Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 30 de maio de 2014

Desgraça pelada

Este título execrável mas fiel à tradição popular, refere-se a um ser mitológico, de aparência horrenda, não fazendo outro mal senão o choque emocional de vê-lo. A lição pela visão; o aviso sobrenatural da necessidade de se mudar um comportamento ignóbil.

Aparece aos que xingam muito por algo de pouca importância, queixando-se repetitivamente da vida: “isto é uma desgraça!”. É um contraponto aos que positivamente dizem por qualquer coisa: "graças a Deus!". Por isto, as senhoras devotas repreendem quem usa esta expressão maldita. 

A forma de aparição, ainda recordo claramente de tê-la ouvido descrita na adolescência, de minha bisavó materna, Luíza dos Santos: surge com aspecto de uma mulher magérrima, seca mesmo, altíssima, vestida de branco, de faces lanhadas por rugas e marcadas por um olhar sombrio, desprovido de vitalidade (*). Um dos lugares de sua eventual aparição era o pontilhão que ladeava a atual Gruta do Divino em São João del-Rei, na saída da “Linha do Sertão” da estação ferroviária. Lamentavelmente o pontilhão foi demolido, os trilhos retirados. Nos seus lugares construíram-se, respectivamente, a Ponte Padre Tortoriello (fim da Rua Antônio Rocha) e um calçadão (da Avenida Leite de Castro). O assombro sumiu com a modernidade. 

A segunda forma de aparição, anotei-a de um fazendeiro das redondezas do Rio do Peixe, imediações de São Tiago, dizendo tê-la visto na parada do Pessegueiro, na velha estrada de terra, quando esperava o ônibus. De longe tinha aparência normal, conquanto fosse soturna. Parecia uma mulher de verdade. Chegando junto dela, notou que não tinha rosto e na verdade, em seu lugar havia um buraco escuro. Então, desapareceu como fumaça no ar. 

É um mito educativo, que impõe medo para se regular a boa fala, evitando-se os palavrões e xingamentos hereges. 

Entre dois membros de terreiros de matriz religiosa africana, em Santa Cruz de Minas (2001), encontrei sua descrição como de um espírito de característica feminina, maligno, muito atrasado, desprovido de luz e doutrina, habitante dos lugares de imundície, como chiqueiros, valas de esgoto, depósitos de lixo. Diz que nos galinheiros gosta de comer fezes de galinha. Se compraz em fazer o mal, prejudicar pelo prazer de ver a infelicidade alheia. Se torna um encosto, que acompanha o indivíduo com muita obstinação, estragando sua vida. Sua força é infernal. Tem a esperteza de uma raposa, não sendo fácil ver-se livre dela quando escolhe sua vítima. Por vezes se gasta anos para esta obsessora cair numa armadilha que a aprisione ou afaste.

Em atitude de possessão, faz a pessoa assenhoreada rosnar, ranger os dentes, retorcer, descabelar-se. Dá tenebrosas gargalhadas e xinga muito. Seu olhar é medonho como de um cão raivoso. Os guias de luz, em respeito, chamam-lhe “aquela mulher”, evitando dizer seu nome, que como está explícito é tão triste que indica exclusão de qualquer graça de Deus, que é em última análise, a pior desgraça que pode acontecer.

Neste sentido, confluindo na lógica da cultura popular, o adjetivo "pelada" parece apontar simbolicamente para algo que se subentende desregrado, fora do padrão. Em Santa Cruz de Minas ouvia dizer do pinto pelado, uma assombração que surge aos incautos e pecadores, aparição demoníaca em forma de pequeno galináceo depenado (**). Noutro contexto, mas em significado que parece-me estar em paralelo, chamamos "pelada" ao futebol de improviso, partida esportiva na qual vale trocar de time, jogar sem juiz, não importa o tamanho do campo ou da bola, a largura do gol, etc. um futebol "sem regras", despido de regulamentos. 

Por fim é preciso lembrar que o povo, por razões ignotas, talvez pela toxicidade elevada, chama ainda de desgraça pelada a uma espécie de vegetal, que nasce sobre a poeira e lodo acumulado nas lajes das casas e telhados.

Desgraça pelada, planta crassulássea do gênero Kalanchoe,
 flagrada na cobertura de um residência em São João del-Rei.

* Um mito que se equipara em certa medida a esta aparência é a o da "Maria Engomada", que, segundo Saul Martins, é uma "aparição frequente no Sul de Minas, de mulher alta e magra, que estica e afina à medida que é reparada, sobretudo por crianças." In: Folclore em Minas Gerais. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Universitária / UFMG, 1991. 126p. p.29-30. 
** Sobre aparição fantasmagórica em forma de pinto, ver também a estória do Gaspar na postagem lincada a seguir: MAIS UM "CAUSO" DE PESCADOR
*** Texto e foto: Ulisses Passarelli 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Festa do Divino está começando!

Amanhã, tradicional Quinta-feira da Ascensão do Senhor(*), principia a Festa do Divino no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei. O evento inicial é a visita de um grupo de quatro caixeiros batendo seus tambores à casa do imperador. Após as saudações de praxe, são recepcionados com um lanche e na sequência conduzem o coroado até o santuário para a celebração das 19 horas. Ao fim desta, a imagem do Espírito Santo é descida de seu nicho e entronizada junto a do padroeiro, onde ficará até o fim dos festejos, na noite do Domingo de Pentecostes.

Out-door com divulgação das comemorações em São João del-Rei. 28/05/2014.

A Festa do Divino em Matosinhos tem características jubilares e é indubitavelmente o evento mais importante na região para a cultura popular, o que certamente representa uma grande responsabilidade para os festeiros, notadamente o presidente da Comissão do Divino e o imperador coroado, bem como ao clero, pela necessária concatenação de ações e metas. O equilíbrio, e não a sobreposição ou prevalência, dos aspectos religiosos e culturais foi que deu ao jubileu este status. Mexer nesta proporção pode ser temeroso para os caminhos da festa.

Chegada da procissão de Pentecostes no Santuário de Matosinhos, 19/05/2013.

De longa raiz setecentista, o evento atravessou mais de duzentos anos e não obstante o enfraquecimento durante as décadas intermediárias do século XX, ao fim daquela centúria foi reordenado e chegou-nos ainda com grande vigor, celebrando harmonicamente a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade com preces, missas, procissões e bênçãos do Santíssimo, aliadas a tambores congadeiros, violas de folias e mastros balançando ao vento. Poder-se-ia reproduzir a frase de um antigo jornal são-joanense que a mais de oitenta anos afirmou ser uma das nossas mais queridas festas.

"A Festa de Matosinhos é uma das nossas tradições mais caras. Neste ano ela será realizada com a pompa dos dias de antanho": mensagem do cabeçalho da primeira página do jornal Folha Nova, de São João del-Rei, edição nº10, de 08/05/1932. Acervo digital: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida

Esperamos que a festa transcorra com o maior êxito, atingindo seus objetivos de evangelização e valorização da cultura popular tradicional. Desejamos de modo especial um feliz império ao novo imperador. 

Para saber mais informações acesse: PROGRAMAÇÃO DA FESTA DO DIVINO 2014

* Infelizmente a Igreja transferiu as comemorações da ascensão para o domingo imediato. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotos: out-door e recorte jornalístico, Ulisses Passarelli; procissão, Iago C.S. Passarelli.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Programação da Festa do Divino 2014


Aproxima-se mais uma Festa do Divino, no Bairro Matosinhos. São João del-Rei acolhe com muito carinho este festejo com seu caráter regional, para cujo êxito depende não só dos paroquianos de Matosinhos mas igualmente de outros bairros, distritos e cidades convidadas. 

Em Pentecostes, a coroa este ano deixa o Imperador Sr. Edmilson Washington da Silva, coroado em 2013 e passa para o novo Imperador, Sr. Dácio Sebastião de Carvalho. Antes, porém, transcorrem diversos eventos preparatórios. 

Mastro de aviso.
Além do giro das folias do Divino às casas, que já começou e acontece sem alarde por vários bairros, acontece dia 29 do corrente uma visita de praxe à residência do imperador que ora detém a coroa, a partir das 17 horas. Os caixeiros farão ali sua saudação. De costume o grupo segue para o santuário, mas este ano foi introduzido como novidade uma sequência, na qual o grupo parte com o imperador e membros da comissão de festa até o Salão de São Sebastião, na Avenida Santos Dumont para novas homenagens. Dali o grupo seguirá em cortejo até o santuário, agora com o reforço do congado do lugar. Após a celebração será como de costume descida a imagem do Espírito Santo para o início da novena. 

Sexta-feira, dia 30 de maio, inicia a novena do Espírito Santo, celebrada no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, às 19 horas. A cada dia estão previstas as participações de comunidades paroquiais, movimentos, pastorais e grupos convidados, em parte reformulando o esquema das romarias. O levantamento dos mastros acontece no primeiro dia da novena, com congados locais, após as celebrações. 

A Cavalgada do Divino está marcada para as 09 horas da manhã do domingo, 01 de junho, e pela primeira vez não parte do santuário e está sob nova coordenação. Ela vem do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno e termina no Campo do Siderúrgico (Avenida Santos Dumont). 

O sábado seguinte, 07 de junho, é a vez da Procissão do Imperador Perpétuo, também inovando com um horário mais cedo (16h e 30min) e abandona o itinerário tradicional do Matola para circular pelo centro histórico, acompanhada em parte pela Banda de Música Municipal Santa Cecília, sob a competente batuta de José Antônio da Costa, e no todo pelas folias do Divino, que após as celebrações noturnas farão o típico encontro no coreto. 

Coreto ainda em fase de montagem.
Ao contrário de anos anteriores não se vê na programação previsão de shows para o período em questão, apenas um show de encerramento do jubileu, no estilo evangelizador. 

A programação do dia maior está resumida na tabela abaixo, tendo como novidade o deslocamento do reinado da Vila Santo Antônio para o Jardim Paulo Campos e a saudação ao imperador na parte da manhã. 

6h
Alvorada festiva
7h
Missa festiva
8h
Chegada dos congados
9h 30 min
Missa das Crianças (Igreja de Santa Terezinha)
9h 40 min
Recolhimento do reinado seguido de saudação ao imperador
10h 30 min
Chamada dos reis, rainhas, príncipes e princesas (no santuário)
13h
Saudação dos congadeiros a N.S.do Rosário (Igreja de Santa Terezinha)
14h
Cortejo imperial (da Santa Terezinha ao santuário)
16h
Missa Solene seguida de coroação do novo imperador
17h
Procissão solene seguida de bênção do Santíssimo Sacramento
20h
Descida dos mastros e despedidas dos congadeiros. A seguir, show de encerramento.

O adro foi adaptado para as novas exigências de segurança com abertura de mais um grande portão (corrediço) na lateral da praça. O coreto está montado, bem como as barracas. O mastro de aviso sinaliza as datas do jubileu. Pentecostes aproxima-se. Festa da alegria. É o momento da confraternização comunitária e da comunhão pascal com o sagrado. 

Notas e Créditos

* Texto e fotos (11/05/2014): Ulisses Passarelli

domingo, 25 de maio de 2014

Festa na Candonga

Os eventos culturais nas Vertentes não param. Numa grande efervescência eles acontecem em vários municípios. Neste domingo, 25 de maio, se destacou pela autenticidade dentro de uma programação simples mas plena em sua base comunitária, no povoado da Candonga (Tiradentes/MG), a festa da padroeira, Nossa Senhora Auxiliadora. 

Largo em festa: a capela aberta e iluminada recebe os fiéis e repica o sino; a barraca prepara delícias; a gruta recém-construída aguarda bênção; congadeiros acompanham a procissão com seu batuque e cantoria. 
Na Candonga é digno de registro que por fim se concretizou um anseio de dez anos: a construção de uma gruta em honra a São Miguel Arcanjo, que foi possível graças aos esforços comunitários e a ajuda do poder público municipal. Mas é de se destacar com justiça o nome de Luís Pereira dos Santos, que movido por uma fé viva no Arcanjo Sagrado, a muito vem lutando por esta realização. 

Detalhe da bênção da gruta. 
Houve uma missa festiva na capela às 14 horas, seguida de procissão com os andores de Nossa Senhora Auxiliadora e de São Miguel, até a entrada da Cachoeira do Bom Despacho, bem defronte à Serra de São José. Foi acompanhada pelos congados de Santa Cruz de Minas (catupé) e do Solar da Serra - moçambique (Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei), além de um grupo são-joanense de percussão e inculturação.

A procissão beira a Serra de São José através da Estrada Real. 
No retorno foi dada benção inaugural a uma guarita de parada de ônibus e à gruta, com entronização da imagem de São Miguel, em meio a alguns fogos de artifício. Chegando à capela, ocorreu a benção aos fiéis e o citado sr. Luís, em companhia de seu irmão Marcos, festeiros do lugar, distribuiu rosários de confecção artesanal aos capitães de congado, colaboradores e autoridades, um agrado de reconhecimento e gratidão. 

Os irmãos Marcos e Luís presenteiam o Capitão de Congado Luthéro Castorino com um terço.
O capitão sr. Luthero Castorino, Presidente da Associação dos Agentes Culturais das Vertentes, que congrega regionalmente os congados e folias, tomando a palavra, manifestou as conquistas dessa associação, conseguidas de forma gradativa graças à persistência, trabalho e apoio. 

O congado do Solar da Serra ainda se apresentou por tempo considerável, na capela, na gruta e no largo e depois seguiu ao lanche preparado com especial carinho, a saber, feijão amigo, refrigerante, pão com carne moída e molho, bolinho de feijão. 

Depois foi agradecer e partir. Mas o povo permaneceu em burburinho no movimento da barraca de comes e bebes e víspora, grande alegria das festas tradicionais. 

A nova gruta é uma semente plantada que almeja crescer em forma de irmandade e de um novo congado para o lugar. Oxalá se concretize.


Notas e Créditos

* Texto e fotos (2014): Ulisses Passarelli

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sabão de Bola

O sabão de bola ou sabão-preto é um produto manufaturado, artesanal, feito em grandes tachos ou panelões que fervem continuamente mexidos por longas colheres de pau . 

A matéria-prima básica é gordura de origem animal (sebo) ou vegetal (abacate), levando uma porção de "dicuada", assim chamada a cinza coada através de um pano sob a passagem de água ou despejada e diluída num balaio revestido de folhas verdes de bananeira, amparando-se o produto num vasilhame. Alguns produtores incluem ramos de mané-turé (o mesmo que isopo) para o sabão espumar mais ao ser usado. Eis a receita típica. Uma variante mais recente recicla óleo de cozinha usado e inclui soda cáustica. Neste caso só pode ser usado para limpeza de vasilhas na pia, impossibilitado o uso para banho. 

Quando a receita está pronta alguns produtores despejam o sabão ainda derretido em formas produzindo barras ou tabletes, mas a tradição ensina que à temperatura adequada, se enrola manualmente em porções em forma de bola, do tamanho de uma laranja. Via de regra é envolto em palha de bananeira, apresentação como chega ao mercado. 

A técnica é mantida desde o tempo do trabalho servil. Ainda que grosseiro e sem perfume tem grande procura para o banho, pois se acredita no seu poder de descarrego de males espirituais e na capacidade de limpeza da pele, removendo manchas, alergias, brotoejas, perebas, feridas, impingem, seborreia, caspas. 

Conhecido em toda região, teve contudo sua produção tão acentuada em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, distrito de São João del-Rei, que emprestou seu nome aos seus moradores como alcunha. Quem nasce no Rio das Mortes é então cognominado “sabão de bola”...

Fogão usado na fabricação caseira de sabão. Passa Tempo/MG, 21/10/2013. 

Uma gamela contendo sabão de bola. Caquende (São João del-Rei/MG), 04/05/2014. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: fogão: Ulisses Passarelli; sabão: Iago C.S. Passarelli
*** Para saber mais leia: INDÚSTRIA CASEIRA

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cruz de Maio

A cruz é o maior símbolo do cristianismo. Historicamente a catequese dos conquistados se construiu sob sua égide. Não é de admirar que os reflexos devocionais impregnassem a alma popular. Assim é que o povo fiel ao passar diante de um cruzeiro o saúda persignando-se, pedindo licença, cantando, rezando. Em Santa Cruz de Minas (*), por exemplo, ouvi este apelo sincero: 

"Deus te salve, Santa Cruz, 
oi, livras e fugidas, 
valei-me, Nossa Senhora, 
a Santa Mãe de Cristo."

O sentido da saudação é que a cruz como símbolo cristão, livre o devoto dos males, afugentando as forças contrárias. Os capitães de congados sempre saúdam um cruzeiro ao passar com sua guarda em forma, diante deles, valendo uma parada: 

"Deus te salve, Santa Cruz, 
neste campo tão sereno,
onde mora Jesus Cristo,
Bom Jesus de Nazareno."

Em São João del-Rei, assim cantava o Capitão José Camilo, enquanto Luís Santana se saía com a seguinte variante: 

"Deus te salve, Cruz Santa, 
ai, neste campo sereno!
onde mora Jesus Cristo,
filho de Deus Verdadeiro!"

Porém a quadra mais bela na composição poética e de maior expressividade religiosa ouvimos de "Zé Carreiro", conhecido capitão de congado de Coronel Xavier Chaves

"Deus te salve, Santa Cruz, 
ai, com seus braços abertos!
Perdoai os nossos pecados, 
aqueles mais encobertos..."

Maio é o mês da Santa Cruz. Outrora o dia 03 era muito festejado. O povo enfeitava as pequenas cruzes de fachada e os grandes cruzeiros. Nestes, reunida a comunidade, rezavam o terço, cantavam hinos e benditos e a seguir _ quem sabe? _ acontecia uma festa singela, com comes e bebes, fogueira (a primeira do ano), cantorias ao som da viola, danças rurais (catira, cana-verde, rodinha, quimbete, caxambu). A Festa da Santa Cruz prenunciava o ciclo de festejos juninos, ou mesmo o abria. 

Com o passar dos anos este festejo esmaeceu e quase não se pratica mais. Mas ainda vemos daqui e dali seus vestígios ou pequenas festas, sem o brilho de antanho, mas ainda fiéis ao costume, sobretudo no carinhoso gesto de adornar as cruzes com flores e papel picado, em cordões de bandeirinhas e rabiolas. Em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Terra de Nhá Chica, distrito de São João del-Rei, estes enfeites são especialmente notórios e o povo mantém as rezas de maio, não apenas no dia 03. Confira nas fotos seguintes alguns enfeites de cruzes.

Cruz de Fachada, fixada numa porta de residência de São João del-Rei, 04/05/2014. 
Cruzeiro enfeitado, Atalho, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.

Cruzeiro enfeitado, praça central de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.

Cruzeiro enfeitado,Trabanda (**) - Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.
Cruz de Beira de Caminho, Estrada do Cascalho, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.

Cruz de Beira de Caminho, Estrada das Águas Santas, Tiradentes, 18/05/2014.

Notas e Créditos

* Informante: Elvira Andrade de Salles, 1998.
** Trabanda: comunidade no distrito do Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, zona rural de São João del-Rei, localizada na outra banda do Córrego das Pombas, ou seja, na margem oposta à vila que sedia o distrito, daí a corruptela popular: "Trabanda", ou seja, "do lado de lá..."
***Texto e fotos: Ulisses Passarelli

terça-feira, 20 de maio de 2014

Ser Imperador

No ano anterior escrevi sobre os imperadores da Festa do Divino quanto ao aspecto histórico, pincelando algumas informações acerca da escolha e coroação. No informativo do jubileu de 2013, este texto pode ser lido pelos que se interessarem nestas informações.

Mas ora focalizo outra vertente, bem mais intrínseca e difícil de explanar, ligada à idealização do que se espera de um Imperador do Divino. Sou suspeito para falar e eu mesmo não sei se sou ou fui o que escreverei, mas colocarei o que penso que todos os imperadores devessem se esforçar para ser.

É preciso entender que o imperador representa na festa do Espírito Santo um personagem muito tradicional, que concentra em si todo o simbolismo da cultura popular acerca do sagrado em relação a esta festa. Sua figura é muito respeitada e se torna o festeiro de honra, o representante maior da comissão de festejos nos eventos sociais e religiosos ao longo de todo o ano. Se o presidente é na atualidade a figura maior na estrutura administrativa do Jubileu do Divino, o imperador é o elemento exponencial na estrutura simbólica, festiva e cultural.

Isto impõe à Comissão Organizadora uma grande responsabilidade na escolha do próximo imperador a cada ano. É preciso escolher com plena maturidade, senso crítico, isenção de questões pessoais. Uma escolha eventualmente mal sucedida pode ser desastrosa, até porque o imperador perde a coroa, mas não perde o império ante o novo coroado; em outras palavras, segundo entendimento geral dos festeiros, não existe ex-imperador, mas imperador de 1998, de 1999, de 2000... etc.

Os possíveis candidatos devem ser analisados sob um crivo de comportamento, dedicação, empenho, responsabilidade, apego à causa, trabalho prestado à festa, espírito de cooperação. Logo se vê que o ato de ser imperador não deve ser encarado como uma aventura, um luxo ou um degrau social a se subir para ganhar visibilidade. É um compromisso vitalício, perene.

O grau de comprometimento com a programação festiva, com as reuniões ordinárias e extraordinárias, com as participações em outros eventos que a comissão organizadora é convidada e com a coordenação das atividades cotidianas exigidas para a difícil tarefa de organizar a festa, tudo enfim, deve ser intenso e vivenciado com fé. Por traz da capa de veludo, da gravata, dos aplausos e flash’s fotográficos existe o peso de uma grande responsabilidade.
Bispo Diocesano de São João del-Rei,
Dom Célio de Oliveira Goulart,
coroa o Imperador do Divino,
Edmilson Washington da Silva.

É preciso pontuar também a natureza específica dos festejos em São João del-Rei, que reúnem no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos um número considerável de grupos culturais, sobretudo congados e folias, com os quais o imperador deve exercer um papel de interlocução, fazendo o elo que diferencia por completo a presença deles, de mera apresentação para uma participação integrada. Desta forma, como o grande anfitrião, deve ter pleno respeito aos congadeiros e foliões, mesmo que não compartilhe de suas crenças e ritos.

Na outra ponta o imperador é o canal da maior importância para conservar o diálogo com o clero, transmitir e fazer cumprir as diretrizes eclesiásticas, sendo a Igreja a verdadeira Mãe da comemoração, que em síntese acontece em seu espaço físico e orientação espiritual. Nunca é demais lembrar que Pentecostes é uma data litúrgica das mais relevantes para o cristianismo e o Jubileu do Divino desde sempre é uma festa católica.

Defendo que a Comissão do Divino devesse estruturar um “Conselho dos Imperadores” como órgão consultivo, que poderia ser muito útil diante de questões as mais diversas e que reforçaria a coordenação da festa pelo compartilhamento de responsabilidades.  

O imperador é, portanto, o festeiro especial, aquele que acolhe e transmite, pondera e equilibra, recepciona e promove, dá o exemplo e arregaça as mangas para o trabalho, que se inteira da história da festa e da programação para seu próprio saber e para respaldo das entrevistas e perguntas de fiéis. Ser imperador é encarnar e incorporar o festeiro ideal, que age em irmandade, movido pela devoção, dando seu esforço voluntário pelo bem comum. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli, 20/05/2013
*** Texto escrito a pedido da Comissão do Divino. Publicado em: Informativo do Jubileu do Divino Espírito Santo, São João del-Rei, Paróquia de Matosinhos, n.17, jun./2014. 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Estações abandonadas

É com grande pesar que vemos ao longo do itinerário da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), alguns remanescentes arquitetônicos em lastimável estado de conservação. Não bastasse a injustificável paralisação das atividades e erradicação dos trilhos, com várias construções históricas demolidas, algumas ainda jazem em penúria à espera de ações capazes de recuperá-las, enquanto bem patrimonial. Este sucateamento é um desrespeito à história e ao papel  econômico-social das ferrovias no país e em nossa região, em especial. Bem se podia, a bem da memória, conservá-las e dar-lhes como monumento uma utilização prática para a comunidade, que seria em processo educacional, aliada da preservação. 

Existem muitas possibilidades a estudar. Uma vez restauradas estas velhas estações hoje depredadas, imundas, sujeitas à invasão, poderiam ser centros de artesanato, ou de memória, museu, biblioteca, espaço cultural para exposições, lançamento de livros, apresentações culturais, local de realização de palestras, cursos, ponto de reunião de associações comunitárias, aulas, cursos de capacitação e reciclagem, sede de instituições por comodato, etc, etc, etc, a se propor, a se pensar e planejar. Qualquer opção acima é melhor que a vista hoje, um quadro funéreo.

Neste sentido é mister lembrar os exemplos das estações de Ibituruna e Coqueiros (esta no município de Nazareno), antes na mesma situação deplorável, hoje restauradas e úteis. É o que esperamos das autoridades e gestores responsáveis por estes bens. Outros exemplos poderiam ser enumerados mas estes se mostram explícitos o suficiente para representar o quadro geral. 

Estação de César de Pina em abril de 1999...

... e em 18/05/2014, ainda mais degradada e já sem o telhado da plataforma. 
Estação de Nazareno em 1976 ...
... e em janeiro de 2014: lamentável abandono!
Estação de Nazareno, 26/01/2014. 
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: César de Pina, Ulisses Passarelli; Nazareno, 1976, David Passarelli; Nazareno, 2014, Iago C.S. Passarelli


domingo, 18 de maio de 2014

Charola

Dentre outras acepções, charola é um pequeno andor. Diz uma antiga quadrinha popular:


Charola e andores azuis. Capela de N.S. da Vitória,
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei/MG).
"Que santo é aquele, 
que vem na charola? 
É São Benedito 
e Nossa Senhora!” 
(domínio público)

Algumas charolas tomam formas específicas, como barcos (de São Pedro e N.S. dos Navegantes - padroeiros dos pescadores) e carrocerias de caminhão (de São Cristóvão - padroeiro dos motoristas).

Charola é também um antigo cortejo peditório trazendo a imagem do Senhor Bom Jesus sobre um pequenino andor, que rapazes carregavam pelas ruas pedindo esmolas para a Festa dos Passos. A este respeito existe uma notícia levantada por Antônio Gaio Sobrinho, informando o incidente de 1781, em São João del-Rei, quando o grupo foi atacado pelo Brigadeiro Francisco Joaquim Araújo Magalhães, que espatifou o andorzinho sob os pés e quebrando a imagem do Senhor dos Passos, levou-lhe a cabeça, sem a restituir, não obstante os protestos.  

A origem da charola seria decerto portuguesa. Em Portugal há as “alvíssaras”, que segundo Cascudo“são grupos de rapazes e moças que cantam versos em louvor da Ressurreição, indo à porta da igreja ou às casas dos amigos, recebendo amêndoas, passas e tremoços.” 

Na zona da mata mineira, microrregião de Viçosa ainda são praticadas as charolas de quaresma como se fossem folias dos Passos, onde foram referenciadas por Paniago e por Giovaninni Jr.

Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei.  São João del-Rei: Funrei, 2001. 128p. p.107.  
GIOVANINNI JÚNIOR, Oswaldo. Registro do Folclore da Zona da Mata. Juiz de Fora: Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina / FUNALFA, 2004. (Folder)
PANIAGO, Maria do Carmo Tafuri. O Folclore na Zona da Mata Mineira. Boletim da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, dez. / 1991. n.l4. 16p.il.


Notas e Créditos

* Texto e fotografia (2013): Ulisses Passarelli

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Na minha terra se fala assim - parte 4

Dar trela – dar confiança, permitir, consentir, oferecer liberdade.
Desbaratinado – desorientado, psicologicamente abalado.
Descanelado – de pernas compridas, pernalta.
Despinguelado – infrene, veloz, sem controle.
Déu em déu – sem rumo, perdido na vida, sem moradia ou ocupação fixa.
Embananado – complicado, embaraçado, enrolado.
Embatumado – de consistência densa. Pesada, grosseiro.
Embodocado – em má postura, curvado, em posição apertada.
Embuchar – encher o bucho, comer muito, empanturrar-se, alimentar em demasia.
Empandongado – o mesmo que embodocado.
Empipocado – munido de erupções cutâneas vesiculosas, brotoejas, superfície irregular.
Encarangado – encolhido de frio, de movimentos letárgicos.
Encher o pandu – comer além do necessário.
Encorujado – o mesmo que encarangado. Alusão ao aspecto da coruja empoleirada.
Encroado – que não se desenvolveu adequadamente. “Bolo incroado”: aquele que o fermento fez pouco efeito.
Entizicar – “intizicar”, encroar, ficar pequeno, não crescer, permanecer sem desenvolvimento.
Entregar os pontos – desistir, dar-se por derrotado, desanimar.
Escarcéu – confusão, briga, discussão, fuzarca.
Esmerilhar – usar abusivamente, correr muito. “Desceu o morro esmerilhando a bicicleta.”
Espanador da lua – pessoa muito alta e magra. “Pendão das almas”, “pau de virar tripa”, “bambu vestido” e “pinguela”, neste sentido, são expressões sinônimas.
Espírito de Porco – indivíduo perverso, maldoso, que comete erros propositais para o próprio benefício.
Estar com a cachorra – estar enraivecido, furioso, agitadíssimo.
Estar em papos de aranha – estar em apuros, em “maus lençóis”, em dificuldades.
Estar na barba do bode – o mesmo que o anterior.
Estoporar – sofrer um choque térmico, adquirir um resfriado forte e repentino.
Galinha – gíria chula e depreciativa aplicada a mulheres levianas.
Galo de São Roque – solteirão, homem maduro em idade que não casou[1].
Golpe do joão-sem-braço – trambique, falcatrua, negócio ilícito, criar uma situação para se tirar vantagem.
Jabiraca – mulher deselegante, que se veste com mau gosto, de andar trôpego, sem boa educação. Roceira, caipira.
João teimoso – pessoa muito teimosa. Turrão. Pessoa inflexível [2].
Judas – traidor. Chama-se a quem age com falsidade.
Jurupoca chiar – ou jurupoca piar: situação tensa, estressante, aflitiva, na iminência de um acontecimento. “Agora é que a jurupoca vai chiar”[3].
Ladainha – falação, falatório, conversa sem proveito, repetitiva.
Lambão – indivíduo sem preocupações com higiene. Serviço mal feito, sem acabamento: “pedreiro lambão”.
Lambiscar – comer a qualquer hora em pequenas quantidades, qualquer tipo de alimento. Comer petiscos em lugar do almoço.
Lambrequeira – sujeira, meleira, “borroqueira”. Lambusado.
Langanho – pedaço grande de um certo alimento. “Tirou um langanho de carne”.
Lapa – grande, de bom porte. “Pescou uma lapa d’uma traíra!”
Leitão – em sentido pejorativo, pessoa gorda. Obeso.
Lelé – doido, sem domínio completo das faculdades mentais.
Levado da breca – traquinas, sapeca.
Lisbano – muito próximo, quase tangenciando, não esbarrando por pouco. “Perdeu o freio da bicicleta e passou lisbano no poste.”
Muquirana – sovina, que tem usura. “Garrafinha”, “munheca de samambaia”.
Parrudo – forte, musculoso, de grande porte físico. “Armário”.
Queimar as pestanas – pensar muito, raciocinar bastante, se esforçar para achar a solução de um problema. O mesmo que “queimar a muringa”, “queimar a cachola”.
Quizumba – africanismo: confusão, tumulto, discussão, inimizade. “Arranjar quizumba”.
Rabo de arraia – gostoso, de sabor inusitado, delicioso. “O chouriço ficou rabo de arraia![4]
Renquém – de pouco valor, desqualificado. “Marido renquém.”
Roscofe – o mesmo que renquém. Que funciona mal [5].
Sangue de barata – quem não se abala com as vicissitudes. Pessoa insensível, que não se comove, que não se irrita mesmo provocado.
Santo do pau oco – quem se faz de bom, mas em verdade é mau. O que aparenta ser o que não é. Dissimulado[6].
Savajão – grosseiro, deselegante, abrutalhado.
Serviçama – muito serviço, trabalho excessivo.
Sobrou – caiu, despencou. “Subiu no abacateiro e sobrou do galho.”
Sujismundo – porcalhão, imundo, sem higiene pessoal, andrajoso.
Zureta – desorientado, de pensamento desgovernado.

Almoço da Festa do Divino: momento de confraternização e conversa descontraída.
Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG.

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli, 28/05/2012. 


[1] - Referência ao costume rural de consagrar desde pintinho um galo a São Roque, que é criado isolado do contato com galinhas de maneira vitalícia, permanecendo virgem. O costume garante a saúde do restante da criação. O galo só é substituído por outro em caso de morte e não pode ser usado como alimento, vendido, trocado ou doado.
[2] - Referência a um brinquedo: boneco de parte superior delgada e inferior larga e arredondada, que por mais que se tente deitá-lo, volta à posição vertical automaticamente em movimento de balanço.
[3] - Jurupoca ou jeripoca: peixe de couro de água doce, siluriforme, pimelodídeo, Hemisorubim platyrhynchos. De ordinário emite um chiado característico quando junto à superfície.
[4] - Rabo de arraia é também um golpe de capoeira.
[5] - Diz-se que é o nome aportuguesado de uma antiga marca de relógios de bolso, que tinham fama de funcionarem precariamente.
[6] - Alusão às imagens de santos feitas em madeira no período colonial, ocas, mas simulando maciças, em cujo interior se contrabandeava ou apenas escondia em casa, ouro, joias, pedras preciosas, para fugir à sanha de ladrões e da fiscalização. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Cava, lugar assombrado

Cava é um corte num morro ou barranco dando continuidade a uma estrada vicinal, não pavimentada, para evitar um desvio. Rasgada na terra a enxadão e picareta, é sempre rudimentar, esburacada, barrenta, deslizante.


Cava antiga e abandonada nas Três Praias, São João del-Rei. 
Atravessar uma cava exige cuidados nas preces pois é lugar fatídico.

Nas festas de roça, um congado só passa por uma cava depois de se benzer na entrada, com cantos, rezas e a coreografia de meia-lua. Do contrário, o grupo desafina a cantoria, rebenta couro de caixa, rompe corda de viola, o capitão esquece os versos, congadeiro desentende, tem dor de cabeça, canseira incontrolável, até desmaia.

Ficou afamado a mais de meio século o Capitão Barnabé, de um catupé do povoado da Cachoeira, distrito de Coronel Xavier Chaves. Dizem, que ele deixava uma mandinga preparada numa cava, por baixo de uma raiz da árvore do óleo-vermelho, que aflorava sobre a poeira. Seu alvo era o outro catupé do município, um congado do Bairro Tanque, hoje Vila Fátima. Quando o capitão supostamente rival passasse por ela, seria afetado (*). Corria estória que “Barnabé” era endiabrado e tinha parte com o capeta. Chegando numa porteira, pulava-a até mesmo estando de costas para ela, numa rapidez de admirar. Já do outro lado abria a porteira para seu congado passar. Para desviarem do trabalho bravo de Barnabé era preciso passar pelo campo afora, sem entrar na cava, saindo da estrada...

Nas estórias sobrenaturais é o lugar místico mais propício à aparição de espectros e acontecimentos estranhos. Nela  fazem feitiços perigosos. Se o sujeito não tiver anjo da guarda firme e não souber rezas fortes, não se dá bem.

É nas cavas que a montaria empaca misteriosamente... por mais que o cavaleiro fustigue o animal com o chicote ele se recusa a seguir adiante (porque está enxergando uma invisão, visagem, assombro: o espírito guardião da cava). A tropa ao passar por ela, pode se desorganizar, pela desorientação da égua madrinheira, que vai à frente; pode rebentar uma correia de sustentação de carga, ou os cargueiros começarem a brigar. O carro de bois trava, geme dobrado, sai fumaça no cocão, quebra canzil. A boiada estoura; o sensitivo passa mal... Cava é assim.


Notas e Créditos

* O capitão da guarda de Coronel Xavier Chaves no primeira metade do século XX era "Romualdo", depois substituído por "Carioca".

** Informantes: diversos, sobretudo saudosos capitães de congado de São João del-Rei: Altamiro Ponciano, José Camilo da Silva e Luís Santana.

*** Texto e foto (2003): Ulisses Passarelli

domingo, 11 de maio de 2014

Caboclo d'água

Muitas vezes temos lido e ouvido falar sobre o mito do caboclo d'água em referência ao Rio São Francisco, onde é muito conhecido e temido. É propalado, que as figuras de proa chamadas carrancas, são postas nas embarcações para afugentá-lo.

Engana-se porém aquele que o supõe exclusivo daquelas águas. Em vários locais do estado o mito é conhecido, a exemplo do sul de Minas (Rio Sapucaí), região central (Rio do Carmo) e no nosso Campo das Vertentes (Rio das Mortes).

É um ser mitológico das águas doces, que vive submerso. Vez por outra se deixa avistar numa margem, ou só mantém o busto para fora do líquido, em atitude de observação dos arredores; ou ainda, põe apenas a mão para fora, peluda, forte e munida de garras. Descrevem-no como uma criatura arredia, sorrateira e de grande força física. Tem a fisionomia marcante, medonha, de olhar profundo, sisudo. Seus gestos são rápidos. Sua tez lembra a dos índios, daí a referência a ser um caboclo. Em menor parcela alguns o chamam de "negro d'água".

Puxa canoas pelo bico da proa, fazendo-as afundar, ou pega a perna de banhistas incautos e os leva para as profundezas, donde jamais retornam.

Existem vários relatos de sua presença nesta região, sobretudo nas lagoas que existem entre Santa Cruz de Minas e Tiradentes, ou ainda, no rio, imediações das paragens do Sutil, Casa da Pedra, Jacarandá e Viturina. 

Populares destas duas cidades, dizem que ele seria o responsável pelos afogamentos repentinos, sem causa aparente, por vezes, de bons nadadores, que contudo, não resistem à sua tração para o fundo. Por isto não se deve nadar nos lugares onde já foi avistado ou ocorreram estes acidentes. Em qualquer local onde se entra na água, convém respeitar: "dá licença!", se diz ao tocar nas águas, respeitando seu dono, o misterioso caboclo. Pescadores costumam ofertar-lhe fumo como agrado para evitarem ataque: joga-se um pedaço nas águas ou se deixa no barranco do rio, bem perto da torrente, ao pé de uma árvore.

Uma narrativa ouvida em São João del-Rei a cerca de uma década, falava de dois pescadores num barco apoitado num remanso rio abaixo, sobre um poção. De repente a canoa envergou como se um grande jaú tivesse ferrado uma das linhas de pesca, mas para espanto deles, uma mão vigorosa e cabeluda saía do rio e cravara suas unhas aguçadas na madeira da ponta da pequena embarcação forçando seu afundamento, que só não se concretizou porque um dos pescadores, num gesto instintivo, bateu-lhe de facão, provocando o corte e queda do membro na água.

Lagoa do Sutil, em São João del-Rei:
um dos lugares citados como ponto de aparição do Caboclo d'Água. 

Notas e Créditos 

* Texto e fotografia (06/09/2009) : Ulisses Passarelli

sábado, 10 de maio de 2014

Entregadores de Leite

Muito mais que um simples veículo que carrega as latas cheias de leite para o laticínio toda manhã, nas roças, o “caminhão do leite” é além de entregador, o integrador.

Tradicionalmente faz o intercâmbio entre fazendeiros e sitiantes na zona rural. Pelas estradas vicinais, toda manhã bem cedo, em cada jirau armado numa sombra do acostamento, pega uma lata cheia deixada pelo retireiro, que trabalhou na ordenha desde a madrugada e deixa a vazia; leva um recado ao próximo ponto; traz uma encomenda do povoado anterior; dá uma carona até o arraial  seguinte ou a um entroncamento; carreia notícias em geral; marca a hora do trabalho matutino.

Outrora, nas festas dos arraiais, ele trazia encarapitado em sua carroceria um punhado de devotos em romaria para as capelas. Nas queimas de judas, o boneco era amarrado em sua carroceria, preso a um pau e buzinando sem parar, chegava acompanhado de carreata, trazendo o boneco para a forca na árvore de embaúba, fincada na sua chácara.

Um caminhão do leite atravessa a cidade de São João del-Rei.

Pelos poeirentos caminhos rurais o caminhão do leite é, depois do carro de bois, o veículo mais prestigiado.

Estão em franco desaparecimento, substituídos pelos caminhões-tanque, com mecanismo de resfriamento.

Com eles também vão rareando os entregadores de leite, de porta em porta, antes em carroções, como vi na Rua Antônio Rocha, em São João del-Rei, por longos anos desde a infância, em veículo fechado, de chapa metálica pintada de azul, com duas portas atrás. O condutor parava o burro, descia, abria as portas e tirava o latão de leite para venda em domicílio.

Outros entregadores o fazem ou faziam pendurando os latões em motocicletas, ou mais tradicionalmente, no lombo de cavalos. É o fornecimento de leite in natura, gordo, bom para o doce de leite, doce deleite... Rende muita nata, ideal para a confecção caseira da  manteiga e matéria-prima de quitandas, sobretudo da inigualável rosquinha de nata.

O leiteiro vindo do Buião, atravessa a Serra do Lenheiro 
para trazer leite aos fregueses do Senhor dos Montes, em São João del-Rei.

Exigências, taxas, normas. Caminhos do progresso traçam novos rumos para o produtor rural que parecem fazer de tudo para complicar sua vida, mais contribuindo para o êxodo para a periferia urbana que para mantê-lo na roça. A pequena produção de subsistência se arrasta enferma. Estas cenas pitorescas se perdem. A socialização entre campo e zona urbana se distancia, o caminhão tanque não é mais o estafeta de sítio em sítio. Ao homem do campo resta adaptar-se ou mudar para a cidade.

Carriola manual para entrega de leite.
Bairro Bom Pastor, Grande Matosinhos, São João del-Rei.
 
Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Velha do Chinelo

O povo é assim. Usa estórias para ensinar, dar exemplos, transmitir experiências, sabedoria. No meio de uma conversa informal, um bate-papo, aflora uma joia da cultura popular. O folclore não é apenas um velho costume que se mantém por mera repetição. Ele tem uma lógica, uma inteligência didática. Assim o boiadeiro Zé Cristino saiu-se com esta narrativa. Tão grande quanto a hospitalidade mineira é a desconfiança. Minha sogra dizia: "coração dos outros é terra que ninguém pisa, meu filho".

Segue um exemplo materializado em forma de conto. Não é qualquer um que nós colocamos para dentro da nossa casa. Nem tudo que ouvimos merece crédito. A cilada reside por traz de aparências inocentes. O mal tenta ... atenta, corrompe, usa de artifícios para chegar. O conto popular transmite essa lição. 

*  *  *

Diz que o diabo atenta o casal por sete anos seguidos para estragar o amor, separar e ganhar a alma. Depois não pode provar mais.

Havia um casal unido pelo amor e pela fé. Tementes a Deus, eram honestos e se respeitavam. Tudo que faziam levava o nome do Senhor: "se Deus quiser!", "graças a Deus!", "Deus quer assim", "Deus seja louvado". Rezavam e praticavam o catolicismo.

Moravam numa fazenda. O capeta a quase sete anos já tentava separar os dois sem êxito. Faltando um dia para esgotar o prazo que dispunha, tomou a forma humana, montou num cavalo e saiu pelos caminhos, desiludido e pensando o que fazer. Passou por um casebre paupérrimo onde morava uma velha, vizinha do casal bem aventurado. Estava na janela. Satanás parou.

_ Boa tarde! Mas... não conheço o senhor. É de fora?
_ Não senhora. Faz sete anos que moro aqui. Me arranja um copo d'água?

A velha trouxe a água e continuou com sua curiosidade:

_ Sete anos?! Não é capaz. Como que nunca te vi...
_ É que eu estava muito ocupado em ganhar a alma daqueles dois lá.
_ Uai! Quer dizer que o senhor é o tinhoso?
_ Não sei o quê que eu sou não. Isso não interessa. O que importa é ganhar aquelas almas hoje, porque, amanhã, esgota o prazo.
_ Ah, isto é fácil!
_ Fácil? se eu não consegui...
_ Já disse que é fácil. 
_ Se a senhora conseguir eu te prometo que dou tudo o que a senhora quiser. Tudo. É só pedir. Quer ficar rica? Quer uma casa boa? 
_ Não. Eu sou pobre, vou morrer pobre, mas estou satisfeita. O que está me fazendo falta é um par de chinelos.
_ Oquê?! Só isto!!! É pobre até para pedir... Quer tratar assim então? 
_ Quero. Amanhã o senhor volta aqui. 

O demônio figurado em homem foi embora. 

A velha não perdeu tempo. Foi até  a fazenda onde morava o casal e só a mulher estava em casa. O marido saiu cedo para trabalhar. De longe ela o avistava no alto de um morro, roçando pasto. 

_ Bom dia! , disse a velha à mulher. 
_ Ô dona fulana, chega pra cá! Pode entrar. Senhora é de casa, gente conhecida. 
_ Dá licença. E seu marido?
_ Está pelejando na roçada de pasto. Olha lá...
_ Ah, minha filha, esse mundo! Oh, não é candonga (*) não, mas não acho justo você aqui sozinha em casa o dia inteiro nessa luta: varre, passa, lava, cozinha, limpa tudo e seu marido encontrando com outra...
_ Está doida! Ele nunca faria isto!
_ Eu sabia que não ia acreditar, mas é só tirar a prova. De tarde você vai ver. Eles encontram lá debaixo daquela árvore no pasto. É só esperar. Mas eu vou te ensinar uma simpatia para ele esquecer ela de uma vez por todas: pega uma navalha na hora que ele estiver dormindo e passa por cima do pescoço dele em cruz três vezes, sem encostar. É bater e valer (**). Mas fica calma, filha. Cuidado, não briga. 

Foi-se a mentirosa e a mulher ficou atormentada. 

A velha foi em casa. Trocou de roupa, colocou um vestido todo colorido. Mudou o jeito do cabelo e até a ginga do andar. Deu volta para não ser vista, subiu o morro pelo outro lado e entrou no pasto que o homem estava roçando. Ele logo estranhou: 

_ Uai, a senhora aqui? Tem alguma novidade ou recado?
_ É meu filho, essa vida não é fácil. Sua mulher...
_ O quê que tem ela?
_ Tenho que te contar o que vi. Chega aqui pra sombra. 

Foram para debaixo da tal árvore. De longe a esposa viu a silhueta dos dois mas não reconheceu a velha por causa da distância. Acreditou que era verdade a traição do marido. 

A velha lhe falou: 

_ Senhor sabe, né, eu sou de casa. Chamei... chamei na sua fazenda, ninguém atendeu. Rodeei pelos fundos e entrei pela cozinha. Escutei aqueles risos lá dentro. Voz estranha. Cheguei e vi sua mulher com outro homem no quarto. 
_ Não acredito! É mentira!
_ Verdade! Pode acreditar. E digo mais: escutei eles tramar... Ela vai te matar com uma navalha para ficar com a fazenda e ter sossego de viver junto com o amante. O senhor chegando lá não fala nada com ela, não demonstra. Faz que não teve nada. Mas fica prevenido. De noite o senhor vai ver a armadilha dela. 

Foi-se embora a ardilosa. Bastante nervoso, o homem pensou muito e resolveu seguir o conselho da velha. Chegou em casa e não falou nada para a mulher. Ela também nada comentou com ele. Estavam estranhos um com o outro. Logo ele se fez de muito cansado e foi dormir. Ao deitar deixou o revólver armado sob o travesseiro. Fingiu que dormia. Chegou a esposa e chamou. Ele não respondeu, como num sono pesado. Esbarrou nele. Teve então certeza que já dormia mesmo. Pegou a navalha no banheiro e foi fazer a simpatia. O homem pressentiu ela junto dele, abriu os olhos, a viu com a navalha. Lembrou da fala da vizinha e atirou na cabeça da esposa. Ao vê-la morta, sangue para todo lado, entrou em desespero e descontrolado, suicidou-se com um tiro no ouvido. 

O maligno, que a tudo assistira escondido em sua invisibilidade, no outro dia se fez de novo em cavaleiro e foi à tapera da velha maliciosa. Pegou uma vara comprida, colocou o par de chinelos novos na ponta e entregou a ela de longe, esticando a vara até a janela, sem apear do animal. Falou: 

_ Ôh, velha, toma aqui o seu chinelo! A senhora é tão perigosa que nem eu quero chegar perto... Morre logo, viu, não demora não, que lá no inferno a senhora vai fazer proeza ... 

E foi-se embora para as profundezas, satisfeito com a vitória. 

* Candonga: africanismo, com o sentido de fofoca, intriga, mexerico, calúnia, fuxico, inverdade. 
** Bater e valer: o mesmo que "tiro e queda". Expressão popular que indica infalibilidade. 
*** Texto: Ulisses Passarelli
**** Informante: José Cândido de Salles, 08/09/2000, Santa Cruz de Minas/MG.