Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sábado, 30 de novembro de 2013

Ibitutinga

Nos limites de São João del-Rei, a cerca de 10 km da cidade, pela margem esquerda do Rio das Mortes, no distrito de São Gonçalo do Amarante, a pequenina Ibitutinga é uma povoação hoje esquecida mas que no passado teve suas atividades bem mais vivas. 

Anúncio jornalístico de um laticínio em Ibitutinga.

Plantada ao longo do velho caminho colonial que rumava a noroeste, pela Picada de Goiás, antecede imediatamente o ex-distrito são-joanense de Santa Rita do Rio Abaixo, cidade de Ritápolis desde 1962. Também fica entremeada no caminho que vem do Pombal, local de nascimento do ilustre são-joanense, Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Patrono Cívico da Nação Brasileira, e a extinta capela setecentista de São Sebastião do Rio Abaixo, onde o mesmo foi batizado. 

Seu nome de origem indígena, evocando vozes tupis, é a junção de dois vocábulos que bem se poderia traduzir por "serra branca", lembrando a visão acinzentada de seu relevo ao longe. É um contraponto a "Ibituruna", a "serra negra", cidade mais abaixo beirando o mesmo rio.

Gozou esta humilde comunidade rural de uma evolução quando foi agraciada pela construção de uma estação do "Trenzinho do Sertão", bitola 0,76cm, plantada a 842 m de altitude, no km 116,9 da linha tronco da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Foi inaugurada a 20/01/1887. 

Uma lista parcial de lançamento de tributos para Ibitutinga
mostra a quantidade de moradores que possuía noutros tempos.

A "maria fumaça" impulsionou a vida local, fortalecendo o fluxo de pessoas e produtos, por quase um século. A malfadada erradicação dos trilhos em 1983 foi um golpe mortal na economia local, que se estagnou. A velha estação e um conjunto de casas 600 metros em direção à montante do rio (Casas das Turmas, Casa do Trolley e a plataforma arrimada de pedra) constituem um importante conjunto arquitetônico que aguarda uma ação conservacionista. 


A desativada estação de Ibitutinga. Agosto/2004. 

O Correio divulgou em primeira página a lista de candidatos às eleições municipais de 1936, pelo Partido Progressista, figurando entre eles para o cargo de Juiz de Paz, para servir a Ibitutinga, Benedicto José de Oliveira, João Luiz da Silva, José Francisco de Rezende e Sebastião Justino dos Santos.

Sabemos que a luz elétrica foi autorizada pela resolução municipal nº29, de 1937. No ano seguinte ela foi inaugurada neste povoado, segundo informação do jornal são-joanense Diário do Comércio:

"A inauguração da luz elétrica no distrito de Ibitutinga foi realizado ás 18, 30 horas. Ao ato estiveram presentes o sr. Governador, representado pelo Cel. Cancio e o sr. Prefeito Municipal." 

A escolinha local foi inaugurada com grande entusiasmo a 1º de setembro de 1926, nos dá conta outro antigo jornal de São João del-Rei, A Tribuna na edição de nº787. Segundo notícia veiculada por seu inspetor, Polycarpo de Almeida, era uma escola mista, com 61 alunos matriculados, sob os cuidados da professora Aurora Francisca dos Santos.

Notícias sobre a inauguração da escola de Ibitutinga.
A igrejinha do lugar, sob o orago salesiano de São Domingos Sávio, já sediou outrora uma festa dedicada ao rosário de Maria. Assim disse A Tribuna, em 1926: 

Capela de São Domingos Sávio, Ibitutinga. Agosto / 2004. 

"Tomando parte na festa do Rosário, esteve durante três dias em Ibitutinga, o rev. sacerdote catholico padre José Rosa. 
O vigario de Mineiros officiou naquella localidade, cujo povo accorreu em peso á egreja para assistir aos actos do culto. 
Terminando as ceremonias, os habitantes de Ibitutinga não queriam consentir a partida do rev. padre José Rosa, que se fez lá eximar grandemente pelas suas apreciaveis qualidades de virtude e inteligencia. 
Com muito custo, conseguiu o digno pastor de almas regressar a esta urbe, deixando fundas saudades naquele arraial. Consignando este honroso facto, endereçamos ao rev. Padre José Rosa os nossos respeitosos cumprimentos." 

Notícias jornalísticas sobre a Festa do Rosário em Ibitutinga, citadas neste texto.

Se o texto em si não informa nada sobre o conteúdo da festividade, por outro lado é revelador da hospitalidade dos seus moradores e ainda, do fervor do catolicismo, características da vida social da época abordada.

Até 1937 o povoado teve em funcionamento uma conferência vicentina, absorvida pela de São Gonçalo do Amarante, conforme demonstrado no texto O Joio e o Trigo

Sabemos também que Ibitutinga teve parte numa efervecência da política local, reflexo da força dos fazendeiros atuantes na região. No final do século XIX fazia tenaz resistência ao então líder político municipal, Severiano de Resende. Na década de 1920 uma manchete do nº809 d'A Tribuna anuncia: "Politicalha truculenta: o sr. Viegas das Chagas regressando de Ibitutinga, lá deixou um rastro de sangue alheio." O discurso de oposição inflamou os ânimos locais chegando a haver tentativa de assassinato.

A política já foi agitada em Ibitutinga.
Ibitutinga é cortada pela rodovia federal BR-494. A atual ponte de travessia sobre o agitado Rio das Mortes data do ano 2000. Substituiu a antiga, estreita e perigosa ponte velha que jaz em abandono imediatamente a jusante. O rio neste área se caracteriza por um canal pedregoso, de águas agitadas, estreito, que imediatamente após a ponte se abre num poção fundo e largo. Outrora muito piscoso, ainda correm na memória popular narrativas de grandes pescarias, frutuosas nos piaus, piracanjubas, mandis, mulatas velhas, dourados e jaús, hoje, apenas mais uma lembrança.

Águas impetuosas do Rio das Mortes em Ibitutinga, ag.2013.

Referência Bibliográfica

- Passarelli, Ulisses. Pequena Cronologia Distrital. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. n.12, 2007.
- Prontuário Geral das Estações Ferroviárias, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Dep. Est. de Estatística, 1947. 
Referência Hemerográfica

A Tribuna, São João del-Rei, n.787, 26/09/1926
A Tribuna, São João del-Rei, n.799, 07/11/1926
A Tribuna, São João del-Rei, n.809, 12/12/1926
A Tribuna, São João del-Rei, n.1.268, 07/04/1935
Diário do Comércio, São João del-Rei, n.133, 21/08/1938
O Correio, São João del-Rei, n.502, 23/05/1936

Notas e Créditos

* Texto, pesquisa e fotos: Ulisses Passarelli
** Fonte: acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d' Almeida.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Cobra de Duas Cabeças

Animal terrestre de hábitos subterrâneos, cujo nome é um duplo equívoco: não é cobra (embora pareça uma), nem tem duas cabeças. Tem uma só, mas o extremo caudal é rombudo, assemelhando-se a grosso modo a uma cabeça, daí seu batismo. Recebem este nome um réptil da família anfisbenidae, Leposternon microcephalum - também chamado cobra-cega - e um anfíbio da família caeciliidae, Siphonops annulatus – outrossim conhecido por minhocão (*), dentre outros congêneres, todos frequentemente confundidos nos meios populares.

Mas ao povo pouco importa estes detalhes zoológicos: estes animais passam por serpentes e como tais são tratados. Estão sujeitos aos mesmos tabus e crendices, desenvolvendo medo e repulsa, como sói acontecer com as cobras em geral. SANTOS (1981), referindo-se ao anfíbio afirmou: "ao inofensivo bicharoco empresta o povo propósitos perversos e crê num sem-número de malefícios que ele é capaz de engendrar". O mesmo autor cita várias crendices que recaem sobre o réptil.

Mas em especial pode-se indicar alguns detalhes correntes nesta região: a cobra de duas cabeças goza de má fama nos meios populares, porque se crê que não é sua mordida ou picada que mata, mas sim a “baba” (saliva), que se molhar alguém tem efeito mais terrível que o veneno das cobras verdadeiras. Por isto a matam. Na verdade só morde se ostensivamente molestada. É ainda mal querida pelas galerias que abre sob a terra, que, segundo os agricultores, alojam posteriormente formigueiros. Da mesma sorte por vezes invade as galerias das formigas-cabeçudas (formigas saúvas ou formigas de roça). Daí seus sinônimos populares Brasil afora, tais como rei das formigas, mãe do formigueiro e mãe de saúva. 

A cobra-cega é visada pelos pescadores, que a trespassam em anzol para isca.

A cobra de duas cabeças é animal votivo do orixá Oxumaré. A ferramenta desse orixá é uma cobra de ferro.

Não obstante a repulsa que de imediato causam pelo aspecto serpentiforme, esses habitantes subterrâneos merecem ser preservados posto que tem seu papel na cadeia biológica, contribuindo para o equilíbrio da cadeia alimentar.

Cobra de duas cabeças: à esquerda o réptil anfisbenídeo e à direita o anfíbio cecilídeo.
São João del-Rei/MG. 


Referência Bibliográfica

SANTOS, Eurico. Anfíbios e Répteis: vida e costumes. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. 263p.il.

Notas e Créditos

* Na cidade sul mineira de Ouro Fino o termo "minhocão" ganhou uma acepção lendária, na justificativa de um tremor de terra, supostamente causado por uma minhoca gigante, como se depreende deste excerto: “Foi desse lado, em velho pasto, que ocorreu o célebre minhocão, que assustou o povo e que, na verdade, não passou de uma depressão súbita e violenta do solo causada por corrente de águas subterrâneas.” (LEITE, Aureliano. Ouro Fino de minha meninice. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1964, v.11.p.47-51.)
** Texto e fotos: Ulisses Passarelli
*** Para saber mais a respeito da cultura popular desenvolvida em torno das serpentes ver: NOMURA, Hitoshi. Os Répteis no Folclore. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 1996. Coleção Mossoroense, série C, v.893. 99p. 
**** Leia também neste blog: 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Ouro das Almas

O último post abordou as tradições acerca das almas penadas. Aproveitando seu clima, transcrevo um causo que recolhi em 05/01/1994, do saudoso Sr. José Camilo da Silva, natural da zona rural de Resende Costa (Fazenda do Palmital), mas radicado a muitos anos em São João del-Rei, no Bairro São Dimas. Era jongueiro, capitão de congado e folião. É a sua versão que se segue. Porém, coligi outra por assim dizer idêntica, de outro mestre da cultura popular, Sr. Júlio Prudente de Oliveira, dois anos depois. Era natural de Santa Rita do Ibitipoca mas morava a muito tempo em São João del-Rei, no Maquiné (*). 

* * *

Um viajante andando por terras distantes pediu pousada numa fazenda. Indicaram-lhe que o único lugar disponível era uma velha casa com fama de mal assombrada. Como não tinha medo de nada foi para lá sem exitar. 

Acomodou-se num canto e lá pelas tantas ouviu no casarão uma voz: "eu caio!" A voz vinha da parte de cima da casa. O homem respondeu: "cai!" E caiu um braço. Ele nem ligou. 

Novamente ouviu a voz: "Eu caio!" e ele respondeu: "pois caia" e caiu outro braço. O viajante não se apavorou com aquilo. 

Na terceira vez que a voz apareceu ele ficou nervoso: "cai logo tudo de uma vez e me dá sossego!" Então desabou do forro um monte ossos fazendo um barulho medonho. Os ossos foram se juntando e formaram um esqueleto. 

O esqueleto andou em direção ao homem corajoso e conversou com ele, perguntando o que ele fazia ali, alegando que aquela casa era dele. O homem explicou que só queria descansar uma noite. O esqueleto impôs uma condição para o viajante permanecer ali: deveria ir até o quintal com ele e desenterrar um barrilzinho. O homem aceitou a condição. 

Os dois foram andando emparelhados para o fundo da horta e junto às bananeiras o homem cavou no lugar que o esqueleto mostrou e ali encontrou um pipote cheio de ouro. 

O esqueleto determinou que o homem doasse parte da quantia para as obras da ordem de Santo Antônio e com outra parte mandasse rezar tantas missas em nome de algumas almas, das quais a própria caveira era uma delas, aparecida nesse aspecto tenebroso. O que sobrasse do ouro podia ficar para ele. 

Assim feito, o esqueleto e as outras almas que assombravam aquela velha fazenda puderam descansar em paz e não apareceram mais. 

Detalhe de uma essa existente na Igreja do Carmo de São João del-Rei/MG. 


Notas e Créditos


* Além destas duas versões, Antônio Gaio Sobrinho também sugere a existência deste causo em Conceição da Barra de Minas, senão vejamos: "(...) na Fazenda da Fortaleza, onde ao desventurado viajante que nela passasse a noite, por certo, lhe aconteceria os piores sobressaltos, mistérios do além, que não lhe deixariam dormir. Sucediam-lhe, noite adentro, lancinantes gemidos que repetiam pavorosos gritos dizendo: "eu caio! eu caio!" E se o infeliz respondesse: "pode cair", despencavam do teto, a cada vez, pernas, cabeças, braços... um horror!" (etc.) (Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p.il. p.155). 
** Texto e foto (01/06/2013): Ulisses Passarelli 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Alma Penada

Como conceito genérico, a expressão "alma penada" se aplica a qualquer assombração não identificada; assombro inespecífico; visão, vulto, visagem, "invisão", espectro, espírito que vaga sem rumo. 

Percebe-se, que apesar de ser aplicável a influência doutrinária católica da existência do purgatório, como um local de penúria, no sentido da purificação, há ao mesmo tempo, uma peculiaridade neste conceito dentro da cultura popular: as almas do purgatório estão presas nele, não podem sair... Para elas rezam o ano todo, encomendam matraqueando na quaresma, preces de missas lhes são dirigidas, velas iluminam o seu resgate via São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora do Carmo, os intercessores mais requisitados nestes casos. 

A alma penada ao contrário, não está presa no limbo ou no umbral: perambula sem rumo. Não está no céu, nem no inferno, tampouco no purgatório. Não foi embora. Permanece no nosso mundo, invisível (senão por assombrosas e eventuais aparições...), se recusando a partir porque não aceitou a morte, ou  foi impedida de ir pois não foi justiçada, ou ainda porque cometeu um tipo de crime que só depois de desvendado garantirá sua libertação deste mundo; ou, ainda, se deixou uma dívida, que, por caridade, deve ser paga porque alguém terreno em nome do devedor morto. 

Por vezes a alma penada tem ainda uma missão a cumprir e como não pode falar nem escrever como os viventes, para pedir ajuda, fica presa a um lugar chamando a atenção como pode, para ser percebida e talvez interpelada por algum corajoso _ daí os barulhos inexplicáveis, de corrente de arrasto, portas batendo sem terem sido fechadas, sons de torneiras abertas estando de fato vedadas, luzes que se acendem sozinhas, barulhos de passos, sensação de ter alguém perto nos observando mas não tem ninguém, calafrios sem motivo aparente, friagem no ar mesmo estando calor. Medo. É a alma penada que está por perto...

O conceito de alma penada ganha aos poucos complexidade e se mitifica. No folclore corresponde em certa medida ao egum das religiões de matriz africana. Como um mito a alma penada fica no vasto rol dos fantasmas com finalidades educativas, pois se atinge esta condição por uma punição às leis sagradas transgredidas. É a exemplaridade.  E ainda: como um alerta aos incautos _ não se deve sair a horas mortas de casa pois se pode tornar um alvo de alguma alma penada, que o segue de volta até a casa, fazendo daí sua moradia; para as crianças que abusam na desobediência querendo ir a algum lugar que não podem, logo os pais o dizem: "não vai não, menino, que lá tem alma penada"... 

Visto assim a alma penada é um ser em sofrimento, carecendo de socorro, que por vezes deseja e busca. Outras porém, eivadas de maldade, se aproveitam desta sina para apavorar, só pelo prazer que isto lhes traz. Daí o perigo que representam, perturbando o cotidiano.

Tais são os conceitos reinantes na cultura popular dos Campos das Vertentes, de espíritos vagando sem rumo e descanso porque na vida terrena a pessoa da qual desencarnou, deixou na Terra uma missão incompleta ou uma dívida espiritual. Então sua alma penará até que alguém complete a missão ou pague sua dívida. Só então descansará. 

A alma penada pode contudo aparecer com a aparência de um ser humano. Mas só se tornará visível a alguém de grande força espiritual, mediunidade e coragem. A este fará verbalmente o pedido para completar o serviço. Então ganha o dom da fala. Surgirá com o aspecto que tinha em vida, aparente ilusão das roupas de costumes, objetos, trejeitos, deformidades. Então, neste momento mágico, revela o que está lhe travando a partida e clama por socorro: o vivente por caridade faz o que a alma penada deixou pendente e uma vez cumprido a alma se liberta, deixa de ser assombrada e quem lhe ajudou receberá benesses. 

Narro por fim um causo que ilustra bem esse folclore das almas penadas. Ouvi-o em São João del-Rei. Versa sobre uma das figuras mais respeitadas da religiosidade popular que já passaram por esta tricentenária urbe: o senhor "Emídio do Bengo"(*), que deixou seu nome escrito em nossa história pela força da caridade e retilínea conduta, tratando do padecimento de muitos com remédios homeopáticos e preces. 


* * *

Conta-se que certa feita, numa noite tempestuosa, Emídio ouviu bater à sua porta, na Colônia do Bengo. Estranhou a circunstância mas como era muito solícito e procurado foi atender. Era um estranho, que não se identificou. Disse-lhe: 

_ o senhor é seu Emídio... tem coragem?
_ Sou. Tenho. 
_ Pega enxadão e pá e me acompanha por favor. 
_ Um  momento...
_ No caminho vão tentar nos atrapalhar. Senhor tenha fé e coragem que nada vai lhe acontecer, disse-lhe o forasteiro. 

Subiram por uma trilha escura no mato. Caminho acima, o homem ia célere adiante de "seu" Emídio do Bengo. Começaram a jogar-lhes pedras. Emídio reclamou do perigo. O tal lhe respondeu que avisara que tentariam atrapalhar, mas que não temesse porque nenhum calhau lhe acertaria. E zuniam as pedradas muito próximas e intensas, mas nenhuma atingiu seu Emídio. 

No topo de uma colina, sobranceira ao vale do Rio das Mortes, em plena colônia de imigrantes italianos, disse o sorumbático homem, sempre mantendo meia distância: 

_ Seu Emídio, por favor, cava aqui que eu não posso. 

Ele obediente e atento escavou, até que a ferramenta tiniu numa peça cerâmica. 

_ Achou. Tira com cuidado. 

Era uma botija, cheia de ouro. "_ Por este dinheiro eu morri", disse-lhe o homem. Orientou-lhe que com ele fizesse ali mesmo uma igreja em honra a Santo Antônio de Pádua e mandasse rezar tantas missas pela alma de fulano de tal. Com o restante fizesse como bem entendesse. No instante que o corajoso Emídio do Bengo olhou para a botija que tinha nas mãos e voltou os olhos ao estranho, ele já tinha desaparecido para sempre. 

Diz a narrativa que assim foi feito. O homem misterioso, que era na verdade uma alma penada, nunca mais foi visto. A sobra do ouro seu Emídio empregou para a caridade. 

Capela de Santo Antônio do Bengo, em São João del-Rei, citada neste texto.
 Construída em 1905, graças aos esforços do memorável sr. Emídio do Bengo. 

Notas e Créditos

* Cognome de Emygdio Apollinário dos Passos Moraes (1876-1958). Sobre ele ver: OLIVEIRA, Dyleini Moraes Silva de et all. Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo: a fé de seu fundador, a fé de sua comunidade. São João del-Rei: [s.n.], 2005
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli 
*** Informante do causo de Sr.Emídio: Aluísio dos Santos, 1993.

domingo, 24 de novembro de 2013

Primeiro Encontro de Bandas de Música de Matosinhos

No dia 1º de setembro deste ano aconteceu em Matosinhos o primeiro Encontro de Bandas de Músicas, com vasta programação, reunindo as bandas são-joanenses Theodoro de Faria, a Salesiana Meninos de Dom Bosco, a Banda Sinfônica do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos (promotora do evento), a Corporação Musical Aquiles Rios (do distrito de São Sebastião da Vitória) e a Corporação Musical Lira Santa Cecília (do distrito de São Miguel do Cajuru), além da banda da vizinha Santa Cruz de Minas, sob as bênção de São Sebastião, que a nomina. 

O encontro movimentou com intensidade o Largo de Matosinhos e agradou muito ao público, que lotou aquela praça. 

Este evento cultural deixou o gosto de quero mais e com certeza tem um grande potencial. Abaixo algumas imagens tomadas nesse dia.

Banda do Santuário de Matosinhos.

Banda do Cajuru.

Banda Salesiana.

Banda de Vitória.

Notas e Créditos

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

Bandolim

Instrumento musical cordofone, de origem italiana, descendente dos alaúdes, dedilhado, com seis cordas simples ou duplas ou quatro cordas duplas. Existem algumas variantes, constituindo uma pequena família de instrumentos. A caixa é pequena, de contorno piriforme e fundo plano. Há porém um modelo chamado "napolitano", que tem o fundo abaulado, de grande convexidade, lembrando o antigo alaúde. 

No Museu Tomé Portes del-Rei, em São João del-Rei, há um curioso exemplar antigo deste bandolim, de procedência boliviana, do século XIX, cuja caixa foi construída sobre um casco de tatu. 

Uma notícia interessante é esta, do jornal O Combate nº56:

"Theatro Municipal. Amanhã, terá logar o annunciado concerto no Theatro Municipal, de bandolim alaúde, violão, bandurra e piano, sob a direcção do maestro Marimonti, em beneficio do Asylo de S.Francisco, no qual tomam parte gentes amadoras e distinctos amadores de nossa sociedade. O fim louvavel a que se destina o producto do concerto é já o bastante para attrahir ao theatro as familias e em geral o publico S.Joannense que por certo, encherão, nessa noite, o nosso belo theatro." 

Houve nesta cidade o Círculo Bandolinista Sanjoanense, dirigido pelo maestro Alberto Marimonti. Chegou a fazer concertos no teatro municipal, com renda em favor dos mendigos, conforme atesta um velho jornal desta histórica urbe, sob o mesmo título, na edição nº84.

O bandolim tem decaído drasticamente de uso e são poucos hoje que o dominam nos meios populares, sobrevivendo seu uso em algumas folias de Reis.


O saudoso mestre "Zico" (José Inácio do Nascimento), de chapéu, no comando da folia de Reis do Bananal, Elvas
 (São João del-Rei/MG), tocando um bandolim. Foto: Ulisses Passarelli, dez.1991. 

Folia de Reis das Águas Férreas, Bairro Tijuco, São João del-Rei, vendo-se ao centro, com veste de rei mago
 (de amarelo), o folieiro João Freitas, tocando bandolim. Foto: Cida Salles, 06/01/2000. 


Folieiro da Restinga de Baixo (Ritápolis/MG), tocador de Bandolim.
Foto: Ulisses Passarelli, 24/01/2016. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli.
** Fotos: conforme legendas das mesmas.
*** As fontes jornalísticas citadas foram publicadas em São João del-Rei e pertencem ao acervo da Biblioteca Pública Municipal Baptista Caetano d'Almeida, consultado por meio de seu site. 



Referências Hemerográficas

O Combate, n.56, 17/04/1901, São João del-Rei.
O Combate, n.84, 03/08/1901, São João del-Rei.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Linha do Bicharão: um calango diferente

A cantoria do calango, que pode ou não ser dançado, é muito disseminada no interior mineiro e bem conhecida nos Campos das Vertentes. Foi alvo de dois textos neste blog, intitulados "Calango-tango".

Dentre as modalidades, uma muito específica é o "Calango dos Bichos", que enumera de 1 a 25 os animais do popular jogo do bicho, considerado contravenção no país (*). No referido texto foi transcrito um exemplar e ora segue este outro, oriundo de Santa Rita do Ibitipoca, informado em 1996 pelo sr. Júlio Prudente de Oliveira.

Como outras versões, faltam alguns números e outros tem o bicho original trocado por eventual lapso da memória (19 é pavão e não peru, que é o 20), mas seja como for, é um exemplar muito significativo deste gênero poético-musical, que carrega no enunciado o sabor da versificação e da pronúncia interioranas.

Senhor me dá licença,
d'eu começar minha coleção,
eu agora vou cantar 
na minha linha do bicharão. 

Número 1 deu n'avestruz,
acompanhando de vão em vão;
número 2 deu na águia,
caiu no chapadão. 

Número 3 deu no burro,
quando não é marcha é trotão;
número 4 na borboleta,
voando de vão em vão. 

O 5 é o cachorro, 
tem apelido de cão;
o 6 deu na cabra,
que dá leite p'ros pagão. 

O 7 deu carneiro,
que de Deus tem a benção;
o 8 o camelo,
que pega peso no chão. 

O 9 na cobra,
que é bicho da maldição;
o número 10 no coelho,
pastando capim-melão. 

O 11 no cavalo,
que dá sela e dá silhão;
0 12 no elefante
que na tromba traz argolão. 

O 13 deu no galo,
que tem espora mas não é pião;
o 14 deu no gato,
destampando o caldeirão. 

O número 15 no jacaré,
nadando no ribeirão;
o 16 no leão,
que é o rei do bicharão. 

O 17 deu no macaco
que pulou do galho no chão,
o 18 deu no porco,
cozido no caldeirão. 

O 19 deu peru, 
arrastando a asa no chão;
(falta o 20)

O 21 deu no touro,
puxando carretão;
o 22 deu na tigre (**),
só pega às traição.

(falta o 23 - urso)
o 24 no veado,
correndo no chapadão. 

25 deu na vaca,
terminei minha coleção. 




Notas e Créditos



* Em razão da ilegalidade, a repressão ao jogo do bicho é muito antiga. A mais de um século a imprensa são-joanense elogiava o Dr. Vieira Marques, de Belo Horizonte, chefe das polícias, pela ordem expedida aos delegados distritais, no sentido de que perseguissem o jogo do bicho (Fonte: jornal A Tribuna, n.49, 13/06/1915, São João del-Rei).

**Na tigre: a expressão no feminino é tradicional entre as vozes populares. No meio caipira a palavra tigre é por vezes sinônimo de onça, o que não corresponde naturalmente aos ensinamentos da zoologia. Mas o costume dessa denominação é antigo. Já Diogo de Vasconcelos escrevera a mais de um século sobre a onça preta, variedade melânica da pintada (jaguar), chamando-a de "onça tigre": "é preta, como o tigre, e tem de ordinário da cabeça à extremidade da cauda, de dez a dezesseis palmos de comprido, o tronco varado, peitos e quartos largos; a forma é a de um gato e serve-se das unhas retráteis como um anzol para chegarem a presa à boca, com a qual a despedaçam; é a mais formidável de todas as feras por sua agilidade, e arteira de modo que, com a dissimulação, assalta a todos os animais; seus urros são medonhos; habita as grandes matas e serras fragosas; nutre-se de toda a espécie de carnes, ama com preferência o gado vacum e cavalar. Atrai as presas por meio da imitação, fingindo o pio do macuco ou do inhambu ou de qualquer ave que pretende apoderar-se." (VASCONCELOS, Diogo Pereira Ribeiro de. Breve descrição geográfica, física e política da Capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte: Sistema Estadual de Planejamento/Fundação João Pinheiro/Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1994. Coleção Mineiriana, Série Clássicos. 188p. p.68)

*** Texto e foto: Ulisses Passarelli

**** Para saber mais sobre calango veja neste blog: 


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ianduti

Ianduti ou nhanduti é um certo tipo de renda de muitas possibilidades combinatórias geométricas, bastante delicada, com uma trama que imita uma teia de aranha, literalmente tradução de seu nome, que é de origem indígena (iandu = aranha), muito embora a técnica seja européia. É feita sobre um quadro cheio de preguinhos, o bastidor (tear para rendas).

Também chamada renda-sol ou ainda renda-tenerife, teria vindo para a América de Tenerife (Arquipélago das Canárias). No Paraguai ganhou o batismo com o nome indígena e esparramou-se por distantes áreas geográficas.

O viajante inglês John Mawe, que por aqui passou em 1809, escreveu: “As senhoras de São João del-Rei gostam muito de fazer renda, e são consideradas mais cuidadosas com coisas domésticas dos que as das outras cidades”



Bastidor e ianduti. Trabalho da são-joanense Luíza dos Santos. 

Referências

MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil, principalmente aos distritos do ouro e dos diamantes: 1809-1810. 
http://www.youtube.com/watch?v=5Vg-DkVN2nY (acesso em 20/11/2013, 5h)


* Foto e texto: Ulisses Passarelli

domingo, 17 de novembro de 2013

São Gonçalo Garcia

(Ofereço atenciosamente ao professor Gaio, mestre da história são-joanense)

São Gonçalo Garcia foi nascido em 1556, em Baçaim, na Índia. Seu pai era português e a mãe indiana. Foi irmão leigo franciscano. Em 1597, na cidade de Nagasaki, no Japão, foram crucificados 26 cristãos (“Mártires do Japão”), em missão religiosa comandada pelo espanhol São Pedro Batista. Dentre eles, Gonçalo, que depois de muito humilhado teve o coração trespassado por duas setas ou lanças, a 05 de fevereiro daquele ano. Foi canonizado em 1862, pelo Papa Pio IX. 

Retábulo no altar-mor da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei/MG.

Imagem de S.Gonçalo Garcia,
São João del-Rei.
Em São João del-Rei a "Irmandade de São Francisco de Assis e São Gonçalo Garcia" foi fundada na Igreja Matriz do Pilar em data incerta do século XVIII e já no ano de 1759 recebia terras. O patrimônio foi doado em 1775 por Joaquim Ferreira Veiga. A construção da capela própria iniciou-se, segundo Augusto Viegas, citando Lima Júnior, em 1786, ano da provisão que deu autorização para edificá-la. As obras se arrastaram por longos anos. Em 1790 Antônio José Quintino de Assunção foi pago pela escultura da imagem do padroeiro. Em 1794, Manoel Izidoro fez trabalhos no camarim do trono desta capela. Muito modesta, inicialmente não tinha torre, o que se percebe em uma antiga ilustração assinada por Huascar; mas há notícias de uma "nova torre" construída em 1826-7, obra do mestre pedreiro Cândido José da Silva, do lado esquerdo do frontispício. Sua simplicidade foi alvo de severas críticas do exigente Burton quando de sua passagem pela cidade. Seu aspecto primitivo foi alterado completamente. A Câmara Municipal consignou um conto de réis para sua reforma em 1877, informou o primeiro número do jornal local, Arauto de Minas, de 08 de março daquele ano. Sua edição n.4, do mesmo ano, fala em reedificação da capela. As obras tiveram longa duração e o atual frontispício (com uma torre única, central e projetada adiante da fachada) foi concluído em 1903. A escadaria de acesso data de 1915. Cumpre ainda informar que o nome inicial do sodalício foi alterado, ganhando o título de "Episcopal Confraria" em 1850, por um pedido do definidor Padre José Maria Xavier ao Arcebispo de Mariana, Dom Frei Manuel da Cruz. 

Procissão do Imperador Perpétuo passa diante da Igreja de São Gonçalo Garcia, 
durante a Festa do Divino de São João del-Rei. Foto: Cida Salles, 10/06/2011.   

É alcunhada "Igreja dos Militares", onde se venera Santa Joana d’Arc (*), sua padroeira. Contém também imagens de outros santos patronos dos militares ou ligados culturalmente ao militarismo: Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio de Pádua. Diante dela há o Monumento aos Expedicionários e a própria igreja é bem próxima à área sede do 11º BI Mont.Regimento Tiradentes, gloriosa unidade de montanhismo do Exército Brasileiro, que muito orgulha esta cidade.

Santa Joana d'Arc. Imagem da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

No sistema colonial de divisão de classes, esta irmandade congregava os homens pardos, impedidos que eram de entrarem para ordem franciscana, que só admitia brancos. Teve pretensões de libertação dos escravos. Requereu em 24/11/1772 à Rainha D. Maria I o privilégio de libertar escravos confrades mediante paga.  O traje é um hábito um pouco mais curto que o dos terceiros franciscanos. Por isto mesmo são apelidados ironicamente de “meias caídas”, segundo Gaio Sobrinho. O dia deste santo é 05 de fevereiro mas nesta cidade festejam-no em julho. Além do orago, merece destaque no lugar a veneração a São Judas Tadeu (hoje mais tênue, desde que foi construída sua igreja, no Bairro Caieira), Santo Expedito (com fervorosa festa em abril), Santa Luzia (em dezembro), São Frei Galvão e Santa Joana d’Arc


Quadros com fotografias ex-votivas. Hall da sacristia. Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

Realizava-se outrora nesta igreja a curiosa “Procissão dos Mártires”, que diz Antônio Gaio Sobrinho, era, “mais ou menos, uma réplica da procissão de cinzas dos franciscanos.” Era bizarra, cheia de andores e alegorias, da qual o autor nos brinda com interessante citação de alguns detalhes no seu "Visita à Colonial cidade de São João del-Rei".

Nossa Senhora do Amparo.
Igreja de São Gonçalo Garcia.
São João del-Rei. 

Houve também o costume local da Rasoura de Nossa Senhora do Amparo, todo primeiro domingo de cada mês. Sua imagem ficou conhecida por isso como “Imagem da Rasoura”. Rasoura é uma pequena procissão circunscrita aos limites físicos da igreja (dentro do adro) ou caminhando apenas pela praça fronteira ou quarteirão que lhe rodeia. Na época da escravidão esta invocação mariana era uma das clamadas pelos cativos, esperançosos de seu amparo espiritual. 

É mister referir que atrás da igreja há o cemitério próprio. Nele havia outrora a tétrica inscrição em latim: “hodie mihi cras tibi” que se pode traduzir, “hoje para mim, amanhã para ti”. 

A devoção a São Gonçalo Garcia é por assim dizer rara. Poucas são as notícias. Há igrejas setecentistas deste orago em Penedo/AL, Vitória/ES e Rio de Janeiro/RJ (Rua da Alfândega, junto com São Jorge). Em Pernambuco colonial conheceu-se também esta devoção. No Recife os festejos ganhavam cunho popular na Igreja do Livramento, onde ficava sua imagem. Os negros e índios tomavam participação ativa, com suas danças folclóricas de quicumbis e caboclinhos, e o cortejo se agigantava com muitas alegorias, carros triunfais e música. 




Referências bibliográficas

- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho
- CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 
- GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 104 p.il. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p.il.
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade São João del-Rei. São João del-Rei: [s.n.], 2001. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rey 300 anos de históriasSão João del-Rei: [s.n.], 2006.
- PEREIRA, Kleide Ferreira do Amaral. Revivescência de Cultos Pagãos nos Antigos Cultos aos Santos Nacionais Portugueses. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, MEC / Dep. de Assuntos Culturais / CDFB, n.35, jan.abr.1973. p. 33-44. 
- TINHORÃO, José Ramos. As Festas no Brasil Colonial. São Paulo: 34, 2000. 176p.il. 
- VIEGAS, Augusto. Notícias de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n], 1959.


Referências na Web

Wikipédia (acesso em 17/11/2003, 17:35h)


Notas e Créditos

* Já se encontrava publicada esta postagem, quando a 10/12/2013 localizei uma interessante notícia sobre Santa Joana d'Arc: trata-se de um registro de sua festa no Largo do Rosário que dá conta de uma missa campal, procissão muito concorrida, como parte das comemorações da páscoa dos militares. Os soldados carregaram o andor durante todo o trajeto. Frei Orlando Alvares fez o sermão à entrada, falando da vida da mártir (Fonte: jornal O Correio, São João del-Rei, n.859, 08/05/1941, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). É santa muito querida nos terreiros das religiões de matriz africana, sua imagem é frequente nos congás, tida como santa guerreira, muito forte, habitualmente sincretizada com Ogum Iara, ordenança de Oxum. Em São João del-Rei houve na década de 1990 um grupo de moçambique bate-paus na Rua do Ouro (Bairro Alto das Mercês), do Capitão Tadeu Nascimento de Sousa, que se denominava “Mãe Joana D’Arc”, aliás, o mesmo nome do terreiro ao qual estava ligado, já que seus participantes eram filhos espirituais daquela casa.
** Sobre Frei Orlando ver também:
- Aspectos folclóricos: neste blog, em  A Batina do Padre tem Dendê 
- Aspectos biográficos e históricos: no Blog de São João del-Rei (um trabalho de pesquisa fidedigno, da maior importância, efetivado pelo culto Sr. Francisco Braga). 
*** Texto e fotos (salvo indicação em contrário): Ulisses Passarelli, 17/11/2013.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

São Gonçalo do Amarante


Santo dominicano português, da cidade de Amarante, falecido em 1259 e canonizado em 1561. Seu dia é 28 de janeiro. Construiu com a graça de Deus uma célebre ponte de pedra sobre o Rio Tâmega na sua cidade.

É considerado casamenteiro, sobretudo das solteironas. Neste sentido há esta pitoresca pilhéria, abaixo transcrita a partir de um antigo jornal de São João del-Rei, "O Erro":

"porque motivo a senhorinha H. da rua de S.Francisco só anda com meninas bonitas? Será mesmo por abnegação ou para ver si beleza é moléstia contagiosa? ... Qual, minha flor; agora só muita devoção a S. Gonçalo do Amarante!..."

Tem uma igreja barroca na vila que leva o seu nome, no distrito homônimo (ex Caburu), em São João del-Rei. Localmente é festejado em julho, junto com o Sagrado Coração de Jesus, contando com novena, alvorada, missa festiva, procissão, sermão, bênção do Santíssimo Sacramento, leilão de prendas, queima de fogos, quermesse, banda de música. 

Um outra igreja regional dedicada a este santo está situada em Ibituruna, donde é padroeiro. Sua capela é citada desde 1749 ou 1769, conforme a fonte. Porém a capela primitiva deu lugar à atual (que aparece na foto abaixo) em 1932, segundo o jornal Folha Nova. Ibituruna pertenceu a São João del-Rei até 1922, passando então ao município de Bom Sucesso do qual emancipou-se em 01/03/1963.

Igreja de São Gonçalo do Amarante, Ibituruna/MG. 
Foto: Iago C.S. Passarelli, 30/06/2013. 

Tem duas iconografias distintas: numa representam-no como sacerdote, com batina preta e chapéu eclesiástico ou com hábito dominicano; noutra, como camponês de Portugal, tocando viola. 

Detalhe do trono, no retábulo da Igreja de São Gonçalo do Amarante no distrito homônimo em São João del-Rei, vendo-se os anjos recortados na madeira, abrindo a cortina que permite a aparição do santo, uma solução estética rara nesta região. Foto: Iago C.S. Passarelli, 13/10/2013.

Corre que o santo nas horas de folga tocava sublimemente viola noite adentro para as prostitutas, que encantadas com seu som, deixavam de ir se prostituir, dançando alegre e sadiamente diante do santo. Assim evitava que continuassem no pecado. Por isto é padroeiro dos violeiros, que fazem promessas para ele no sentido de buscar proteção e aprendizado. 

Possui devotos fervorosos que pagam promessas de forma curiosa e inusitada _ dançando: é a Dança de São Gonçalo, sempre de fundo religioso, sendo muito rara nas Vertentes. Tem por aqui duas áreas de ocorrência, uma rumo leste (Bias Fortes,Santana do Garambéu...) e outra a oeste (Lavras, Perdões...). Em Bias Fortes realizava-se nas fazendas e no Arraial do Vermelho um homem (promesseiro) vestia-se de São Gonçalo, mas trazia o rosto coberto. Diante dele dançavam e cantavam. 

"Mandei chamar São Gonçalo,
que viesse a toda pressa!
pra ajudar esses doente,
a cumprir suas promessa. 

São Gonçalo desceu do céu
na folhinha do café, 
pra dançar pra São Gonçalo
há-de ser com muita fé."

Outra estrofe, de Ponte Nova (Bias Fortes), carregada de irreverência, cantada pelo sr.José Maria: 

"Pra dançar pra São Gonçalo
é na folhinha do feijão, 
cura quem tá doente, 
adoece quem tá são..."

No povoado do Brumado de Cima, distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), registrei a Folia de São Gonçalo. Sob a coordenação do folião Geraldo Marcelino da Silva, popularmente conhecido por "Geraldo Teixeira", recolhia donativos na zona rural entre os sitiantes para organização da festa do santo na sua igreja própria. A bandeira de sua folia representava o santo sobre uma ponte, alusão a sua obra em Portugal. 

Bandeira da folia de São Gonçalo do Amarante, povoado do Brumado de Cima, 
São João del-Rei. Foto: Ulisses Passarelli, março/1999. 


A Festa de Nossa Senhora das Mercês, observada em Tiradentes no ano de 1999, previa entre os muitos Juízes (as) os de São Gonçalo, constando inclusive seus nomes no programa festivo. 


Referências Bibliográficas

- GUIMARÃES, Geraldo. Considerações sobre Ibituruna. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.8, 1995. p.91-103.
- POMPÉIA,  Maria do Rosário. Algumas notas sobre Ibituruna. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.8, 1995. p. 104-110.

Referências Hemerográficas

- Folha Nova, São João del-Rei, n.8, 24/04/1932.
- O Erro, São João del-Rei, n.2, 09/07/1933.

Informantes

- José Cândido de Salles, 19/07/1997 (Arraial do Vermelho)
- Elvira Andrade de Salles, 19/07/1997 (canto, originário de Ponte Nova, município de Bias Fortes)
- José Maria do Nascimento, 07/07/2013 (canto, originário de Ponte Nova, município de Bias Fortes)
- Geraldo Marcelino da Silva, março/1999 (sobre a folia do Brumado de Cima)

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Folclore das Orquídeas

Algumas orquidáceas na tradição popular de São João del-Rei

(ofereço atenciosamente a Luís Cruz, grande defensor de nossa natureza)

As orquidáceas são vegetais superiores, muito evoluídos na escala filogenética. De floração bela, intrigante, aromática, desde longa data são alvejadas pelo homem no afã de tê-las ao alcance do olhos, em cultivo caseiro ou comercial. 

Não apenas a coleta é uma ameaça. A destruição do habitat e as mudanças climáticas, tudo fruto da pressão antrópica, impõe um destino sombrio a estas criações maravilhosas da mãe natureza, carecendo de um vasto trabalho educativo e protecionista. 

Algumas dessas plantas caminham céleres para a rarefação. Há as que tem um papel especial na cultura popular, conforme a região, enveredando para o ramo do folclore, razão pela qual vem neste momento colorir esta página eletrônica, tal como os exóticos dendróbios (Dendrobium nobile) enfeitam, em setembro, o andor do Senhor de Matosinhos. 

***

Baunilha - nome das orquídeas do gênero Vanilla e da essência aromática extraída dos seus frutos (cápsulas de sementes). A substância principal da baunilha é a vanilina, que confere aroma e sabor característico a bolos, tortas, doces, sorvetes, etc. É usual colher as cápsulas na Sexta-feira da Paixão, cortá-las em forma de cruz, colocar açúcar em seu interior e por a secar. Guarda-se para fazer chá em casos de cólicas muito fortes e para males inexplicáveis. Considera-se abençoada. A mais de um século, um jornal de São João del-Rei anunciava nos seguintes termos um certo conhaque (*): "Cognac de agrião e baunilha - Depositarios Nogueira Sobrinho & Comp. - Rio  - Rua do Acre, 49. Fortificante sem egual. Saboroso e medicinal."

Outra referência digna de registro é a do viajante inglês Richard Burton, que em meados do século XIX, ao passar por São João del-Rei, deixou registrado: 

"Também nos foram mostrados exemplares da baunilha nativa, preparada pelos nossos anfitriões. As vagens são penduradas em uma corda e postas a secar, todos os dias, ao sol e ao ar, mas de maneira a não se tornarem excessivamente secas. Por duas vezes, com um certo intervalo, é aplicado o óleo da "azeitona-da-África", por meio de uma pena. Há quem corte as vagens e salpique dentro delas açúcar e sal. Esse valioso produto é de a muito conhecido no Brasil; uma lei colonial de 1740 proibia seu corte. O autor do poema Caramuru, cuja primeira edição é de 1781, fala sobre ele (Canto 7, es.47): 

"A baunilha nos cipós desponta,
que tem no chocolate a parte sua:
nasce em bainhas, como paus de lacre,
de um suco oleoso, grato o cheiro acre."

Ao passo, porém, que os espanhóis exploravam a "vaynilla" (Epidendron vanilla), mesmo em sua época de ouro e prata, os portugueses, especialmente os paulistas e os mineiros, sistematicamente a negligenciavam, e nossos livros a ignoram. No entanto, a planta cresce em grande parte do Brasil intertropical, e, em certos lugares, perfuma a atmosfera. Parece, portanto, se reproduzir sem a arte. As vagens que nos foram oferecidas em São João eram grandes, carnosas e muito escuras; conservaram durante meses seu cheiro característico."


Bananinha ou dedo-de-moça - micro-orquídea do numeroso grupo dos Pleurothallis, atualmente classificado como Acianthera rupestris. Coletado no dia de Nossa Senhora da Conceição nas pedreiras serranas, é usado para enfeitar presépios. 


Pinheirinho - micro-orquídea do grande grupo das Maxillaria, hoje classificada como Christensonella acicularis. Uso idêntico à anterior. 


Tatu, sumaré ou lanceta do mato - nomes populares dos cirtopódios, em especial aqui do raro Cyrtopodium andersonii. Do extrato dos pseudobulbos o povo faz uma cola rústica (também extraída de outra rara orquídea regional,Catasetum cernuum) e ainda um emplastro de poder cicatrizante. 


Bailarina - qualquer oncídio de flores amarelas. Orquidácea do grupo Oncidium, notadamente Coppensia varicosa, que florindo nesta região entre março e abril, tem suas hastes florais exuberantes usadas na ornamentação de capelas, dispostas em jarras e florais, durante as comemorações dos Passos. 

 


Catiléia - orquídeas epífitas do gênero Cattleya. Sofrem imensamente com a coleta em virtude de sua exuberância. Na região duas espécies nativas são usadas na ornamentação quaresmal dos andores do Senhor dos Passos e capelas: Cattleya loddigesii  e Cattleya walkeriana, abaixo retratadas, nesta sequência. 

                                           

                                   

Referências Bibliográficas

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197.

Notas e Créditos

* O Repórter, n.32, 16/09/1906, São João del-Rei. Fonte: site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida
** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli