Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Bloco do Amor e outras memórias da Rua Antônio Rocha

A oitenta e dois anos, por um tempo desses, de prévias do carnaval, moradores do casario eclético da Rua Antônio Rocha, no centro de São João del-Rei, cuidavam dos preparativos do Bloco do Amor, que dela saía para alegrar o momo são-joanense. Registrou um antigo jornal da cidade: 

"Na rua Antonio Rocha, que sempre foi uma rua de foliões, acaba de ser formado mais um bloco, com pretensões a gozar direito o carnaval.
O bloco do amor vae exhibir um lindo carro, fechando o seu enredo: os genios da floresta. 
Os organizadores são os seguintes "endiabrados": José Nogueira, Weimar Lopes, Wilson Lopes, Jair Gomes, Gilson Regal, Osnir Lopes, Lourival Nogueira, Adalmir Gomes e José Marques." 

No mesmo ano saía do Morro da Forca o "Rancho Lyrio do Amor", informa a mesma edição d'A Tribuna (n.1106, 31/01/1932), bem como a subsequente. No passado o amor era mesmo um tema inspirador. Mas curiosamente num muro da rua em foco, uma pichação hodierna prega "onde não puder amar não te demores". Quanto às agremiações supra, desapareceram a décadas. 

A Rua Antônio Rocha surgiu no fim do século XIX com a instalação do complexo ferroviário em 1881, ao qual é fronteiriça. A chegada da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) foi o maior marco da história são-joanense nos oitocentos. Foi socialmente mais impactante que a própria elevação da vila à categoria de cidade, em 1838. Representou o limiar de duas eras. A partir dela houve um imenso impulso social, cultural e econômico que contribuiu muito para o crescimento e desenvolvimento da cidade. 

Antes da chegada da ferrovia o caminho do Centro rumo a Matosinhos se fazia pelo Matola (Rua Padre Sacramento), a meia-encosta do morro imediatamente ao sul da estação férrea. Este era o caminho antigo, verdadeiramente um trecho urbanizado do caminho geral do sertão - passagem de bandeirantes - pois a parte baixa era brejosa, sujeita a alagamentos. Com a vinda da EFOM o vasto serviço de nivelamento para instalação do complexo criou um novo espaço urbano, do qual a Antônio Rocha é a principal via. 

A uns cinco anos, numa obra que estava acontecendo numa das casas daquela rua, acompanhei um desaterro na vertical que evidenciou um arrimo de pedras imediatamente a partir do nível da rua, demostrativo do aterro necessário à abertura da via. O solo, a nível da rua de trás, é coberto por terra preta riquíssima em matéria orgânica, até uns 50 a 60 cm de fundura, quando surge outro tanto ou pouco mais de areia e cascalho, após o qual brota água em abundância, por se atingir o lençol aquífero contíguo ao Córrego do Lenheiro. Fica claro que o tipo de solo é uma evidência dos depósitos de aluvião trazidos pelas enchentes anuais. No mais, uma casa vizinha fica elevada sobre porão abaixo do nível da rua, também sustentado pelo mesmo arrimo de pedras, sinal do trabalho planejado de construção da rua. 

A ferrovia é o seu marco indelével, a começar do próprio nome, que evoca o português Antônio Francisco da Rocha, "um dos maiores acionistas e operosos diretores da Estrada de Ferro Oeste de Minas", segundo Guimarães & Vieira. É uma grata satisfação saber que esta rua preserva o nome original. Na Praça dos Ferroviários, à entrada da rua, um busto desta personalidade traz no pedestal uma placa com os seguintes dizeres: "Homenagem dos ferroviários da Oeste ao precursor da Rede Mineira de Viação 1881 - 1931".

Busto de Antônio Rocha na Praça dos Ferroviários no início da rua em questão.
O ir e vir dos trens, a passagem de viajantes e trabalhadores da ferrovia, o barulho do maquinário da oficina, a sirene que marcava o horário dos turnos dos empregados... impregnaram toda aquela via e nunca se separarão de sua memória. A rua era entrecortada pelo "Trem do Sertão", que saía  por um velho portão corrediço de réguas pretas para um pontilhão de ferro, ladeado por passarela de tábuas para os pedestres, bem onde hoje se situa a Ponte Padre Tortoriello. Na travessia víamos de antanho o sinaleiro, um ferroviário que cuidava de parar o modesto trânsito de carros para o trem passar, tal como ainda acontece na entrada da Caieira. O sinaleiro usava uma pequena bandeira vermelha para a tarefa durante o dia e uma lanterna para a noite, que tinha uma vela acesa dentro, clareando na cor vermelha de uma lado, verde de outro, que girava para indicar o trânsito. A máquina passava fumegando num apito penetrante, à noite com o grande farol aceso, um atrativo a mais. Além dos carros de passageiros, vinham muitos vagões de carga, pois São João era um grande entreposto. Por vezes composições pesadas chegavam com duas locomotivas atreladas, trafegando sincronizadas, bielas juntinhas no trabalho do vapor. A tração dupla era o maior atrativo para a molecada de meu tempo. 

Os guris sonhavam em roubar o trolley movido a varejões e fugir com ele até Chagas Dória, só para dar um passeio. Mas nunca tive essa coragem com os colegas, embora tenha compartilhado o inocente sonho. Por vezes, algum menino mais desinibido pedia carona no "bondinho" (auto de linha), pedido ora cedido ora negado. 
Placa indicativa do nome da rua, afixada na parede externa de uma casa.

O calçamento veio nos anos sessenta, em paralelepípedos que o sol pratea ao poente. Antes era areão e terra. Nele, até fins da década de 1970, os rapazes jogavam bola em plena Antônio Rocha, ali por seu trecho final, pois raramente vinha um carro. Lá quando surgia um veículo, era só beirar um passeio e depois prosseguir. O gol dessa pelada de fim de tarde era marcado por chinelos. Quando o movimento aumentou passaram para um pequeno campo onde hoje está o cruzeiro que ladeia a Gruta do Divino, ao pé do pontilhão supra-citado. 

Então era ainda comum a cena de faiscadores tentando a sorte nas areias do barranco do Lenheiro, de bateia à mão, em graciosos movimentos circunferenciais, até escorrer a última areiazinha, finíssima, ponteada do amarelo áureo, reluzente ao sol, fazendo brilhar o olho do garimpeiro teimoso. Neste ínterim andava beira linha uma lenheira, com um imenso feixe de lenha amarrado por cipós, equilibrado no alto da cabeça, protegida por um lenço. Passava silenciosa, com andar lento, a pele crestada pelo sol ... De onde vinha? Para onde ia com o pesado fardo? Fazer almoço pro Zé. Assar biscoito pro Chiquinho. Decerto! 

As crianças gostavam de passar peneira de lanço nas ramadas aquáticas do córrego e nelas nos deliciávamos colhendo barrigudinhos com pintas coloridas, delicados peixinhos poecilídeos, metidos no terrível cativeiro de um vidro vazio de palmitos.  De noite haveria de fugir um pouco para catar vaga-lume na caixinha de fósforos vazia. Se o sol estivesse muito quente, subia-se o Matola para banho na Lagoinha, uma reserva no morro! Admirem! Suas águas se avolumavam com as chuvas. Secou por completo, aterrada, soterrada, desterrada. Se não isto, banhava-se na bica, uma água límpida e fria que descia da Bela Vista e caía impetuosa num lajedo de pedra logo abaixo do pontilhão supra-citado, do lado da Rua Cristóvão Colombo, antes de sua ponte.  Ali era ponto de lavadeiras que chegavam e saíam com trouxas de roupas equilibradas na cabeça. Brincar de jogar finco, soltar pipa, rodar pião, brincar de roda, fazer casinha, jogar bolinha de gude na bujaca, no zapi ou no triângulo, rodar aro, jogar pedra de bodoque, brincar de pique, ou com carrinhos rudes, pequenos caminhões que algum artesão fazia em madeira, bater uma pelada, ou a queimada, eram nossas diversões. 

Por essa época ouvia estórias de arrepiar. Tarde não podia brincar no pontilhão que tanto gostava, porque era guarnecido por uma mulher muito branca, muito magra, muito feia, muito má... esguia, comprida como uma vara, maltrapilha... a Desgraça Pelada. Se a gente ousasse pronunciar esse nome ganhava um tapinha na boca, porque era pecado. Tal nome ofendia a Deus. Na quaresma da Antônio Rocha descia o Cavaleiro Misterioso a galope desenfreado desde a estação rumo a Matosinhos, barulho de casco crescendo de volume, arrancando chispas nas pedras do calçamento com o rompão da ferradura. E vinha, envinha... passava na frente do incauto, mas não era visto. Invisível, arrepiante. Era uma alma penada! Tinha também uma matilha infernal, cachorrada que descia a rua em algazarra dos diabos, gritando, latindo em briga feroz; cachorrão e cachorrinho, que se supunha pela voz, grossa e fina, porque tal como o cavaleiro, passava levantando poeira, mas não era visto. Velhos assombros, mistérios d'outrora que a modernidade baniu mas a lembrança teima em conservar. 

Na rua dos fundos, a Antônio Josino Andrade Reis, que sempre chamamos de "Beira da Praia" (alusão muito nossa ao Córrego do Lenheiro), para onde davam a maioria dos quintais, tinha a Cobra Grande. Muita gente idônea daquelas beiradas a viu, subindo e descendo o Lenheiro ainda sem urbanização do canal, matagal nas margens, moitas, árvores, pedras, taquari, taboa. Ora no mato, ora na água. O povo tinha medo. Diziam-na imensa, feroz, com tais atributos que os supunha d'outro mundo. Certo dia, junto com um tio, fomos tirar bambu para fazer pipa, numa moita grande que tinha atrás da Sede Ferroviária (de 1948), onde funciona o AA (Alcoólicos Anônimos). Vimos apavorados um enorme mussurana, imensa serpente preta com laivos arroxeados, de uma beleza que impõe medo e admiração, enrolada, grossa, medonha. Fugimos. Seria a famosa Cobra Grande? Alguma enchente a levou para sempre.  

Essa beira da praia era de fato um grande quintal comum. Os moradores tinham ali varais de secar roupa. Na relva do caminho estendiam peças do vestuário para quarar ao sol. Galinhas eram criadas soltas e ao fim da tarde entravam sozinhas para seus galinheiros, cujo acesso se dava por uns buracos de abertura quadrada, deixados de propósito nos muros dos fundos. Por esta rua, Antônio Josino, paralela à Antônio Rocha e em verdade sua extensão comunitária, passavam boiadeiros tangendo gado aos gritos, "ô-ah!", "boi!". Ouvi falar de uma cena inusitada, de um boi de chifraria aberta, bicho carreiro, agitado com ambiente urbano, que ao passar embaraçou o chifre numa peça íntima em um desses varais. Saiu com ele pendurado e a dona correndo atrás, gritando para o tangedor: "péra aí moço! Meu sutião!" Por aí passavam velhas bicicletas pasteleiras e carroças no caminho de terra batida, urbanizado na primeira metade dos anos noventa. 

Cruzeiro e Gruta do Divino, aspecto da Rua Antônio Rocha
e a Rua Antônio Josino Andrade Reis pouco antes da urbanização. 

A festa junina era animadíssima no "Arraiá do Pito Aceso". Não faltavam os arcos de bambu, os cordões de bandeirinhas de papel de seda, a fogueira, busca-pés, uma barraca de improviso onde se achava canjica, quentão, broa de coalhada, pipoca. Vinha sanfoneiro, pandeirista, violonista, caixeiro. Lembro bem de seu desafio calangueado, no "calango-lango-tango, no calango da lacraia!" Moradores da rua viravam noivo, noiva, padre, dançantes de quadrilha e no balancê se confraternizavam. 

A Sede Ferroviária era lugar de queridos carnavais de salão, onde fantasiados de todo tipo se entregavam às clássicas e imortais marchinhas. O movimento de foliões era muito grande até a década de 1960. 

Em 1999 foi construída a Gruta do Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário, espaço comunitário que desde então tem congregado os católicos do lugar e imediações na prática das orações de terços e novenas (Divino, Natal), além de uma missa campal por mês, a cargo da Paróquia de São Judas Tadeu. Neste espaço já foi realizada muita festa popular: as juninas, com fogueira, pau de sebo e quadrilha, a queima de judas, o terço da Santa Cruz, a festa de Santos Reis (com folia e pastorinhas), a do rosário (com congados) e o Divino, trazendo muitos grupos folclóricos e banda de música. Lamentavelmente estas festas se foram neste espaço.

A Rua Antônio Rocha é hoje bastante movimentada, como principal via de tráfego que vem do centro da cidade rumo aos bairros Fábricas, Caieira, Colônia e Matosinhos. As poucos vão surgindo pontos comerciais, transformados a partir de residências. Mas ainda é uma rua tipicamente residencial. 

Referências bibliográficas

GUIMARÃES, Betânia Maria Monteiro, VIEIRA, Luana Cristina. Bustos, estátuas, monumentos e chafarizes de São João del-Rei. 2.ed. São João del-Rei: UFSJ, 2013. 76p.il. 

Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Alguns personagens do carnaval de São João del-Rei

No meio da beleza da cidade, desfilam agremiações que a muito vem lutando nos preparativos, para por na rua o fruto de um trabalho árduo, construído em cores, ritmos e fantasias, seja nas excelentes escolas de samba ou nos numerosos e animados blocos. Entremeados à massa de foliões surgem figuras inusitadas, personagens do imaginário popular, construídos no improviso e com materiais simples e de baixo custo, que dão um toque especial de autenticidade ao momo. Ao observador não passam despercebidos e revelam uma legítima espontaneidade e o poder criativo do povo. Neste sentido, foram selecionadas as quatro fotos abaixo, que no seu exotismo mostram cenas típicas de um genuíno e alegre carnaval interiorano. 

Bloco das Piranhas: um Incrível Hulk travestido _ o ambulante diverte e trabalha ao mesmo tempo.
Foto: Ulisses Passarelli, 10/02/2013
Bloco Unidos do Aragê: da Rua João Wilson de Souza, no Bairro Araçá, descem bonecos, boi, animada bateria!
Foto: Ulisses Passarelli, 23/02/2014.  

Bloco Lesma Lerda: fantasmas que não assombram mas alegram o carnaval são-joanense.
Foto: autor não identificado, 1996. 
Bloco Os Caveiras: uma múmia desfila entre bruxas, esqueletos, zumbis, homens do saco, agentes mortuários.
Foto: Ulisses Passarelli, 11/02/2013.


Para conhecer outros personagens do carnaval são-joanense acesse o link abaixo: 





sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Programação do carnaval 2014 em São João del-Rei

O carnaval já fervilha, ecoa, batuca, requebra, esconjura a melancolia. Dia 8 p.p. foi a escolha da Rainha e Princesas do Carnaval 2014 na Avenida Presidente Tancredo Neves, principal via do centro de São João del-Rei. Evento forte e animado, corrido ordeira e pacificamente, que teve a grata volta de eterno Rei Momo, Roberto.

No sábado seguinte, 15 de fevereiro, foi a vez do primeiro bloco, o temporão Cachaça com Mel, Chora Borel, alegrando o Largo de São Francisco com suas marchinhas. Desceu a Balbino da Cunha como abre-alas do grande momo.

Enquanto isto (e desde vários dias antes...) por todos os cantos desta urbe, ensaios e preparativos aquecem a cada dia, num sem fim de afazeres.

Amanhã o pré-carnaval engrena com três blocos: a tradicional Bandalheira, na Rua Ministro Gabriel Passos e o Pérolas, Matinê de Rua, na praça do Morro da Forca, ambos à tarde, e à noite, o Zero Hora, cujo nome marca o horário de saída, das imediações do coreto.

Domingo, 23 de fevereiro, é a vez do Só Não Vai Quem Não Quer, que vem às 18 horas do Parque Real para a Praça Guilherme Milward. Desfilam também nesse dia o Alambique, partindo 21:15  h da Biquinha e pela primeira vez o Unidos do Aragê, que vem da Rua Ângelo Tirapelli rumo ao Centro às 16 horas, trazendo os foliões dos bairros Araçá e São Geraldo.

Daí a folia não para mais: segunda-feira, 24, desfila o Deixa o Mundo Girar, mais um que vem do Bonfim, 21 h; na terça é o PSF-Saúde, que sai 21 h do Carmo, além do tradicional Se Mamãe Deixar, 22 h, no Rosário, com sua bandinha de sopros e percussão, cheio de marmanjos de fraldões e grandes chupetas, e, é claro, as mamadeiras devidamente abastecidas. Trem Bão parte do Bonfim, local de várias agremiações.

Dia 26 de fevereiro, temos o gigante Lesma Lerda, que da Av. Oito de Dezembro arrasta uma multidão na noite da quarta-feira, com muitos foliões com fantasias criativas e frequentes e bem humoradas críticas. De primeiro Lesma Lerda trazia na frente umas pessoas metidas debaixo de um armação de arcos cobertos de pano estampado, terminando numa cabeça com cara de boazinha, pintada, e antenas de molusco, balançando. A grande lesma alegórica serpenteava rua afora à guisa do boi do bumba-meu-boi.

Casal de mandus, fantasia muito antiga e tradicional, flagrada no Bloco Lesma Lerda.
Foto: autor não identificado, 1996.  

No dia seguinte outro grande bloco toma as ruas, As Domésticas, com uma imensidão de homens travestidos em alegria e irreverência, concluindo com a típica eleição de seu destaque na escadaria do teatro. Mas As Domésticas dividem a noite com outros grandes grupos de foliões... os blocos Pirulito, que vem do Largo Tamandaré 22:30 h, o Gato de Botas, no mesmo horário partindo do Largo de São Francisco, e o Bloco n’Roll, concentrado num palanque na Rua João Salustiano.

O pré-carnaval continua, ou melhor, emenda com o carnaval propriamente dito da noite para a madrugada com blocos que se sucedem: a longa noitada traz um fora do centro, o Bloco dos Mala, em Matosinhos, desde a Rua Santa Madalena até a praça do santuário e depois em retorno; Arrasta o Resto traz foliões do Largo do Tamandaré; o Largo do Carmo agita a “Lapa” são-joanense, foco do samba; a Mocidade Independente de Santo Antônio, com animada rapaziada alegra a antiguíssima Rua Santo Antônio, trecho do Caminho Geral do Sertão que virou rua com nome de milagreiro; Arroz com Vinagreti sai das Águas Férreas, pras bandas do tradicional Tijuco; Copo Sujo, outro bloco de grande porte, inunda de foliões o Bonfim, despejando animação rua abaixo até a Praça Frei Orlando.
            
A noite vira... revira... madruga... alvorece no Alvorada, a matina de mais um carnaval. O querido bloco do amanhecer carnavalesco traz no radiante nome a força da tradição das bandinhas. Com pijamas e camisolas foliões de todos os recantos vem para a velha Rua Direita _ quem dera ainda chamasse assim! _ atual Getúlio Vargas. Na tradicional esquina com a Arthur Bernardes, onde outrora a municipalidade erguia ornado coreto para as bandas do carnaval, sai mais esse gigante, Bloco da Alvorada, 5 horas, no cantar do galo.
           
Depois de um pré-carnaval assim... colossal, os dias do momo ainda não trazem canseira à multidão de conterrâneos e turistas que invadem as ruas. Atrás dos carros e caminhões de som, das bandinhas, daqui e dali, nas esquinas, junto aos bares, gente de avoluma em torno de um grupinho com charanga, ou d’uma bateria de improviso. Bate-papo, toma cerveja, ri, namora, relembra. Gerações se intercalam em diferentes formas de foliar o momo.
            
Mas os blocos tem de continuar: Cambalhotas estende colchonetes pro caminho afora e lá vem o povo revirando cambota! Isto lá vai a tarde de sábado, até a noite, a partir do Largo de São Francisco; o Raposão junta sob o manto celeste, azul e branco cruzeirense a moçada do Largo do Carmo na mesma tarde; Mascarétis em mascarada e colorida folia, acolhedora e airosa, toma conta do calor da tardinha na Praça Dr. Salathiel; Trincação vem 17 horas descendo do Senhor dos Montes, desde a praça da igrejinha até a Avenida Presidente Tancredo Neves.
            
Os blocos de domingo são: Banda Mole, na Paulo Freitas e João Alvarenga (Alvarenga é a mãe!!!), do Matola, ambos vindo nessa tarde rumo ao centro; no Largo do Rosário a cultural atitude da Atitude Cultural põe na rua o querido Carnaval de Antigamente, reunindo a tradição do carnaval familiar e se concluindo com um desfile de velha jardineira e outros veículos antigos, nostalgicamente evocando os corsos que marcaram época. Alegre tarde. Acabou não! Tem ainda: Coração Rubro Negro que junta sob a fama flamenguista um monte de foliões no Largo do Carmo, Piranhas, bloco grandão trazendo rapaziada travestida desde o Alto das Águas Férreas na quente tarde domingueira; Santa Casa, vem das beiradas do Rio Acima, passa pela Frei Estêvão e chega ao São Francisco, isto pelas 17 horas; Chácara é bloco de mais tarde, mais uma agitação das noites do Bonfim e invade a madrugada.
            
Banda de Marchinhas no Carnaval de Antigamente. São João del-Rei/MG, 2013. 

Segunda-feira que seria normalmente de desânimo se revela extraordinária com o gigante do nosso carnaval, o maior de todos os blocos daqui, o Vamos a La Playa. Atrai milhares na rua em polvorosa alegria, molhados em duchas esguinchadas de mangueirões. Povo de biquíni, sunga, prancha de surfe, roupa de mergulhador. Demandava este bloco para a nossa “praia”, o cais do Lenheiro, pequeno córrego de nascente serrana. Vem hoje para a Av. Tiradentes.
            
O último dia do carnaval trás o Bloco Pantanal, da Rua Getúlio Vargas, e o Caixinha, da ladeira do Sr. dos Montes, ambos no cair da tarde, boca da noite. Cura Ressaca (será que cura?!) acontece na tarde da Terça-feira Gorda, completamente fora do eixo geográfico do carnaval, na Colônia do Marçal, não muito longe das Mangueiras.
            
Pensa que terminou? Deixei para o fim propositalmente outras atrações. No distrito do Caquende, beira de represa, tem o Bloco do Bambu, domingo; noutros distritos tem movimento também pelos largos, mas é na Terra de Nhá Chica, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno que o trem pega fogo. Um carnaval animado, que surpreende.  Com boa estrutura, se desdobra em três blocos que animam os dias principais: Unidos da Ponte, Bire Saturday e Birinight.
            
Quer mais? Escolas de Samba! Trazem este ano para nós uma grande expectativa com o investimento maior, carregando uma tradicionalidade que já fez São João del-Rei ser considerado o melhor carnaval mineiro e um dos mais proeminentes do país.

Manchete jornalística dos anos 30, enaltecendo o carnaval da cidade.
         
Primeiro de março, a partir das 20 horas, a passarela do samba tem abertura com a corte momesca e desfilam sequencialmente as escolas de samba: Unidos da Lata (mirim), Girassol, Bonfim e São Geraldo.
            
Domingo, 02 de março, 20:30 h: Mocidade Independente de Santo Antônio (mirim, segundo desfile), Bate-paus (com mais de 80 anos de vida!), Metralhas e Vem me Ver.
            
Segunda, 03 de março, ainda diante das arquibancadas da Avenida Tancredo Neves é a vez dos blocos típicos, em sequência, das 20 h em diante: Sem Compromisso, depois é a vez do Mestre Quati com seus pitorescos bonecões no Recordar é Viver; o tradicionalíssimo e inusitado Os Caveiras, um bloco de que ainda nos ocuparemos mais numa postagem específica neste blog, e por fim Ferverão, trazendo muita criança.

Nêga Maluca, no carnaval são-joanense.
Foto: autor não identificado, 1998.
Terça desfilam as escolas campeãs do carnaval 2014.
            
Para não dizer que acabou tem uma novidade: concurso de marchinhas carnavalescas, com premiação batizada com um nome de peso, “Agostinho França”. Apresentação pública das finalistas será dia 04 de março, entre 17 e 20 h, no palco da Esquina do Kibom (Av. Tiradentes com R. Ministro Gabriel Passos).

Todos estes grupos se filiam a duas associações, AESBRA e ABBC del-Rei.
            
Duvida que tem isto tudo, mais de cinquenta agremiações em desfile? Então vem ver...
           

* Texto e fotos (exceto indicação em contrário): Ulisses Passarelli            

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Noventa anos de um grande folião!

Ontem à noite, 19 horas, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em São João del-Rei, celebrou-se missa na intensão do folião plenamente ativo João Batista do Nascimento, mais conhecido por "João Matias", comemorativa de seus 90 anos de vida, completos no último dia 08. 

Missa dos 90 anos do Sr. João Matias.

A celebração foi dirigida pelo Padre Admilson Heitor de Paiva, que expressamente mencionou o aniversariante e o cumprimentou em pessoa. Contou com a presença de filhos do homenageado e foliões de alguns grupos da cidade: Geraldo Elói, Didinho, Fanico, Virgilinho, João Bosco de Lima, Carlão, além de folieiros de várias folias desta urbe.

Ao fim da missa, na sala da Comissão Organizadora da Festa do Divino Espírito Santo, transcorreu uma sessão de homenagens ao folião Matias, com a presença de vários festeiros do Divino, congadeiros, folieiros e visitantes, dentre os quais, Betânia Sobrinho, da Secretaria de Cultura de Santa Cruz de Minas, pessoa esforçada que sabe valorizar a cultura popular. 

  

Acima: à esquerda, Luthéro entrega a faixa de Mestre ao sr.João Matias; à direita, Sanival aplica a estrela. 


Matias e a camisa da Associação.
De início, o anfitrião Sanival Nunes, Presidente da Comissão do Divino, assumiu a palavra de abertura e convocou a formação da mesa, convidando o autor deste, como Superintendente de Cultura da Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer de São João del-Rei e o Fundador e Presidente da Associação dos Agentes Culturais das Vertentes (que congrega congados e folias da região), Luthéro Castorino da Silva. Sanival explanou um pouco sobre a história do homenageado, narrando o fato da sua convocação para a 2ª Grande Guerra, mas felizmente, pela Maria Fumaça, retornou em segurança a partir de uma dispensa de tropas em Juiz de Fora. Ulisses Passarelli, após palavras de valorização das folias e congados, destacando a presença dos líderes da cultura popular, procedeu uma condecoração em nome da Casa Santos Reis, instituição sediada em Manuel Duarte, distrito de Rio das Flores/RJ, concedida pela benesse do folclorista Affonso Furtado, que reconhece o longo trabalho dos mestres da cultura popular na área dos reisados brasileiros. 

Ulisses convidou o folião e capitão de congado Luthéro para colocação da faixa de Mestre no sr. João Matias, ao som da leitura bíblica do Livro do Profeta Isaías, capítulo 22, versículos 19-23 e Sanival para afixação da estrela, sob o trecho de inspiração evangélica no 2º capítulo de São Mateus. Todos aplaudiram o Mestre Matias. 

Na sequência, a palavra foi passada a Luthéro, que também é Imperador do Divino (coroado em 1999), o qual traçou um panorama das ações da associação dos congadeiros e folieiros e em palavras de homenagem à longevidade e contínua ação do agraciado, lhe ofertou a camisa feita pela associação, literalmente o primeiro filiado a recebê-la. 

João Matias e José Cláudio Henriques.

Sanival em nome da Comissão do Divino ofertou-lhe uma placa alusiva à comemoração e ainda, a seu convite falou o imperador e escritor José Cláudio Henriques, ambos enaltecendo as atividades dos grupos folclóricos e a importância dos mestres. 

Por fim em breves e eloquentes palavras, concluídas em tom de bênção, o pároco de Matosinhos, Padre José Bittar se dirigiu ao ilustre folião deixando claro seu exemplo de vida. 

João Matias  com  os presentes recebidos, ao lado de Padre Bittar.
Congadeiros do Solar da Serra, no bairro são-joanense Colônia do Marçal, agora sob nova presidência, de Marcos Aurélio Coelho, cantaram um parabéns com seus tambores, na voz do capitão Celso.

Congadeiros do Solar da Serra - Marcos Aurélio e Dona Lúcia 
seguram respeitosamente a Bandeira do Rosário.


Foi então aberto pela Comissão uma mesa de salgados e refrigerantes aos presentes em clima de confraternização. Para concluir os foliões de vários grupos se juntaram fraternalmente num único conjunto que perpassou várias toadas reiseiras e pentecostais com versos de homenagem, cabendo também ao próprio João Matias cantar alguns, em letras de gratidão.  

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S. Passarelli
***Leia também: João Matias: homenagem ao grande mestre

João Matias: homenagem ao grande mestre

No bairro Guarda-mor em São João del-Rei, reside o folião João Batista do Nascimento, mais conhecido pelo carinhoso nome de "João Matias". Em 08 de fevereiro deste ano completou este mestre da cultura popular a idade de 90 anos! 

Filho de Pedro Nolasco do Nascimento e Maria José de Oliveira, nasceu numa família de sete irmãos, nas imediações do povoado do Neto, em Conceição da Barra de Minas, na época, distrito de são-joanense. Seu natalício se deu na Fazenda Bom Jardim, de propriedade do sr. Ciro Peçanha, onde seu pai era agregado.

Casou-se com Conceição Carvalho do Nascimento, já falecida, com quem constituiu respeitada família. É pai de sete filhos, sendo quatro homens e três mulheres. 

Muito religioso, é irmão da Venerável Confraria de Nossa Senhora do Rosário desta cidade.

Bandeira da folia do distrito de
Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno,
de 1947. Pintura sobre tecido. 
João Matias exerceu várias atividades profissionais, a princípio como agricultor e daí a serviços em farmácia, armazém, construção civil e ainda hoje cuida de roçados e criações, num vigor e lucidez notáveis. 

Mudou-se para o distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, terra natal da beata Nhá Chica. Lá se enveredou pela Folia de Reis fundando um grupo em 1947 com "Geraldo Chinelo" que atuou por toda aquela região varzeana. Mais tarde, vindo para São João del-Rei, em 1980, iniciou outro grupo, no Bairro Guarda-mor, conjunto que ainda permanece ativo, saindo anualmente em três jornadas: Santos Reis (dezembro, até 06 de janeiro), São Sebastião (de 07 as 20 de janeiro, quando arremata na festa deste mártir na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar) e Divino (da Páscoa a Pentecostes).

Sua folia sempre se apresenta nos encontros promovidos nesta terra, sendo querido e respeitado pelos outros foliões e embaixadores. Das visitas à zona rural a mais frequente é a Paraíso, distrito de Piedade do Rio Grande.

Folia do Mestre João Matias no ano de sua fundação, 1980, em frente ao Salão Comunitário de N.S.Aparecida, no Bairro Guarda-mor, hoje capela. Foto: autor não identificado. Cortesia para reprodução do Mestre Matias. 

Folia do Matias cantando no presépio
 do Memorial Dom  Lucas, 10/12/2013.
Folia do Matias cantando no
Coreto Maestro João Cavalcânti, 11/12/2013.
Este blog deseja muitos anos de vida a este grande mestre, parte importante do patrimônio cultural da cidade. Pelo que é e pela abnegação à causa que mantém, nossos parabéns e desejo muitos anos de vida pela frente. 

Veja a homenagem prestada a este folião em: 90 anos de um grande folião!


* Texto e fotos (exceto indicação em contrário): Ulisses Passarelli

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os bratáquios no folclore

A ciência zoológica agrupa na ordem Anura os anfíbios em geral conhecidos por bratáquios, os populares sapos, rãs e pererecas, sendo estas duas últimas categorias mais conhecidas no nordeste brasileiro por gias. 

Animais de extrema importância no equilíbrio biológico, encontram-se em crescente ameaça pela alteração climática e destruição do habitat. Gozam da repulsa humana, que tende a matá-los tão logo avistados. No geral o povo não enxerga utilidade no sapo e nutre um nojo por ele, que faz com que o matem sem qualquer motivo. Educação ambiental seria útil, notadamente explicando-se sua grande utilidade em devorar insetos, parte importante do equilíbrio ecológico, bem como, na cadeia alimentar, é alvo de predadores.

A classificação em sapo, em rã ou em perereca não goza de uma base taxonômica. São termos inespecíficos de limites de uso tênues. Mas poder-se-ia empiricamente traçar, a grosso modo, que os sapos são tipicamente terrestres na vida adulta (bufonidae é a família mais representativa); as rãs, aquáticas (sobretudo ranidae e leptodactylidae) e as pererecas, arborícolas (tipicamente hylidae). Contudo, os nomes se confundem por outras famílias. A anatomia de cada grupo contribui para a perfeita adaptação ao estilo de vida, embora todos dependam da água para o processo reprodutivo.


Desde longa data os sapos povoam o imaginário popular. São conhecidos nas estórias de fadas, o príncipe ou rei transformado em sapo, mas ainda conservando as virtudes. Ainda hoje uma expressão popular diz "o príncipe virou sapo", usada para indicar o fracasso da imagem de um homem no casamento, noivado ou namoro perante a mulher. 

O coaxar inspira o nome de algumas espécies, com cunho onomatopaico ou interpretativo da vocalização: sapo-ferreiro, sapo-cachorrinho, sapo-boi, perereca raspa-cuia. Neste sentido, com criatividade o povo cria frases à guisa de diálogo entre diferentes espécies nos charcos: 

_ Júlio! Júlio!
_ Que foi! Que foi!

Esses anfíbios se aproximam por vezes das moradas humanas devido à luz noturna que atrai muitos insetos, limento farto e fácil para eles. Para a cultura popular o sapo entrando em casa é mal sinal: indica chegada de visita malquista, de gente invejosa ou de demanda espiritual. “Sapo”, se alcunha as pessoas que gostam de espionar, “sapear”, xeretar, entrar no assunto alheio sem ter sido chamado, encostar-se para ouvir qual o assunto em questão. Num moçambique de Perdões/MG, ouvimos um canto que repetia exausticvamente, "oi, tem sapo na bandeja...", para indicar que um homem estranho estava por um bom tempo acompanhando o grupo pela lateral, ouvindo o que cantavam. 

Atribui-se ao sapo a transmissão do “cobreiro molhado”, um dos mais temidos por ser de maior dano e cura mais lenta. 

"Engolir Sapo" é uma expressão coloquial que se refere à pessoa ter de aturar um situação desagradável sem poder reagir a ela; ouvir o que não se quer e não poder dar resposta. 

Feitiço feito com sapo tende a ser mortal. A fórmula tradicional é escrever o nome da pessoa que se quer o mal num pedacinho de papel, pô-lo dentro da boca do sapo que a seguir é costurada. O bicho então é solto. A medida que o sapo morre de inanição a pessoa também definha, sem apetite, secando inexplicavelmente até a morte. Em São João del-Rei, no Bairro São Dimas, ouvi de um capitão de congado de uma longa demanda de duas guardas de catupé que atingiu o clímax na hora de baixar o mastro. Um grupo baixou o seu próprio, normalmente e o meirinho, às escondidas, enterrou junto ao mastro do rival um sapinho. Por mais que o capitão cantava pontos e rezava o mastro não aluía, rígido em sua posição vertical, não saía apesar da força de tração dos braços já cansados. O mastro só pode ser arrancado à meia-noite, quando saiu de súbito. 

Uma espécie muito conhecida, o cururu, ganhou Brasil afora o famoso acalanto: 

Sapo-cururu, 
na beira do rio, 
quando o sapo canta, ô maninha, 
diz que está com frio!

A mulher do sapo,
deve estar lá dentro, 
fazendo redinha, ô maninha, 
para o casamento!

O povo credita à rã o posto de “mulher do sapo”, supondo-a sua fêmea, fato inverídico. O sapo é anfíbio, que tem o macho e a fêmea. Atrás dos olhos possui as glândulas paratóides que produzem uma toxina capaz de envenenar pelo contato com sua pele. Não é comestível. A rã não tem esse veneno, sendo comestível e da mesma forma tem a rã macho e a rã fêmea. A pesca da rã se processa de duas formas: diurna, com caniço e anzol, usando como isca um pouco de carne ou um pedaço de pano vermelho. A vara é posta entre as ramagens nos poços de brejo e a isca deve ficar oscilando em pequenos movimentos. A caça noturna se deixa guiar pelo coaxar até encontrá-la, quando então um facho de luz de lanterna é lançado em seus olhos e na cegueira momentânea é trespassada por uma fisga de ferro, ajustada à ponta de um pau. A rã é preparada frita, após remoção da pele e vísceras, sendo iguaria muito apreciada no interior. Distinguem duas espécies por aqui: a rã-manteiga, de cor esverdeada e carne muito macia (daí o termo “manteiga”) e a rã-pimenta, de maior porte e pele avermelhada como uma pimenta, que provoca ardência em contato com a nossa pele.

O nome perereca tem procedência indígena e parece ser uma alusão "ao que pula", "o que anda aos saltos". Nos meios populares a palavra é posta como sinônimo chulo de vagina e ainda termo depreciativo para se referir a um tipo de prótese dentária, muco-suportada, sem grampos, sobretudo a parcial. Seu precário mecanismo de preensão a faz sair da posição com certa facilidade, "pulando da boca", daí a alcunha. 

Perereca de bananeira (Hylidae)

As pererecas (bratáquios) no folclore deixam sua marca sobretudo na crença do cobreiro que transmitiriam via urina. Um roupa estendida a secar no varal, ou em descanso no quarador, se uma perereca pular sobre e soltar urina, a pessoa ao usar aquela roupa pegará cobreiro. Se pular na pele da pessoa, idem. Andar no mato e esbarrar em folhas onde urinou, ibidem. Esta é a crença. Para curar, só benzeção...

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

As Testemunhas

Nesta postagem o blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES expõe mais um conto no qual um elemento da natureza denuncia algo oculto, em geral um crime. A presença das moscas nesse caso específico pode abrir caminhos para interpretações, que ora não serão perscrutados.

Fato é que as moscas desde antiga tradição são símbolos do mal, da negatividade, ligadas a coisas podres, obscuras. Na crendice, presença de muitas moscas numa casa é sinal de más influências espirituais, atraídas pela sujeira, ciscos, trastes velhos. Quando uma mosca-varejeira entra numa casa logo se imagina um mal presságio e se cuida de matá-la ou expulsá-la, esconjurando-a com o sinal da cruz.

Um canto de moçambique coligido em Passos/MG, dizia:

Êêê mata o boi!
Sangue tá taiado,
Tira o couro,
Mosca tá danado...


O capitão dizia-me que era um ponto "muito pesado"... o que é sintomático. Belzebu, divindade dos filisteus e cananeus recebe o título de "Senhor das Moscas", que o processo de cristianização colocou como Príncipe dos Demônios. 

Uma variante deste conto que ouvi em São João del-Rei na mesma época, do saudoso Luís Santana, desenvolvia-se de forma igual, com o detalhe que a testemunha que fora assassinada era um homem negro e em vez das moscas, um urubu perseguia o assassino por toda a parte, dando gargalhadas. Tanto a mosca quanto o urubu são criaturas ligadas à morte, pois atacam cadáveres. 

A cultura popular encontra curiosos caminhos simbólicos para revelar a sua coerência e defender os valores morais e religiosos a que dá crédito.

*  *  *

Um homem cometeu um assassinato e um tempo depois matou outra pessoa, desta vez uma testemunha do crime anterior. Pela gravidade do que fez, outras pessoas, inocentes, estavam sendo incriminadas. 

Desde aquele dia que "apagou" a testemunha, por toda parte onde andava, uma nuvem de moscas o acompanhava. Onde quer que ele fosse, mesmo que bem asseado, perfumado, as moscas o atormentavam. 

Como nada resolvia o incomodo problema, resolveu ir se confessar com um padre. Ajoelhou-se aos pés do confessionário e os insetos ao redor... 

Após ouvi-lo, o sacerdote o aconselhou a procurar a polícia e confessar os seus crimes, pois as moscas eram as testemunhas de sua maldade e não o deixariam em paz enquanto não se entregasse à autoridade. Assim fez e os insetos o deixaram imediatamente. 

Confessionário. Fotografia meramente ilustrativa.
Peça do acervo da Igreja de Nossa Senhora das Mercês.
Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG).
Para ter acesso a outro conto do tipo "natureza denunciante" clique no link: Favas Contadas.

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S.Passarelli, 26/01/2014.
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, 1995 (natural de Bias Fortes, mas residente em Santa Cruz de Minas).

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Armadilhas

Como premissa é preciso deixar claro que sou contrário às caçadas, à pesca predatória, tráfico de animais e a qualquer atividade agressiva à natureza, ações que nunca exerci. Penso mesmo que a caça, por exemplo, só é tolerável em casos de povos indígenas por necessidades alimentares. Por outras desculpas torna-se inadmissível. 

A três décadas era muito comum ver as crianças andando nas ruas com estilingues (nas Vertentes também chamado bodoque, quando é sabido que o verdadeiro bodoque é outro, em forma de arco), matando passarinhos por nada ou para fritar; colhendo filhotes nos ninhos, montando armadilhas nos matos, colecionando pássaros em viveiros no fundo do quintal, acompanhando os pais em caçadas de codorna, tatu e outros; fisgando rãs no brejos com cruéis fincos de ferro aguçado. Não tenho visto estas cenas a anos. É um bom sinal. A atividade predatória não cessou de todo e o extrativismo sem planejamento está aí; mas, nesse sentido, se encolheu e compete a cada um de nós contribuir para o processo educacional e às autoridades agir firmemente no sistema de ensino, bem como na fiscalização e punição.

Então, o alvo do presente texto não é enaltecer a atividade nem estimulá-la mas tão somente, do ponto de vista etnográfico, registrar algumas armadilhas de caça e pesca que o povo usava e que felizmente, vão caindo em desuso. 

São de natureza artesanal e necessariamente de espera. É um objeto passivo que se deixa no mato ou na água à espera da passagem da presa. É diferente de uma zagaia, caniço, tarrafa, espingarda ou estilingue que se usa em ativo, ou seja, seu usuário persegue a presa com a arma em punho. Existem armadilhas que matam o animal ao capturá-lo (como a ratoeira) ou que o mantém vivo (como a rede). 

Assim listados, estes meios revelam a astúcia e crueldade do homem e semelhantes práticas devem de fato ser combatidas por meios eficazes.  Por aqui nas Vertentes, relataram fontes orais que os tipos de armadilhas mais usados eram os seguintes: 

* * *

Alçapão - pequenina gaiola em forma de paralelepípedo, com tampa na parte superior, presa a uma mola, que por sua vez se prende ao mecanismo de gatilho no fundo do alçapão, onde se põe a isca. Para alcançar a isca o pássaro tem de pisar sobre o gatilho, que é feito de uma arame grosso ou vareta e assim desarma, fechando bruscamente a tampa sobre ele, fadando-o à prisão nos viveiros e gaiolas. Os alçapões artesanais eram feitos de bambu (assim como as próprias gaiolas), ou de madeira aparelhada com gradeamento de varinhas de bambu ou arame. Mais tarde apareceram os alçapões industrializados, totalmente em metal, feitos com soldas.

Arapuca - corruptela comum de urupuca. É palavra de origem indígena e talvez se tenha aprendido a fazê-la com eles. O radical "uru" significa cesto. É feita de lascas de taquara, bambu, taboca ou algum pau roliço, de pequena espessura, que se entrecruzam de dois a dois, em paralelo, a seguir dois a dois em perpendicular aos anteriores, se sobrepondo em camadas superpostas cada vez mais curtas, mas sempre proporcionais lado a lado, dando ao conjunto uma em forma piramidal. Os pedaços componentes se prendem por dois cordões cruzados ao centro. A "arupuca", como também é chamada, se destina a pegar aves, para o cativeiro ou para alimentação. Posta no chão em local que elas frequentam, tem um dos lados levantado um tanto, sustentado por um pauzinho em forquilha, em cujo gancho se prende o mecanismo de gatilho, uma simples vareta. Quando a ave vem buscar o alimento da isca e esbarra ou pousa sobre a vareta, o rude mecanismo desarma e a arapuca se fecha sobre ela. "Cair numa arapuca" é expressão corriqueira no sentido de se envolver inadvertidamente numa situação embaraçosa.

Arataca - pesado tronco ou pedra suspensa por corda ou cipó, presa a um mecanismo de gatilho no chão, posto bem por debaixo. O gatilho é tampado por comida colocada como engodo. Ao comer, o animal dispara o gatilho e o peso cai sobre ele, matando-o por esmagamento. O vocábulo entrou para o linguajar dos congadeiros, que o usam para aludir a uma armadilha espiritual montada por inimigos de outros grupos para pegar no pé do mastro ou junto de um cruzeiro, cava, encruzilhada, travessia de linha férrea. "Fez uma arataca pro meu terno": escondeu um feitiço contrário; fez mandinga à espreita. "Cantar arataca": cantar ponto de linha esquerda, demandar, porfiar... dizem nossos congadeiros.

Cóvo - armadilha para peixes concebida para aprisioná-los por atração de uma isca no interior do engaiolamento. O peixe entra por uma entrada larga que se afunila a ponto de ser a conta da passagem do peixe. O interior é amplo mas ao tentar sair o peixe encontra voltado para ele pontas aguçadas, que são os extremos da passagem estreitada. Existem de outros materiais mas os cóvos típicos dos Campos das Vertentes são trançados de bambu, um trabalho de confecção difícil, que exige destreza.

Esparrela - Armadilha para caçar pequenas aves, que consiste num laço preso a uma vara flexível, armado sob um mecanismo que desarma com o peso da ave. Neste fica presa a isca, um grão, por exemplo. Ao redor fica um pequeno cercado de gravetos fincados no chão. A esparrela mata por enforcamento ao suspender a vítima repentinamente do solo, pela flexibilidade da vara retesada, em cuja ponta está o laço. Gerou expressões populares: “cair na esparrela” é cair nas garras de um inimigo; “armar uma esparrela” é planejar dissimuladamente pegar o inimigo.

Fôjo - é um buraco no chão, de fundura tal que o bicho que nele cair não consiga escapar. É coberto por galhos frágeis e folhas, sobre as quais se põe sobre a isca para a caça. Quando o animal pisa sobre para se alimentar, a fraca cobertura desaba com seu peso e ele cai dentro do buraco.

Lanço - técnica de pescaria que se usa pequenina rede, saco de juta aberto, ou mesmo grandes peneiras. Consiste em fazê-los passar sob a ramagem das margens e plantas aquáticas, estando o pescador dentro d’água. Ao se erguer os peixes ficam pulando sobre a rede, saco ou peneira, sem embaraçar na malha. “Dar lanço” ou “passar lanço”: usar desta técnica.

Mundéu - gaiolão de pau ou de ferro, com porta frontal, erguida pelo sistema de gatilho, que se desarma quando o animal entra para se alimentar da isca, ficando preso. Pode ter também o sistema do cóvo, sem porta, com afunilamento. Nesse caso o animal se prende não conseguindo voltar devido à constrição da armadilha. De ordinário a armação do mundéu é disfarçada com ramos e folhagens. O termo mundéu era também usado na antiga terminologia dos mineradoras coloniais, com o significado de dique, represa improvisada com pedras e torrões para reter a água destinada à lavagem do ouro. Nas serras de São José e Lenheiro ainda existem muitos desses mundéus vestigiais, testemunhas silenciosas da intensa atividade do ciclo do ouro.

Parãoarmadilha de pesca montada em pequenas cachoeiras, à guisa de uma calha de bambus postos lado a lado sobre um suporte de paus em cavalete. Tem necessariamente uma inclinação para baixo. Os peixes que descem a cascata caem na calha do parão e são conduzidos para um grande cesto colocado a seco na sua lateral, à margem do ribeiro.

Visgo - espécie de cola tirada através de ranhuras feitas no caule de certas árvores, como a figueira-brava, por exemplo, deixando-se escorrer a seiva. Esta é coletada e mexida ao fogo dentro de uma lata, produz o visgo, substância grudenta que é passada sobre certos galhos ou ramos que são habitualmente poleiros de aves. Ao pousar elas ficam com os pés colados então é bastante as recolher ao cativeiro, mormente as cobiçadas pela beleza da plumagem ou por serem maviosas. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Toponímia: uma expressão do patrimônio cultural

O homem, na ocupação do ambiente e ordenação das vias, batizou rios, montanhas, cachoeiras, ruas, vilarejos. Sua marca cultural foi deixada na toponímia. 

Alguns nomes parecem estranhos ou desconexos a princípio, pois desconhecemos sua origem remota, que, talvez, não tenha correspondência com fatos recentes, mas carregam  valores identitários no seu âmago. 

Todo município certamente tem seus exemplos, mas seja por enquanto observado o de São João del-Rei. 

Certos acidentes geográficos tem nomes interessantes. Na Serra do Lenheiro existem algumas áreas com nomes específicos: Buraco do Urubu (referência a área de nidificação), Águas Gerais (local de onde vertem muitas nascentes), Arambinga (origem não identificada), Porteira Pesada, Tanque dos Quilombolas (referência aos escravos fugidos), Mato Assombrado, Gruta do Caititu (nome de um porco selvagem), Morro das Almas (local que marca o poente, à hora das almas, 18 horas), Serra de Santo Antônio (alusão a uma lenda que narra a aparição deste santo numa loca de sua encosta), Garganta do Diabo (cachoeira impetuosa), Cachoeira Véu de Noiva, Sete Metros (poço fundo), Areão, Areia Branca, Areinha, Facão (culminância escarpada de uma vertente), Azulão (referência a tonalidade da água de um poço nas imediações das Três Praias), Cachoeirinha. 

Os fluxos d'água, montanhas, arraiais e propriedades rurais também trazem nomes que evocam muitos aspectos: 


- nomes ou sobrenomes de pessoas, em geral fazendeiros - Poço do Antenor, Córrego do André, Chapada do Diogo, Morro do Francilino, Gregório (povoação), Ribeirão dos Chaves, Serra do Julião, Colônia do José Teodoro, Ponto dos Resende (povoação), Mama Rosa (localidade), Brito (localidade), etc.


- nomes de animais e plantas: Ribeirão Barba de Lobo, Córrego Coruja, Córrego Aricanga, Córrego Mato das Cobras, Córrego do Gambá,  Inhambu (povoação), etc.


1- Ribeirão Barba de Lobo, um dos
 formadores do Rio das Mortes Pequeno.
- nomes que aludem a características geográficas e particularidades paisagísticas: Córrego Brejo Comprido, Morro do Cascalho, Córrego Arranca-capim, Cachoeira da Mata, Pedreira da Divisa, Serra do Tronco, Cruzeiro da Pedra Ramaiuda, Morro Grande, Baía, Serrinha, Geada, Brumadinho (lugar de neblina), Ponte do Buracão (*), etc.

- nomes diversos ou relembrando algum fato marcante: Fazenda Capão do Defunto, Fazenda do Mundo-vira, Fazenda Rancho Queimado, Fazenda do Pega-bem, Pouso Real, Biongo, Caxambu (tambor e dança africanos), Palmital, Pasto dos Cavalos, Cabritos, Morro do Vento, Bandeirinhas, Povoado do Fé, etc.  

- nomes de arraiais e localidades ligados a profissões, ofícios, indústria popular: Raspador, Curtidor, Carvoeiro, Caldeireiro,  Engenho de Serra (maquinário primitivo de serraria), etc.                                                                                                 
Os arraiais e localidades também guardam nomes interessantes que merecem ser conhecidos e preservados: Cruzeiro da Barra, Zueira, Tenda, Buião, Brumado de Baixo, Brumado de Cima, Canela, Januário, Tijuco, Cananéia, Cedro, Vendinha, Valo Novo, Trindade, Ibitutinga ("serra branca", nome de origem indígena), Montividiu (o "monte visível", avistado de longe, em português arcaico (1), Caquende, Chapada, etc.

Ao longo dos anos infelizmente, ruas, povoados, cidades inteiras mudam de nome. É um atentado contra a memória histórica desses lugares pois em geral os topônimos batizam os lugares tendo como referência uma característica marcante, histórica, cultural, social e natural. 

2- Montividiu, visto da chegada da povoação.
As ruas são alvo frequente de alteração de toponímia, enquanto a atitude esperada seria a da preservação dos logradouros originais e deixar as novas sugestões de nomes para designar vias recém-abertas nos loteamentos em construção. Assim, dentre tantas, desapareceram os nomes Rua das Flores (atual Maestro Batista Lopes), Rua da Prata (Padre José Maria Xavier), Rua do Fura-olho (Modesto de Paiva), Rua da Laje (Homem de Almeida), Rua Direita (Getúlio Vargas), Rua do Campo (Fernando Caldas), Rua Jogo de Bola (João Magalhães), Rua do Barro (Coronel Tamarindo)... A nomenclatura era sutil e se dirigia a uma característica da própria vida naquele lugar. 

Tais mudanças são crimes contra o patrimônio histórico-cultural dessas comunidades tradicionalíssimas, fruto de equívocos da vereança. Dados publicados sobre 2006 por exemplo, dão conta que de 83 projetos aprovados pelo legislativo são-joanense, 10 eram de mudança de nome de rua (2). José Alberto Ferreira, então presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, abordou este assunto em artigo publicado em jornal da cidade, concluindo que "mudar o nome da rua sem uma razão muito convincente é ferir a individualidade do cidadão"(3). O professor Gaio, igualmente em boa hora alertou: "lamenta-se a infeliz arte bajulatória brasileira de homenagear personalidades, nem sempre dignas, à custa de troca de denominações de ruas e praças, perdendo-se com isso as primitivas denominações tão cheias de poesia, de história e da identidade de um povo" (4). Duas obras de historiadores são-joanenses foram dedicadas especialmente à questão toponímica e além dos dados históricos levantados de forma competente, Cintra (5) e Guimarães (6) informam de maneira abundante sobre as mudanças de nomes. 

Também nossos distritos sofreram várias alterações em seus nomes, recaindo sobre as vilas que os encabeçam (7): 


Emboabas: primitivo São Francisco do Onça, modificação ocorrida pelo decreto nº 1.058, de 31/12/1943. Muitos ainda o denominam “o Onça”, nome do ribeirão que lhe corta; 

Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno: topônimo encurtado para Rio das Mortes pelo Decreto-lei nº148, de 17/12/1938. A Lei Municipal nº 4.138, de 11/07/2007 recuperou o nome original desse distrito; 
São Gonçalo do Amarante: desde pelo menos 1732 (data da capela local) era São Gonçalo do Brumado, até 1923, quando foi alterado para Caburu, nome que, apesar de ainda ser usado pela população, foi alterado para o atual pela resolução nº 1.081 da Câmara Municipal de São João del-Rei, datada de 28/06/1990. Alteração infeliz, pois houvera ter aproveitado a oportunidade para recuperar o topônimo original, que já referenciava o padroeiro; 
São Miguel do Cajuru: nome do começo do século XVIII que se manteve até ser alterado para Arcângelo, pelo mesmo decreto que alterou o nome do Onça e depois de intensiva ação em prol da recuperação do nome original por parte do sr. José Antônio de Ávila Sacramento,  filho daquela terra de rica história, retornou ao nome autêntico pela lei nº 3.536, de 27/06/2000. 
São Sebastião da Vitória: já foi apenas Victoria, instituído como distrito pela lei municipal nº70, de 15/01/1900. O nome atual veio em 1962, por força da lei nº2.674, de 30 de dezembro.

Quisera tivéssemos de volta nossos nomes originais com suas histórias e estórias. Eles fazem parte do processo de construção histórica de nossa própria civilização. Marcam épocas, devoções, sentimentos, peculiaridades. Eles enriquecem a nossa cultura e ajudam a construir nossa identidade como se testemunhassem publicamente a sabedoria popular. Não resta dúvidas que a toponímia é parte significativa do patrimônio cultural imaterial de um povo. 



3- Placa indicativa na estrada do Largo da Cruz, 
distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. 
4- Placa viária na entrada da Vila de São Gonçalo do Amarante. 

Referências na Web


(1) - Achando info (acesso em 11/02/2014, 8:20 h): http://www.achando.info/Montividiu

Referências bibliográficas e hemerográficas

(2) - Gazeta de São João del-Rei, 24/02/2007, p.3. 
(3) - Gazeta de São João del-Rei, n.205, 13/07/2002
(4) - SOBRINHO, Antônio Gaio. Sanjoanidades: um passeio histórico e turístico por São João del-Rey. São João del-Rei: A Voz do lenheiro, 1996. 90p.il. p.24-25.
(5) - CINTRA, Sebastião de Oliveira. Nomenclatura de Ruas de São João del-Rei. Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.6, 1988. 24p. 
(6) - GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. FAPEC: São João del-Rei, 1994.
(7) - PASSARELLI, Ulisses. Pequena cronologia distrital. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.12, 2007.


Notas e Créditos

* A Ponte do Buracão situa-se dentro da vila de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. Era feita de madeira e seu mau estado de conservação gerou vários acidentes e inconvenientes, com reclamações dos moradores do distrito (ver jornal: Gazeta de São João del-Rei, n.411, 15/07/2006). A ponte de madeira foi substituída por uma de concreto armado. 
** Texto e fotografias (2013: 1, 2 e 3 / 2010: 4): Ulisses Passarelli