Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 31 de julho de 2013

O que é, o que é? Adivinhe se puder!

Adivinhações & Enigmas

O universo do folclore se descortina abrangente no horizonte da cultura. Existem muitas expressões culturais que nem sequer imaginamos, à primeira vista, que façam parte deste contexto das ciências humanas. Porque nós mesmos somos portadores de certos saberes que nos parecem tão simplórios, comuns, que não sugerem necessidade de abordagem especial.

Ledo engano. Tudo no folclore é importante. Uns folcloristas se especializam numa certa área, focam um tema em especial e por vezes algumas áreas ficam mais privilegiadas em termos de estudos. Brincadeiras de nossa infância passam-nos despercebidas na fase adulta o que é o mesmo que matar a criança que há em nós.

No campo da literatura popular e da folk-comunicação se encontram muitas manifestações típicas do saber humano nessas condições supra. Este blog nas próximas postagens fará breves revistas nesses temas a começar das adivinhações.

Alguns folcloristas tem se debruçado sobre a coleta e o estudo das advinhas. Elas não são exclusivas de nosso país, muito menos da região aqui estudada. Contemplando esta proposição, segue exposta uma curta coletânea de advinhas dos Campos das Vertentes, especialmente ouvidas em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas durante a década de 1990, exceto indicação em contrário.

É uma casinha de bom parecer,
Não há carpinteiro que saiba fazer...

(Resposta: amendoim em casca. Referência à casca seca com duas metades, que se prende às raízes da planta, dentro da qual ficam os grãos comestíveis.)

Trempe de ferro,
Barriga de pau,
Três crioulinhos
Tocando berimbau...

(Resposta: feijão, cozinhando na trempe. É uma referência às velhas panelas de ferro de fundo arredondado, com três pontas de ferro no fundo, fazendo de “pé” ou suporte. Ficam sempre tisnadas pelo fogo do fogão à lenha).  

Subi em cima de você,
Fazendo meu vai-e-vem;
N’eu subi, o leite desce,
N’eu descê, o gostoso vem...

(Resposta: a colheita do mamão. Quando se tira o fruto do mamoeiro escorre parte da seiva leitosa).

Menina vamos deitar,
Fazer o que Deus mandou;
Um por baixo, outro por cima,
A menina presa ficou.

(Resposta: menina dos olhos. Referência às pálpebras, que cerradas pelo sono escondem a pupila, popularmente chamada “menina dos olhos”).

Preto por fora,
Amarelo por dentro.
Tacho é, tacho é...

(Resposta: tacho de cobre. A resposta vem no próprio enunciado, curiosamente armado para causar confusão. O tacho, usado na produção caseira de doces, tem pelo lado interno a viva cor deste metal e pelo exterior o escuro do uso no fogão à lenha.)

Sou branco por nascença,
Preto por natureza,
A morte me faz alegria,
A vida me traz tristeza.

(Resposta: urubu. Este abutre, catartídeo, Coragyps atratus, ainda ninhego, tem as penas brancas e só depois passa por muda para a cobertura plumária preta).

A mãe é verde,
A filha encarnada;
A mãe é mansa,
A filha danada.
(Resposta: pimenta e pimenteira)

Um sobrado,
com duas janelas,
Que abre e fecha
Sem ninguém tocar nelas.
(Resposta: olho.)

Verde nasci,
De luto me cobri,
Para dar gosto ao mundo,
Para os ares me sumi.
(Resposta: tabaco)

Nasci no meio dos espinhos,
Nos espinhos fui criado.
Eu trouxe o nome de Ana,
Por Ana fui batizado.
(Resposta: ananás)

Meu estado é verde,
Visto-me de luto para morrer arrebentada...
(Resposta: jabuticaba)

O que é, o que é:
Que entra duro e sai mole pingando?
(Resposta: macarrão cozinhando)
O que é, o que é:
Que cai em pé e corre deitado?
(Resposta: chuva)

Qual é o céu que não tem estrelas?
(Resposta: palato, “céu da boca”)

O que é, o que é:
Que tem bico e não belisca,
Tem asa mas não avoa?
(Resposta: Bule)

Xará no nome,
Não no parecer;
Um canta dentro do outro,
O quê que pode ser? (*)

(Resposta: capoeira. A palavra capoeira tem aqui duplo significado: porção de mato no meio do campo ou cerrado, com árvores altas, pequena mata, capão; ou ainda, nome de uma ave galiforme, odontoforídea, Odontophorus capueira, também conhecido por uru. A ave chamada capoeira canta dentro da mata chamada capoeira.)

As advinhas do tabaco e da pimenteira foram registradas a muitos anos no Ceará por Leonardo Mota em variantes praticamente idênticas às daqui[1].

Algumas usam as palavras com um sentido duplo, que induz ao pensamento de uma resposta chula, de conotação erótica, como as adivinhações da menina dos olhos, do macarrão e do mamoeiro.

Outras tem uma conformação tipicamente rural, cuja linguagem fica com a compreensão limitada aos que não são afeitos ao palavreado da roça. A este exemplo estão as adivinhas da capoeira e da panela de feijão.

Câmara Cascudo revela de forma magistral e de leitura indispensável a universalidade das adivinhas, denotando interpretações e processo classificatório. Ensinou: “as fórmulas são rápidas, na maioria susceptíveis de metrificação para facilitar a assimilação mnemônica” [2].

Nos exemplos acima nota-se formulações muito simples, de frase única, como uma mera pergunta (“Qual o céu que não tem estrelas?”). Lembro-me de uma muito comum na infância: “Qual a diferença entre o bule e o padre?”. A resposta típica é curiosamente versejada: “O bule é de por café; o padre é de muita fé”. Existem várias adivinhações no padrão de simples perguntas constituindo um passatempo brincar com elas.

Certas adivinhações assumem a forma de enigmas, distantes da fórmula típica do “o que é, o que é”. Os enigmas são adivinhações mais intrincadas, que não fazem necessariamente perguntas. São enunciados aparentemente sem nexo:

Quatro pés, em cima de quatro pés, esperando quatro pés.
Quatro pés não veio, quatro pés foi embora, quatro pés ficou.”

(Resposta: um gato sobre uma mesa esperando a passagem de um rato. O rato não veio, o gato foi embora, a mesa ficou.)

Eu vi um morto,
Carregando um vivo...

(Resposta: um cadáver descendo o rio boiando e o urubu em cima por causa da carniça.)
 
Passei na porteira: bá!
Toco minha galinha: xi!
Chamo meu cachorro: cá!
(Resposta: abacaxi)

Galinha no choco...
Cachorro late...
(Resposta: chocolate)

Um morreu,
Outro, está entre nós;
O terceiro, ainda vai nascer.

(Resposta: passado, presente e futuro)

            O gosto pelas advinhas se configura em outros formatos a exemplo dos jongos de roça ou jombas de roça, assim chamados certos cantos de trabalho de turmas de capinadores, que cantam em sistema de pergunta e resposta enquanto trabalham. Aqui em São João del-Rei o finado “Chico Cumbuca” saía com esta jomba:

O quê que nasceu suruco,
No alto do chapadão?

(Resposta: inhambu, ave tinamídea. Suruco (a): diz-se do animal sem cauda ou de rabo curto)

            Neste caso a adivinhação não é típica porque se faz cantada em vez de enunciada. Mas o espírito de entretenimento e desafio é o mesmo. Um jongueiro de Santa Rita do Ibitipoca, “seu Júlio”, cantou-me um velho ponto de capina:

Olha o sapo de cangalha,
O mantimento, de quem é?

O outro trabalhador da turma respondeu ao desafio com este canto, emendando de imediato:

É da Fazenda do Rufino,
É do tenente-coroné!” [3]

Estas fórmulas se infiltraram de forma adaptada nos calangos como desafios de perguntas e respostas aos desafiantes; assim também nas chulas dos palhaços de folias de Reis, desafiando outros palhaços nos encontros de duas folias ou apenas brincando com o público da assistência. São extensões do processo de adivinhação, além das formas típicas.

       Assim enigmáticas são as adivinhações. Linguagem cifrada, estimuladora do raciocínio, diversão simples das horas de vacância, de moleques e adultos. Cultura popular genuína, antiguíssima, cosmopolita, desde a esfinge egípcia.

       E para encerrar, deixo esta para vocês decifrarem:

Vinte e cinco boi parado,
Vinte e cinco boi andando,
ganhando quinhentos réis,
quantos contos dá no ano? (**)


Notas e Créditos



*Luís da Câmara Cascudo no seu livro "Folclore do Brasil" (p.96) registrou a seguinte advinha tradicional, que se desenvolve de forma mais elaborada com a do capoeira, contudo, no mesmo padrão: 

"Somos iguais no nome,
desiguais no parecer;
meu irmão não vai à missa,
eu não a posso perder.
Entre bailes e partidas
todos lá me encontrarão,
nos trabalhos da cozinha
isto é lá com meu irmão."
(Resposta: o vinho e o vinagre)

** Contos: contos de réis, antiga designação monetária.

*** Informantes: Júlio Prudente de Oliveira, Aloísio dos Santos, Maria de Carvalho Santos, Elvira Andrade de Salles, Maria Aparecida de Salles, José Cândido de Salles, Francisco de Assis Cipriano.

**** Texto: Ulisses Passarelli

***** Para maiores referências às adivinhações, ler: 

OLIVEIRA, Sebastião Almeida. Cem Adivinhas Populares. In: Revista do Arquivo Municipal. São paulo: departamento de Cultura, 1940. n.66, p.59-76.



[1] - MOTA, Leonardo Ferreira da Mota. Cantadores: poesia e linguagem do sertão cearence. 3.ed. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1961. 302p. p.273.
[2] - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p.il. Verbete: adivinhas.
[3] - Com procedência de Bias Fortes colhi como peça solta do cancioneiro, em variante: “Olha o sapo de cangalha / mantimento de  quem é? / É do homem da beirada / que não cuida da mulhé.”

terça-feira, 30 de julho de 2013

As Festas de 1923

Não faz muito tempo este blog noticiou o nome da Imperatriz do Divino do ano de 1927, a esposa do ilustre Basílio de Magalhães, sra. Flávia Ribeiro de Magalhães. Prosseguindo as pesquisas, agora do ano de 1923, este post traz a lume os nomes do Imperador Antônio Balbino de Souza e da Imperatriz Antônia de Araújo Simões.


Em 1923, às vésperas da proibição ou remodelação imposta pelo processo de romanização da Igreja, os legendários festejos do grande bairro são-joanense eram organizados por uma extensa comissão de festeiros, dividida em três grupos, um para cada dia de festa. O primeiro dia, Domingo de Pentecostes, dedicado ao Espírito Santo, era o com maior número de cargos, incluindo além do casal imperial, três caudatários (pajens da imperatriz), três pagens do estoque (vassalos do imperador), três alferes da bandeira (dentre os quais Samuel Soares de Almeida), vários mordomos e irmãos de mesa. 


Os outros dois dias, segunda e terça-feira, consagrados respectivamente ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos e a Nossa Senhora da Lapa (que o jornal pesquisado cita apenas como N.S.da Conceição), tinham cargos relevantes na figura dos juízes (as):

- Manuel da Cunha Lima (Bom Jesus)
- Carmen Mello (Bom Jesus)
- Amarante Araújo (Nossa Senhora)
- Anna Lopes de Oliveira Alves (Nossa Senhora)

Além do juizado um grande número de irmãos de mesa foi listado para cada dia. A lista de nomes se completa com três cargos importantes, servindo a todos os dias festivos: 

- Tesoureiros: André Bello / Irineu Cantelmo
- Secretários: João Francisco Nogueira / João Evangelista Pequeno
- Procuradores: Teophilo Rodrigues (1º dia) / Joaquim Rodarte (2º dia) / Eduardo Cancio Rodrigues dos Santos (3º dia)

Os procuradores tinham um papel especial na administração dos festejos, semelhante ao do atual presidente da comissão de festa. 

Mais uma vez, a listagem revela ainda nessa época, nomes importantes da sociedade são-joanense envolvidos com o evento, tais como o célebre fotógrafo André Bello, os maestros João Pequeno (que nomina uma rua do centro histórico desde 1949, o antigo Beco da Romeira) e Teophilo Rodrigues (notável regente da Banda Teodoro de Faria, por longos anos), dentre outros. 

Por estas alturas, os planos de mudanças para a festa já andavam à plena, pois uma notícia, da mesma época, revela a intensão de formar em Matosinhos um jubileu da Santa Cruz, pela passagem da data do 03 de maio, que converteria a formatação dos festejos para os moldes da festa de Congonhas, com a presença do próprio arcebispo, Dom Helvécio Gomes de Oliveira. 


No ano anterior já havia acontecido em setembro um jubileu dedicado ao Sr. Bom  Jesus de Matosinhos, o primeiro até aqui noticiado nesta data, anterior ao que imaginávamos como inicial (nos princípios dos anos 50). Notícia muito interessante, de leitura custosa, revela que, antecedido por uma novena, no dia principal, o Padre A.C.Rodrigues fez enérgico sermão enaltecendo os valores da cruz aos fiéis. Missa, concorrida procissão do Santíssimo Sacramento e sua bênção respectiva, te-deum e um destaque para o grande número de comunhões, mostram a nova diretriz festiva já esboçada e de linha bem evidente e firme. Mais uma vez, há a promessa de fazer para 1923 um jubileu "igual ao de Congonhas do Campo", segundo intensão do festeiro, Coronel J.Severiano da Silva, o que é muito sintomático. 


As diretrizes novas para os festejos de Matosinhos já estavam semeadas e em vias de implantação. A romanização estava a todo vapor. A supressão da festa em 1924 foi uma atitude drástica e marcante para deixar bem claro à comunidade a nova ordem de comemorações. 

Referências Bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. Bandas Musicais em São João del-Rei e a Banda Teodoro de Faria. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.10, 2002.
GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. São João del-Rei: FAPEC, 1994. 

Referências Hemerográficas

A Tribuna, n.464, 18/03/1923
A Tribuna, n.468, 15/04/1923
Acção Social, n.858, 21/09/1922

Notas e Créditos

* Texto, pesquisa e foto-montagens: Ulisses Passarelli.
** Jornais antigos do acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei, disponíveis em seu site.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O Correio do Caburu

Durante muitos anos foi criada a imagem para divulgação da história de São João del-Rei, que contemplou quase que em sua totalidade a zona urbana, sobretudo o Centro Histórico, salvo algumas meritórias exceções. O motivo é bastante lógico e particularmente, nada contra. Porém nesse processo os distritos ficaram por assim dizer esquecidos, detentores eles também de rica cultura. 

Assim, teimosamente, este blog vai pincelando esta história esquecida, assim mesmo, em doses homeopáticas. Ora vemos além de belas fotos de época de São Gonçalo do Amarante, disponibilizadas pela bondade do sr. João Bosco Alves, um recorte jornalístico da inauguração de um posto do correio (*), símbolo de progresso para o pequeno lugar. 


 Transcrição"São Gonçalo do Brumado. Domingo ultimo, realizou-se a installação da agencia do correio de S.Gonçalo do Brumado, melhoramento conseguido a esforços do nosso director (**). O sr.Hildebrando Bolivar de Magalhães, funccionario do correio desta cidade, incumbido de instalar a agencia foi recebido na linha da Oeste, por varios cavalleiros. Dirigindo-se ao prospero arraial, alli deu entrada ao troar de foguetes, dando desempenho á sua missão, sendo a agencia installada á presença de muitas pessoas, que subsescreveram o respectivo termo, vendo-se entre ellas, os srs. coronel Carlos Augusto Alves de Oliveira e Alfredo da Silva Caldas, prestigiosos politicos do logar. Ao fechar-se a primeira malla para Bello - Horizonte, ouviram-se vivas a Arthur Bernardes, Raul Soares e Basilio de Magalhães. No mesmo dia, empossaram-se o agente nomeado, sr. João Batista Alves de Oliveira e o estafeta, sr. Bertolino José dos Santos, ambos nossos correligionarios."
Fonte: jornal A Tribuna, nº467, 08/04/1923, São João del-Rei / MG. 


A linha férrea da Oeste de Minas, aqui citada, passava pouco abaixo de São Gonçalo, beira-rio, onde, se inaugurou sete anos depois a estação de Mestre Ventura (***). O ano de 1923 foi também o da mudança de nome, quando São Gonçalo do Brumado passou a ser chamado Caburu, nome que persistiu até 1990, quando passou para o atual São Gonçalo do Amarante. Essas mudanças de nome... para quê servem? Oprimem a história, sufocam a origem, esquecem os antepassados. 


As fotografias acima são anteriores a 1946, ano da fundação do cemitério local na posição atual, na entrada da vila em vez da frente da igreja. A disposição do casario ao redor do largo, comum, plano e gramado, está hoje com o visual já comprometido pela inserção de muitas outras construções com estilo diverso do padrão arquitetônico tipicamente rural e ainda mais, porque uma infeliz intervenção trouxe o asfalto para as vias quando outras opções de pavimentação poderiam ter sido pensadas.


Notas e Créditos


* Este posto deve ter sido fechado anos mais tarde, em data ainda não descoberta, pois que a lei municipal de nº1.073, datada de 02/05/1969, "autoriza a celebração de convênio entre a Diretoria Regional dos Correios e telégrafos de Juiz de Fora e a Prefeitura Municipal de São João del-Rei para a criação do Posto de Correio nos distritos de Emboabas e Caburu.". Fonte da informação: A Comunidade, n.10, 22/05/1969, p.4. Jornal editado em São João del-Rei. 

** O diretor do jornal A Tribuna era Basílio de Magalhães, grande intelectual e personalidade política da época. 

*** Sobre a inauguração desta estação ver o jornal: A Tribuna, n.1.012, 16/02/1930, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. A fonte informa que o ato se deu no dia 12 daquele mês e ano.

**** Texto e foto-montagem: Ulisses Passarelli.

***** Fotos antigas: cedidas gentilmente por João Bosco Alves, a quem este blog expressa gratidão. 

O Auto-omnibus

O trem foi durante muito tempo o principal veículo de transporte urbano entre São João del-Rei e Matosinhos, o que já foi demonstrado em algumas postagens deste blog. Chagas Dória ainda está lá para comprovar, fantasmagórica estação morta. 

Havia é certo a "Estrada da Tabatinga", o caminho antigo e natural, que vindo do Matola, atravessava o Córrego da Tabatinga (palavra de origem indígena, usada para denominar uma argila clara, "barro branco"), que desce da Caieira (hoje Bairro São Judas Tadeu), seguia para Matosinhos entre o Córrego do Lenheiro à esquerda, e a via férrea à direita. Esta estrada, outrora desprovida de casas ao redor, era o "caminho da roça", a estradinha do arraial de Matosinhos, com pouco trânsito, senão o de carroças, charretes, carros de boi, tropas, cavaleiros e alguém à pé. Com entrada pela Rua Bernardo Guimarães, passava diante da igrejinha demolida em 1970 e fletindo à esquerda, rumava para a Ponte do Porto. 

É o caminho velhíssimo trilhado pelos bandeirantes alucinados pelas riquezas minerais. Hoje asfaltado e cheio de casas no entorno é nada mais que uma rua comum, perdida entre tantas da urbe, como sua história calcada sobre calçados e pneus. 

A noventa anos uma novidade surgia em São João del-Rei: a linha de ônibus, ou melhor "auto-omnibus", como se dizia na época. O primeiro era como um circular, que no começo de 1923 fazia um giro pelo Centro Histórico,  Tijuco, Fábricas e Matosinhos (onde a passagem era de 200 réis). A Tribuna foi um jornal da cidade que registrou para a posteridade este pedaço da história que ao olhar atual se colore de pitoresco aspecto.  


No mesmo ano, pouco depois um segundo veículo da mesma empresa começou a reforçar a linha urbana, comprovando assim que houve demanda de passageiros. Ele sofreu um acidente que danificou a carroceria e quando da sua reforma foi noticiado pelo mesmo jornal que serviria à linha de Matosinhos


Segundo notícias orais os primeiros veículos eram "jardineiras", pitorescos calhambeques com carroceria coberta, mas vazada nas laterais, contendo bancos de madeira onde iam os passageiros. Mais tarde foram substituídos por outros totalmente fechados, que aqui foram apelidados de "grisú". 


Notas e Créditos

* Texto e fotomontagem: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Expressões da Fé

(Esta é para você, Antônio Emílio da Costa)


Dançar num congado não é só gingar o corpo no ritmo. É trazer o ritmo para dentro de si e depois externá-lo com passos da fé, caminhos do rosário. O congadeiro encarquilhado, de olhar profundo, penetrante, clama à Santa Mãe. O corpo descreve um movimento que desenha o próprio ritual no ar, em linhas invisíveis para o observador afoito, mas brilhantes para quem compartilha do mesmo sentimento.

Capitão de Congado Claudinei Matias do Nascimento("Prego"), de Tiradentes/MG, diante da Igreja do Carmo em São João del-Rei. 
Cortejo do Encontro Congadeiro das Vertentes, 26/05/2013.

Nas procissões a fé se expressa na gesticulação, se firma nos pensamentos, se revela nas fisionomias, se concretiza nas ações, se consolida no carinho com o sagrado... Carregar uma imagem é ato simples de amabilidade; simbólico: carregar a fé, ser por ela carregado; conduzido... conduzir... bendito! Louvado, seja!!! Dançantes seguem São Benedito: 

Festa do Rosário, Restinga do Meio (Ritápolis/MG), 1996.

Quando se lembra dos que já partiram, se evoca os antepassados, quando se antevê o destino de todos na morte inevitável, a fé não se abala pela dor da saudade, nem pelo medo do porvir. Os encomendadores lamentam, clamam, recomendam, encomendam... alertam aos pecadores arrepiados pela tétrica melodia: reze lá um pai-nosso... 

Encomendação das Almas. Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno 
(São João del-Rei/MG), 2000. 

A fé acompanha o folião em todos os momentos, nem que seja acoplada, anexada, afixada, no e sobre o coração. A estimada bandeira é como um peitoral inseparável, armadura branca, escudo rubro... No povoado do Fé, vive este homem de fé!

Folião Mário Calçavara, Povoado do Fé (São João del-Rei), 
na hora do lanche na Festa do Divino, do Bairro de Matosinhos. 2012. 

Com estas sutilezas a fé se expressa nos meios folclóricos e a recíproca é verdadeira. Na genuinidade das cenas festivas e na autenticidade dos rituais, o homem se encontra em sintonia com o sagrado. A religiosidade ameniza a áspera caminhada e enche o ser de esperanças de se irmanar aos preceitos do Criador.

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Indústria caseira

Muitas vezes quando abordamos a cultura popular temos a tendência de nos inclinar mais para as manifestações imateriais. Este blog bem que andou por estes rumos... cantorias, lendas, festas, folguedos, benzeções, crendices. Mas é preciso não esquecer que o universo da folclorística é muito amplo e abraça também os elementos materiais dos bens culturais. 

Se bem que "o fazer" seja em si, intangível, o produto final é concreto, material.

Assim poder-se-ia passear pelo artesanato, a luteria, o fabrico de remédios como as garrafadas, produtos culinários, artefatos de caça e pesca de fatura caseira, implementos agrícolas de fabricação manual. A depender da técnica, do fazer, podem ser enquadrados no campo da cultura popular. 

Ora abordamos de breve passagem a indústria caseira. Com este nome entendemos a fabricação a nível individual ou familiar, eventualmente comunitária, de produtos que servirão ao consumo ou uso humano, sempre com técnicas manuais, empíricas e tradicionais. A produção se mantém segundo velhas receitas passadas pelas gerações através de um aprendizado informal. A matéria-prima é de simples acesso no meio em que se vive, parte do próprio cotidiano do fabricante. 

Muitas vezes temos assistido ao esmaecimento desse labor, sob a falta de apoio da política cultural vigente no país, que desde longa data inferniza a vida dos produtores rurais com taxas, burocracias e exigências que desestimulam a produção e dificultam a comercialização. O rumo deveria ser bem outro, o do incentivo, o da facilitação, aumentando a renda e ajudando a fixação do morador rural. 

Assim, impossibilitados ou dificultados de se adequar às exigências sanitárias e fiscais, vai o homem rural ficando sem o possível ganha-pão. Desanimado, vende seu sítio e migra para os subúrbios, agravando os problemas sociais. 

Vários produtos poderiam ser citados ou descritos dentro da chamada indústria caseira, a típica, dentre farináceos, queijos, bebidas, doces, etc. Mas ora esta página se atém a duas velhas receitas colhidas com pessoas entrevistadas em Santa Cruz de Minas, mas comuns em verdade a todos esses "campos" que "vertem" cultura. 

*  *  *

Farinha de Milho:

Também chamada "farinha de pilão". 
O milho debulhado (os grãos tirados do sabugo) são postos a fermentar em uma vasilha com água, onde ficam submersos. A água vai sendo trocada de tanto em tanto conforme vai ficando turva. Gasta em torno de três dias para o milho azedar. 

Uma vez pronta a fermentação o milho é socado manualmente em pilão ou em monjolo. 

A massa resultante é passada na peneira. O produto que ficou sobre a peneira é posto sobre um grande abano de palha trançada, onde é acomodado com as mãos, formando uma massa achatada, em forma de disco. 

Num tacho previamente aquecido em forno e untado com gordura, é virado o abano para cair a massa que vai torrando, sendo virada com grandes espátulas de madeira. Essa massa é o "beiju" (biju). Uma vez pronto ele é separado fora do fogo. 

A seguir o restante da massa peneirada, ou seja, a que passou pelo crivo, é posta a torrar livremente sem fazer biju, como se fosse outra farinha qualquer. Depois de pronta, essa farinha é misturada ao biju que é quebrado em pedaços, dando uma granulação floculada à farinha de milho. 

Sabão de Bola: 


Também chamado "sabão preto". 

A confecção do sabão começa com um processo de decuada da cinza de fogão à lenha, em um "barrileiro": um balaio do tipo jacá, forrado com palha de bananeira, cheio de cinza, suspenso em um suporte, tendo debaixo uma vasilha de aparar. Acomoda a cinza de modo a deixar um vão no meio ("boca"). 

Vai se despejando água no meio do jacá, e por filtragem a água de cinza vai saindo por baixo, como quem coa café num coador. O produto, ou seja, a "dicuada de barrilêro" é amparada num vasilhame. 

A segunda etapa é por uma matéria gordurosa a derreter num tacho ao fogo. Pode-se usar abacate ou sebo de vaca. Depois de derretido, pouco a pouco se vai acrescentando a cinza coada, sempre misturando, com grande colheres de pau.  

O ponto de sabão é tirado em uma bacia com água onde se põe uma porção para experimentar: se desmanchar sem fazer espuma precisa ficar mais no fogo. 

Ao chegar no ponto certo, espera-se esfriar. Ainda morno vai-se enrolando para fazer bolas ou caso não queira nesse formato, é vertido dentro de formas retangulares para fazer barras, que depois de frias podem ser cortadas em tabletes. 

Se feito em bolas é em geral depois enrolado em palha seca de bananeira e de uma tira de sua fibra se faz o amarrio por constricção. 

Alguns produtores acrescentam ao sabão artesanal ramos batidos da herbácea chamada mané-turé (também conhecida por mané-magro e isopo, Leonurus sibiricus, Lamiaceae), que garante um sabão que produz muita espuma. 

Outros ainda somam a soda cáustica, produto químico que apressa o processo de produção para um dia, pois pode levar até três no sistema tradicional. O caso é que o sabão sodado é inadequado para a pele, prejudicando as principais indicações do sabão de bola. 

* Texto e pesquisa: Ulisses Passarelli
** Informante: Elvira Andrade de Salles (1995) e José Maria do Nascimento (2013), naturais de Bias Fortes / MG. 


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Pontilhão do Elvas

A Maria Fumaça completa a beleza da paisagem! Sobre a divisa natural entre São João del-Rei e Tiradentes, Minas Gerais, o Rio Elvas, afluente da margem esquerda do Rio das Mortes, poucos metros acima de sua confluência, é cortado pelo antigo pontilhão da Estrada de Ferro Oeste de Minas. 



Em data recente a administração ferroviária fez reforços na estrutura da obra, prevenindo problemas advindos da força erosiva das enchentes. Não é de admirar, pois as margens do pequeno rio estão profundamente marcadas pelo corte da mata ciliar, provocando quedas dos barrancos e assoreamento. 


Na estrutura do pontilhão a placa indica a origem, fabricada no Reino Unido, Escócia. A data gera a indagação de como seria a estrutura anteriormente, já que a ferrovia foi inaugurada em 1881. Seria de madeira ou de ferro?

O Rio Elvas necessita urgentemente de um programa de regeneração das margens. As ações além de preservar o patrimônio histórico ferroviário, teriam em seu bojo todas as implicações ecológicas e de prevenção de enchentes, e no mais, favoreceriam as atividades turísticas. 

sábado, 20 de julho de 2013

Arte no ar: pipas, papagaios e jiricos


São chegadas as férias de inverno. A gurizada sobe aos morros em busca de locais mais ventilados com suas pipas. Nas praias aproveitam a brisa oceânica. Ora se torna perigoso quando o palco são as ruas convencionais, pelo risco da fiação elétrica da rede pública. Soltar pipa é uma das diversões tradicionais mais queridas da criançada e que muito marmanjo não consegue deixar, vencida a infância física.

É um brinquedo milenar, de remota origem chinesa, que disseminou mundo afora desde longa data. Da Europa o recebemos e por todo o país se esparramou ganhando peculiaridades locais, mas guardando em si a mesma essência e sensação de liberdade ao se praticar. ALENCAR (1971) afirmou: "antiquíssima é a brincadeira universal de empinar papagaios de papel. Teria surgido na China, no século XIII ou XIV e dali invadido a Europa", porém indica possibilidade de uma origem bem mais antiga. O autor fez um importante estudo perpassando pelo histórico, a tipologia, modelos, vocabulário, etc. 

O objetivo específico do presente texto não é descrever a brincadeira, que de assaz conhecida talvez dispense esse passo; tão pouco traçar sua caminhada histórica, hoje de consulta fácil [1]. É tão somente pretexto para expor uns detalhes intrínsecos que evocam a minha própria infância nos altos campos da Caieira, em São João del-Rei da década de 1970, que portanto vivenciei, e que depois foram reforçados por informações mais tardias, de 1999, tomadas com jovens afeitos ao brinquedo das pipas.

Basicamente o processo começa com a escolha da matéria prima: bambu, que deve ter os gomos longos e estar “de vez”, ou seja, em estado intermediário entre verde e maduro. A peça é lavrada à faca até formar varetas que são amarradas em cruz, com linha retesada entre os extremos. É a base da pipa, muito leve, chamada “armação”.

A etapa seguinte é cobri-la. A escolha da cor é muito individual e existem combinações simples ou variadas, uma verdadeira expressão artística, com figuras geométricas (losangos, triângulos, círculos, polígonos), faixas e outras formas variáveis. Temas do futebol também perpassam nas coberturas, como na combinação de cores ou no aproveitamento dos brasões. Um símbolo de caveira é também frequente. Mormente se usa a folha de seda para as composições.



A cola pode ser a branca comum, para papel, a mais usada, mas já se usou muito o “grude”, uma cola caseira tosca, feita com polvilho e água, mexidos vigorosamente ao fogo dentro de uma lata, gerando uma massa pegajosa.

O próximo passo é fazer a “rabiola”, uma longa linha atada a parte de trás da pipa, com muitas fitas plásticas retalhadas amarradas por nós. Em minha infância eram mais comuns as fitas feitas de folha de seda, dando um colorido especial à rabiola, porém grande fragilidade. Por vezes se mesclam cores de tanto em tanto gerando a sensação de faixas, ou se alternam fitas de duas cores. Algumas crianças faziam rabiola de jornal cortado. A rabiola é que estabiliza a pipa no ar, contrabalançando seu peso. A rabiola tem as fitas na parte inicial amarradas muito próximas umas das outras, conferindo um aspecto denso, daí ser chamada de “cabeleira”. Na parte média as fitas vão gradativamente se afastando, ganhando o nome de “rabada” e por fim o terço final quase sem fitas ou mesmo sem elas é apenas um prolongamento de linha conhecido por “chicote”.

A linha preferida para soltar pipa é a nº10, leve e resistente. Quando se constroem pipas grandes que fazem mais força no contra vento, usam-se linhas mais fortes como cordonê e o fio de nylon de pescaria. A linha se prende à pipa por um artefato de linha preso na armação, em dois ou três pontos, chamado “tem-tem” ou “cabresto.

O ato de soltar pipa se dá em espaço livre, dependendo do vento para erguer o brinquedo e liberá-la para mais longe (“dar linha”). A simples brincadeira é empinar a pipa ou fazê-la remexer no ar, rebolar (“dar carioquinha”) ou fazê-la descer em riste após movimentos hábeis das mãos na linha, conduzindo-a a um voo rasante (“dar de bico”) e imediatamente antes dela cair no chão se solta mais linha e ela retoma a posição inicial com um rápido manejo. A pipa que consegue fazer estes movimentos é considerada boa, digo, bem construída. Se for avantajada é alcunhada “pião”.

Por outro lado se não consegue é ruim e ganha os apelidos pejorativos de “camelo” e “caixote”. Se a rabiola é curta, insuficiente para estabilizar a pipa ela se põe descontrolada a fazer giros no ar, mais ou menos velozes conforme o comprimento desse acessório. Diz-se que a pipa “dá de rodinha”. Se a falta de estabilidade é por erro na medida da armação, com desigualdade na medida de distância na centralização das varetas, ela tende a tombar para um lado ou nunca se alinha, inclinando-se de maneira aleatória, daí se dizer que a pipa “dá de lado”. Se a diferença é pequena se resolve amarrando-se do lado oposto à inclinação umas fitas largas para contra peso. Outro defeito corrigível é “dar de tábua”, assim chamada quando a armação é muito plana fazendo com que a pipa prancheie no alto sem obedecer aos comandos. A solução é “morgar” a armação, esticando uma linha bem tensa entre os extremos direito e esquerdo para obrigar uma certa curvatura.



O cerol (“ceral”, dizem alguns) é um preparado de vidro fino moído com massete dentro de uma lata, cujo pó se aplica à linha de soltar com uma mistura de cola branca de papel ou preferencialmente cola-madeira. Uma variante usa goma-arábica com pó de serralheiro (pó de ferro que solta das serras de cortar vergalhões nas oficinas de serralheria). O cerol pouco cortante por ter vidro insuficiente é apelidado “água de batata”.

Este preparado é passado à linha de soltar e ao chicote para a disputa mais querida dos soltadores que é cortar a pipa do outro, rompendo a linha no ar pela habilidade de “cruzar” as linhas até que o cerol corte quem está “liso” (sem cerol) ou com cerol mais fraco. Ao cortar de insulto, muitas vezes o vencedor grita ao perdedor: “ôh, goiaba!”, como um brado de superioridade. Os habilidosos vão conduzindo sua pipa desde longe até próximo da pipa que se almeja cortar, ato chamado de “buscar”.

A pipa rompida desgoverna em corrupios no ar, como um bailado surrealista, ao bel-prazer do sopro eólico. Está “voada”, não tem dono. É de quem pegar. Quem cortou “debica” sua pipa tentando “aparar” a pipa voada, rompida, ou seja, capturá-la em pleno ar, trazendo-a para si na emboleira de linhas e rabiolas. Passa a ser seu dono incontestável pela supremacia da habilidade. Dizem então que “mandou e aparou”. Alguns soltadores se tornam respeitados tal a capacidade de fazer isto. Mas se a pipa está de fato perdida no seu voo, ao léu a molecada corre desesperadamente para alcançá-la, onde cair.  O primeiro a pegar é o novo dono e cuida logo de gritar “tá na mão!”, indicando posse desde então.

O cerol tem sido alvo de protestos e campanhas educativas visando sua exclusão devido ao grande número de acidentes que provoca, com cortes profundos na pele, até mortais, quando ciclistas e motociclistas são atingidos no pescoço acidentalmente na corrida sobre seus veículos.

Além das pipas existem os papagaios. A diferença básica para a região das Vertentes é a cobertura, de plástico nestes. Outra diferença é que não costumam deixar espaços vazados na armação, havendo uma cobertura total. Em geral não tem rabiola e por isto os movimentos no ar são bem mais limitados. São diversos os modelos de papagaios, como o “arraia” e o “morcego” cuja forma imita a silhueta dos animais que lhes emprestaram os nomes; o “jaú”, um papagaio losangular grande, sem rabiola, e o “peixinho”, losangular pequeno e por exceção com rabiola. 

Por fim existe o mais simples desses brinquedos e de todos o mais improvisado: o “jirico” ou “jiriquinho”, feito com uma simples folha de caderno, com as bordas de fora a fora dobradas em largura de uma polegada em 90º em relação à planura da folha. Dois furinhos para trespassar o tem-tem e a rabiola (de papel) o completam. Como não tem armação e não suporta muito vento, subindo pouco, basta-lhe a linha de costura comum, nº40. Porém o jirico é o caminho do aprendizado dos pequeninos para depois chegar às pipas, piões e papagaios.

Soltando um jirico.

Soltar as efêmeras pipas é uma atividade alegre que desperta nas crianças sociabilidade e espírito esportivo. Tem ainda um lado de diversão familiar quando os pais ajudam ensinado a confecção e participando da soltura.

São objetos artísticos posto que concebidos de forma criativa, individualizada, dependendo de escolha de cores e disposição dos recortes de folha. O fazer é estritamente manual e a transmissão do aprendizado se dá informalmente. Diferentes épocas conservam domínios do fazer de diversos tipos, denotando uma dinâmica. A prática conserva um linguajar específico. A produção do cerol e a aplicação na linha se prendem a um conhecimento prático. O controle da aerodinâmica vem de uma atividade empírica. Em tudo a pipa se configura como uma brincadeira da cultura popular que pode ser enquadrada na característica da manifestação folclórica.

Referências Bibliográficas

ALENCAR, Edigar de. Papagaios-Pipa-Arraia. Revista Brasileira de Folclore, n.29, jan./abr.1971. p. 5-23.

Notas e Créditos

* Texto, desenhos e fotografias: Ulisses Passarelli


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Apelidos Gentílicos

Aqui, nos Campos das Vertentes, região montanhosa do centro-sul mineiro, que encantou viajantes como Auguste de Saint-Hilaire, as pequenas cidades e vilas guardam certas características muito peculiares e formas produtivas típicas, que acabaram por gerar alcunhas de extraordinário caráter interiorano. 

Os produtos agrícolas mais típicos de um lugar, de tão abundantes ou antes dominantes da economia local, fizeram render pseudônimos curiosos aos moradores. Esses apelidos às gentes locais também se vão perdendo na fumaça dos tempos e alguns ficaram atualmente desprovidos de seu significado de origem. Houve época que eram ofensivos e uma vez pronunciados geravam insultos de retorno e não raro, discussões e até brigas. Era uma versão caipira do bairrismo. 

Também certos gestos ou jeito comportamental renderam suas inspirações. 

Vou lembrando agora do povo de Conceição da Barra de Minas que ganhou o apelido de "bota-ovo", com duas explicações que ouvi: uma que diz que eles, concepcionenses, falam demais e não brigam nada. No linguajar popular existe nesse sentido a expressão "botando ovo", como quem faz muito barulho, como a galinha cacareja alto ao botar. Outra versão porém vem do hábito postural comum ao homem do campo, de esperar de cócoras em vez de em pé ou sentado, como uma galinha pronta a botar. Agachar, se apoiando sobre os calcanhares. Esta posição é chamada também "cutiado" ou "acutiado", ou seja, na postura da cutia (mamífero roedor dasyproctídeo) e é uma herança indígena. 

Os ritapolitanos são os "gabiroba", nome da frutinha mirtácea mais abundante dos pastos de cerrado pelas imediações de Ritápolis, ex-Santa Rita do Rio Abaixo. 

O pessoal de São Tiago - o povo do "café com biscoito" (atualmente centro de uma grande festa temática) ou de Ritápolis, provocava aos moradores de Morro do Ferro chamando aquele lugar de "Arraial das Cocotas", alusão às vossorocas oriundas da atividade mineradora, onde as cocotas (maritacas, Aratinga leucophthalma, psitacidae), se aninham em galerias escavadas nos barrancos. Dispensável dizer o desconforto que o apelido gerava. 

Lagoa Dourada. Encravada nos contrafortes da Serra das Vertentes, produz o mais delicioso rocambole da região, usando de um pão de ló especial e um doce de leite inigualável, Tão afamado se tornou que logo os lagoenses não tardaram ser apelidados de "rocambole"

O distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, ex-Caburu, foi noutros tempos produtor de boa safra de quiabo. Pelos terrenos férteis e úmidos dos sítios das redondezas, muito do fruto dessa malvácea foi produzido. Das hortas vinham em balaios para a venda na cidade. Caburuense, então, virou "quiabeiro"... 

São Gonçalo do Amarante. Autor e data não identificados. 
Fotografia gentilmente cedida por João Bosco Alves. 

Outro distrito nosso, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno se destacou na produção de arroz e limão, trazido para vender em São João del-Rei nos jacás, bruacas e sacos, no lombo dos burros das tropas. Os naturais por conseguinte foram alcunhados "arroz pilado" ou "limão-galego". Porém esses designativos se perderam sob a sombra de um produto local muito mais significativo e que realmente se afamou pela qualidade: o "sabão-de-bola", um sabão artesanal que povo usa para descarrego espiritual e para males da pele e seborréia. Surgiu então mais esse apelido. 

Belo casarão de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. 
Foto: Iago C.S. Passsarelli, 10/04/2013.

Mesmo dentro de uma cidade surge essa característica para com um bairro ou corporação Na infância ouvia moradores da área central de São João del-Rei chamarem o bairro de Matosinhos de "Matosíndio", e seus moradores de "índios", no sentido mais pejorativo que a palavra comporta, como selvagem, bárbaro. As duas orquestras sacras bicentenárias da cidade tiveram outrora seus apelidos: "coalhada" (Ribeiro Bastos) e "rapadura" (Lira Sanjoanense). E os times de futebol? Também, mas não é assunto para este texto. 

Esta cidade aliás foi apelidada "São João dos Queijos", nome que faz jus à grande produção deste produto e a extraordinária qualidade dos queijos. Não obstante a queda na produção desde alguns anos, o cognome persevera teimoso.  

São João del-Rei nutria com a vizinha Tiradentes uma velha rivalidade. No século XIX e mais um tempo adiante, os tiradentinos eram chamados "jacubeiros", referência à jacuba, uma bebida tôsca mas saborosa e de "sustança", de que existem algumas receitas, mas cá dou a que aprendi em menino: café forte, coado amargo de tudo ("café pagão"). No caneco ou cuia se pica uns pedaços de queijo mineiro e põe um tanto de "farinha de munho" (fubá torrado) e açúcar mascavo para adoçar. Por cima despeja o café citado. O calor derrete o queijo, gerando um fio de puxa-puxa. Comida de tropeiros, boiadeiros, carreiros, garimpeiros... 

Mas este apelido deu lugar a outro mais irritante para eles: "tatu com repolho". Digo irritante porque na infância ouvia minha mãe e tias recomendando-me ser bem criado, ter juízo, respeitar os mais velhos e nunca chamar ninguém de Tiradentes de tatu com repolho porque dava briga! Em compensação eles nos retribuíam com um terrível nome: "sabiá com farinha"... Diz que nos bailes e festas de barraquinha, se a rapaziada das duas cidades irmãs se vissem por aí, bastava um chamar o outro: "Ôh, sabiá com farinha!" que o pau quebrava!

Longe de ofender qualquer localidade citada neste texto ou a seus cidadãos, quis apenas revelar para quem não conhece, mais este tempero da mineiridade: o mundo dos apelidos. Embora existam em todo país _ claro _ os acima referidos tem a cor local, a face do provincianismo das Vertentes de Minas. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli