas não fica perto de quem está trabalhando - empregado para quem está atrapalhando o serviço de um trabalhador, sem ajudá-lo. Usa-se também quando da situação anterior resulta um acidente. 

Filho de cobra já nasce picando – o filho traz consigo os defeitos do pai.

Filho de peixe, peixinho é – mesmo sentido do anterior, mas se aplica também com respeito às qualidades e habilidades.

Fuja de dever, que pagar é certo – referência mais à justiça celeste que terrena. Sentido: a justiça se cumpre, ainda que com aparente demora.

Ladrão em casa de pobre só leva susto – expressão irônica para indicar que na residência de pessoa pobre não há nada de valor material.

Macaco velho (ou gordo) não pula em galho podre – o experiente não comete erros primários; tem prudência.

Macaco velho não põe a mão em cumbuca – idem.

Mais queixa quem caga do quê quem limpa - quem não trabalha reclama mais que o trabalhador que sofre com o serviço. 

Mais vale um “eu te dou” que dois “eu te darei” – é mais útil um auxílio concreto que duas promessas de ajuda.

Mais vale um gosto que um tostão no bolso – é mais útil gastar um pouco com algo que se deseja muito que se tornar econômico em excesso, privando-se dos gostos da vida em troca de pequenas reservas.

Mais vale um pássaro na mão que dois voando – tem mais valor o que temos seguramente conosco que aquilo que almejamos sem ter ainda alcançado.

Mais vale um peito na mão que dois no sutiã – em sentido chulo, tem a mesma interpretação do provérbio anterior. São usados para indicar necessidade de se dar valor ao que se tem.

Não jogue pedras no telhado dos outros porque o seu é de vidro - não julgue, critique ou condene porque você tem problemas passíveis de sentenças similares.  

O defunto além de ser carregado ainda quer que o balance – usado para indicar extrema preguiça, inércia perante a vida, comodismo, proveito do sacrifício alheio. É uma expressão antiga que referencia o costume do sepultamento em rede, daí mencionar o balanço, característico da marcha desse féretro.

O dia do favor é a véspera da ingratidão - quando se faz um favor é mais certo ter-se em troca ingratidão que agradecimento. Diz-se do não reconhecimento de uma benesse concedida.

O pior cego é aquele que não quer ver – indicativo aplicado às pessoas que escondem de si mesmo as verdades, que teimam em viver na mentira; que não enxergam a realidade subjacente a uma dissimulação escancarada.

O que aperta segura, o que amarga cura - diz-se das regras da vida, que freiam o ímpeto, o descontrole de atitudes. As dificuldades ensinam para o tempo da bonança que virá.

O que é de bêbado não tem dono - diz-se da exploração, abuso do inocente, daquele que está inconsciente dos riscos e implicações de uma situação. Uma variante chula prega: “cu de bêbado não tem dono”.

O que é do lobo já nasce manco - ditado fatalista, fala sobre a imposição da força do destino, que determina o que pertence a cada um, não podendo ser de outrem.

O que foi perdido no morro não se acha na baixada - diz-se sobretudo do bom caráter, da vergonha na cara, da responsabilidade com as obrigações, que uma vez perdidas não se recupera fácil por outros caminhos de vida.

O seguro morreu de velho, o desconfiado ainda está vivo – ditado que ressalta a importância da prudência, cautela, cuidados ao longo da vida no trato com as pessoas, trabalho, negócios.

O uso do cachimbo põe a boca torta - a repetição de um mau costume gera vício, mau hábito, postura de atitude irregular.

Para quem está no inferno pai nosso é lenha - para quem está em dificuldade extrema não são palavras que vão resolver; é preciso uma ação imediata, de pulso firme, ajuda concreta, efetiva.

Pedra que rola não cria limo – quem não busca estabilidade não alcança melhorias na vida; não cresce em prosperidade aquele que a cada momento está num serviço diferente.

Quando se fecha uma porta, Deus abre uma janela – a Divina Providência ampara as pessoas com caminhos fechados.

Quem bate esquece, quem apanha lembra – referência ao rancor: quem faz um mal não se recorda ou não dá importância a tê-lo feito, mas quem o sofre, nunca esquece essa maldade.

Quem bem faz a si faz – quem pratica a bondade tem o retorno do bem sobre a própria vida. Lei da Ação e Reação.

Quem nasceu para aranha nunca chega a caranguejo – referência à pessoa acomodada, que não se esforça por melhorar sua vida, não almeja o crescimento.

Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré – idem.

Quem ouve, esquece; quem vê, lembra; quem faz, aprende – ditado que enaltece o valor da prática, do fazer, do labor como meio concreto de aprendizado.

Quem perde os dentes, Deus abre a goela – tem o mesmo sentido de “Quando fecha uma porta, Deus abre uma janela”. Referência ao auxílio de Deus nas dificuldades humanas. Implícito a necessidade de se ter fé.

Quem tem fama que faça a cama – cada um que arque com as consequências da imagem que construiu sobre o seu nome. Variante: “Quem fez a fama, deite na cama”.

Quem vestiu seda tem retalho - o rico, o luxuoso, conserva no âmago vestígios da pobreza, nem que seja de espírito. A aparência bela esconde por vezes detalhes que não são nobres.

Uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto – se retribui o bem com o bem; se ajuda quem nos ajudou. Variante chula: “Uma mão lava a outra e as duas lavam a bunda”.


Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli

** Agradecimentos especiais: Cida Salles, pelo auxílio substancial no processo de coleta dos provérbios.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Rua São João festeja seu padroeiro

São Pedro é que deve estar meio tristonho com o são-joanense ... porque da santificada tríade junina, aqui em São João del-Rei, só ele ficou de fora. No Bairro Tijuco tem Rua Santo Antônio com festa do orago em capela própria, setecentista; no mesmo bairro tem Rua São João, sem capela, mas com grande devoção numa festa que já conta com 69 anos de existência. 

Na 1ª Travessa da tradicional via pública, fechada e enfeitada para a ocasião festiva, desenvolve-se uma animada festa em honra ao precursor e primo de Jesus, filho de Isabel e Zacarias, que profeticamente teve a árdua missão de preparar o caminho para as pregações do Divino Mestre. Santo queridíssimo no Brasil, São João Batista goza de grande popularidade e ricos festejos em todo território nacional. 

As barraquinhas de São João aguardam o fim das celebrações para o movimento,
enquanto as pessoas se concentram na missa sob uma tenda, diante do andor do padroeiro. 

Na festa local, conta o santo com ativa parte religiosa que inclui novena, reza do terço e celebrações. O movimento de barraquinhas é animado e tradicional. O dia maior, 24 de junho, desponta logo cedo com alvorada festiva, às 6 horas pipocando fogos de artifício e rompendo acordes d'A Furiosa, título carinhoso alcunhado pela povo à Banda Municipal Santa Cecília. A corporação querida e de grande qualidade técnica, cumpriu sua missão na gelada manhã festiva, que se segue àquela que se diz ser a noite mais fria do ano. 

Durante o dia, a imagem de São João Batista fica exposta na entrada da travessa, sobre uma mesa revestida de toalha branca, cercando a rua, como se chamasse os devotos ao festejo. E de fato, logo mais, se vê que o chamado foi efetivo. Muitos devotos concentram-se para participar da missa campal. Para a procissão surgem mais dois gigantes de nossa tradição musical: a centenária Banda Theodoro de Faria e a salesiana, Meninos de Dom Bosco. Grande afluxo de fiéis e visitantes acompanharam atentos o concorrido cortejo com o andor enfeitado e depois se confraternizaram no intenso movimento das barraquinhas. 

Imagem de São João Batista acena aos fiéis, convidando-os para as comemorações na entrada da 1ª Travessa. 

É de se esperar para 2015 uma festa ainda mais especial, comemorando o septuagésimo aniversário da comemoração nesta rua. Que venha, com as bênçãos do padroeiro.

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli
** Para saber mais sobre o assunto leia também: AS FESTAS JUNINAS E OS TRÊS SANTOS

domingo, 22 de junho de 2014

As abelhas na tradição popular

Algumas vezes este blog tem se dedicado a explanar sobre elementos da natureza que despertam o surgimento de manifestações culturais. Neste rumo já tivemos postagens dedicadas aos pássaros, aos bratáquios, cobras, além de outras ocorrências mais eventuais. Agora é a vez das abelhas. 

Ainda é incipiente no país a exploração comercial das abelhas nativas (tribo meliponini), ditas abelhas indígenas ou abelhas sem ferrão, espécies de ferrões atrofiados, de pouca agressividade e mel valorizado. A apicultura se desenvolveu sobre a criação de espécies do Velho Mundo. SANTOS após meticulosas explicações sobre as características das nossas espécies, desenvolveu largamente o tema da sua criação racional. FARIA e GALVÃO já notavam o escasseamento das espécies silvestres no nordeste do país (Rio Grande do Norte) e cá nas Vertentes o quadro é o mesmo. GALVÃO afrontava a voz popular que atribuía o desaparecimento ao ataque das agressivas abelhas-africanas (Apis mellifera) dizendo que na realidade era o desmatamento a causa, afetando a flora necessária ao equilíbrio da população de abelhas: "Já não há mais abelhas. Penso que a causa principal é o contínuo desmatamento e o consequente desaparecimento de flores". CASCUDO nos dá magistral aula sobre a universalidade e antiguidade do consumo do mel pelos humanos, recuando-o ao período neolítico. Tal sua popularidade que referencia o costume da "melança", um antigo lazer do sul paulista, quando grupos de amantes do mel partiam aos fins de semana para as matas em coletiva procura por colmeias, sob o comando de guias de muita prática. FARIA também dá conta dos "rastejadores de mel", indivíduos especializados na procura dos enxames, a partir da visita das abelhas aos barreiros. Identificando as espécies e acompanhando a direção do voo, se mais baixo ou mais alto, direcionavam a colmeia e iam parando pelo caminho para confirmar a rota do esvoaçar daqueles insetos, até encontrar o objetivo. No grupo de caiapós (*) de Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, no registro de LIMA, um dos personagens é ou era o "meleiro", usando camiseta e calça comprida cobertas de penas de galinha, tendo na cabeça um gorro enfeitado de penas. Com uma enxada e uma cabaça fingia cavar o chão à procura de uma colmeia subterrânea. Achava um suposto mel, que depositava na cabaça. Obviamente esta dramatização reflete a popularidade do costume. CASCUDO ensinou: "meleiro, homem tirador de mel de abelhas ou apenas o vendedor." 

Que não se considere redundante a expressão "mel de abelhas", posto que no nordeste do país é vulgar o termo "mel de engenho", que noutras áreas geográficas ao sul se chama "melado", produto da fervura do caldo da cana, ou ainda, o "mel de furo", caldo escorrido das formas de açúcar. Nos Campos das Vertentes corre a expressão "mel de fumo", referente à substância espessa que goteja da "pindoba" (**).

Entre as espécies regionais, um indivíduo, habitual coletor de mel na natureza, informou-me a presença das seguintes espécies na região, segundo seus nomes populares: abelha-europa (abelha do reino, tribo apini, gênero Apis, espécie exótica), abelha-jataí, abelha... irapuá, limoeiro (Trigona limao), mandaçaia (Melipona anthidioides), vamos'imbora, caga-fogo, pé-de-pau (Melipona nigra), cu-de-burro e a porta-de-barro. Segundo me disse o informante, a "vamos'imbora", quando tem a colmeia remexida abandona às pressas o local _ todo o enxame se põe em debandada; a caga-fogo tem seu nome graças a uma substância cáustica que secreta sobre a pele, de ação dolorosa, que arde muito; a pé-de-pau faz a colmeia junto à base das árvores, rente ao chão, próximo às raízes; a cu-de-burro tem a entrada de sua casa com abertura que por analogia comparam ao ânus de um muar; a porta-de-barro esculpe a entrada da colmeia em barro em vez de cera; limoeiro secreta cheiro forte, como o da casca do limão; irapuá (por vezes chamada também irapuã, arapuá, arapuã e abelha-cachorro), faz grandes casas arredondadas (daí o designativo indígena: ira = mel + puã = redondo) em volta dos galhos e é muito agressiva, atacando em conjunto com a característica de juntar nos cabelos, que embola torcendo. Uma vez morta, exala cheiro nauseabundo, que pode ser percebido em seu mel, desvalorizado para consumo humano. Claro que a identificação de cada uma só por esta pitoresca nomenclatura é cientificamente inadequada e está sujeita a dúvidas.

Uma outra espécie local, que bem se poderia confundir com as já citadas jataí (talvez Trigona jaty) e pé-de-pau, é a inofensiva mirim-preguiça (Trigona schrottkyi) uma abelhinha terrestre cujo ninho subterrâneo abre à tona por um tubo de cera, que a todo crepúsculo é fechado por mais cera e aberto pela manhã. Ocorre que a jataí utiliza o mesmo estratagema de obstrução da passagem mas abre logo cedo. Já a mirim abre-o mais do meio ao fim da manhã, quando o sol já esquentou o ambiente. Diz então o povo que ela dorme até tarde e carimbou-lhe esta fama de preguiçosa. Mas se é molestada, não tem preguiça e célere oblitera a entrada de sua casa. 

Nos meios populares as abelhas indígenas são queridas. Além do trabalho de polinização como parte importante do equilíbrio ecológico, fornecem mel mais fácil de coletar que as abelhas do reino. Embora que em menor produtividade, goza de melhor preço pelo sabor excepcional como o caso do mel da mandaçaia ou pela fama medicinal, como ocorre com o da jataí, procurado pelo povo contra rouquidão, afonia, pneumonia e anemia. 

Disso resulta a criação doméstica em artifícios conhecidos como cortiços: são receptáculos feitos em caixas próprias de apicultura, adaptadas à biologia das espécies nativas, ou improvisadas com bambu, telha, cabaça. A colmeia capturada (a rainha tem de estar junto) é posta dentro de duas metades de um gomo de bambu-gigante (fechado nos extremos pela divisória do próprio gomo), com uma abertura broqueada para dar lugar ao tubo de cera de entrada/saída. Senão, cabe bem entre duas telhas curvas postas e presas de encontro pelas concavidades. O cortiço é pendurado por um arame no beiral do telhado, onde sol, chuva e ventania não maltratam. Vez em quando é aberto para a colheita caseira. E ainda polinizam as flores do jardim ...

A espécie odiada pelo produtor rural é a irapuá que além de enroscar o cabelo, na sua faina alimentar, corta botões florais de frutas cítricas e destrói flores de valor comercial tirando pedaços. Seu enxame é por isto alvejado pelo fogo, queimando-se a "caixa" (colmeia), como o povo diz. A caga-fogo (possivelmente espécie Trigona tataira) sofre a mesma perseguição pela dor que provoca. 

Abelha-irapuá (Trigona ruficrus) cortando uma pétala de rosa.

Na poesia popular a abelha também voeja. Pousa em versos do calango:

Não mexe com marimbondo
sem ter palha pra queimar,
abelha é quem faz o mel, 
marimbondo só faz zoar...

Congado...

Lá no chão tem, 
lá no chão tem!
Abelha miúda, 
formiga-quenquém ...

Trova:

Eu queria ser uma abelha,
daquelas que faz o mel,
para eu fazer um favo
na pedra do seu anel.

Em São João del-Rei este inseto já rendeu título para um boletim escolar, informativo de mais de meio século atrás da Escola Estadual Aureliano Pimentel: "A Abelha".

Cabeçalho do jornal "A Abelha", nº1, maio de 1957, da Escola Estadual Aureliano Pimentel, São João del-Rei.

Na medicina popular o mel é ingerido in natura contra rouquidão, tosse, gripe, anemia, convalescença. Tem mais efeito se for consumido em jejum, na medida de uma colher das de sopa, deixando-se dissolver lentamente na saliva para ser engolido aos poucos. Mel para remédio tem de ser puro, diz o povo, referindo-se à suposta desonestidade de certos apicultores que adicionam substâncias ao mel para fazê-lo render de volume, em busca de lucros fáceis. O mel entra ainda na composição de xaropes caseiros, principalmente à base de agrião. É hábito comê-lo sobre a banana e o mamão. Cachaça com mel é aperitivo querido nesta área geográfica, quiçá noutras. 

Em local da pele ofendido por picadas de abelha (e também de vespas) usa-se um emplastro de barro por alguns minutos ou o esfregaço de extrato alcoólico de arnica (espécies do gênero Lychnophora, asteraceaeou de melão de São Caetano (Momordica charantia, cucurbitaceae). 

Ninho do pássaro furnarídeo joão graveteiro (Phacellodomus rufifrons)
alojando em sua parte média uma colmeia ativa, aparentemente de irapuá.
Colônia do Bengo (São João del-Rei/MG), 01/11/2016. 

Diz a crendice que a presença de uma abelha zumbindo dentro de casa é prenúncio da chegada de uma visita. 

Na religiosidade popular brasileira, sob influência dos terreiros de matriz religiosa africana, as abelhas são animais votivos dos caboclos (espíritos indígenas), enquanto que as vespas (marimbondos) o são dos exus. Daí, quando uma abelha entra dentro de casa é sinal de uma bênção, influência positiva. Já o marimbondo indica demanda, inimigo agindo, mau augúrio (***). Ouvir o zumbido de abelhas sem que haja abelha por perto ou sentir o cheiro de mel repentinamente sem que exista mel no local, é indicativo da presença dos caboclos em redor, espíritos de indígenas. Mas sonhar com ataque de abelhas pode indicar uma dívida espiritual com a linha dos caboclos, um descontentamento por parte deles, que deve ser abrandado com alguma oferenda em sinal de pedido de agô, malême (perdão). O mel é componente de certos ebós. Um deles, consagrado a Oxalá, consiste em ofertar canjica cozida (escorrida a água de cozimento com a qual se deve tomar um banho da cabeça para baixo ****), dentro de uma tigela branca virgem. A canjica é besuntada de mel por cima e encoberta por algodão completamente. Uma vela branca é firmada no meio da tigela. Se oferta no congá, no peji, ou sobre a laje da casa e assim garante paz, serenidade e equilíbrio ao lar.

Uma simpatia usual nesta região é escrever o nome de uma pessoa num pedaço de papel, por dentro de um pires e cobri-lo de mel. O objetivo é "adoçar" a índole da pessoa, tornando-a calma, mansa, dócil.

Por fim assista aos vídeos seguintes, curtos flagrantes do entra e sai das abelhinhas nativas (*****) em suas colmeias.

Abelha mirim-preguiça, São João del-Rei, Bairro Caieira.


Abelha-jataí, São João del-Rei, Bairro Caieira.


Abelha cu-de-burro, Atalho, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei).

Referências Bibliográficas

CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do Norte. 3.ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional Livro, 1967. Fac-símile, João Pessoa, out./1995. 411p. p.313.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.Verbete: mel. 
FARIA, Oswaldo Lamartine. Rastejadores de Abelhas. In: Tipos e Aspectos do Brasil. 10.ed. Brasília: IBGE, 1975. 506 p.il. p.244-247. 
GALVÃO, Hélio. Derradeiras Cartas da Praia & Outras Notas sobre Tibau do Sul. Natal: Fundação Cultural Hélio Galvão, 1989. 160p. Carta nº9, p.33-37.
LIMA, Rossini Tavares de. Folclore de São Paulo: melodia e ritmo. 2.ed. São Paulo: Ricordi. 
SANTOS, Eurico. Os Insetos, v.2. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985. Coleção Zoologia Brasílica, v.10. 243p.il. p.121-161. 
Notas Finais

* Folguedo, grupo de dança folclórica registrado no Rio de Janeiro (Parati), São Paulo e sul de Minas Gerais, ora em ocaso, com figurantes trajados à indígena. Leia a respeito em: Os Caiapós
** Pindobajirau ou estrado, feito de taquara ou varas, suspenso no alto de um cômodo, para pendurar folhas de tabaco à secagem. 
***Contudo, se o marimbondo faz ninho em casa é bom sinal e sua caixa não deve ser retirada pois indica fartura para a residência.
**** Da cabeça para baixo: o banho é despejado no alto da cabeça. Só pode ser feito assim com banhos de Oxalá, com banhos das ervas do orixá de cabeça do médium (do qual ele é um filho espiritual), ou com água energizada (água de mina, água de cachoeira, água com sal grosso, qualquer água limpa colhida na noite de São João). Outros banhos de descarrego e firmeza devem ser "do pescoço para baixo", ou seja, não se despeja na cabeça, sob pena de desorientar o médium devido ao cruzamento de linhas espirituais e suas falanges de mensageiros.
***** Rodrigues de Carvalho registrou o desafio entre dois violeiros nordestinos, Nogueira e Nicandro, no qual em uma das estrofes este último cantou as variedades de abelhas sertanejas:

"A tubiba, a jandaíra,
moça-branca, manduri, 
cabeça-branca, jati,
sanharó e tataíra,
mumbuca, uruçu, cupira,
o zangado mangangá
o valente aripuá,
o venenoso capuchu
canudo, pimenta, enxu
para semente não há." 


Créditos e Notas

* Texto, vídeos, fotografia do jornal "A Abelha" e ninho: Ulisses Passarelli
** Fotografia abelha-irapuá: Iago C.S. Passarelli, 14/10/2012
*** Principais informantes: "Tião Abelha", 05/02/1998, Santa Cruz de Minas (sobre espécies regionais); José Francisco Sales, 1999, São João del-Rei (calango); Luís Santana, 1993, São João del-Rei (congado - catupé); Maria Aparecida de Salles, 1995, Santa Cruz de Minas (trova). 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O queijo da onça

Mais uma fábula sobre a esperteza vencendo a força bruta

Numa ocasião, a onça passeava pela mata. Achou um queijo caído no chão. Acostumada a comer só carne, ficou olhando o queijo e pensando o que seria aquilo. 

Logo veio o macaco pulando a galharia da floresta e ao ver o queijo, de esperto que é, maquinou uma maneira de tomá-lo da onça. Puxou conversa

_ Ôh, comadre!
_ Oi, compadre macaco. Eu achei isso aqui, você sabe o que é?
_ Uai, sô! É queijo...
_ E come?
_ Olha, comadre onça: come sim e é bom, mas primeiro tem que curar o queijo.
_ Ah... é? E como é que se faz?
 _ Eu vou subir com ele lá para cima daquele ponteiro de galho e amarro lá. Todo dia agente vem ver como é que está. 

Assim foi feito. No dia seguinte vieram os dois: a onça pisando macio no tapete de folhas secas do chão mateiro; o macaco pelos ramos e cipós. Chegaram na árvore do queijo e o macaco disse:

_ Senhora espera aí que eu vou lá na copa ver como está. (E subiu.)
_ Ôh, macaco! Como é: já curou?
_ 1/4 já foi, comadre. 

Tirou um quarto do queijo e comeu. 

A mesma cantilena aconteceu no dia seguinte. E a onça ficou pispiano.

_ Meio queijo já foi, comadre, disse o macaco ao comer mais um quarto do queijo. 

Foram embora. Quando o macaco teve certeza que a onça estava longe, voltou na árvore do queijo e com certa dificuldade amarrou lá em cima uma pedra grande, clara, arredondada, lado a lado com o queijo. No dia seguinte, na mesma hora dos outros dias, vieram ver o queijo. 

_ Ôh, comadre, já está todo curado. 

Sem que a onça percebesse comeu a outra metade e disse para a fera:

_ A senhora deita aí no chão de barriga para cima e com as patas abertas. Eu corto a corda e a senhora mata o queijo nos peitos e abraça ele rápido para não rolar para o chão. Combinado?
_ Pode soltar. 

O macaco com sua faquinha cortou a corda e a pedra despencou das alturas em grande velocidade sobre o peito da bicha, que ficou lá estrebuchando de dor, rolando no chão da floresta. O macaco satisfeito, sumiu rapidamente pelas árvores.
Onça-pintada. Artesão: Mário Alves. Matéria-prima: madeira.
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG) 

Pequeno glossário

Bicha: onça, jaguar, canguçu. Bichona. 
Cantilena: literalmente, cantiga repetitiva; por extensão, conversa que não muda de assunto.
Estrebuchando: em estado de agonia.
Maquinou: engenhou, pensou, planejou, pôs em prática um plano. 
Mata nos peitos: apara sobre o tórax. Expressão futebolística, referindo-se à bola numa jogada. 
Pispiano: termo arcaico - esperando em observação.
Puxou conversa: abriu um diálogo; iniciou uma conversação. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli.
** Foto: Iago C.S. Passarelli, 11/10/2015.
** Informante: Aluísio dos Santos ("Ló"), São João del-Rei,  1995. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

Festejos de São João Batista

Aproxima-se o dia de São João Batista, 24 de junho, ponto alto das chamadas festas juninas, tão queridas no Brasil. Segundo OBERACKER, consta num relato carioca setecentista: assisti ainda a um oratório em homenagem a São João”, denotando sua tradicionalidade no país

Seu festejo é antigo nesta região de Minas Gerais. SPIX & MARTIUS o viram em Lagoa Dourada no século XIX (1817-1820): “algumas barracas ofereciam à venda chitas, tecidos de algodão, chapéus, ferramentas, pólvora, etc; os negros ali presentes formavam grupos e faziam ressoar a sua música plangente, num instrumento de madeira com fios de seda esticados, acompanhando-a com sons estridentes da fricção de dois paus. Pouco a pouco, foram chegando os vizinhos, montados em bestas, para assistir à missa de festa; eles mais pareciam empenhados na compra de mercadorias baratas para as necessidades domésticas, do que tomar parte no regozijo geral.” 

BURTON, em 1867, acerca da mesma cidade, anotou: “os habitantes reúnem-se nas cidades paroquiais, vindos de todas as direções; cada lugar tem sua fogueira, desfile de bandas e as pessoas ficam sentadas toda a noite e hasteiam, alegremente, o “mastro de São João” (...) A animada festa é mais agradável na roça do que na cidade, onde o bimbalhar dos sinos e as explosões das girândulas começam antes do amanhecer [alvorada festiva]. A gente fica surdo com os ridículos foguetes, e os moleques, isto é, os negrinhos, tornaram as ruas, supinamente desagradáveis, lançando buscapés, que fazem tudo o que podem para queimar as pernas das pessoas.” Ainda este autor vira no mesmo ano, um mastro junino na Serra da Mantiqueira, no Caminho Novo, próximo a Barbacena: “Retiro é um grupo de palhoças habitadas por negros, que tinham hasteado um mastro de São João, e um santo também negro.” 


Vale mencionar também a festa de São João na Capela de Nossa Senhora do Pilar, no Elvas (Tiradentes), popularmente conhecida por “Capela do Padre Gaspar” ou "Igreja do Gaspar". 

Junto com Nossa Senhora do Pilar é co-padroeiro de São João del-Rei. Em 12/10/2003 foi bento pelo Bispo da Diocese de São João del-Rei, Dom Waldemar Chaves de Araújo um monumento em sua homenagem na Praça Professor José Batista de Sousa (atrás da Catedral do Pilar), estátua esculpida por Miguel Randolfo de Ávila.

Estátua de São João Batista, São João del-Rei. 

Sua festa outrora marcou época, com os festejos litúrgicos na dita Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, onde a orquestra tocava numa missa solene e os festejos profanos se desenvolviam no Largo do Rosário a princípio. Depois passaram para o Largo Tamandaré (atual Praça Severiano de Resende). Em 1918 já estavam nesse largo, atestam as páginas d'A Tribuna. Até a década de 1980, tornaram-se afamadíssimos os encontros de quadrilhas juninas, cada qual de um bairro diferente, que se orgulhavam e esmeravam em bem montar seus grupos. A festa era o maior incentivo. Destacava-se pela organização atenciosa dessa festa o sr. Djalma Assis. Finda esta, as quadrilhas se dissolveram na maior parte. 

É destaque hoje seu festejo realizado na tradicional Rua São João (Bairro Tijuco), encabeçado pelos moradores da comunidade. Uma nota de destaque é a alvorada festiva, que inclui uma tocata da Banda Municipal Santa Cecília, às 6 horas. 


Referências bibliográficas


BURTON,  Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197, p. 188.
OBERACKER JR. Carlos H. O Rio de Janeiro em 1782 visto pelo pastor F.L.Langstedt. InRevista do Instituto Histórico e Geográfico BrasileiroRio de Janeiro, v.299, abr./jun.-1973. p.3-15.
SPIX, Johann Baptiste von, MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1938. 


Referências hemerográficas

A Tribuna, São João del-Rei, n.206, 09/06/1918 

*Texto e foto (17/06/2014): Ulisses Passarelli  

sábado, 14 de junho de 2014

Viva Santo Antônio!!!

Cada paróquia festeja seus santos. Alguns nem tão populares tem um círculo mais restrito de fiéis e ou só encontra comemoração numa capela. Outros, como São Sebastião, por exemplo, ou Nossa Senhora do Rosário, tem festa esparramada por toda redondeza, mas feliz mesmo é o devoto de Santo Antônio, que ontem pode se dar ao luxo de escolher onde acompanhar a festa do taumaturgo.

Capela de Santo Antônio do Canjica.
Tiradentes / MG, 17/07/2004.
 
Em Tiradentes é padroeiro, com belíssima igreja setecentista, e tem ainda a Igreja do Canjica, de que é orago em singela localidade histórica dos primórdios da mineração aurífera. Em Conceição da Barra de Minas tem também importante templo colonial. É queridíssimo em Lagoa Dourada e Itutinga, de ambas padroeiro. Sem contar outros pontos de festejos nas comunidades rurais. 

Cá em São João del-Rei, Santo Antônio goza de festejos variados. Mastros, distribuição de pães bentos, bênçãos, missas, música, procissões, trezenas, novenas, tríduos, quermesse, leilão. São alguns elementos. Quiçá o mais tradicional seja o da antiga Rua Santo Antônio, no Bairro Tijuco, onde a histórica capelinha do século XVIII, como uma joia incrustada no casario, sedia as comemorações concorridas, graças aos esforços da Venerável Irmandade de Santo Antônio (de 1939) e a participação intensiva da comunidade, muito unida e participativa. É de se ver com gosto como as fachadas, a beira dos passeios, os postes, são todos ornados com esmero para passagem da procissão. As barraquinhas de víspora, comes e bebes são aí muito procuradas. Várias irmandades mandaram representantes, participndo com suas opas características. O sermão do Padre Geraldo Magela foi de uma eloquência esplêndida, enaltecendo os valores deixados pelo santo querido na consolidação da fé cristã. A centenária Banda Theodoro de Faria, com toda experiência, deu sua nota de arte em clave de som maior. Nas fotos abaixo, de 13/06/2014, vê-se a capela iluminada e o santo no andor em seu dia maior.

                             

Banda Theodoro de Faria durante a Festa de Santo Antônio.
São João del-Rei/MG, 13/06/2014.
Para quem preferiu outra festa, pode andar só alguns quarteirões, atravessando a Ponte do Rosário, "Rua da Prata" (Padre José Maria Xavier) e na Igreja de Lourdes, no Largo de São Francisco, encontrou um animadíssimo movimento de devoção ao santo lisboeta. Nesta igreja aliás, o ano todo, há um intenso movimento de devotos deste santo franciscano e seu velário vive cheio de lumes acesos. Não faz muito, fizeram no jardim fronteiriço uma pequenina ermida para abrigar sua imagem, amplamente visitada. 

Uma capela também o festeja, donde é patrono, em comemorações bastante tradicionais, no Albergue Santo Antônio, Bairro das Fábricas. A instituição data de 1912 e prossegue em franca e respeitada atividade. 

Matosinhos, o bairro gigante, não ficaria de fora. Ainda mais tendo um segmento chamado Vila Santo Antônio. Ali, no Salão Comunitário deste santo, na beira da linha férrea, as festas correm com grande animação e já se fixa no calendário de eventos deste bairro tão festeiro. Usa-se fincar um mastro para o santo e em alguns anos registrei apresentações de grupos folclóricos. É mister lembrar que a grande Paróquia do Senhor Bom Jesus de Matosinhos possui na zona rural uma capela consagrada a Santo Antônio, no povoado do Carvoeiro, cujos festejos acontecerão no mês vindouro. 

Na Colônia do Marçal, Igreja da Imaculada Conceição, a festa de Santo Antônio assume dimensão ampla, o que é praticamente uma redundância considerando as dimensões do lugar. Não era para menos. O povo devotissimo da Colônia acorre para os eventos litúrgicos em peso e depois de concorrida procissão, se confraterniza no adro e barracão de festas. Também não falta, por zelo de seu pároco tão dedicado, a quem nutrimos franca admiração pelo dom sacerdotal levado muito a sério, Padre Antônio Claret Albino, um bem enfeitado mastro em honra a este santo. 

Noutra colônia, a do Bengo, no alto de uma colina, desde 1905, a Capela de Santo Antônio, obra do insigne sr. "Emídio do Bengo" (Emygdio Apollinario dos Passos Moraes) sedia uma tradicional festa que reúne a população rural das cercanias, chegando à pé, a cavalo, de moto, bicicleta, carro. A trinta anos, na tardinha ou boca da noite, ainda víamos romeiros em grupos vindo em caminhada pela beira da linha do Trem do Sertão desde a Avenida Leite de Castro rumo a esta capelinha para os festejos. 

Em vista póstero-lateral tomada em fevereiro de 2004, a Capela de Santo Antônio do Bengo, São João del-Rei.

E por fim não poderia deixar de mencionar ainda que brevemente a tradicionalíssima festa do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, donde é padroeiro e movimenta toda a população local e ainda congrega os moradores dos povoados vizinhos. É festa queridíssima e agora ganha a partir de 2014, mais um acréscimo importante: hoje, 14 de junho, é o dia consagrado à Beata Nhá Chica (Francisca de Paula de Jesus), gloriosa filha daquela terra. Um duplo padroado, comemorado em dias subsequentes!

Santo Antônio de Pádua é o santo mais popular do catolicismo no Brasil. Seu dom extraordinário de missionário pregador, cultura de largo alcance, a humildade imensa e os milagres incontestes e inumeráveis, levando-o a uma canonização quase imediata ao falecimento, transformaram-no num modelo de santidade e sabedoria. Em torno de Santo Antônio um rico folclore se edificou. Para saber mais leia a postagem lincada abaixo:


Programa da Festa de Santo Antônio.
Impresso em papel-jornal, 21,5 x 31,5cm.
Joaquim Murtinho (Congonhas/MG), 1992.
* Texto e fotos: Ulisses Passarelli
** Leia também: A PRIMEIRA FESTA DE SANTO ANTÔNIO


quarta-feira, 11 de junho de 2014

O folclore dos dentes - parte 2

Troca da dentição

A substituição dos dentes decíduos (dentes de leite) pelos permanentes é uma fase natural do desenvolvimento da dentição humana, que merece muita atenção da população. Tenho visto mães que pegam os dentes de leite de seus filhos e encastoam em metal para confecção de pingentes, presos por correntinhas ao pescoço à guisa de amuleto ou mera lembrança da infância. Outras tratam a troca de dentição com um ritual de arremesso.

Consiste em pegar o dente decíduo extraído ou naturalmente esfoliado e jogá-lo sobre o telhado da casa, com o cuidado fundamental de atirá-lo por sobre o ombro, sem olhar para trás, para não ver onde cairá. 

No ato do arremesso enuncia-se em voz alta uma fórmula versificada, que em folclorística classifica-se como um ensalmo. Um dos mais difundidos no Brasil é o seguinte: 

"Mourão, mourão:
toma teu dente podre,
dê cá o meu são."

Há muitas variações destes versos. Na visão popular o ritual garante a erupção de um dente permanente sadio. Câmara Cascudo diz que "a tradição nos veio de Portugal, onde existe, com muitas variantes na fórmula, mas imutável no sentido." Forneceu a bibliografia portuguesa sobre o assunto. Eduardo Campos transcreveu exemplos portugueses deste ensalmo: 

"Telhado, telhadão:
toma lá meu dente podre
e dê cá o meu são."
(Alentejo)

"Palheirinha, palheirão:
tome lá este dente podre
e dê cá um são."
(Vale-do-Lobo e Idanha-a-Nova)

"Cinza, cinzão:
toma lá este dente podre
dá cá um são."
(Castelo Branco)

Em Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais anotei esta versão (1988): 

"Andorinha, andorinhão:
toma lá este dente podre
e me dá um dente são."

Em Santa Cruz de Minas, no centro-sul do estado a versão que conheci é a seguinte (1994):

"Telhado, telhado: 
toma meu dente podre,
me dá um dente são."

Em São João del-Rei igualmente, ou sob a forma variante, "Telhadinho, telhadão"

Há notícias de tal costume no Brasil já no século XIX (*). 

Outra forma ritual anotei-a em Santa Cruz de Minas e se distingue das demais no detalhe de o dente de leite arrancado ser metido num pedaço de pão ou de angu e assim jogado a um cachorro, que o devora sob o recitativo da seguinte fórmula:

"Cão, cão:
toma este dente podre,
me dá um dente são." 

Analisando a tradição, Câmara Cascudo esclareceu que o cuidado de não olhar para trás é um vestígio cerimonial das iniciações gregas. Mostrou sua difusão e completou que neste processo de transferência de moléstia ao dente de leite, não se deve olhar onde o mesmo caiu, sob pena de nascer outro defeituoso, pois há crença de que a desobediência a este preceito "reconduz os poderes maléficos quem pretendera abandonar". 

Lembrou ainda sobre a citação ao mourão numa das fórmulas: "Mourão é a pedra que divide do lume a pilheira, onde estão as cinzas. Prende-se ao culto larário e à sugestão de objetos sólidos, compactos, inabaláveis."

Dentro desta linha de pensamento, por analogias e associações, quem carrega consigo uma semente de mucunã ou olho de boi (Mucuna urens), terá boa dentição, porque a semente é rija. Um dente de jacaré, a pinça de um pitu, o ferrão de uma aranha-caranguejeira ou um dente de cachorro levados dentro de saquinhos pendurados ao pescoço ou presos a cordões, colares de caroços de azeitona, possibilitam a quem os carrega ter dentes fortes, duros, bem brancos e assim dão para as crianças levarem, para os novos dentes saírem sadios. Em São João del-Rei a receita prevista é carregar uma fava de Santo Inácio (Schizolobium parahyba)

Dentes no cocar de um congadeiro da guarda de caboblos "Divino Espírito Santo",
do Bairro Nova Cintra, Belo Horizonte/MG. 

Referências Bibliográficas

CAMPOS, Eduardo. Folclore do Nordeste. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1960. 183.p.
CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa do catimbó e notas de magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.
PAIVA, Melquíades Pinto, CAMPOS, Eduardo. Fauna do Nordeste do Brasil: conhecimento científico e popular. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1995. 274p. 
STUDART, Guilherme.  Usos e superstições. In: SERAINE, Florival. Antologia do Folclore Cearense. 2.ed. Fortaleza: UFC, 1983. 356p. 


Notas e Créditos

* Anotado no Pará em 1889. Conferir em: NERY, Frederico José de Sant'Anna. Folclore Brasileiro. 2.ed. Recife: FUNDAJ/Massangana, 1992. 235p.il. p.72. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Foto: Iago C.S. Passarelli, 27/04/2014. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Véspera de Pentecostes em São João del-Rei

Neste sábado em São João del-Rei, véspera de Pentecostes, Matosinhos compartilhou com o Centro Histórico uma parte de seu grande jubileu em honra ao Divino Espírito Santo. A Procissão de Santo Antônio, o Imperador Perpétuo, ganhou as ruas desde a monumental Igreja de São Francisco de Assis, e com muita alegria, de mãos dadas com a fé, desceu até o Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 

O novo itinerário embora contrarie o aspecto histórico (até o ano passado era via Matola), evidencia a beleza arquitetônica que justamente faz a cidade afamada. 

Com seus cavaleiros na dianteira e alas de bandeireiros, o vermelho é a cor marcante deste cortejo religioso. Entre as alas vem as Folias do Divino, este grupo que neste dia encerra seu giro anual de visita às casas. Descem cantando até Matosinhos, intercalando as participações entre si e a banda de música. 

A beleza da procissão é evidente e comentá-la chega a ser redundante. O Imperador Perpétuo segue numa liteira senhorial, dando um ar inusitado ao cortejo. Na passagem pela Gruta do Divino, uma calorosa recepção se concretiza e o padre dá sua bênção salutar. 

Em Matosinhos, a chegada triunfal se completa com o santo sacrifício da missa, da qual participam ativamente as folias nos cânticos, cada uma se responsabilizando por uma parte. No coreto da festa, após a celebração e lanche dos folieiros, se apresentou cada um dos nove grupos presentes, a saber: seis de São João del-Rei (Colônia José Teodoro, Guarda-mor, Bom Pastor, Águas Férreas, Rua São João e Jardim São José) e três visitantes _ Arame (Lagoa Dourada), Coqueiros (Nazareno) e César de Pina (Tiradentes). 

Na Rua Getúlio Vargas, antiga Rua Direita, as casas se enfeitam para a passagem
da Procissão do Imperador Perpétuo.
Da Igreja de São Francisco de Assis parte a Procissão do Imperador Perpétuo,
acompanhada pelas Folias do Divino entre alas de bandeiras vermelhas.

A Banda Municipal Santa Cecília, sob a batuta de José Antônio da Costa
é uma presença querida e reveladora de grande capacidade musical.

A corte do Imperador antecede a liteira, em travessia da antiga Rua da Prata.

No Centro Histórico a Folia das Mulheres vem na frente da procissão.
Membros da Comissão do Divino e o pároco de Matosinhos,
Padre José Bittar, diante da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

No crepúsculo os cavaleiros de vanguarda contemplam o majestoso templo do Carmo. 

Na Gruta do Divino a comunidade recepciona a Procissão do Imperador Perpétuo. 
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 07/06/2014
*** Veja também: 


Cenas Pentecostais: o Dia Maior em 2014

O tradicional Jubileu do Divino concluiu-se com êxito neste Domingo de Pentecostes, dia 08 de junho do corrente, firmando-se na fé, na musicalidade, na alegria cheia de colorido. A grande Festa do Divino mais uma vez congregou dançantes de vários grupos do município, das circunvizinhanças e de mais além dos limites dos Campos das Vertentes, graças à devoção ao Paráclito. 

Depois da novena e muitos eventos prévios, o domingo, coroado por um tempo esplêndido, se revestiu de um universo de ritmos, melodias laudatórias e cores esvoaçantes, tudo em louvor ao Espírito Santo. Edmilson deixou a Santa Coroa para Dácio e com isto a irmandade dos imperadores ganhou mais um membro. Seja bem vindo e tenha um feliz império!

Veja alguns detalhes deste ano nas fotografias abaixo, difíceis de selecionar ante tantas imagens bonitas que o evento oferece. 

Debaixo da umbela, na porta do santuário diocesano, 
o Imperador Coroado Edmilson Washington da Silva, cingido de faixa, 
ladeado pelo Imperador Eleito, Dácio Sebastião de Carvalho
 e pelos guarda-coroa com espadas, recepcionam os grupos visitantes, 
entregam lembranças artesanais e são saudados pelos congadeiros. 

        
Irmãos do Santíssimo Sacramento da paróquia 
e membros da Comissão do Divino com o estandarte e guiões 
abrem o Cortejo Imperial, seguidos imediatamente pelo congado do bairro. 

Debaixo de forte sol o povo se aglomera para ver a chegada do Cortejo Imperial. 
No momento retratado o moçambique são-joanense do Solar da Serra faz sua entrada.

Pela primeira vez presentes, congadeiros de Itatiaiuçu 
dançam o catupé na chegada ao santuário.

Com muito entusiasmo e elegância, o Reinado do Rosário faz sua entrada: 
Reis, Rainhas, Príncipes e Princesas são convidados especiais do Imperador do Divino
 para se irmanarem na grande festa ao Paráclito. 

Uma evolução dos Marujos do Capitão Ganair, 
de Conselheiro Lafaiete, presença tradicional no jubileu.

Gungas de Passa Tempo, 
choram na ingoma as tristes lembranças do cativeiro... 

Imperadores de vários anos assistem a Missa Solene. 

O novo Imperador, Sr.Dácio, coroado pelo Bispo Diocesano,
 Dom Célio de Oliveira Goulart.

A vanguarda da grande e solene Procissão do Divino, 
que lota as vias principais do bairro-cidade. 

Notas e Créditos 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 08/06/2014.
*** Veja também: VÉSPERA DE PENTECOSTES EM SÃO JOÃO DEL-REI

sábado, 7 de junho de 2014

Quadrinhas de amor - parte 1

Com esta série de quadras poéticas populares e anônimas, o blog inicia a difusão de uma extensa coletânea ligada ao refraneiro folclórico. Arrancadas da memória colossal da gentil informante, deve esta coleção o seu sucesso aos esforços da filha da mesma, Cida Salles, em contribuir para a riqueza da coleção, que ainda terá outras edições postadas. 

As quadrinhas aqui selecionadas falam do amor. A linguagem é muito distante da atual e acaba muitas vezes envolvendo o uso de flores, lenços, cartas e outros artefatos em ocaso nas relações amorosas. Muitas são difundidas e conhecem-se variantes por vezes em terras distantes, como Bahia ou Rio Grande do Norte, criando uma incógnita ao pesquisador. Cada uma delas é independente das demais. Tem vida própria, livre. Desvinculadas de outro contexto ou encadeamento estrófico, bastam por si, pelo preenchimento funcional de seu objetivo explícito e implícito. 

O modelo português da poesia é inegável e não admiraria se alguém demonstrasse que várias delas vieram da Península Ibérica. Feita aqui ou lá, naturalmente tem uma autoria, porém, a repetição de boca em boca, ano a ano, omitiu o autor e chegou-nos de domínio público. 

Algumas vezes são usados "versos-feitos", que surgem em várias quadras, mas com arremates diferentes, como: "Alecrim na beira d'água" , "Borboleta pintadinha", etc. 

Na prática, essa poesia singela era usada para manifestar amor ou interesse em namoro, escritas em bilhetes, cartinhas, recitadas em ocasiões propícias de festas onde moços e moças se encontravam e no intervalo da música instrumental surgia a oportunidade, voltando os instrumentos a irromper imediatamente ao recitativo. 

Passemos em breve revista a primeira parte do mostruário dessa forma pitoresca de manifestar o carinho, com cinquenta exemplares. 

*  *  *

Vou plantar um alecrim
Jurei sol, jurei lua,
Na linha de Deus, amém!
Jurei Estrela do Norte,
Se esse alecrim pegar
Jurei te amar, menino,
Nosso amor pega também.
até a hora da minha morte.


Alecrim na beira d’água
Enquanto o limão adoçar,
Chora a terra que nasceu,
Enquanto o açúcar amargar,
Eu também vivo chorando
Quando Deus descer a Terra
Um amor que já foi meu.
Deixarei de te amar.


Alecrim na beira d’água
Travessei o mar a nado
Pode estar quarenta dia,
No fundo de uma bacia,
Eu longe do meu amor
Fui riscando[1] minha vida,
Não posso estar nenhum dia.
Pro seu respeito, Maria...


No tempo que eu te amei
Eu queria ser uma formiga,
Não amava mais ninguém;
Daquelas que fura o chão,
Amava noventa e nove
Queria furar seu peito
Com você inteirou cem...
Para ver seu coração.


O tempo que eu te amei
Borboleta pintadinha,
Foi um tempo desperdiçado:
Encosta o peito no meu;
Se eu amasse um canarinho
Desengana esse rapaz
Era mais aproveitado.
Quem namora[2] ele sou eu.


Borboleta pintadinha,
Borboleta pintadinha,
Que entrou pro mar adentro,
Pinta aqui, pinta acolá;
Eu me chamo vira-folha
Pinta a casa do meu sogro
Quem me ama perde tempo.
Que domingo eu vou lá [3].


Cravo branco na janela
Menina acha esse lenço
É sinal de casamento;
E não conta quem te deu.
Tira o branco, põe o roxo,
No lenço vai um retrato,
Pra casar tem muito tempo.
Atrás do lenço vou eu.


Menino toma esse lenço
Menino do terno preto,
Partido em quatro pedaços,
Com lenço, paletó,
Quando abrir esse lenço,
Se você gosta de mim,
Tem um beijo e um abraço.
Tenha pena tenha dó.


Sá Moreninha,
Moreno lindo,
Seu lenço caiu,
Com lenço no pescoço,
No meio de tanta gente,
Se você gosta de mim,
Eu apanhei você não viu.
Deixa eu beijar seu rosto.


Não quero a sua camisa,
Abre a porta do jardim
Nem o seu botão do peito,
Quero apanhar uma rosa,
Quero só que vós me dê
Três brancas, três amarelas,
Sua linda mão direita.
E quatro encarnada formosa[4].


Meu amor vestiu de preto
O funcho é vencimento,
Para me fazer pirraça,
Eu já me acho vencida.
O preto pra mim é luxo,
Não tome amor com outra,
O branco pra mim é graça.
Que eu por ti já fui nascida.


O sol prometeu à lua
Seus olhos bem pretinhos,
Uma fita e dois laço;
Que brilham à luz do luar,
Eu prometo a você
São dois assassinos
Um beijo e um abraço.
Que me matam devagar.


O sol vai dobrando,
A rosa branca espalha,
Vermelhinho como fogo,
Perfume por toda cidade,
Eu ainda tenho esperança,
Você longe de mim,
De chamar seu pai de sogro.
Só espalha saudade.


Vou mandar fazer um barquinho
A folha da bananeira,
Todo cheinho de rosa,
De tão verde amarelou,
Para passear com você,
A boca do meu amor,
No meio das invejosas.
De tão doce açucarou.


Se você me ama de verdade
Sei que você gosta de mim,
Me diga por favor,
Embora diga que não,
Pois idade não importa,
A boca nem sempre diz,
O que importa é o amor.
O que sente o coração.


Menina se tu soubesse
Menina, minha menina,
Como eu te tenho amor,
Quem te fez tão bonitinha?
Tu caía em meus braços,
Foi o sol, foi a lua,
Como o sereno caiu na flor[5].
As estrelas miudinha...


Da roseira nasce espinho,
O suspiro mais a saudade,
E nasce também a flor;
São os dois amor que eu tenho;
Do seu orgulho, carinho,
O suspiro é quando eu vou,
Do seu desprezo a dor.
A saudade é quando eu venho.


Tanto tempo eu procurei,
Não quero sentir na vida,
Alguém que soubesse amar,
A dor que um dia passei.
Pois em você encontrei
Por isso sigo sozinha,
Tudo que estive a procurar.
Não levo aquele que amei.


Do céu caiu um cravo,
Sonho com a esperança,
No chão nasceu um jardim,
Do dia de você chegar.
Bendita seja sua mãe,
Sonhando com novas flores
Que criou você pra mim.
Novos amores devo encontrar.


Fui no livro do destino
Menino da boca doce,
Minha sorte procurar,
Lábios de porcelana,
Em suas páginas encontrei,
Um beijo de sua boca,
Que nasci pra te amar.
Me sustenta uma semana.


Meu grande amor é você,
Eu queria ser a rola,
Isso não posso negar,
A rolinha do sertão,
Pois quanto mais eu te beijo
Queria fazer um ninho
Mais eu quero beijar.
Dentro do seu coração.


Voa passarinho
Nem todo menino é moço,
Não me venha aborrecer,
Nem toda lágrima é dor,
Não me venha trazer notícias
Nem todo sorriso é alegria,
De quem eu quero esquecer.
Nem todo beijo é amor.  


Queria ser uma flor,
Se o meu coração partisse,
Para viver no deserto,
Eu te dava um pedacinho,
Eu amo você de longe,
Mas como ele não parte,
Porque não posso amar de perto.
Te dou ele inteirinho.


Tu disseste que sou culpada
Roseira que dá rosa,
De querer-te para mim,
Craveiro me dá um botão,
Culpados são seus pais,
Amor, me dá um beijo,
Que o fizeram lindo assim.
Que eu te dou meu coração.


A primeira vez que te vi,
Sei que você gosta de mim,
Meu primeiro olhar lancei
Embora diga que não.
E fez nascer um amor
A boca nem sempre diz,
E por ti me apaixonei.
O que senti o coração.




[1] - Riscando: traçando o destino. Pode também possivelmente ser uma alteração: arriscando.
[2] - Namora: uma versão idêntica diz: “quem fica com ele é eu”, denotando uma linguagem mais recente, “ficar”, trocar carícias sem qualquer compromisso de repetição, continuidade.
[3] - Variante do último verso, da mesma informante: “que eu quero mudar pra lá.”
[4] - Ouvi uma variante dessa quadra cantada pelo Mestre José dos Santos Correia (1996), como parte do repertório do boi-de-Reis (bumba-meu-boi) da Vila de Ponta Negra (Natal-RN): “Menina que estais na horta – bis / ai, ai, meu bem! / Me venda um vintém de rosa! / Três brancas, três amarelas - bis / cabocla bonita! / Três encarnada cheirosa...”
[5] - Quadrinha difundida, da qual existem ligeiras variantes. 


* Texto: Ulisses Passarelli

** Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1994-1997
*** Agradecimentos especiais a Cida Salles, pela inestimável ajuda na coleta das quadras.