Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 31 de março de 2014

Procissões do Depósito


Nas comemorações quaresmais em São João del-Rei, acontecem as interessantes procissões do depósito, que são duas, uma dedicada a Nossa Senhora das Dores e a outra ao Senhor dos Passos. 

A das Dores acontece na quarta sexta-feira da quaresma, após a missa das 19 horas na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. O andor da santa, cheio de ervas aromáticas, é encoberto por um quadro de varas que sustenta um pano roxo, de brocado agalonado, chamado velário. Nessa altura da quaresma todos os altares estão tapados por cortinados, impedido a visão das imagens. O assoalho está cheio de folhas de rosmaninho, que conferem um perfume especial ao ambiente religioso. 

Após a celebração o sacerdote incensa e abençoa o andor e então sua cortina é fechada. Com a imagem toda oculta é que a procissão sai, anunciada pelos dobres do sino. Membros das irmandades fazem alas ao cortejo sagrado com laternas acesas; a centenária Banda Theodoro de Faria executa de maneira acurada uma plangente marcha fúnebre. O povo já toma lugar nas filas, rumo à Igreja do Carmo, onde ficará a Senhora das Dores. 

Um senhor passa com um saquinho de pipocas; uma criança se delicia com as amêndoas de um cartucho. Dos casarões, em velhas sacadas, senhoras se persignam ante a passagem do andor velado. Não dá para ver a santa, mas ela está ali, dando graças. 

A procissão é curta, mas não dispensa pompa e essência sagrada. A imagem é "depositada" noutra igreja, a do Carmo, como dissemos, e lá ficará temporariamente. 

No outro dia, à mesma hora, é a vez da Procissão do Depósito dos Passos (*), quando, no mesmo padrão, a imagem do Senhor carregando pesada cruz preta de madeira, é levada a partir do Pilar para a Igreja de São Francisco de Assis, onde também ficará "depositada" por um prazo. Na vizinha cidade de Tiradentes também acontece este cortejo sagrado. 

Domingo cedo, 8 horas no Carmo, 9 h e 30 min no São Francisco, ocorrem as respectivas rasouras ao redor destes templos coloniais, com as imagens depositadas, mas sem o velário. Essas rasouras já foram alvo de textos neste blog, lincados ao fim desta postagem. 

Mesmo antes e depois das rasouras, as imagens ficam expostas à veneração dos fiéis e recebem um grande número de visitas carinhosas. O ritual se completa à noite, com a concorrida Procissão do Encontro, quando cada imagem saindo das igrejas citadas, acompanhadas de irmandades e banda, se encontram solenemente no Largo das Mercês, local onde acontece um eloquente sermão eclesiástico. Então, vão juntas as imagens, Mãe e Filho, em contemplativa marcha para a Matriz do Pilar, que enfim as recolhe para as demais cerimônias das comemorações dos Passos.

Velário ainda aberto deixando ver parcialmente a imagem de Nossa Senhora das Dores.

Incensando... 

O andor velado deixa o adro da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar.

Cenário da Rua Direita (atual Getúlio Vargas) durante a passagem
da Procissão do Depósito de Nossa Senhora das Dores. 

Senhor dos Passos sob o velário na Igreja de São Francisco de Assis. 
Leia também:

RASOURA DOS PASSOS
RASOURA DAS DORES

Notas e Créditos

* Obs.: notícias jornalísticas de 112 anos atrás narraram: "realizou-se hontem com extraordinária concurrencia o Depósito dos Passos, da Igreja Matriz para São Francisco, onde fez ouvir no sermão do Pretório, o eloquente orador sacro padre João Sacramento, que produziu bella oração. Amanhã realizar-se-á a procissão do Encontro, pregando o reverendo monsenhor Felisberto Edmundo da Silva e do calvário o revdo. Padre Julio José Ferreira."  (Fonte: jornal O Combate, n.160, 22/03/1902, São João del-Rei/MG, exemplar da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, acervo digital). 
** Texto: Ulisses Passarelli
***Fotos: Iago C.S. Passarelli (Dores) e Ulisses Passarelli (Passos)

sábado, 29 de março de 2014

Encomendação das Almas em Conceição da Barra de Minas

Seja pelo amor de Deus!!! Reza lá três pai-nosso... Misericórdia. Pelas almas, para os mortos, a matraca bate a partir da meia-noite na segunda e sexta-feira da quaresma. No frescor da noite outonal, ruas desertas e silenciosas, um grupo de fiéis com seus instrumentos musicais (tuba, clarineta, trompete, trombone), vem rezar e cantar pelos falecidos em tons contemplativos e tétricos, mas em belíssima melodia, desde o portão do cemitério até o da matriz, parando em encruzas, capelas e passinhos. No caminho, debulham contas dos terços, relembram os que partiram para a outra dimensão. 

Sr."Vicente Cristino" e "Lico", com ajuda de alguns companheiros e vários devotos mantém firme a tradição da encomendação das almas em Conceição da Barra de Minas, onde ocorre desde longa data, sendo conservada fielmente e com muito respeito. 

Estivemos em visita à cidade vizinha em missão de pesquisa folclórica e documentação áudio-visual nesta madrugada, em companhia do fotógrafo Guy Veloso, que de Belém (Pará), viaja pelo país registrando em belas imagens as encomendações de vários estados, somando já avultado número de grupos abordados, num trabalho da maior relevância cultural. 

Abaixo seguem alguns flagrantes do ritual nesta noite. 

O grupo de encomendadores estaciona diante de uma capela-passo (passinho) para desenvolver o ritual. 

No adro da Igreja de Santo Antônio entoam seus clamores pelos que se foram...

Diante da Matriz da Imaculada Conceição, no ato da entrega da missão da noite. 

Na penumbra noturna, fiéis rogam preces pelos mortos.

Músicos da encomendação.

Senhoras, rezando terço, cantando, encomendando...
Matraca.

Da esquerda para direita: Guy Veloso, "Vicente Cristino" e Ulisses Passarelli.

* Texto: Ulisses Passarelli
* Fotos: Iago C.S. Passarelli
Para saber mais acesse: Encomendação das Almas: um rito em  louvor aos mortos

quinta-feira, 27 de março de 2014

Um hino para São Sebastião

Para esta postagem foi selecionado um interessante exemplar de um hino da cultura popular consagrado a São Sebastião, informado como uma peça cantada por folia. Não obstante algumas possíveis alterações geradas pela transmissão oral ao longo dos anos, a estrutura geral está preservada, dando legitimidade à composição. 
Mestre João Matias com a bandeira da
Folia de São Sebastião. São João del-Rei.

São Sebastião é um santo
é da beira do mar,
nos livre meu santo,
de todo mal do ar.

Mártir São Sebastião
é um santo dessa terra,
nos livre meu santo,
de todo mal de guerra.

Mártir São Sebastião
é um santo dessa luz,
nos livre meu santo,
de todo mal de Jesus.

Mártir São Sebastião
é um santo dessa hora,
nos livre meu santo,
de todo mal de aurora.




São Sebastião é um santo
e com o poder de São Raimundo,
nos dê felicidade 
e tira os mal do mundo. 

Meu São Sebastião 
da beira do mar,
com a língua cortada
com a sua espada, 
vem me ajudar!

Notas e Créditos

* Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1995
** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 20/01/2014.
*** Texto e acervo: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 26 de março de 2014

Rosmaninho

Nesse tempo quaresmal, um odor campestre exala de nossos templos católicos: é o rosmaninho, ou como diz povo, rosmanim.

É um velho costume, sobretudo da Semana Santa, esparramar no assoalho das igrejas, por todo o tabuado, folhas desta planta, que aromatizam o ambiente, contribuindo para a atmosfera reflexiva que este ciclo religioso reclama para si. Os altares laterais e os passinhos também ganham seus ramos, e já os vi também em grutas da cidade. 

Alguns devotos também esparramam suas folhas em casa, acreditando numa bênção especial para o lar. Outros mais, nos terreiros de religiões de matriz africana, também o fazem na área de cerimônias, sendo considerado uma erva de Oxalá. 

Florada do rosmaninho 
(Hyptis carpinifolia, lamiaceae)
Para o homem do campo,
sua presença denuncia terras férteis. 
A tradição manda colhê-lo na madrugada da Quinta-feira de Trevas (quinta-feira da Semana Santa), antes do sol sair, quando seus ramos estão molhados pelo orvalho, tido por sagrado nesse dia. Desfolha-se antes do meio-dia (12 horas, "hora aberta"...), sobre o chão já previamente varrido e deixa-se ali até o romper da Aleluia, no Sábado Santo. Durante esse período é interditada a varrição. 

Pode-se também guardar os ramos para banhos de descarrego ou enfeitar oratórios, pondo-os em jarras. 

Na frente das igrejas na Sexta-feira da Paixão em São João del-Rei não faltam os vendedores de ervas, populares que ofertam molhos de rosmaninho, arnica, manjericão, alecrim e outras ervas aromáticas ou medicinais, como as congonhas. Credita-se a elas um alto poder curativo se trazidas para casa nesse dia. Daí o povo da zona rural sair de madrugada ou bem cedo na manhã para os campos, subir morros e adentrar vales à caça de folhas e raízes medicinais, formando em casa um pequeno estoque ou farmácia caseira capaz de, ao longo do ano, suprir necessidades medicamentosas. Ao término da tarefa é costume se recolher a família a um lanche modesto à guisa de pique-nique, ou na reza de um terço, para só depois voltar à morada. 

O valor místico dessa erva é tal na concepção popular, que diz um ditado nessa região: “quem passar pelo rosmaninho e não cheirar, para o céu não irá” ou "(...) Jesus não salvará" ou ainda,"quem passou pelo rosmaninho e não cheirou, da Paixão de Jesus Cristo não se lembrou". 


Notas e créditos

 * Texto e foto (2002): Ulisses Passarelli

domingo, 23 de março de 2014

Banda Santa Terezinha



Imagens de autor e data não identificados da Banda Santa Terezinha, do distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), ex-Caburu, gentilmente cedidas por Joel José de Oliveira, a quem ofereço este post e agradeço a cortesia. O citado colaborador é uma das pessoas que se esforçam pela preservação da memória dessa vila setecentista. 
Para saber mais a respeito leia a postagem: A BANDA DO SENHOR AMÉRICO 


Congado de Santa Cruz de Minas na Festa do Divino de 2012

Ulisses Passarelli, ladeado pelos irmãos capitães de congado de Santa Cruz de Minas, 
Danilo Francisco de Assis (esquerda) e Jamiro Aparecido de Assis (direita), no salão do almoço. 

Ulisses e Danilo, na Praça de Matosinhos.

O congado chega à Igreja de Santa Terezinha para a formação do cortejo imperial. 

Congado de Santa Cruz de Minas em marcha pela Avenida Sete de Setembro em Matosinhos, durante a Festa do Divino, rumo ao Salão Comunitário de Santo Antônio para o recolhimento do reinado. O retrato mostra o momento de união das duas guardas daquela cidade: a do Capitão Danilo (bandeira vermelha; aparece o primeiro à direita, batendo tarol) e do Capitão Jamiro (bandeira branca, primeiro à esquerda, batendo caixa azul). O autor deste blog teve a honra de ser convidado para participar desse congado no ano em questão. 


Notas e Créditos


* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C. S. Passarelli, 2012. 

sábado, 22 de março de 2014

O Tatu Assombrado de Nova Cruz

As estórias que o povo conta são muitas vezes educativas. Não é só entretenimento. É orientação, regra, normatização de conduta social e moral. Os tabus, os preceitos, as restrições, ganham memória e força, senão mesmo saem da abstração para a credibilidade sob a forma de narrativas populares. As velhas lendas, contos, causos e mitos passaram por gerações de boca em boca, desde os antigos, ensinando e consolidando um código de posturas informal mas respeitadíssimo. Essas estórias justificam as proibições que não constam nas leis civis. É pelo exemplo que lhe dão a certeza da necessidade do cumprimento.

A tradição cosmopolita dos lugares assombrados, forma uma espécie de área de reserva, um espaço de restrição para se frequentar, plantar, garimpar, coletar, caçar ou pescar. Lugares sagrados ou misteriosos tem esse quê de mistério e em torno deles ou por eles, se constrói uma literatura popular.  

Neste contexto se passa o causo que ora se apresenta.

*  *  *

Na localidade de Nova Cruz, não muito longe dos Fagundes, no município de Antônio Carlos, saíram numa pescaria. Foram para um lugar que tinha fama de assombrado, mas não deram muito crédito e enfim, o dia parecia tão comum... 

Alguns homens montaram nos seus cavalos e foram pescar. Amarraram os animais na beira d'uma capoeira [1], pegaram a trilha no meio do mato e foram até um ribeirão que passava mais embaixo. Nada pescaram, nenhum peixe. 

De repente, já desanimados com a má pescaria, surgiu um grande tatu [2], muito manso, olhando para eles e fazendo sons como chiados. Largaram as varas de pesca, pegaram paus e quiseram matar o bicho, afinal, se não o pescado, ao menos uma caça levariam para não perder a viagem. 

Deram pauladas nele mas não conseguiam acertá-lo, apesar de serem certeiras na sua direção e da incrível proximidade, a apenas um passo, o tatu desviava do golpe e sumia da frente deles. 

Viram que se tratava de uma invisão [3] e ficaram apavorados. Foram embora. Quando chegaram do outro lado do mato, onde haviam amarrado as montarias, lá estava o estranho tatu esperando eles, da mesma forma. 

Mais uma vez deram de porrete no bicho, enfurecidos, batendo em seguida, mas a empreitada foi inútil... Tão misteriosamente quanto aparecera sumiu como que por encanto e os pescadores apavorados partiram às pressas, pois enfim entenderam que ali era um lugar de respeito.

Tatu em cerâmica (cofre). Vale do Jequitinhonha/MG. 

Tatu em pedra-sabão. Congonhas/MG.  

Tatu em papel-maché. Tiradentes/MG. 

Tatu em madeira. São João del-Rei/MG. 

Tatu em madeira. Prados/MG. 
Notas e Créditos

[1] - Capoeira: pequena floresta, mata, capão.
[2] - Tatu: mamíferos da ordem cingulata, família dasypodidae, restritos ao continente americano.
[3] - Invisão: termo popular - visão de um espectro, fantasma, assombro.

* Texto e acervo de peças artesanais: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 08/09/1999.

terça-feira, 18 de março de 2014

19 de março, dia de São José

São José foi o esposo da Virgem Maria, pai adotivo de Jesus Cristo, descendente do Rei Davi. Seu símbolo é um lírio branco. Dele os evangelhos canônicos foram muito parcos nas informações, mas os apócrifos, prolixos, dando importantes informações, sobretudo no Proto-evangelho de Tiago e em A História de José, o Carpinteiro.  É o patrono universal da Igreja, protetor dos esposos e por extensão dos casais; padroeiros dos artífices da madeira.

É padroeiro da cidade de Itumirim, na Diocese de São João del-Rei.

O sincretismo religioso afro-brasileiro aproximou-o de Aganju, orixá da linha de Xangô (*) nos candomblés. A umbanda nutre por ele grande respeito, mas sem assimilação intensa no campo sincrético. Contudo, o nome "José" é inspirador, tendo batizado várias entidades da "linha dos negros velhos" (africana): Pai José de Aruanda, Pai José de Angola, ... da Praia, de Minas, da Campina, do Cruzeiro, Mineiro, Carreiro. Não obstante este fato, a expressão "Pai José" pode ser simbolicamente interpretada como uma forma carinhosa de se dirigir ao venerável santo:

“Ajuda eu, Mãe Maria! 
Ajuda eu, Pai José! 
Ajuda eu, mamãe!
Ajuda meus irmãos de fé!” 
(Canto de moçambique, Passa Tempo, 2004, Capitão Luís Maurício). 

O saudoso capitão Luís Santana, de São João del-Rei, lembrava deste santo no seu congado (1998): 

"Embala, ô embala! 
Ô embala quem quisé... 
Eu já fiz uma promessa 
pro divino São José, ai, ai!” 

Congados e folias desta região, costumam agradecer o lanche oferecido pelo anfitrião nas casas visitadas ou nas festas pelo festeiro com o seguinte canto: 

"Lá no céu tem três estrelas
que ilumina São José,
ela há de iluminar
quem nos deu tão bom café." (**)

No povoado do Brumado, em São João del-Rei existiu uma folia de São José, do folião “Vico”.

Na comunidade de Santa Efigênia, Parque Real, Bairro Bonfim, nesta mesma cidade, São José recebe a partir desta década uma festa logo após Semana Santa, com os elementos litúrgicos e populares habituais.

Ainda em São João havia uma festa que se celebrava animadamente na Capela de Santo Antônio, no Bairro das Fábricas. A este respeito veja-se a seguinte notícia jornalística do Folha Nova:

"Encerraram-se com a procissão de domingo último, dedicado a S. José, as tradicionais festividades que se realizaram na Capela do Albergue Santo Antônio. O préstito religioso de domingo esteve brilhante, comparecendo elevado número de fieis. A banda do 11º R.I. abrilhantou todas as festividades, quer aos tríduos, quer a procissão. De ordem da Prefeitura foi iluminado o morro do Albergue, oferecendo este agradável impressão."

Os dois títulos mais conhecidos deste santo são os seguintes: 

1- São José de Botas: patrono dos viajantes, caminheiros, peregrinos. Sua devoção esteve em voga sobretudo nos setecentos, sob a natural influência do bandeirismo. As imaginária do período colonial o registrou calçado de botas de canos altos, elemento simbólico das extensas jornadas então empreendidas pelos ermos sertões. Nossas igrejas coloniais conservam sua imagem.

Seu festejo a 19 de março foi sempre de alguma forma prejudicado, pois coincide com o período quaresmal, tempo de recolhimento. Veja-se este aviso num antigo jornal de São João del-Rei, A Tribuna, de 1918: “foi transferida para a terceira dominga da Paschoa, dia do patrocinio de S.José, a festa que a Associação de S.José, realizaria no dia 19 deste em honra de seu patrono e que se revestiria da maxima solemnidade.” 

2 – São José Operário: padroeiro dos trabalhadores e em particular dos carpinteiros e marceneiros. Tem igreja própria em São João del-Rei, matriz paroquial do bairro Tijuco. Segundo Augusto Viegas, esta igreja teria começado em 1938 como uma capela consagrada a Nossa Senhora da Conceição, em terras doadas por José Rocha, mas... "por determinação do Exmo. Sr. Dom Helvécio Gomes de Oliveira, ante a consideração de já existirem aqui sete templos erigidos sob os auspícios da Santíssima Virgem, passou este ao patrocínio de São José e sob esta invocação, ante o devotamento do Padre Osvaldo da Fonseca Torga e eficiente cooperação popular, se concluiu em 1946." O projeto arquitetônico é de Rossino Baccarini, construída sob os esforços do Cônego Antônio Carlos Rodrigues e do Monsenhor Silvestre de Castro. Ao longo dos anos passou por mudanças de fachada e ampliações. A paróquia foi criada em 04/01/1944 sendo seu primeiro pároco o Padre Torga, supracitado (***).

Como informação complementar vale transcrever em grafia atualizada, a notícia de 1938 do lançamento da pedra fundamental pelo jornal são-joanense Diário do Comércio, em nota intitulada "Capela do Tijuco":

"Domingo próximo vindouro será lançada, no bairro do Tijuco, a pedra fundamental da capela que ali se erigirá em honra de N. Senhora da Conceição. A construção de um templo naquela afastada e populosa zona vem sendo há muito aspiração de seus habitantes e de um grupo de homens de boa vontade, irmanados num ideal comum. Afastadas agora as maiores dificuldades que se antepunham à notável aspiração daquele núcleo da cidade, vemos com prazer a realização encaminhar-se para sua concretização. E ao anunciar-se agora o lançamento da pedra fundamental da modesta capela, a se verificar no domingo próximo, cabe-nos encaminhar ao povo são-joanense um insistente apelo para que se prontifique a auxiliar tão meritório empreendimento. A tocante solenidade terá o concurso de uma banda de música e a presença das autoridades locais, tendo ainda a empresa de ônibus organizado um horário para seus veículos, afim de auxiliar a ida do povo ao local."

Para arrecadar recursos para esta edificação, um dos congados existentes no bairro à época, o da Rua São João, dançava em atividade de coleta de donativos. Esta notícia, que uma testemunha tinha presenciado e nos narrado em 1993, o saudoso sr. Antônio Geraldo dos Reis, das Águas Férreas, é confirmada pela notícia jornalística também do Diário do Comércio, em sua edição nº212:

"Congados. Tem percorrido os subúrbios desta cidade um interessante núcleo de Congados angariando esmolas para a construção da Capela de Nossa Senhora da Conceição, no Tijuco. No domingo, esse congado, cujo chefe é o sr. José Francisco, esteve no Morro da Forca. No próximo domingo percorrerá o bairro de Senhor dos Montes. Haverá também missa campal e cantos de Congado no povoado de Santa Cruz, no dia 18 de dezembro próximo."

Antes da edificação de sua igreja a festa era realizada em abril ou no dia 1º de maio, na Catedral do Pilar, em São João del-Rei. Em 1906, nos diz O Repórter nº12, houve tríduo, às 18 horas, missa solene às 11 no dia maior, procissão vespertina e Te Deum na sua chegada. Música a cargo da Orquestra Ribeiro Bastos. No ano seguinte, o mesmo jornal na edição nº11 refere-se à festa do Patrocínio de São José, o grande Patriarca, promovida pela Associação de São José precedida de tríduo e concluindo no dia principal com missa matutina e bênção do Santíssimo à tarde, tocando a Ribeiro Bastos. Em 1915, segundo A Tribuna houve alvorada realizada pela banda de música e missa com participação da mesma orquestra.

A iconografia típica de São José Operário o representa como um trabalhador junto a uma banca de oficina, manejando ferramentas: plaina, enxó, serra de traçar. Há casos da imagem ordinária sem preocupação de detalhar o carapina.

Também goza de grande prestígio em Barbacena, onde conta com uma basílica e festa jubilar. É querido em Conceição da Barra de Minas, onde existe o Bairro São José.

A Banda de Música Theodoro de Faria chega na igreja de São José Operário 
no dia maior dos festejos no Bairro Tijuco, em São João del-Rei.

Nas Águas Férreas, esquina da Rua Operário Luís Andrade com General Osório, moradores preparam um tapete de rua para a passagem da Procissão de São José Operário.    

Notas e Créditos

* Embora sujeito a variações de entendimento regional, linha e nação, em geral Xangô, o grande orixá agente da justiça divina, chefe de linha espiritual, é habitualmente sincretizado com São Miguel Arcanjo e seus ordenanças imediatos, também chamados de "xangôs", com outros santos, como por exemplo: Xangô Caô - São João Batista, Xangô Agodô - São Pedro, Xangô Aganju - São José, Xangô Sete Pedreiras - São Jerônimo e por aí afora ... Mas é útil alertar que não há unanimidade nessa nomenclatura. 
** Esta quadra tem variantes. A saudosa sra. Elvira Andrade de Salles, moradora de Santa Cruz de Minas, mas relembrando sua terra natal, Bias Fortes, informou esta (1996): "Lá no céu tem uma estrela, / que ilumina São João, / ela há de iluminá / que nos deu um café bão." E ainda: "Lá no céu tem uma estrela, / que ilumina São João Bosco, / ela há de iluminá / que nos deu tão bom almoço."
*** Não obstante esta data de criação, o desmembramento da jurisdição da Paróquia do Pilar somente se deu em 09/08/1948 e a instalação oficial em 01/01/1952, informa ainda VIEGAS (1953).
**** Os jornais antigos  citados neste texto foram editados em São João del-Rei e pertencem  ao acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, consultados através de seu site: http://www.dibib.ufsj.edu.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl81.xis&cipar=publicajornal.cip&lang=por
*****Texto e fotos (ano 2000): Ulisses Passarelli 


Referências Hemerográficas 

O Repórter, n.12, 29/04/1906
O Repórter, n.11, 21/04/1907
A Tribuna, n.41, 02/05/1915
A Tribuna, n.192, 10/03/1918
Folha Nova, n.8, 24/04/1932
Diário do Comércio, n.178, 13/10/1938
Diário do Comércio, n.212, 23/11/1938


Referências Bibliográficas

VIEGAS, Augusto. Notícias de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1953. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

O Menino da Torre

Era uma vez um menino muito esperto, alegre e querido. Certo dia desapareceu. Foi muito procurado por toda parte durante um tempo, até que alguém o achou na torre da igreja, chorando. 

Não havia como o garoto ter aparecido lá, apesar da sua vivacidade. O padre foi chamado e explicou que era obra de satanás. O sacerdote ordenou que fosse pegar a manta ou toalha na qual o menino foi enrolado no ato do batismo. Trouxeram. Aspergiu água benta sobre aquele pequeno cobertor. 

Veio a madrinha de batismo e segurou a manta aberta, distendida nos braços. O padre ficou ao seu lado, falando palavras de exorcismo. Foi então que a criança pulou da torre mas veio caindo de leve igual uma pluma, até se deitar nos braços da madrinha, que o acolheu no calor da manta. 

Ouviu-se então um estouro. O padre esclareceu que o diabo levou e teve de trazer de volta. A explosão marcou o seu desaparecimento. 

Torre da capela do povoado da Trindade, São João del-Rei/MG. Foto meramente ilustrativa. 

* Texto e foto (2009): Ulisses Passarelli
* Informante: Aluísio dos Santos ("Ló"), São João del-Rei, 1997


domingo, 16 de março de 2014

Como surgiu o demônio

Os antigos contam, que uma ocasião, no princípio do mundo, Deus foi fazer uma visita à Terra. Então, deu um pouco de água benta para três anjos, com a ordem para que cada um fizesse mais três anjos. Bastava por o dedo na água e deixar pingar uma gota na nuvem. Daí surgia um novo anjo. 

Dois anjos obedeceram, fazendo cada qual três criaturas angelicais. O terceiro desobedeceu o Senhor... Ficou pingando água por toda parte, dando origem a uma multidão de anjos. 

Quando Deus voltou ao céu, indignou-se com aquilo e expulsou aquele punhado de anjos surgidos da desobediência: 

"_ Anjos do mal, feitos sem minha ordem! Não ficarão aqui, mas na Terra!"

E assim enviou-os para cá, onde se transformaram em demônios. 

Pintura da nave da Igreja de Santo Antônio representando um dos milagres do taumaturgo.
Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei/MG). 
* Obs.: a enigmática pintura acima, meramente ilustrativa nesta postagem, naturalmente impregna o imaginário e suscita a livre interpretação popular. Uma das concepções narrada por moradores desse distrito interpreta como uma intercessão de Santo Antônio resgatando uma alma tomada por satanás, sob a falsa culpa de um crime. O diabo escreve no papel a acusação contra o inocente, defendido pelo santo como seu advogado. Outra versão diz que o santo está ordenando ao capeta que de próprio punho ateste a inocência daquela alma condenada. 
* Informante da lenda: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas/MG, 1995. 
* Texto e foto (16/10/2011): Ulisses Passarelli

quinta-feira, 13 de março de 2014

Mãe do Ouro, Boitatá e Luzinha

São João del-Rei, antiga cidade colonial, filha do ciclo do ouro, conserva muitas crenças no seu rico folclore. Nesse período de quaresma no qual se prega o recolhimento, os rumores de assombros tomam conta do imaginário popular. Não é raro ouvirmos falar de mitos luminosos, relampejantes, irradiando temerosa luz no céu, emissores de maus augúrios ou indicando riquezas escondidas. 

É sobretudo nas áreas que beiram as serras onde foi farto o trabalho mineral que prosperam estas narrativas, desde São João até Prados, pela espinha dorsal pétrea da Serra de São José, ladeando Santa Cruz de Minas, Águas Santas,Tiradentes e Vitoriano Veloso ("Bichinho"), além de parte do município de Coronel Xavier Chaves. Muito frequentes são estes relatos ao longo da Serra do Lenheiro, 100% são-joanense. Mesmo no seu entorno, como no pedregoso povoado do , beirando a Serra do Julião, registrei-as a anos, da boca do saudoso folião "Luis Candinho": luz misteriosa, boitatá, mãe do ouro.


Os mitos ígneos, como o nome indica são os do fogo, cujo clarão amarelo-laranja-vermelho evoca o tom dourado, luzidio, do ouro. Cascudo em seu dicionário cita um antigo ditado popular que afirma: “onde está o fogo está o ouro.”

Eis o princípio folclórico da mãe do ouro. Descrevem-na como uma bola ou aro de fogo, que se desloca pelo ar próximo à serra, ora célere, ora vagarosa, nítida, brilhante, áurea, afogueada. Pode parar no ar ou de súbito mudar de rumo. Na sua passagem vai largando fagulhas, que dizem ser fios de ouro. Quem procurar o rastro de sua passagem os encontrará. Por isso, quando a avistam, costumam dizer: “me dá um cabelo, mãe do ouro!” ou “me dá um fiapo do seu cabelo, madrinha!”, esperando pela queda das ditas fagulhas. Assim ensinou-me no Córrego, dona Elvira Andrade de Salles, nos idos dos anos 90 em Santa Cruz de Minas, local de muitas aparições.

É assombrada. Se adentrar numa casa, só sai às custas de reza forte. Se tocar em alguém a morte será fulminante. Se perseguir, escapa-se riscando no chão o signo de Salomão (estrela de cinco pontas), rodeado por um círculo e dentro se deve postar. Ela respeita, desvia-se e vai embora. Na passagem sobre as pedras serranas, choca-se contra elas, causando grande estrondo. É ali que está o ouro farto.

Sobre esse mito tão falado Brasil afora, escreveu Richard Burton, quando de sua visita a São João del-Rei, em 1868:

"Um raio em forma de bola, como que penetrou na Igreja de Stralaund derrubou uma das abas do telhado (...) Estas bolas de fogo são uma forma freqüente que o raio toma no Brasil como na África Oriental e merece cuidadosa atenção. Vi muitas vezes em São Paulo o fluido elétrico subindo a sudeste do céu e, na altura de 60º projetar uma quantidade de globos, como um monstruoso candelabro romano. Muitas vezes caem sobre as casas (etc., p.203). (...) Mãe do Ouro é um gênio encantado que protege os tesouros virgens. É antes extravagante que maldosa, mas às vezes faz um assassíniozinho" (p.224).

É um mito muito tradicional. Num velho jornal de São João del-Rei apareceu este escrito sobre ela:

"_ Já vi a Mãe do Ouro, olhe, o sr. está vendo alli aquele alto onde teve uma bandeira da companhia geographica? (Referia-se a um signal geodessico da commissão geographica). Pois alli, muitas vezes, de noite, quando eu ia da cidade para São Gonçalo (do Amarante) eu vi a Mãe do Ouro.
_ Viste talvez alguma alma do outro mundo.
_ Não senhor. A luz da alma do outro mundo apparece como uma espécie de vela accesa, isso eu já tenho visto também; mas o que vi alli era uma especie de labareda grande, furta-côr, movendo-se como se estivesse dansando."

Ouvi falar, por informação do sr. Luís Santana (fevereiro/1993), que na Colônia do Recondengo, em São João del-Rei, durante um baile, quando a festa lá ia animada, uns rapazes zombaram ao ver a mãe do ouro passar radiante no alto de um morro: "_ nós aqui na luz de lampião, porque que ela não vem aqui clarear em vez de iluminar o mato?" De repente ela mudou de rumo e entrou pelo salão de baile. A mãe do ouro deu giros rasantes sobre a cabeça do povo incauto, que fugiu espavorido por portas e janelas. Era o aviso sobrenatural daquele abuso. Ficou então parada lá dentro, flutuando no centro. Só saiu do salão depois que umas senhoras rezaram um terço.

Meu saudoso tio em 1º grau pelo lado paterno, Sérgio Passarelli, contou-me, ainda nos anos 80, que, muitos anos antes, deparou-se com uma mãe do ouro, cara a cara, noite-tarde, na esquina da Avenida Leite de Castro com a Rua Engenheiro Paes Leme, que ladeia a Escola Estadual Aureliano Pimentel. Disse-me que ela pairava lindamente pouco acima do calçamento de pedras, desfilando lenta com seu brilho encantador mas tétrico. Fugiu espavorido, de bicicleta. 


Um dos informantes, Sérgio Passarelli, na bicicleta pasteleira, em antiga foto de data e autor não identificados, na Avenida Leite de Castro, em São João del-Rei, quando ainda se viam os trilhos da EFOM. 
Foto de álbum familiar, cortesia de Maria do Carmo Passarelli. 


Tanta gente idônea, inimiga da mentira, fala da mãe do ouro, em narrativas e com testemunhos tão verossímeis, que agente titubeia em não crer nesse espectro. Foi refletindo nisto e vendo a anos um documentário televisivo sobre o assunto, gravado no interior de São Paulo (não recordo a cidade), onde a chamam “mãe do diabo”, que tomei conhecimento sobre a realidade do assunto: ela existe de fato, mas não é sobrenatural. É um fenômeno físico-metereológico raríssimo, que só ocorre em situações atmosféricas muito especiais, favorecidas pelas condições magnéticas e iônicas encontráveis próximo às pedreiras. É eletricamente carregada, como um relâmpago, só que em forma esferoidal (em vez de ter forma de faísca, corisco). Por isto lhe chamam os estudiosos raio-bola ou raio-globular.

Eis que os populares não passaram de fato por mentirosos, como dizem os céticos e aqueles outros que desprezam a cultura do povo. Folclórico no caso é a interpretação que lhe dão.

Na área serrana do distrito são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Terra de Nhá Chica, é referida com maior frequência.      
                    
Esta ideia de dar às coisas uma mãe espiritual ("ci") é de influência indígena. Ficou em nossa cultura popular. Fala-se assim, aqui mesmo em São João del-Rei de seres tais como mãe da cachoeira, mãe da mata, mãe da pedreira, mãe da chuva, mãe da lua (personificada num pássaro, o urutau – Nyctibius griseus), mãe do corpo (endométrio, camada interna do útero), etc. Na sua Geografia dos Mitos, Cascudo ensinou: 

(...) "É um ser feminino, a Mãe, Ci. Acreditavam os índios que tudo no mundo, vegetal, animal, mineral, possui sua criadora, protetora e guiadora eterna. Tem a Mãe do vento, das pedras, dos frutos, de cada tipo de peixe, de insetos, de aves, árvores, estrelas, vermes, cobras, fantasmas. Há a mãe da mandioca como há a mãe da coceira. Tudo tem Mãe e esta gerou seus filhos sem a necessidade do elemento viril. Todos os indígenas sabem de cor a Mãe disto e daquilo mas ninguém sabe o nome do Pai." (etc.)


Outras luzes explicáveis pela ciência aparecem nas serras sob o manto dos temores: o fogo-de-santelmo e o fogo-fátuo.

O primeiro (= fogo-de-Elias, fogo-de-Hermes, fogo-de-Santa Helena, fogo-de-São Nicolau, fogo-de-São Pedro) é um fenômeno físico-elétrico, devido ao poder das pontas, capacidade de escoar cargas nas extremidades, até ao extremo de, em condições específicas, com descargas lentas, aparecer como um eflúvio luminoso. Pode surgir nas torres de igrejas. Nas pontas dos mastros dos navios, por ocasião dos ares das tormentas, costuma aparecer o clarão e por vezes, sobre a superfície das ondas. Os navegantes portugueses atribuíam o fenômeno a um sinal positivo de seu protetor, São Pedro Elmo ou Telmo, cujo nome simplificavam para Santo Elmo, ou, adequando à sua pronúncia, Sant’Elmo. Era dominicano, espanhol, do séc. XIII, festejado a 15 de abril. Pela crendice o clarão indicava nos navios a sua visita livrando os marujos do naufrágio. Por isto era recebido com alegria. Para os italianos contudo era Santo Erasmo ou Frei Pedro Gonçalvez.  

No nordeste do país estes clarões inspiraram mitos como o joão galafuz (Pernambuco, Sergipe) e a alamoa (Fernando de Noronha). No interior, como aqui por exemplo, aparece como um clarão nas pontas dos galhos e às vezes clareia uma árvore inteira, fazendo nítido o seu contorno; animais, pessoas, tendas, podem se tornar com debrum azulado, silhueta luminosa e emitir estalidos de descarga. Está claro que tudo isto é inevitavelmente taxado de assombração.

Meu pai, David Passarelli, testemunhou-me um fenômeno deste. Foi numa noite tempestuosa na década de 1960. Voltando de jipe da Mina do Germinal, para os lados de Nazareno, junto com um amigo, avistaram um clarão numa árvore de topo de morro, na beira da estrada de terra. A mescla de medo e curiosidade, ofuscando a cautela, fê-los parar o veículo. O estranho clarão irradiava da árvore, como se dela emanasse, permitindo ver até as pontas mais fininhas dos galhos. Logo fugiram aturdidos daquela árvore fantasmagórica. Era na verdade um fogo de santelmo.

O bem mais conhecido fogo-fátuo, é um fenômeno físico-químico, no qual a matéria orgânica em decomposição (paus podres, cadáveres), exala gazes de fosforeto de hidrogênio, que em contato com o oxigênio da atmosfera, em condições tais, entra em combustão espontânea. O fogo azulado que emite ganha o nome de luzinha em nossa Serra do Lenheiro, comentado na Bocaina, Arambinga e outras áreas, por trás do Bairro Senhor dos Montes: Cunha, Porteira Pesada, Buião, Pasto dos Carrapatos, Córrego Seco, Cruz do Zé Poeta, Ribeirão, Olho d’Água, Três Praias e Garganta do Diabo

As chamas inconstantes, bruxuleando em movimentos serpentiformes, deram ainda motivo a outro mito nesta mesma região, o boitatá, de origem indígena: “mboi” = cobra + “tata” = fogo. A “cobra de fogo” ou “que expele fogo” é um ser fantástico, protetor dos campos, que persegue os incendiários. O povo pronuncia corriqueiramente sob a corruptela batatá, batatal ou batatão. 

A mitologia brasileira é um universo cultural extraordinário de riqueza e encantamento que bem está a merecer um olhar mais acurado por parte dos estudiosos de nossa cultura popular. 

               
Referências Bibliográficas

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930pil.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1983. 345p.
NOSSAS RIQUEZAS: a Serra do Lenheiro. O Resistente, n.421, 19-21/09/1901, São João del-Rei.
PASSARELLI, Ulisses. Notas sobre o distrito de São Gonçalo do Amarante. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.10, 2002. p.87-125.


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli 

terça-feira, 11 de março de 2014

Tradições sobre o lobo

Lobo-guará ou simplesmente lobo ou guará, é um mamífero canídeo, Chrysocyon brachyurus, que não corresponde ao lobo do hemisfério norte. A combinação dos dois nomes é uma junção de influências do colonizador europeu que o assimilou à espécie do velho mundo e do indígena, que denotava sua cor avermelhada.

Animal típico do cerrado sul-americano, de hábitos crepusculares e noturnos, muitas vezes é vítima de atropelamento nas rodovias e de extermínio a tiro por parte de moradores da zona rural, sob o pretexto de supostos prejuízos que causaria na avicultura. Este tipo de pressão antrópica aliada à  destruição do habitat tem levado este mamífero ao triste quadro de ameaça de extinção.

Na natureza alimenta-se de pequenas caças e frutos da lobeira (Solanum lycocarpum, solanácea).

Lobeira.  
Em São João del-Rei é corrente a superstição que um pedacinho do couro deste animal conservado junto ao corpo da pessoa é um poderoso amuleto contra vários males. E ainda: as presas (dentes caninos) tem o mesmo efeito. Preso a uma bengala ou bastão de capitão de congado, confere-lhe especial firmeza. Um patuá de couro de lobo livra da picada de cobras, notadamente se contiver sublimato corrosivo, substância que creem seja capaz de afugentar qualquer serpente.

O lobo motiva uma expressão popular, que os pais aplicam aos filhos mais crescidos quando cometem alguma besteira: “parece filho de lobo: quanto mais velho, mais bobo...”

Quanto à mitologia acerca do lobisomem é assunto para outra postagem.

Como o lobo tem as patas dianteiras (“mãos”) mais curtas, é veloz na corrida de ladeira, daí dizer-se que "lobo de morro acima ninguém pega", acontecendo o contrário nas descidas, curiosa observação do homem do campo, quando cães domésticos perseguem o lobo.

A fêmea protegendo crias é muito temida pela ferocidade. Diz o povo que o filhote do cruzamento de cachorra de casa com lobo é muito procurado pois é tido como o melhor cão de guarda, ferocíssimo. 

Nas fábulas o lobo faz o papel de bruto, sempre enganado pela esperteza do mais fraco. Sua ferocidade nas narrativas populares não compensa a falta de inteligência. Neste aspecto vale a pena registrar uma variante da tradicional estória do lobo do cu queimado, esta informada em 07/07/2013 pelo sr. José Maria do Nascimento, natural da zona rural de Bias Fortes/MG, e aqui transcrita em suas palavras:

"O coelho estava amarrado para comer uma galinha gorda. Mas era mentira do coelho, porque eles queriam enfiar um ferro quente na bunda do coelho. Aí o coelho estava chorando. Chora daqui, chora dali... O lobo perguntou: 

_ ô coelho, quê que está chorando aí? Porque eu tenho que comer quatro galinhas gordas, eu não aguento... 

Aí o lobo...

_ então me amarra aí coelho, que eu vou comer! Isso pra mim é mole! 

Ele pegou as galinhas e comeu. Ele ficou lá amarrado. Chegou o dono das galinhas enfiou o ferro quente na bunda do lobo. O coelho tá lá no espigão: 

_ ô seu lobo do cu queimado! Ô seu lobo do cu queimado! (com voz debochada)

E o lobo lá com a bunda tudo queimada do ferro quente. Aí, o lobo falou: 

_ uai, mas o coelho pintou, fazer isto comigo! 

Mas o coelho toda vida é mais velhaco que o lobo..."



Notas e Créditos

* Texto e foto: Ulisses Passarelli

domingo, 9 de março de 2014

Duas receitas tradicionais de ponche

O ponche é uma bebida tradicional, de feitura caseira, a partir de vinhos e frutas, servida quente ou gelada, em casamentos, batizados, aniversários, festas em geral.  Até os anos 70 do século passado seu uso era frequente, mas aos poucos perdeu espaço para as bebidas de produção industrial, de tal forma que ruma para o esquecimento. 

Transcrevo duas formulações colhidas de minha mãe, Édila Santos Passarelli, em São João del-Rei, tomadas de seu caderno de receitas, onde estavam manuscritas a caneta esferográfica: 

- ponche quente: “1 garrafa de vinho tinto; 1 xícara de açúcar; 1 colher de mel; 1 limão; 1 pitada de noz moscada; 1 litro de água quente; 3 laranjas em fatias; 1 maçã vermelha. Misture o vinho, açúcar, mel, fatias de limão, noz moscada ralada, numa panela e leve ao fogo, esquentando bem, até quase ferver. Junte água quente. Despeje sobre fatias finíssimas de laranja e pedacinhos de maçã. Sirva bem quente.” 

- ponche gelado: “1 garrafa de champanhe ou vinho branco; 1 garrafa de guaraná; ½ copo de vinho tinto; 1 maçã bem picadinha, bastante gelo e açúcar a vontade” (se quiser uma bebida mais fraca, aumentar a quantidade de guaraná). 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Tabatinga


Argila clara, esbranquiçada, sedimentar, untuosa, cujo nome, de origem indígena é descritivo, traduzindo-se por “barro branco”, possível corruptela a partir de "taua tinga". 

É consagrada aos exus. Como tal é posta em seus assentamentos e casas de força, ofertada em alguidares. 

Os garimpeiros experientes quando a encontram nas serras, logo suspeitam da existência próxima do ouro, pois creem que ela acompanha sua presença no saibro de aluvião. 

A tabatinga tem uso na medicina popular, na aplicação de emplastros sobre o ventre, que se acredita tragam alívio para males viscerais. 

É também usada no artesanato como matéria prima para cerâmicas claras ou à guisa de tinta para confecção de desenhos sobre peças de barro vermelho, dando um interessante contraste de cores que realçam o valor artístico da peça.

O Bairro São Judas Tadeu (“Caieira”), em São João del-Rei, é cortado pelo Córrego da Tabatinga _ nome em ocaso _ afluente da margem direita do Córrego do Lenheiro, ambos atualmente emporcalhados por dejetos. 

Com este barro se prepara uma suspensão primitiva usada para pintura de muros e paredes. Foi usada como base para douramento nas igrejas coloniais, pintando-se a talha de madeira dos altares e retábulos, que depois receberiam por cima o acabamento em folhas de ouro.

Tabatinga é nome de dois municípios brasileiros, no Amazonas e em São Paulo.

Tabatinga numa cava do velho caminho entre as Águas Gerais
e o distrito de São Gonçalo do Amarante, na Serra do Lenheiro,
São João del-Rei/MG. 

Notas e Créditos

* Texto e foto (2010): Ulisses Passarelli

Programação da Semana Santa em Matosinhos, 2014


O blog Matosinhos: história & festas, veicula nesta postagem a programação das comemorações sacras da Semana Santa na Paróquia do Senhor Bom Jesus de Matosinhos previstas para 2014, replicando o conteúdo recebido via e-mail. Nesta oportunidade fica registrado o agradecimento à atenção de Éder F. Campos pelo envio deste conteúdo. Vale ressaltar que as comemorações em questão, ano a ano tem crescido em movimento, organização e qualidade neste santuário, sendo uma das mais relevantes festas do grande bairro de Matosinhos. 

Notas e Créditos

* Texto: UIisses Passarelli
** Leia também: Semana Santa em Matosinhos (item 17)  


*  *  * 

Semana Santa em Matosinhos
Paróquia/Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos
Diocese de São João del-Rei/MG

Dia 02 de abril - às 19h30min, Mutirão de Confissões no Santuário.
Setenário das Dores de Maria Santíssima
De 04 a 10 de Abril
19h00-Na Igreja de Santa Teresinha - Missa, Setenário e Confissões.
Sexta-Feira das Dores - 11 de abril
19h00-Na Igreja de Santa Teresinha, Missa, Procissão de Nossa Senhora para o Santuário.
20h30min- No Santuário, Confissão Comunitária para os adultos.
Sábado - 12 de abril
10h00- Confissão Comunitária para as crianças na Igreja de Santa Teresinha.
19h00-No Santuário, Missa e  Confissão Comunitária para os casais.
Domingo de Ramos -13 de abril
08h00-No Inocoop, Bênção dos Ramos, procissão até o Santuário e Missa Solene.
17h00-Missa na Igreja de Santa Teresinha.   
19h00-No Santuário, Missa e Confissão Comunitária para os jovens.
Segunda-Feira Santa -14 de abril
07h00-Missa e Confissões  na Igreja de Santa Teresinha.
14h30min - Na Igreja de Santa Teresinha, Confissões.
18h30min - Na Igreja de Santa Teresinha, Confissões.
19h00- No Santuário, Missa e Procissão do Sr. dos Passos para a Igreja de Santa Teresinha.
Terça-Feira Santa -15 de abril
06h00- Via Sacra saindo do Santuário rumo a Igreja de Santa Teresinha.
07h00-Missa e Confissões na Igreja de Santa Teresinha.
14h30min - Na Igreja de Santa Teresinha, Confissões.
19h30min-Procissão do Senhor dos Passos saindo da Igreja de Santa Teresinha.
19h30min-Procissão de Nossa Senhora das Dores, saindo do Santuário.
20h00-Em frente o Santuário, Sermão do Encontro e Procissão para o calvário.
Pregador do Sermão: Pe. Javé Domingos da Silva (DD. Vigário da Paróquia de N.S. da Penha de França - Resende Costa).
Quarta-Feira Santa -16 de abril
06h00- Procissão Penitencial com a imagem de Nossa Senhora das Dores saindo do Santuário rumo a Igreja de Santa Teresinha.
07h00-Missa e Confissões  na Igreja de Santa Teresinha.
14h30min - Na Igreja de Santa Teresinha, Confissões.
18h30min - Na Igreja de Santa Teresinha, Confissões.
18h30min- Procissão da Soledade de Maria, da Igreja de Santa Teresinha rumo ao Santuário.
19h30min-No Santuário, Missa e  Confissão Comunitária para os adultos.
Quinta-Feira Santa -17 de abril
09h30min-Na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar - Missa Solene do Crisma.
18h30min-No Santuário, Missa Solene da Ceia do Senhor, Sermão do Mandato, Lava Pés. Procissão interna do Santíssimo Sacramento e Adoração até à meia noite, na Capela do Santíssimo. Em seguida, desnudação dos altares.
Sexta-Feira Santa - 18 de abril
06h00-Via Sacra pública da CF 2014, saindo do Santuário rumo ao Cruzeiro Luminoso.
09h30min-No Santuário, Confissão Comunitária para os adultos.
15h00-No Santuário, Solene Ação Litúrgica.
20h00-Em frente o Santuário, Paraliturgia do Calvário: Sermão, Descendimento da Cruz e Procissão do Senhor Morto. (Favor trazer a sua vela.)
Pregador do Sermão: Pe. Fábio José Damasceno (DD. Pároco da Paróquia de Sant'Ana do Barroso).
Sábado Santo - 19 de abril
20h00-No Santuário, Solene Vigília Pascal.  (Favor trazer a sua vela).
Domingo da Ressurreição - 20 de abril
07h15min-Adoração ao Santíssimo Sacramento e bênção.
08h00 – Missa Solene no Santuário.
09h30min-No Santuário, Missa com as crianças.
11h00 - Celebração do Batismo.
17h00- Missa na Igreja de Santa Teresinha e procissão do Santíssimo
Sacramento  em direção ao Santuário, na chegada bênção do Santíssimo Sacramento.
19h30min - No Santuário,  Missa e encerramento da Semana Santa 2014.

Aprovado em Fevereiro de 2014,
Pe. José Bittar (Pároco/Reitor)
Pe. Geraldo Sérgio França e Pe. Vinicius Idefonso Campos  (Vigários Paroquiais)