Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Três Marias

Três Marias é o nome popular das estrelas Alnitek, Anilam e Mintaka, que formam a Cinta ou Talabarte da constelação de Órion. De acordo com a mitologia grega, Órion ou Oríon era um caçador gigantesco, filho de Poseidon (deus do mar). Artemis (deusa da caça) fez com que um escorpião o picasse sendo então transformado em constelação, junto com o artrópode. 

A cristianização se deu por analogia às três mulheres de nome Maria, postadas, segundo a tradição, lamentosamente, aos pés da cruz de Cristo: Maria Madalena - a pecadora arrependida, Maria de Cléofas e Maria de Salome, ou Maria Salomé, como chegou-nos. 

Explica o texto apócrifo “História de José, o Carpinteiro”, que Santa Ana (Santana) casou-se três vezes. A primeira com São Joaquim, gerando Maria de Nazaré, mãe de Jesus; a segunda com Cléofas, irmão de São José, nascendo outra Maria, dita “de Cléofas” e a terceira vez com Salome, dando a terceira Maria. Maria de Cléofas esposou Alfeu, gerando Tiago Menor e o apóstolo São Filipe. Maria de Salome teve com Zebedeu os apóstolos São Tiago Maior e São João Evangelista. Estas três Marias geraram a tradição da Maria Beú

Maria Beú é um personagem do mais solene préstito religioso do ciclo quaresmal, a Procissão do Enterro, da Sexta-feira da Paixão. No preto do luto se vestem, véu à cabeça, lamentando de tanto em tanto a morte do Senhor com uma plangente expressão latina: 

Heu! Domine,
Salvator noster!

A dolorosa interjeição soando "héuuu..." inspirou a corruptela "beú". 

Uma cena incomum: quatro Marias Beú. A tradição popular prescreve três, mas pela dinâmica intensa está sempre sujeita a reinterpretações. Santa Cruz de Minas, abril/1999. 

Outra via de cristianização denomina as estrelas de “Três Reis Magos”. Talvez neste sentido em especial, se liguem os seguintes versos de folias de Reis, que ouvi nos anos noventa de dois memoráveis foliões de São João del-Rei, Luís Santana, no Bairro São Dimas, e "Luís Candinho", no povoado do Fé: 

Encontrei com as Três Marias
Numa noite de luar, 
procurando a Jesus Cristo
sem nunca poder achar...

Foram dar com ele em Roma,
revestido no altar, 
com o cálice bento na mão, 
missa nova ia cantar. 

Na verdade estas duas quadras são muito tradicionais, conhecidas em várias regiões, de plausível procedência ibérica.

Folia de Reis, povoado do Fé (São João del-Rei/MG), 1993. 
Ao centro de chapéu e viola artesanal ao peito, o saudoso mestre Luís Cândido Gonçalvez, o "Candinho".

Fontes Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: Funrei, 2001. 128p. 
SÃO JOSÉ E O MENINO JESUS. Org. Lincoln Ramos. 4.ed. Petropólis: Vozes, 2001. 

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Folclore dos Pássaros

Por todas as regiões nacionais existem crenças acerca das aves. Algumas se estendem por vastidões geográficas, outras se mostram restritas. 

Perscrutando as obras dos estudiosos vamos encontrar diversas referências a superstições sobre pássaros ou sua presença inspiradora nas trovas populares, mormente as aves canoras, como sabiás e canários. Eurico Santos em sua vasta obra zoológica, notadamente em "Pássaros do Brasil" e "Da Ema ao Beija-flor", registrou soberbamente uma vasta galeria desse folclore. Helmut Sick, na monumental obra "Ornitologia Brasileira - uma introdução", também nos brindou com amostras significativas das tradições populares sobre as aves. E mais especificamente na folclorística, destacamos a obra de Hitoshi Nomura (Avifauna no Folclore), de uma grande amplitude nesse tema. 

Quem não conhece a lenda setentrional do célebre uirapuru, que quando canta todas as demais aves da floresta se calam para ouvi-lo? 


Garrincha sobre um mandacaru em São João del-Rei. 

Por aqui não seria diferente a impressão sobre as aves. Algumas tem voz agourenta, como o pio lúgubre das corujas (stringiformes) e ou canto macabro do acauã, nome onomatopaico do gavião Herpetotheres cachinnans, interpretado outrossim por "Deus quer um...", que teria o poder de anunciar uma morte. Outros pássaros dão azar a quem matá-los, como a garrincha (passeriformes, troglotidae, Troglodytes musculus), a lavadeira (passeriformes, tyrannidae, Fluvicola nengeta) ou a saracura (gruiformes, rallidae, Aramides sp.). O caso dessas duas últimas liga-se à devoção mariana. Dizem em São João del-Rei que quando Nossa Senhora fugia para o Egito com muito medo da perseguição de Herodes, foi ajudada pela saracura, que ciscando pelo caminho, apagava as pegadas da Sagrada Família para não ser rastreada pelos centuriões. Já a lavadeira, que gosta de ficar na beira da água, foi o passarinho que carinhosamente lavou para a Virgem Maria os paninhos do Menino Jesus, na beira do rio. Por isto foram abençoados por ela. Sobre a saracura, também se diz, que, quando canta com insistência é sinal que vai chover, principalmente Aramides cajaena, cuja interpretação onomatopaica soa como "quebrei três potes".


Uma lavadeira na zona rural de São João del-Rei.

Gavião-acauã, Serra de São José, Santa Cruz de Minas / MG. 

Sabiá (passeriformes, turdidae, Turdus sp.) cantando muito durante o dia, na hora de sol quente, chama chuva. Isto porque de hábito prefere cantar nos extremos do dia, pela aurora e ao crepúsculo. Inspira muitos versinhos do folclore, como: 

"Sabiá cantou, 
lá na laranjeira, 
vamos levantar
a nossa bandeira!"
(Marujos, Barbacena/MG, 2002)

Outro que chama chuva é o joão-bobo (galbuliformes, bucconidae, Nystalus chacuru), teimosamente pousado nos galhos do cerrado, segundo perspicaz observação dos boiadeiros. Seu canto é considerado infalível. Ao menos anuncia uma mudança rápida do tempo. 

Saracura se banhando no Ribeirão da Água Limpa, Bairro Matosinhos, São João del-Rei.



Saracura na margem do Rio das Mortes, São João del-Rei.

Urubu (cathartiformes, cathartidae, Coragyps atratus) se pousar sobre o telhado ou lage de uma casa indica que breve alguém dali vai morrer. Na magia negra a pena do urubu é usada para feitiçarias capazes de matar a pessoa a cujo nome for amarrada. Um senhor conterrâneo, cujo nome me abstenho de anunciar, dizia-me a mais de dez anos atrás que este trabalho espiritual mata porque o urubu é a ave que voa mais alto, perto do céu, levando embora a alma da pessoa. Não é porque tem hábito carniceiro... Dizem ainda que a longevidade do urubu é extraordinária e que sua franga só começa e botar ovos aos cem anos de idade! Acredita-se que o urubu tenha uma defesa orgânica excepcional, para resistir aos alimentos putrefatos que ingere. Suas fezes dão sorte se acaso defecar sobre alguém por acidente. Dá azar matar urubu. O Código Municipal de Posturas de São João del-Rei, de 1887, no art.48, sob pena de 15$000, proibia a matança de urubus. 

Urubus aninhados na Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG. 

Porém o presente texto reservou um momento particular para os cucos do Brasil, digo, os seus parentes próximos, cuculiformes, aves de sua família, cuculidae, que abaixo estão discriminadas.

***

Peixe-frito – Nome popular da Tapera naevia, que acreditam encantado, posto que, supostamente, se faz invisível. Só se houve seu canto repetitivo e de tempo bem marcado, de dois assobios, que interpretam nas Vertentes como a expressão “peixe-frito”. Em outras regiões a onomatopéia soa como “sa-ci” ou “sem-fim”. Em muitos lugares é chamado saci, aproximação ao mito do saci-pererê, que acreditam ser o responsável por assobios misteriosos. Não se vê a ave na ramagem mesmo quando canta bem perto da gente. Por isto, no sul, o chamam “mandrião”. Ocorre que sendo muito dissimulado, vale-se de excelente mimetismo.



Alma de gato. Glória (Ritápolis/MG).

Alma-de-Gato - Ave da espécie Piaya cayana, conhecida desde o México até a Argentina. Na área Amazônica há outras duas espécies congêneres. Também chamada rabo-de-palha, chincoã, tincoã e coã. De hábitos esquivos, raramente é vista. Trai a sua presença pelo vôo de uma árvore à outra, balançando o longo rabo, piando matraqueado. Tem fama de ser debochada, seja por imitar outras aves seja por se esconder muito bem. O nome vem do gosto em assaltar ninhos de outros pássaros, comendo os filhotes, como um felino. Seu ninho é muitíssimo escondido, de tal sorte que a ornitologia pouco lhe conhece dos hábitos reprodutivos. O povo logo esclarece o mistério: o ninho é tão escondido porque entre os ovos há uma pedrinha de ouro, que deve guardar a todo custo. No Nordeste origina crenças agoureiras com sua presença e canto. No boi-calemba (= bumba-meu-boi) do Rio Grande do Norte, motivou uma cantiga com refrão e quatro quadras, na série dos “bailes de sala”, entoados para entrar na casa do anfitrião. 

Anu(m) - Nome de algumas aves cuculiformes: Crothophaga ani ani, Crothophaga ani sulcirrostris (ambos chamados anu-preto), Crothophaga major (anu-de-enchente, anu-coroca, anu-guaçu ou anu-peixe, também de plumagem negra) e Guira guira (anu-branco). Acredita-se darem grande azar a quem os mata, tal como levar um coice de cavalo (que não se levaria se não tivesse matado o pássaro...), ser reprovado numa avaliação escolar, tomar uma queda, etc. A restrição de não matá-lo ligar-se-á talvez ao fato dos anus serem queridos dos criadores de gado, por andarem sempre junto destes animais, catando-lhes parasitas. Seria uma crendice educativa. Matar anus aumentaria a população de carrapatos. Lembro de um verso do boi-de-mamão ( = bumba-meu-boi), de Sambaqui (Florianópolis/SC, 1996),  durante o entremeio do urso (um dos personagens), dizendo: 

“Nosso urso vem dançando, 
vem dançando devagarzinho, 
vem pedir pra todo povo  
pra não prendê passarinho.” 

É possível por outro lado que se prenda ao fato dos cuculídeos no Brasil serem pássaros motivadores de várias superstições. Tem uma mesma silhueta corporal, semelhante à do cuco europeu (Cuculus canorus), ave que deu nome ao grupo, já mencionada na famosa carta de William John Thoms, de 1846, onde criou a palavra folclore, exemplificando-o para dar melhor entendimento ao seu então neologismo. Nos Estados Unidos há a seguinte sentença meteorológica popular: “Cuco cantando todo dia, ano frio anuncia.” [1] Será que o colonizador branco, trazendo as superstições sobre o cuco europeu, ao ver o cuco americano (anu, etc.) lhe transferiu tais crendices? Com o tempo outras faces foram se agregando. É corrente em São João del-Rei a crença espiritualista que a chegada de um grupo de anus diante de uma casa indica ali a presença de eguns (almas penadas). No sul e sudeste do Brasil é o nome de uma das muitas danças que compõe as suítes folclóricas chamadas fado e fandango. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: alma de gato, saracura, lavadeira e garrincha - Iago C.S. Passarelli; urubu e acauã - Ulisses Passarelli
*** Leia também neste blog: TICO-TICO: PASSARINHO ATREVIDO  



[1] In: Entre o Rifão e o Trovão. O Correio, UNESCO, n.10-1, out. / nov. 1973. 

domingo, 27 de outubro de 2013

Na minha terra se fala assim - parte 1

Cada região tem sua linguagem própria independente do idioma e do dialeto ali falado. Esta característica mais intrínseca é fruto da mescla cultural de diferentes etnias e de diversas influências, algumas recentes advindas dos meios de comunicação e não raro tem caráter transitório como o caso da gírias que podem estar ligadas a uma faixa etária; outras, são frutos das correntes migratórias e influências da mídia, de personagens artísticos. 

São João del-Rei com sua tradição tricentenária não poderia ser diferente. O jeito mineiro de falar pulsa aqui e se irradia em derredor. 

Natural é que algumas expressões e vocábulos sejam conhecidos noutras regiões e eventualmente já tenham sido dicionarizados. Isto não verifiquei. Mas seja como for são palavras e falas inusitadas que dão uma cor bem local à linguagem popular e faz parte sim de sua cultura. Algumas são mais raras, outras nem tanto. Noutras se nota nitidamente a influência do meio rural. 

Não se planeja o estudo das origens de cada palavra ou expressão. É tão somente uma mera listagem, com a explicação do significado local. Coletânea. Como a lista é vastíssima, será exposta dividida em partes (volumes), excluídos os provérbios (ditados), tema para outra série de postagens. 
* * *
Alto - bêbado. "Bebeu cachaça e ficou alto."

Animal - indivíduo abrutalhado, estúpido. 

Apanhar tenência - adquirir esperteza, juízo, malícia no trato com outras pessoas.

Barra (da chuva, do dia, da geada) - sinal metereológico, de cor destacada, na linha do horizonte.

Bicho carpinteiro - agitação, hiperatividade. "Quieto menino, parece que tem bicho carpinteiro." 

Blá-blá-blá - falação, falatório, conversa inútil e excessiva. 

Bocó - o mesmo que "boca aberta". Idiota, palerma, imbecil. 

Brega - fora da moda, descomposto, de mau gosto. 

Burraldo - "burro", sem inteligência. 

Buta - amargo. "Esse café é uma buta". Alusão a uma da qual se faz um chá amargoso. 

Caco - Pedaço de um objeto quebrado. Pessoa enfraquecida, com mau estado de saúde, "caquinho". "Fulano está um caco". 

Cambada - grupo de pessoas sem valor; gente ruim. Corja. 

Canhão - mulher muito feia.

Cara de pau - pessoa sem brio, descarada, que não tem vergonha dos maus atos, que não respeita limites do convívio social. 

Cavaquista - brigão, encrenqueiro, causador de tumultos. 

Chapa - radiografia. “Batê um chapa do juêio (joelho)”.

Chora, Dodô! - expressão para indicar choro por manha, sem motivo real.

Chuchar a onça com vara curta - provocar um pessoa nervosa sem qualquer cautela.

Chumbado- "mamado", bêbado. 

Coça - sova, surra.

Comendo selado - Se alimentar em demasia.

Comer até sair pro olhoSe alimentar em demasia.

Comer pra cachorroSe alimentar em demasia.

Comida de sal - o alimento diário do almoço e janta, feito no fogão.

Dar corda - deixar um situação correr ao natural, sem intervenção. 

De mão cheia - indicativo de totalidade, completo, muito bom. "Pedreiro de mão cheia" (excelente profissional) - tem como antônimo "pedreiro de meia colher"

Dedar - dedurar, entregar o erro de alguém, denunciar, apontar o dedo indicador para revelar um culpado. 

Dedo duro - pessoa que tem o hábito de dedar, fazedor de denúncias. 

Dês - desde. “Dêsdentão” (Desde então).

Desacossoar - desanimar. “Fiquei disacussuado”.

Desandar - atrapalhar. 

Desfeitear - fazer pouco caso, tratar com desdém. 

Desenchavido - sem graça, sem sabor, sem atitude. 

Despinguelado - muito rápido, correndo demais. “Desceu dispinguelado”Deus dá o frio conforme o cobertor.

Dinheirama - muito dinheiro. 

Encaroçado - empelotado, com caroço, grosseiro, de alta granulação.

Encorreiado - de consistência borrachóide, resistente como couro.

Engambelar - tampiar, iludir, prorrogar um resultado ou explicação. 

Escalofobético - fora da regra, imprevisível, esdrúxulo. 

Esconder no cu do cachorro - Ocultar onde ninguém pode achar.

Estar no cu do Zé Esteves - Estar em situação dificílima. Problema sem solução. 

Falsiô - Duvidou, faltou firmeza. 

Faniquito - Chilique, histerismo. 

Fazer meia-noite - dormir profundamente. 

Feijão sem bicho - pessoa muito boa, sem defeito aparentes.

Ficar pra semente - viver por um tempo excepcionalmente longo. 

Filhota - menina. “Essa é minha filhota”.

Gandula de padre - coroinha.

Ganzepo - indivíduo muito  magro e alto.

Garrafinha - sovina, usurário.

Grogue - "zuado", um tanto bêbado, zonzo. 

Impaliado - remediado, improvisado.

Impirriada - diz-se da galinha em estado de choco. Choca. Pessoa lerda. 

Inhaco - pedaço grande. “Tirou um inhaco de broa”.

Inzame - exame. “Fazê inzame”.

Jacu - sujeito idiota, imbecil, bobo. 

Largado - desligado das preocupações; relaxado. 

Lavar a pixôrra - se dar bem, ser beneficiado por...

Lenga-lenga - lentidão, conversa mole, assunto perdido, sem objetivo prático. 

Língua de bicheira (ou de matar bicheira) - diz-se de quem é intrigueiro demais. 

Língua de trapo - sujeito falador, prolixo, intrigueiro. 

Malhar - zombar, debochar. 

Mamado - bêbado. 

Manguaça - embriaguez. "Fulano está numa manguaça danada!"

Mexer os pauzinhos - dar um jeito. Resolver o problema usando de subterfúgios.

Naco - pedaço grande de alimento. "Pegou um naco de bolo".

No pau - "no pau da sucuriba". Em situação de perigo. Estar no pau, sob pressão, embaraçado.

Oito ou oitenta - expressão reveladora de extremismo, sem possibilidade de posição intermediária. 

Pão duro - sovina.

Pão - gíria _ homem muito bonito. “Ele é um pão!” Palavra em ocaso. 

Papo furado - conversa sem proveito. 

Passar batido - passar inadvertidamente, sem atenção. 

Pinel - doido, louco. 

Pintar e bordar - aprontar estrepolias. 

Pintor de rodapé - pessoa de estatura muito baixa.

Pistigrilo - raquítico, amofinado.

Pitimbado - inquizilado, azarado, atrapalhado.

Reminado - atrevido. “Minino riminado!”

Rolha de poço - pessoa muito gorda, obeso.

Safanão - tapa, surra, pancada. 

Sentar o bambu - bater. “Sentei o bambu nele!”

Sirigaita - Lambisgóia. Mulher impudica, oferecida, leviana. 

T’isconjuro! - te amaldiçôo, te esconjuro.

Teba - grande. "Um teba d'um cachorro correu atrás de mim."

Torete - "tora", grande, gorda. Pedaço considerável de uma alimento. 

Trabalheira - situação muito difícil. “Foi uma trabaiêra danada!”

Traia - traidor, sujeito imprevisível, mau caráter. 

Vira casaca - traidor, pessoa de posicionamento instável, que muda fácil de opinião. 

Virado - alterado, com personalidade modificada por uma circunstância. 

Volta do dia - Após o meio dia, quando o sol perde na aparência a posição vertical ganhando a inclinação para oeste, rumo ao poente. 

Zambeta - "Cambeta". Coxo, manco, que puxa de uma perna. 


Conversa de fim de tarde, na zona rural de São João del-Rei. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Crispim & Crispiniano

Crispim e Crispiniano são santos irmãos, gêmeos, romanos, nobres, festejados a 25 de outubro. Fizeram pregações na França, onde foram martirizados, em Soissons, no ano 285/6 (certas fontes dizem 287), por decapitação, no império de Diocleciano, sob as ordens Maximiano Hércules. REZENDE (1970) descreve detalhes do longo martírio nas mãos do ministro de Maximiano, Ricciovaro, entre açoites, punções dolorosas sob as unhas e tentativas frustadas de matá-los em fervura e por afogamento. Sua vida só finda ao terem as cabeças decepadas.

Antônio Gaio Sobrinho, atendendo gentilmente a um pedido meu, em comunicação pessoal, passou-me proveitosas informações desses santos, das quais ora transcrevo o seguinte: “suas cabeças foram levadas para a Igreja de São Lourenço, em Roma, enquanto os seus corpos teriam permanecido em Soissons, onde mais tarde, pelo século VI, lhes foi erguida pelos sapateiros, uma igreja. Igual irmandade, em 1560-1572, lhes construiu também uma igreja em Lisboa”. (...) Sua ligação com os sapateiros é, segundo consta, porque, para não sobrecarregarem os fiéis com a despesa de sua alimentação, trabalhavam durante as horas vagas, como sapateiros. (...) Atribui-se a um possível milagre destes santos o tradicional costume de se colocarem na chaminé, em vésperas de Natal, os sapatinhos das crianças para receberem presentes. O costume surgiu quando, numa véspera de Natal, eles, perseguidos por bárbaros, se refugiaram num casebre rural, onde vivia uma pobre viúva com duas crianças, descalças, porque até seus tamanquinhos haviam sido utilizados para acender o fogão para preparar-lhes uma humilde refeição, inclusive com a pouca matula que eles mesmo traziam consigo. De madrugada, antes que a viúva se levantasse, eles já haviam tomado estrada. Quando a mulher se levantou e se aproximou da chaminé (...) ficou maravilhada ao ver ali dois pares de sapatinhos que os dois irmãos santos, durante a noite fizeram para as crianças. E mais, os sapatinhos estavam cheios de moedas de ouro. 

São considerados protetores dos sapateiros, segundo tradição medieval. REZENDE (1970) informou que de sua tenda de sapateiro, os gêmeos convertiam a população posto terem grande freguesia:

"faziam da sua banca de trabalho uma cátedra evangélica, e com tal persuasão pregavam, que, duarnte quarenta anos de apostolado amável e insinuante, fizeram toda aquela gente desertar os templos pagãos, deitar por terra os ídolos, convertendo-se à adoração do verdadeiro Deus toda a cidade e redondeza." (p.195)

Em São João del-Rei, os sapateiros festejavam esses gêmeos. O jornal O Repórter, n.39, de 28/10/1906, publicou uma nota dizendo: 

“Um grupo de rapazes desta cidade, officiaes de sapateiro, desde annos atraz crearam aqui a festa de S.Chrispim, padroeiro da classe, e este anno ella cresceu de brilho e solemnidade. Constou a festa, realizada no dia 25 [de outubro], na Matriz, de missa com musica e á tarde Te Deum Laudamus, tendo funcionado uma esplendida orchestra organizada com profissionaes de um e outro côro; isto é, de musicos da Orchestra Ribeiro Bastos e da Lyra Sanjoannense, todos sapateiros”. 

Uma outra notícia desta festa é oferecida por outro jornal desta cidade, A Tribuna, n.692, de 25/10/1925:

Agora, são os sapateiros que vão homenagear o seu padroeiro, estando programmatizados para hoje, consagrado a S.Crispim e S.Crispiniano, diversos actos religiosos, que serão encerrados com uma luzente procissão e um solemne  "Te Deum Laudamus". 

A adoção de um patrono para uma classe profissional é um costume enraizado na Idade Média, das corporações de ofício com seus mestres, aprendizes e um santo patrono. A mesma nota supra, por exemplo, dá conta que no dia 16 daquele mês e ano os alfaiates da cidade haviam promovido os festejos de São Geraldo, "protetor da laboriosa classe."

A festa dos gêmeos não é mais realizada. Aliás, já quase não há sapateiros. 

A Igreja canonizou outros quatro santos com o nome de Crispim, além de São Críspulo e Santa Crispina, com os quais não devem ser confundidos. 

Nas religiões de matriz africana são festejados sem nenhuma ligação com os sapateiros mas sim com a infância. No candomblé estão sincretizados com o orixá das crianças e gêmeos, Ibeiji, em paridade a São Cosme e São Damião. Na umbanda são venerados na Falange das Crianças (erês), da Linha de Oxalá

“Cosme e Damião!  
Oi, Doum! 
Crispim, Crispiniano, / 
São os filhos de Ogum!”. 

Foi com esta releitura que a devoção chegou aos dias atuais, voltada para a proteção infantil.

Sua oração consta no tradicional livro de preces espiritualistas “Cruz de Caravaca da Capa Preta” e pede pelas tantas... “união, concórdia e confiança”, graça que teriam alcançado pela intercessão da Virgem Maria. 

Referências Bibliográficas

REZENDE, José Severiano de. O meu flos sactorum. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971. 258p.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Mês do Rosário - parte 2

Outubro se aproxima do poente, mas a força dos festejos do rosário, que o nominam e dominam não arrefeceu. Em verdade, aqui no território das Vertentes, durante longo período do segundo semestre vertem as tradições congadeiras do rosário de Maria. Cantos e prantos ecoam sob o balançar de bandeiras floridas onde se estampa uma fé inabalável.
Os tríduos ou as novenas, preparam o espírito dos devotos católicos para o dia maior da comunhão com o sagrado, festivo e respeitoso como deve ser, alegre e cultural no seu fluir. Para as missas e procissões surgem os fiéis, que engalanam as vias públicas para os préstitos. O congadeiro, herdeiro do africano, mostra sua força, canta sua luta. Cruza rosários no peito, pendura-os ao pescoço, enrola-os na cintura, pende-os do alto do mastro, balança-os nas bandeiras, traz um terço no bolso, outro preso no pulso direito; mais um no tamborim e no bastão de comando. O coração transborda rosários. Não tem onde carregar mais rosários. E como seu coração derrama essa fé, a canta e recanta, proclama o nome da Virgem Maria; assume-a como Mãe, plenamente, e de forma briosa torna pública sua crença. Sua vida muitas vezes é um doloroso mistério de dificuldades cotidianas, que se abrandam na dança, como o escravo amainava sua dor nas raras ocasiões possíveis de cantoria e expressão da fé.

Moçambiqueiros de Passa Tempo.
Foto: Ulisses Passarelli, 20/10/2013. 

Ainda somos barrocos. A pujança festiva move e comove o mineiro. A festa irmana e redireciona.
Alguns festejos fazem exceção no adiantamento, por particularidades de sua comunidade de origem, como a festa de Piedade do Rio Grande (maio) e a de Ibituruna (junho); outras, estão a meio caminho, como a de Nazareno e a do Bairro São Geraldo, em São João del-Rei, esta, que em data instável tem experimentado ao longo dos anos algumas variações entre outubro e agosto, mas neste ano em especial veio para julho.
Porém, é a partir de meados de setembro que os tambores realmente se aquecem em louvor a Nossa Senhora, numa sequência de finais de semana que dura cerca de dois meses, nos quais os grupos se congraçam, compartilhando encontros nos largos festivos, cantorias nas capelas, danças nas procissões, músicas nos ruidosos salões de almoço, cores bailarinas nas velhas ruas de mineiríssimas cidades e povoações.
A parceria dos congados faz com que uns participem do festejo do outro, para que possam ser retribuídos no seu próprio, produzindo um evento mais rico não só no volume de participantes mas sobretudo no espírito de irmandade. Mas não se engane o olho superficial. Existem algumas tensões entre os grupos, que se podem dizer históricas, ou quiçá culturais, que, contudo, não ultrapassam a união pela causa comum e nem dispensam a praxe respeitosa e amistosa do encontro de suas bandeiras em plena via pública, configurado num ritual próprio.
Assim é que uma longa agenda vai se traçando a partir dos povoados da Restinga e do Ramos, nos dois últimos domingos de setembro e vara outubro adentro, passando então pela cidade de Ritápolis e pela Terra de Nhá Chica (Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno), distrito de São João del-Rei, onde o antiquíssimo congo louvou este ano a Maria em luto pela passagem do grande líder Dezinho; no mesmo dia aconteceu também a Festa do Rosário em Bom Sucesso, congregando grupos dos Campos das Vertentes e centro-oeste do estado, área intermediária e de transição cultural que é, tal como Ijaci, nas portas do sul mineiro, com festas em Nova Pedra Negra.
No segundo domingo de outubro foi a vez de outro colonial distrito são-joanense, São Gonçalo do Amarante, com o centenário congo e a jovial guarda Azul e Branco, além de congados visitantes da cidade; também correram festejos em Santa Cruz de Minas e Conceição da Barra de Minas.

Procissão do Rosário em São Gonçalo do Amarante. 
Foto: Iago C.S. Passarelli, 13/10/2013.

No terceiro final de semana, um dia calorento, confluíram os fiéis do rosário para Passa Tempo, onde os festejos tem um vigor especial e digno de nota por ser também uma área de transição cultural, embora oficialmente fora dos Campos das Vertentes, mas sob sua influência imediata. Aconteceu também na vizinha Coronel Xavier Chaves, na pitoresca igrejinha de pedra, onde um ícone da tradição local, “Zé Carreiro”, dá provas cabais que é um mestre no ofício de louvar ao rosário pela arte congadeira. Caquende também, na beira das águas represadas do extremo sudoeste de São João del-Rei, com o 6º Encontro de Cultura Popular, reuniu vários grupos folclóricos e lá estiveram os congadeiros, pertinazes em cantar o nome mariano.
Aproxima-se o último domingo do mês. A irmã colonial do Ciclo da Mineração, Prados, prepara-se para mais uma festa na poética igrejinha daquela urbe, a meia-encosta do vale que trabalha tão bem o artesanato no couro e na madeira. No mesmo dia os festejos correm no Ribeirão de Santo Antônio, distrito de Resende Costa. Enquanto isto, cá em São João del-Rei, na mais antiga igreja da cidade, Nossa Senhora do Rosário é lembrada barrocamente pelos devotos, sob os auspícios de sua Venerável Confraria, que cuida a mais de três séculos da veneração à sua gloriosa protetora. A característica festiva é pautada na tradição litúrgica, sem a presença dos congados.

Rainha e Rei na Procissão do Rosário em São João del-Rei. 
Foto: Ulisses Passarelli, out.1999.

Mas o fim de outubro não representa o fim dos festejos, pois falta ainda a tão concorrida festa de Resende Costa, a Cidade dos Teares, que na altitude de seus lajedos tem uma das maiores festas regionais do Rosário, sempre no primeiro domingo de novembro, congregando um grande número de congados .
O segundo domingo de novembro é a vez do povoado da Canela, na zona rural de São João del-Rei, com uma festa animada unicamente pelo congo do Rio das Mortes, como uma peculiaridade já bem fixada na tradição local. E coincidindo datas, Jacarandira, distrito de Resende Costa. 
Só então se ponto-finalizarão os tambores neste ano. Pelo menos os congadeiros... porque, enquanto estes relaxam seus cordéis e tarraxas de afinação, esticam-se os das pequenas caixas das folias de Reis cujos mestres por essas alturas já se organizam para os festejos do Natal. 

* Texto: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Condenação da Mãe de São Pedro

Prosseguindo os causos sarcásticos sobre São Pedro, segue mais um exemplar de narrativa popular, dado pelo saudoso amigo sr. "Quinzinho". Lembro mais uma vez a premissa de não encarar estas estórias como heresias. A lógica da cultura popular é bem distinta da erudita e muitas vezes por trás de uma frase bem humorada reside uma fé muito sólida, manifesta numa intimidade com o sagrado que denota sintonia e carinho.

Esta narrativa se enquadra na categoria dos Contos Religiosos, segundo a classificação de CASCUDO, que transcreve uma versão mineira de Juiz de Fora, na qual a famigerada alma sobe suspensa numa folha de cebola, que rebenta precipitando-a no castigo infernal. Cita outras onde ocorre o tema, em contos açorianos, italianos, franceses, da Córsega e até dos Irmãos Grimm. 

***

Diz que a mãe de São Pedro era tão ruim, feiticeira e sovina, que ao morrer, São Miguel Arcanjo não queria aceitá-la no céu, dizendo que nem precisava pesar a alma dela, pois era óbvia a sua condenação. São Pedro, apelando para a camaradagem, recorreu ao poderoso arcanjo para quebrar o galho, considerar que era sua mãezinha, uma pobre pecadora, uma infeliz que não sabia o que estava fazendo... e por aí foi sua lamentação. São Miguel consentiu dizendo: 

_ Oh, Pedro: poder, não pode não, mas sendo sua mãe... Agora, ela tem de esperar uma alma vir pro céu. Aí ela segura nela e sobe de carona. 

Cheio de alegria São Pedro foi avisar sua mãe. Só que ela, dando com a língua nos dentes, contou o fato às outras almas que ainda estavam na terra e não tinham subido. 

Aconteceu que todas se agarraram de uma vez numa alma que vinha subindo e sendo demais o peso por causa de seus pecados, todas aquelas almas pecadoras, incluindo a mãe de São Pedro, caíram de uma vez, despencando em desespero para as profundas do inferno. 

São Miguel Arcanjo, o Condutor das Almas. 
Imagem da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, São João del-Rei/MG. 
Pequeno Glossário

Quebrar o galho: fazer uma favor, em geral inconveniente
Dar com a língua nos dentes: revelar um segredo

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1984. 435p. p.309-312.

Créditos

* Informante: Joaquim Maia Filho, 14/03/2000, São João del-Rei/MG.
**Texto e foto: Ulisses Passarelli


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A Batina do Padre tem Dendê...

A crença popular atribuiu aos sacerdotes católicos uma força tão excepcional que ultrapassa a esfera da vida terrena para o pós morte. O santo sacrifício da missa e todos os sacramentos ministrados pelo padre são encarados nos meios folclóricos como muito abstratos e são dignos de um respeito imensurável: 

"A batina do padre tem dendê;
ai, se tem, eu quero vê!"

O canto congadeiro difundido nesta região alude à concepção geral do mistério (daí a palavra africana "dendê") que envolve o sacerdote, identificado no seu paramento típico e sagrado. Muitas vezes o padre sem a batina é tido como "sem força", posto que despido da sua veste sagrada. Dizia-me um senhor em São João del-Rei que os padres de hoje não tem a força dos antigos porque andam pelas ruas em trajes comuns, sem batina.

Em conformidade ao seu comportamento quando encarnado, fidelidade à ordenação sacerdotal, benevolência, retidão de conduta, carisma, dons, caridade e firmeza de ações, o padre goza em vida de um respeito imenso dos fiéis, que o tem como um orientador espiritual, conselheiro, chefe religioso. A alguns se atribui um valor excepcional da eficácia das preces e do poder das palavras. Uma crendice arraigada por exemplo é da "praga de padre", considerada a pior de todas pois não há quem a expurgue e ainda mais, pode ganhar força cármica, digamos assim, passando para as gerações subsequentes daquela família. Então se acredita no campo do folclore que se um padre amaldiçoar alguém, a má sorte o acompanhará doravante. A maldição pode gerar uma limitação física que acompanhará os descendentes da vítima, de forma congênita.

Sobre este aspecto negativo do comportamento de algum padre é corrente entre algumas pessoas que, se quando encarnado, um padre tiver sido ruim poderá virar depois de morrer um exu no mundo espiritual. Mas por outro lado os excepcionalmente bons podem depois de mortos se tornarem como entidades ou no mínimo operarem a intermediação de graças, tal como os santos, mesmo que oficialmente não sejam reconhecidos.

Este aspecto positivo é o preponderante na cultura popular. Eis uma notícia jornalística a respeito, coligida em São João del-Rei: “por uma graça alcançada pela alma de Frei Orlando, fará celebrar dia 28 do corrente, ás 6 horas, uma missa em ação de graças, na Igreja de S. Francisco. Iná.” (O Correio, nº2.054, 26/05/1946). Ora corre oficialmente o processo de beatificação desse frei. Mas em 1995, um pai de santo de São João del-Rei, já falecido, dizia-me que depois de dias de uma presença espiritual não identificada, enfim, numa sessão a cerca de meio século, se manifestou num jovem médium um espírito dizendo-se Frei Orlando e clamava ajuda pois sofria do outro lado por dever uma missa às almas, ou seja, foi feito o pedido e dado o valor do costume, mas a missa não foi celebrada. Uma vez que o pai de santo fez conforme seu pedido aquele espírito teve paz de seguir seu progresso espiritual e não se manifestou mais.

Em Nazareno, do túmulo do ‘Padre Heitor’, diz-se que pessoas de muita pureza e fé conseguem extrair um bálsamo miraculoso, espécie de gotas oleosas que conservam num recipiente de vidro para pingar na água de beber ou passar numa ferida.

Da mesma forma em São Miguel do Cajuru, na sepultura do Padre Afonso Miguel de Andrade. A tradição oral naquele distrito são-joanense é muito forte sobre este padre, correndo várias narrativas sobre o poder de suas preces.

Um anúncio dos classificados da Gazeta de São João del-Rei, nº648, 29/01/2011, em forma de corrente, rogava a “Frei Silvério” a graça de ter o amado para sempre _ “paixão eterna, amor infinito” _ diz expressamente.

Em São João del-Rei o túmulo do Cônego Osvaldo Lustosa, nas Mercês, é dos mais visitados da cidade, onde, segundo observação do ano 2000, se encontram muitas velas acesas, preces manuscritas em folhas extraídas de cadernos e oferendas de flores. Acreditam que seja um taumaturgo.

É corrente também uma grande devoção popular à alma de Padre Vítor (do sul de Minas Gerais, mas que se irradiam até aqui nas Vertentes) e nalguns terreiros clamam curas a Frei Rogério.

Em outras regiões do país também existem tradições populares religiosas em torno de certos padres, como se poderia citar os casos do Padre José Maria em Natal/RN e em todo o Nordeste, do Padre Cícero Romão Batista e do Frei Damião. Em Belo Horizonte o nome de relevo é Padre Eustáquio, que se irradia até aqui. A título de exemplo (não é um caso isolado), segue fotografia um velho caderno de orações (esquerda), de São João del-Rei, manuscritas e coladas, com um exemplar em destaque (direita) da prece a Padre Eustáquio datada de 1956.


Repassando a vista sobre estes relatos da religiosidade rememoramos a mensagem bíblica: "Terás, pois, o sacerdote por santo, porque ele oferece o pão de teu Deus" (Levítico, capítulo 21, versículo 8).

* Texto e foto: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Uma antiga subvenção

A noventa anos um jornal de São João del-Rei revelava uma interessante notícia, pelo menos para os padrões daquela época: uma ajuda financeira às festividades em Matosinhos, mostrando que a prática do apoio municipal é antiga. Por outro lado também denota a importância do festejo para o município, alcançando o merecimento dessa benesse. 


Transcrição:

"Resolução n.478, de 31 de março de 1923. Autoriza a auxiliar festividades e a adquirir um retrato a óleo. 
O povo do municipio de São João del-Rey, por seus representantes, decretou, e eu, em seu nome, sancciono a seguinte resolução: 
Art.1º - Fica o agente executivo autorizado a auxiliar, no corrente anno, com a quantia de 200$000 a cada uma, as festividades da Semana Santa e e do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, realizadas no districto da cidade." (Etc.)

Notas e Créditos

* Texto e fotomontagem: Ulisses Passarelli
** Fonte: A Tribuna, n.468, 15/04/1923. 
*** Acervo: Site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vão s'imbora, Vitalina!

Festa de Nossa Senhora do Rosário em São Gonçalo do Amarante, distrito de São João del-Rei

Findaram no último dia 13 as comemorações do reinado na vila de São Gonçalo. Concluído o tríduo levado a efeito na vetusta igreja de 1732, prenunciado por um mastro do Rosário fincado no largo gramado quinze dias antes, a comunidade acordou na madrugadinha, com a barra do dia apontando, graças ao batido de tambores da alvorada, feito por um pequeno grupo de caixeiros do local, que céleres percorrem a vila com um toque característico, só ouvido neste momento e batizado pelo pitoresco nome de "vamos embora, Vitalina". Mas não é pronunciado assim... é mais ao sabor mineiro: "vão s'imbora, Vitalina!", quase uma onomatopeia da percussão. 

Seis da manhã. Fogos de artifício espoucam no ar; sinos tinem notas velhíssimas no bronze. A alvorada se conclui. O dia foi saudado. Sem esta praxe a festa não pode correr bem... A luz espanca as trevas. Sua chegada deve ser motivo de grande alegria na manhã festiva acima de outras. 

A matinada de tantos sons logo cedo avisa o povo do rocio que o dia maior chegou. E vem chegando dos sítios e dos povoados, à pé, à cavalo, por vezes de bicicleta. Depois chega o ônibus de São João, buzinando na entrada até o largo e despeja uma leva de devotos do Rosário de Maria. Carros estacionam aqui e ali, trazendo gente. 

Indo para o Congo.

Pelas oito o congo reúne na Travessa Cava Funda, na casa de "sô Vavá", como carinhosamente é alcunhado o capitão daquela guarda de Nossa Senhora do Rosário, Lourival Amâncio de Paula. Uns pelos cantos dão uma tragada num cigarro de palha. Outros riem de um gracejo do colega. Já outros põe a caixa a esticar o couro no tênue sol matutino. Dorival, filho do capitão, aparece mas não tarda, porque é festeiro e esse não tem sossego até a festa acabar. São mil afazeres para o bem comum. Alguém veste o saiote colorido por cima da calça branca. Vavazinho, todo zeloso, prende um alfinete ao ombro de um de seus soldados, segurando o travessão, uma larga faixa de pano em diagonal no peito. Experimenta-se este ou aquele capacete, cada qual mais florido que o outro. João Cademe tine o couro para experimentar o som. Gonçalinho pergunta se não tem uma daquelas branquinhas, a pinga de roça, para tirar a poeira da garganta e afinar a voz. Salame chega por ali e espia o movimento. Léo, filho do saudoso capitão Juca, neto de outro memorável capitão, Raimundo Sabino, vem chegando concentrado, ciente de seu dever com a santa, destacando num saiote e travessão verde-musgo. Paulinho, que toca chique-chique como ninguém, aponta lá na esquina que desce pro Caxambu. Vem devagar, abotoando a camisa. A turma vai encorpando. A moçada nova já está por ali, despreocupada e numa agitação daquelas. Na cozinha, dona Maninha oferta um cafezinho com quitandas para os dançantes que se achegam. Um tucano risca o céu no seu vôo de avião. Na laranjeira do quintal um sabiá canta chamando chuva. Pai Nosso... Ave Maria... "Viva Nossa Senhora do Rosário, meus soldados!" , grita o capitão. "Viváaaaa...", vem a resposta automática. "Pruuuuu..." zoa o apito... 

"_ Oi, na hora de Deus começa, 
Pai, Filho, Espírito Santo!
_ Deixa-me benzer primeiro, 
pra livrar d'algum quebranto..."

O congo vai visitar o festeiro "Sininho". 

O capitão não é bobo. Canta em nome de Deus, que livra dos males todos em geral e em especial. É bom não cochilar: o contrário espreita a chance de atrapalhar. Nos capacetes multicores de cada dançante tem um espelhinho. Dizia-me Vavá: "você sabe pra quê que serve?" ... "é pra embaraçar o inimigo." Tem estudioso que diz que o espelho nos chapéus, peitorais e instrumentos, colados adrede, tem uma função inconsciente de astrolatria, pois refletindo a luz, brilha, simbolizando o sol. Eu cá, com todo respeito, comungo com o povo, que atribui a esse espelho o efeito prático de refletir o mal-olhado, rebater o quebranto. 

O congo vai para a igreja, dali ao mastro e ao cruzeiro e só depois ao café da manhã, na sede esportiva do União, junto ao campo de futebol. Neste ínterim já no meio da manhã, surge em outro ritmo o "congado das mulheres", assim cognominada a "Congada Azul e Branca Nossa Senhora Aparecida", um catupé do lugar, sob a regência do capitão Domingos Sávio dos Passos, que subindo a ladeira que vem da Rua da Bomba, traz as mulheres e jovens em demanda ao largo. Após a visita de regra à igreja, cuidam de levantar seu mastro de Nossa Senhora Aparecida e daí cumpre o mesmo itinerário do grupo anterior. Este grupo de formação recente surgiu como uma nova proposta de participação feminina no contexto da tradição congadeira nesta vila, denotando uma ampliação das atividades e vai se consolidando com um bom trabalho. 

Capitão Domingos conduz a guarda Nossa Senhora Aparecida.

Além dos dois grupos de São Gonçalo do Amarante mais três estiveram presentes, vindos da cidade de São João del-Rei: o da Maria Auxiliadora Mártir (este ano ajudada pelo capitão Danilo Francisco de Assis, de Santa Cruz de Minas), o do Moacir Santana (ambos capitães do Bairro São Dimas) e o do José Tadeu do Nascimento, este de Matosinhos. 

Encontro amistoso de capitães: José Tadeu e Vavá. 

Irmanados na vila colonial, seguiram o dia todo em tocata. Almoçaram e após a sesta junto à grande árvore de gameleira (Ficus, moraceae), foram à Gruta do Divino Espírito Santo recolher o reinado. Também presente o Imperador do Divino deste ano, Edmilson Washington da Silva, vindo de Matosinhos com uma representação da comissão da festa do Santuário do Sr. Bom Jesus. 

Congado do capitão Moacir Santana.

Cada grupo passou pela gruta em saudação e seguindo o último foram os reis, rainhas, príncipes, princesas e o imperador, solenemente, subindo em cortejo pelo Beco de Pedra, até serem entregues na igreja, para o ritual da chamada e a missa festiva. 

Maria José e José Marcos, casal do reinado da guarda de N.S.Aparecida.

A procissão foi bastante concorrida, com três andores: N.S. do Rosário, N.S. Aparecida e São Benedito, sob os cuidados dos irmãos do Santíssimo Sacramento do local e presença do Padre Ilton de Paula Resende, pároco do Senhor dos Montes, a cujo paroquiato se vincula a Igreja de São Gonçalo do Amarante. 

Capitães Maria Auxiliadora e Danilo, exibem o troféu da festa.

Na chegada cada terno voltou ao interior da igreja após a entrada dos andores, se despedindo. O grupo das mulheres baixou seu mastro. O soldados de Vavá só depois de uma quinzena, como reza a velha tradição centenária deste grupo. A promessa é esta: continuidade!

Vitalina foi s'imbora. Até para o ano, se Deus quiser.

* Texto: Ulisses Passarelli
 ** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 13/10/2013