Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 31 de maio de 2013

Vigia silenciosa

Uma antiga estátua olha serenamente Matosinhos... 

Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013

A elegante estátua francesa que se destaca por sua imponência no centro da praça de Matosinhos, em épocas recuadas peregrinou a outros pontos da cidade. Entre eles, sabidamente, no Morro da Forca (Bairro Bonfim) e como bem me alertou o pesquisador Francisco José de Resende Frazão, também no Largo do Rosário, antes de 1915, época em que foi assentado no mesmo lugar que ocupava a herma do Padre José Maria Xavier, que até hoje ali se encontra.  O pesquisador supra me ofertou gentilmente uma antiga foto que  mostra a "Deusa Ceres" diante do Rosário e que abaixo reproduzo com adaptações: 




É fato conhecido que o lampião-chafariz do Largo do Carmo (de 1887, providenciado pela Câmara Municipal) tem a mesma origem da estátua-chafariz de Matosinhos, monumento que supostamente é seu coetâneo. Aliás, as bacias e faunos são idênticas:


O mesmo pesquisador supra me alertara com perspicácia que uma confrontação estilísticas leva a aproximar os dois chafarizes supra de dois outros desta cidade, hoje apenas lampiões desprovidos da bacia, idênticos entre si e hoje situados ao lado da Prefeitura Municipal em humilde jardim, ora em processo de revitalização, junto à Avenida Hermillo Alves:

Fotos: Ulisses Passarelli, 2013

O da parte superior do jardim (mais próximo à Ponte da Cadeia) ficava originalmente no Largo da Câmara, de que o pesquisador citado cedeu-me antigas fotos, conseguida com o ilustre Silvério Parada, que pode ser vista abaixo:



O da parte inferior do jardim ao lado da prefeitura situava-se na Praça Nossa Senhora de Fátima (antiga Estalagem), no Bairro Tijuco e estava em situação de conservação muito precária tendo sido remendado até com pedaços de madeira na ocasião do translado para o lugar atual. Desconheço fotos antigas do tempo que esteve na Estalagem.

Informações orais transmitidas pelo colaborador supra-citado dão conta de que a transferência para a lateral da prefeitura de ambos se deu na administração do Dr. Milton Viegas (fins da década 1960 e começo da seguinte) que teve papel importante nas ações culturais da cidade.
Serão esses dois chafarizes/lampiões também da Val d'Osne? Está aí mais um veio aberto à investigação ...

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: conforme legenda e esclarecimento textual



quinta-feira, 30 de maio de 2013

Folclore das Cobras - parte 1

Algumas crendices sobre as serpentes

            “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado.”





Carranca fotografada em
São João del-Rei, 1998.

Uma cobra sai de sua boca.
Procedência ignorada. 

                   Assim principia na Bíblia Sagrada, o terceiro capítulo do livro Gênesis. A narrativa de como a serpente, símbolo do mal, figuração satânica no ato da criação humana, impregnou profundamente a mitologia, sobretudo a ocidental. O animal tentador, que corrompeu os planos que Deus tinha traçado para a humanidade, induzindo a desobediência de Adão e Eva, foi amaldiçoado pelo próprio Criador: “serás maldita entre todos os animais e feras dos campos” (Ex.3, 14).
            Todo um complexo sistema de crenças recai de forma cosmopolita sobre as serpentes. Por toda parte onde ela vive gera no homem uma mescla de sentimentos atávicos, que confluem para compor a temática de uma série de estórias, crenças, tabus, mitos, lendas. A riqueza cultural é gigantesca. Nos verbetes “Cobra” e “Serpente”, Luís da Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, resumiu de forma magistral o poderio imaginário que estes répteis despertaram nos meios populares, notadamente nas áreas de influência indígena.
            Mas longe está a pretensão deste pequeno texto de perpassar por estas tradições em análise, revisão ou coletânea. As palavras acima são meros pretextos para expor algumas informações a seguir, que ao longo da minha caminhada de pesquisas ouvi em São João del-Rei e arredores _ Campos das Vertentes _ desde a infância, salvo indicação contrária, e que, ora passo em breve revista.

*  *  *

- Cobra que mama: impossível é à serpente fazer a sucção necessária ao ato de mamar, dada a conformação de seus músculos e articulações da mandíbula. Contudo, uma velha crença portuguesa esparramou-se pelo Brasil e chegou a esta região, contrariando os ensinamentos anatômicos. Dizem que foi para os lados de Resende Costa, que numa antiga fazenda de chão assoalhado, com porão por baixo, onde tuias de mantimento atraíam ratos, e no seu rastro, uma imensa cobra veio morar. Tarde da noite, a senhora, cansada da labuta diária, sentava-se numa velha cadeira onde aleitava sua criança. O pai, sempre ia mais cedo dormir e a mãe, esgotada, cochilava no assento. A serpente, conhecedora do horário e astuta como sempre, saía do porão e passando por um buraco entre as tábuas do assoalho, vinha sorrateiramente à mãe, que não se dava conta do réptil, devido ao sono profundo que estava. A cobra, subindo mansamente ao colo maternal, metia a ponta do rabo na boca do bebê, qual fosse uma chupeta e livrando assim a mama punha a sugar o leite. Quando fartava-se, voltava ao seu esconderijo, sorrateira como de costume. A criança pouco a pouco ia emagrecendo, sem se saber a razão. Um dia, por sortes do destino, o pai acordou e estranhando pelo avançado da hora, não ter até então a esposa chegado ao quarto, foi à sala, onde viu estupefato a cena da cobra mamando. Tomou de um porrete e batendo de propósito o pé no chão fez a cobra pelo barulho largar o seio e sair às pressas, mas antes que entrasse no buraco da passagem para o porão foi morta a cacetadas. Em São João del-Rei tivemos notícia de estórias de cobra que mama em vaca, no curral. 

- Comer cobra: acredita o povo que a serpente pode servir como alimento humano, desde que ao matá-la se deixe sangrar totalmente, pendurada, e se corte a partir da cabeça e da ponta da cauda, um palmo de comprimento de cada lado, eliminando as possibilidades de envenenamento.

- Espinho de cobra: o pior veneno da serpente não está na presa mas nas pontas das costelas (espinhos). Se alguém se ferir neles quando de uma carcaça em decomposição, terá uma ferida incurável no local. Se fincar no corpo humano, não pode ser retido facilmente, pois, como se fosse vivo, caminha por dentro dos músculos, gerando dor e mal estar, até chegar ao coração, ponto final da maldita jornada, causando a morte irremediável. Por isto o homem do campo ao matar uma cobra a enterra, para que seus ossos não fiquem expostos.

- Chocalho de cascavel: a medonha serpente viperídea Crotalus durissus pode ter sua idade contada pelo número de anéis de seu guizo: um para cada ano de vida. A ciência desmente, afirmando que cada anel corresponde a uma troca de pele, que pode acontecer mais de uma vez por ano. O povo não aceita, lógico. O chocalho é um aviso de periculosidade que Deus conferiu ao cascavel, para que alerte pelo som idiofônico aos humanos sobre a iminência do perigo. Esta crendice é contextualizada na disputa em forma de fábula entre a letalidade do cascavel com a urutu (Bothrops alternatus): dizem que as duas nutrem entre si uma inveja _ no tempo que os bichos falavam elas se encontraram no mato _ urutu logo disse que era pior. Tinha até um sinal de cruz na testa (daí ser chamada urutu-cruzeiro, devido ao desenho cruciforme que traz no couro) para atestar a morte que provoca, a que, replicou cascavel, que a peçonha dela era pior... batia o guizo antes da picada para que a vítima alertada, se movesse do lugar e assim não caísse sobre o próprio cascavel.

- Disputa das cobras: a crendice popular da primazia de poder das serpentes reflete-se em versos do nosso folclore. “Dona Josefina”, em 1996, cantou-me em Barbacena a seguinte quadra de calango:

Toda cobra carijó
Vive sempre de porfia:
Cascavel anda de rastro,
Caninana de rodia.

A caninana (Spilotes pullatus), serpente colubrídea de grande porte, é temida por sua agressividade, formando rodilhas e correndo atrás da vítima, embora a ciência não lhe atribua o caráter de peçonhenta.

- Lidar com cobras: valentia e poder sobrenatural teriam aqueles capazes de lidar com serpentes sem serem molestados. Propalar isto em versos é índice de firmeza espiritual. Tal acepção impregnou a cultura popular. Uma sextilha cantada no jongo de roça (canto de trabalho por ocasião dos mutirões de capina agrícola), me foi dada pelo Sr. Luís Santana em 1995, no Bairro São Dimas, em São João del-Rei:

Cascavel não me pica,
Tenho boa oração.
Jararaca perigosa,
Esse é meu lenço de mão.
Urutu por ser valente
É bainha do meu facão.

Um fragmento de calango do mesmo bairro, informado um ano antes, pelo saudoso José Camilo da Silva, dizia:
Fiz uma cama da onça,
Travesseiro do leão;
Cascavel do olho cinzento
Enrolado em minha mão ...

- Parentesco com as cobras: não adentrarei no hipotético totemismo, quiçá rastreável neste tema, em heranças africanas. Tão somente citar com brevidade que algumas criações poéticas do povo colocam o cantador como se fora uma serpente ou como seu parente, mais um alerta de não ser ofendido pois tem seu próprio “veneno”, como cantou num calango em 1999 o mestre “Faixa Preta” (José Francisco Sales), no Bairro Tijuco, aqui nesta cidade:

Eu sou filho da cobra-gira,
Neto da cobra-corá [coral]
Quero que você me diga
Quem ensinou Deus a rezar...

Presenciei na Festa do Divino de 2004, no Bairro Matosinhos, a uma demanda curiosa: um catupé daqui cruzou na frente do moçambique da cidade de Passa Tempo, em tom desafiador:

Cobrinha miúda, eu pego com a mão!
Cobrinha miúda, eu pego com a mão ...

Na voz do Capitão Luís Maurício a resposta veio certeira e imediata:

Eu sou cascavel dos brejos,
Da beirada do olho cinzento.
Quando eu dou minha picada
Não adianta gritar: São Bento!

- Na medicina popular: a banha (gordura) da sucuri (Eunectes murinus, boidae), conservada num vidro, serve de remédio ao reumatismo, bastando-se dissolver uma porção no café quente para beber. Uma quadrinha cantada no catupé do Bairro São Dimas, em São João del-Rei, do Capitão Luís Santana (1995) cita a imensa serpente, com o sentido provocativo da perda de congadeiro do terno por força de demanda:


"Mestre carreiro,
me conta como é que foi:
na várzea leve, 
sicuri laçou seu boi..."

- A origem do veneno: a peçonha das serpentes é benéfica no sentido que Deus as criou para que tirem o “mal ar”, convertendo-o em veneno, ou seja, as toxinas, fluidos, elementos que causam doenças e acometimentos espirituais pelo ar contaminado. Estas substâncias as serpentes absorveriam pela pele e depois seriam transformadas (quimicamente) em peçonha. Assim purificam o ar.

- O veneno da cobrinha: duas crenças curiosas são correntes por aqui _ a jovem serpente logo ao nascer do ovo não possui veneno algum. A mãe cobra então a engole, sem mastigar. Ilesa, a cobrinha vai passando viva por seu sistema digestivo, até então ser parida direto, isto é, sem intermédio de ovo. Nessa passagem por dentro da mãe é que adquiri desta o veneno. A outra crendice diz que o réptil jovem oferece mais perigo à vida que o adulto pois seu veneno é concentrado e mais forte, pois nunca foi diluído em outras picadas.

- O ardido da picada das vespas: a ferroada das vespas dói tanto porque nos transmite uma pequena parcela do veneno das cobras, não suficiente para matar. Assim me informou “Tião Abelha” em Santa Cruz de Minas por fevereiro de 1998. Isto porque, quando uma serpente morre, as vespas pousam sobre ela e chupam (absorvem...) seu veneno, bebendo seu sangue talhado (coagulado). Nesta terrível reciclagem duas espécies se sobrepujam: o marimbondo-pólvinha (de pólvora, alusão ao queimor da ferroada) e a abelha caga-fogo.

- A raiz da guaipeva: atestou-me um trabalhador rural originário de Santa Rita do Ibitipoca, por volta de 1996, o saudoso Sr. Júlio Prudente de Oliveira, grande conhecedor da cultura popular, que, certos feiticeiros, “cumba do papo amarelo”, isto é, grande conhecedores das artes mágicas, dos mistérios do além, tem o conhecimento de uma certa oração forte, inconfessável, capaz de, pronunciada adequadamente à Sexta-feira da Paixão, meia-noite (zero hora), fazer uma transformação extraordinária: tendo o feiticeiro cavado fundo ao pé da árvore chamada guaipeva e segurando uma de suas raízes pretas, a força das palavras mágicas da reza brava teriam a capacidade de convertê-la em serpente, uma perigosa jaracuçu (Bothrops jararacussu, viperidae). Ela se enrola no braço do sujeito e lhe confere fortaleza espiritual invencível. Em segundos a cobra misteriosa se enrijece, voltando a ser pau, mera raiz. Cortada em pedacinhos trazidos escondidos na algibeira, no bolso, livra o sujeito de qualquer demanda espiritual de inimigos, tornando-o invencível.

- Outra transmutação: cabelos humanos jogados em águas paradas, ferruginosas, podem se converter em serpentes, conforme ouvi e década e meia, em Santa Cruz de Minas, de minha sogra, sra. Elvira Andrade de Salles.

- Como afastar as cobras: existem várias receitas. Uma delas, um benzedor ensinou à minha mãe em São João del-Rei a três décadas: rezar para João Congo, um negro velho cujo espírito afastaria as serpentes. Outro benzedor são-joanense, do Bairro Senhor dos Montes, relatou-me, ainda este ano, que se deve fazer uma cruz com dois paus parcialmente queimados, restos de fogueira (tição), ficando o vertical com a ponta tostada para o lado do mato, onde manterá as cobras. Outra fórmula ensina queimar pneus ou outra borracha no arredor da casa. O cheiro da fumaça espanta as cobras. Andar com dente de alho no bolso também serve para o mesmo propósito. E ainda, dizia-me meu avô materno, Aluísio dos Santos, os caçadores outrora amarravam um patuá no pescoço dos cães de caça com um cordão. O patuá era um saquinho feito com couro de lobo, costurado nas margens de modo a não perder o conteúdo, que era uma substância chamada “sublimato corrosivo” (cloreto de mercúrio, veneno potente), cujo vapor, exalado por sublimação, espantaria qualquer serpente da frente do cachorro e de seu dono (*). É o princípio do contra-veneno, ou que, “um veneno combate o outro veneno”. Nesta acepção, a citada Dona Elvira dizia-me em fevereiro de 1998 que onde não há recurso, o que se pode fazer para salvar um ofendido por serpente é matar a cobrar, cortar um pedaço do meio de seu corpo (torete) e aplicar sobre o local da picada. Isto absorveria o veneno, salvando a pessoa [1].

- Briga da cobra com o lagarto: o teiú ou tejo (Tupinambis teguixin), grande lagarto teídeo, por ser muito territorialista, quando vê seu espaço invadido por uma serpente, trava corajosamente com ela uma luta, dando-lhe fortes chicotadas com a cauda. Se um bote da cobra lhe atinge, corre desenfreado pela mata. Mas não está fugindo. É uma retirada estratégica ... procura por uma árvore chamada cafezinho-do-campo ou árvore-de-lagarto, cuja raiz escava e morde tirando lascas. Mastiga e engole seu sumo. A raiz o cura do veneno da cobra e imuniza-o, correndo célere de volta ao campo de batalha, onde, às rabanadas, termina por vencer a cobra, matando-a.

- Atropelar cobra: ao ver uma serpente atravessando uma estrada deve-se evitar ao máximo atropelá-la, pois do contrário, o veículo dali por diante, como se acometido por uma maldição, passa a ter diversos problemas mecânicos inexplicáveis, ou como diz o povo, "se a roda passar na cobra, o carro vai quebrando em seguida..."


*  *  *

Estas são algumas crendices pertinentes ao rico folclore das cobras. Porém outras mais permeiam a cultura do povo. A devoção a São Bento, protetor contra picadas é um exemplo. Mas isto é assunto para outra página...

Notas e Créditos

* O antigo jornal de São João del-Rei, O Repórter, em sua edição nº28, de 19/08/1906, publicava anúncio do produto SURUCUINA, encontrado em São João del-Rei num estabelecimento comercial que era "depositario, nesta cidade, do afamado, conhecido e maravilhoso remedio", pelo preço de 7$500 o vidro, "poderoso preparado e efficaz contra mordedura de cobras venenosas". (Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida).
** Foto e texto: Ulisses Passarelli
*** Não deixe de ler neste blog o FOLCLORE DAS COBRAS - parte 2




[1] - No mesmo sentido do contra-veneno ouvia as crianças de meu tempo dizerem que se uma lagarta-de-fogo (taturana) sapecasse a nossa pele no mato, o remédio seria matá-la a aplicar sobre a queimadura suas vísceras ("tripa") que tirariam todo o veneno, bastando lavar depois.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Folia do Didinho



Mestre Didinho (em primeiro plano), tendo ao seu lado direito o saudoso folieiro Geraldo Martins,
tocando na Procissão do Imperador Perpétuo durante o Jubileu do Divino em São João del-Rei,
no momento que a sua folia passava diante da Santa Casa de Misericórdia. 
Folia do Divino do Bairro Bom Pastor (Grande Matosinhos), São João del-Rei/MG. 



Assista ao novo vídeo: clique em Folia do Didinho 


Notas e Créditos:

* Acervo, texto e fotografias (04/06/2011): Ulisses Passarelli.
** Vídeo (18/05/2013) e edição: Iago C.S. Passarelli.
*** Folião: "Didinho" (Geraldo Domingos Resende).

terça-feira, 28 de maio de 2013

Fábula: o Coelho e o Jacaré

Os bichos dão lição aos homens...

Um homem, certa vez, num tempo de grande estiagem, chegou à beira de um rio quase seco e viu no fundo de um poço que era mais lama que água, um filhotinho de jacaré, pouco mais que um lagarto. Imaginou que com aquele sol forte e a falta de chuva sua sina estaria certamente e com brevidade marcada pela morte. Desceu e salvou o bicho, soltando-o na água corrente.

Feita a boa ação partiu. O tempo passou, passou ... Anos depois chegou junto ao mesmo rio, ainda naquele lugar onde salvara o jacarezinho. Só que agora, ao contrário, uma imensa enchente elevava-se de um barranco ao outro, socavando as encostas ribeirinhas.

O homem chegou bem na beirada para ver melhor a agitação das águas quando foi surpreendido por um desmoronamento da margem. Caiu na correnteza e foi levado. Sabia nadar mas a água estava brava. De súbito, como que um tronco que boiava, se meteu debaixo dele e o ergueu entre as pernas. Mais assustado ficou ao ver que não era pau, mas um imenso jacaré. Quis fugir quando o bicho falou:

_ Carma home! Num me cunhece não? Sô aquele jacaré que ocê sarvô quano era fiotin’ numa poça de barro, alembra?
_ Ah... mas não é possível!
_ Claro que é. Tô agradecendo. Vô te descê no barranco.

Lá ia numa cena curiosa o homem rio abaixo cavalgando um jacaré. Mas nada de desembarcar. É que a fera a propósito, maquinava se devia ou não devorar seu benfeitor. Na confusão do pensamento fazia hora para tomar a decisão. O homem cismou.

_ Jacaré, por favor, me desce logo que tô com medo.
_ Já vai home...

Passou por um galho sobranceiro onde uma coruja estava pousada. O jacaré perguntou-lhe.

_ Bem se paga com bem ou bem se paga com mal?
_ Com bem, respondeu-lhe a coruja.

O jacaré não gostou da resposta. Queria o contrário. E homem apavorou.

_ Me desce logo!
_ Não dá pra sê aqui, oh, barranco alto. Com’é que ocê sobe?

Passou outra árvore grande onde um urubu espiava aquela cena inusitada.

_ Bem se paga com bem ou bem se paga com mal?
_ Com mal, falou taciturno o urubu.

O jacaré agradou mas no fundo a voz da sua minúscula consciência retrucava o empate das respostas, pois enfim se não fosse o homem ele teria morrido... Mas se o deixasse na beira poderia então comê-lo sem remorso, pois já estava pago porque o teria salvado do afogamento primeiro.

_ Quero sair jacaré!
_ Lá embaixo naquela curva do rio, no espraiado, tá vendo?

Mas antes da raseira, uma grande árvore havia tombado nas águas, meio para fora, meio para dentro. Em acentuada inclinação, obstruía em parte a passagem do rio. Sobre aquele tronco ao longe viu o homem um coelho calmamente tocando sua viola.

O jacaré gritou ao coelho a mesma pergunta, louco pelo desempate que o deixaria sem embaraço algum para estraçalhar o homem ali mesmo. Mas o coelho muito velhaco percebeu a má intenção e...

_ O quê?... Não tô escutando... (pôs a mão na orelha)
_ Bem se paga com bem ou bem se paga com mal?
_ Âhn? Fala mais alto...

Ele queria é que se aproximassem para dar oportunidade ao homem de saltar fora e embromava o brutamonte dentuço.


Na terceira vez que se fez de surdo, já boiavam perto da árvore caída. Dedilhou um toque na viola, cantando assim:

“Quem tempo tem,
Quem tempo espera,
En’vém o tempo
Que o diabo leva...”

E tocando seu instrumento abanava a cabeça de lado, dando sinal ao homem que pulasse no galho caído na torrente.

Ele entendeu e vupt! O coelho lhe deu uma mãozinha e foi a conta, pois a bocada do jacaré escancarou rasgando ramo e juntando folha, num urro assustador. Safou-se o homem com ajuda da esperteza do coelho e o bestial jacaré teve que caçar peixes para matar a fome. 

Notas e Créditos

* Informante: José Cândido de Salles ("Zé Cristino Boiadeiro"), Santa Cruz de Minas/MG, 1996.
** Coleta e adaptação textual: Ulisses Passarelli.
*** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 10/12/2013.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Uma contribuição para a história dos congados

Lista de congados desativados em São João del-Rei: zona urbana


01- Congo – Rua das Flores (atual Maestro Batista Lopes), Bairro Tijuco – Capitão João Lopes (primeira metade do século XX)

02- Congo - Rua São João, Bairro Tijuco – Capitão José Francisco (idem)

03- Congo - Águas Férreas, Bairro Tijuco – Capitão Geraldo Elói de Lacerda (segunda metade da década de 1980)

04- Moçambique bate-paus - Bairro São Dimas – Capitã Márcia Aparecida Lopes (ano 2000-2001) Grupo infantil, formado por meninas chamava-se “Frutos do Rosário”. 

05- Moçambique Bate-paus - Rua do Ouro, Bairro Alto Das Mercês – Capitão Tadeu Nascimento de Sousa. Teve duas fases. Surgido com o nome de “Mãe Joana D’Arc”, era composto por adultos (1997-1999). Depois de um ano desativado, foi recomposto pelo mesmo capitão com crianças, com o nome de “Anjos do Rosário”. Porém com apenas um ano o grupo infantil também se dissipou.

06- Mocambique / Catupé – Vila Nossa Senhora de Fátima (Matosinhos), Capitão “Geraldão”. Guarda mista, inicialmente com predomínio de Moçambique, quando de sua fundação pelo Capitão “Geraldão”, na década de 1950, e depois com maior tendência para o Catupé, pelo seu continuador, o Capitão “Zé Tita”, que morava na Horta Velha (Bom Pastor de Baixo, Matosinhos). Teve também ajuda do Capitão “Chico Zacarias”. Suas atividades vieram ao que parece até meados da década de 1980. 

07- Catupé - Alto das Mercês - Guarda "Nossa Senhora das Mercês" - Capitão Wilson Bernardino. Grupo de vida efêmera, que esteve ativo entre 2007 e 2008. 

08- Catupé - Bairro São Dimas - Guarda "Nossa Senhora do Rosário" - Capitão Raimundo Marino da Silva ("Raimundo Camilo"). Este congado surgiu na Rua Bárbara Eliodora, em 1962, sob a capitania de seu pai, o célebre Capitão de Congado José Camilo da Silva. Inicialmente contou com grande apoio do também Capitão Valdemar Fagundes, o mesmo que fora capitão no distrito de São Gonçalo do Amarante. Este grupo teve atividade ininterrupta até 1992, tendo formado importantes capitães para a cidade, com destaque para Raimundo Camilo, Luthero Castorino da Silva, Matosinhos José Eustáquio e Luís Carlos Rosa. Em 1994 faleceu José Camilo e o grupo só foi reativado em 1998, reunindo os antigos capitães, com primeira apresentação pública na Festa do Divino daquele ano e se manteve ativo por mais dez anos, quando encerrou as atividades. Raimundo faleceu em 2013. 


Lista de congados desativados em São João del-Rei: zona rural


01- Congo, Povoado da Canela, Capitão “Procópio da Maria Joana”. Grupo nos moldes do que ainda existe no Rio das Mortes, com o qual tinha franca colaboração e vice-versa, tanto que, desaparecido o da Canela, aquele continuou a fazer a festa do povoado, sempre em novembro. 

02- Catupé, Localidade de Mestre Ventura, Capitão “Saturnino”. A minúscula povoação só existia em função da estação férrea que ali havia, ao longo da “Linha do Sertão”, da Estrada de Ferro Oeste de Minas, km 127, inaugurada na década de 1930. Com a erradicação dos trilhos (década de 1980), o lugar tão isolado e sem outra perspectiva econômica, se esvaziou e hoje se resume a apenas duas fazendas. Tudo o que restou da estação são os vestígios da plataforma de pedra e a velha caixa d’água. Saturnino seria natural do então distrito de Conceição da Barra onde tinha sua guarda, mas mudou-se para Mestre Ventura onde montou esse pequeno Congado. Dizem que era rixento e que mesmo sem convite, querendo participar com seu Congado na Festa do Rosário da vila de São Gonçalo do Amarante numa época em que apenas o Congo local a fazia, para lá marchou com sua turma, mas logo à entrada teve de fazer meia volta pois seu grupo foi banido por um enxame de marimbondos, que ali os aguardava às custas de rezas fortes arranjadas pelo famoso capitão José Fagundes, do Congo da vila. Ao que parece, foi o fim deste Catupé. 

03- Moçambique bate-paus, Caquende. Esta informação devemos ao eminente pesquisador José Antônio de Ávila Sacramento. Em seus esforços em prol da memória, história e cultura distritais, informou, e o reproduzimos dado o valor do registro:

"Até os anos 1970 morava no povoado o Sr. Raimundo Marçal; ele e os seus filhos Ozair, Ozanan e Ozanir reuniam crianças para uma dança chamada "Moçambique". Vestiam-se de branco e o ritmo era marcado através dos sons de guizos presos aos seus tornozelos e das batidas de pedaços de pau." (*)

Congo das Águas Férreas durante a Procissão de Nossa
Senhora Aparecida no Bairro Guarda-mor, em 1983. 




Moçambique do Capitão Tadeu, recolhendo reinado na Festa do Rosário
do Bairro São Geraldo, no Salão do Araçá, em 1997. 

Catupé do Capitão Raimundo Camilo, recolhendo reinado na
Festa do Divino de 1998, Bairro Matosinhos, São João del-Rei. 

Notas e Créditos

* SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Caquende. Jornal de Minas, n.125, ano 10, 28/05 a 03/06/2010, p.2. São João del-Rei. 
** Texto: Ulisses Passarelli, 08/07/2008. 
*** Fotos: congo das Águas Férreas, autor não identificado; moçambique da Rua do Ouro e catupé de Raimundo Camilo, Ulisses Passarelli 
**** Ver também sobre este assunto: História dos Congados

sábado, 25 de maio de 2013

Ex-votos em São Gonçalo do Amarante


Na postagem anterior comentava-se sobre as "marcas da fé". Em si ela é abstrata, mas para muitos em certas circunstâncias críticas, a fé transborda em sinais. Marcas concretas estão afixadas por exemplo nos quadros ex-votivos, de que existem vários em diversas igrejas e sobretudo nos centros de romaria. 

Um ex-voto é um objeto depositado num lugar tido como sagrado para dar testemunho público e perene de uma graça alcançada. É o atestado de um milagre reconhecido pelo povo. É a prova material da fé popular na intervenção divina quando os recursos da Terra se tornam impotentes. Não é à toa que o cômodo da igreja onde se reúne é popularmente chamado "Sala dos Milagres". 

Eles revelam formas variadas tais como quadros (pintados, desenhados, manuscritos, datilografados e em tempos atuais, texto digitalizados, incluindo ou não fotos), roupas, peças em cera ou madeira representando partes do corpo, mechas de cabelo, objetos variados, aparelhos ortopédicos, fotografias, dentre outros. 

Alguns lugares reúnem uma multidão de ex-votos a exemplo de Aparecida-SP, que vale a pena conhecer e admirar a riqueza etnográfica ali exposta, o testemunho palpável da fé popular. Em Congonhas/MG o seu imenso manancial foi estudado e ganhou importante publicação a respeito (1). 

Mas por aqui também eles existem. Os mais destacados estão nos santuários do Senhor Bom Jesus de Matosinhos (São João del-Rei) e Santíssima Trindade (Tiradentes). Porém, nas capelas rurais, nas sacristias, em igrejas não tão movimentadas também estão eles certificando o ocorrido em prol de uma saúde combalida, cancros curados, pústulas vazadas, cistos que sumiram, acidentes terríveis dos quais se foi salvo, proteção em catástrofes, etc. Como registram o limiar da estabilidade da vida tem o povo um profundo respeito por eles. 

No campo do folclore e da etnografia eles tem um especial interesse, reveladores que são de arte, técnicas de composição, meios de representatividade de sentimentos, ancestralidade, visão da interação homem-além. 

Ora este blog traz quatro fotografias de ex-votos observados em 2009 em São Gonçalo do Amarante, distrito de São João del-Rei. Nota-se neles a simplicidade da composição e a sinceridade do objetivo, agradecendo por crianças salvas e pernas socorridas. 

Neste aspecto em especial gera um interesse específico posto que no Brasil, São Gonçalo do Amarante é um santo normalmente tido como patrono dos violeiros, ou noutras localidades, também como protetor de viúvas e vítimas de enchentes (Jequitibá/MG). Porém no ex-Caburu, atual São Gonçalo do Amarante, o santo português tem um destaque na cura de feridas nas pernas, membros com perda de mobilidade, questões ósseas, o que remete a sua veneração diretamente à origem ibérica. É exatamente esta a atribuição típica conferida ao santo na sua cidade de origem, Amarante, margeando o Rio Tâmega, em Portugal, onde é o patrono dos ossos (2). 

Esta intrigante coincidência, instiga a pesquisa historiográfica sobre as origens e povoação da pequena vila são-joanense, ainda por se traçar.


Texto: (ex-voto da direita) "Os pais de Júlio César Alves agradecem a São Gonçalo do Amarante a graça alcançada em favor de seu filho, pois ele usava botas ortopédicas e hoje encontra-se curado." 26 de julho de 1987".  Notar a veste da criança reproduzindo a da imagem do santo padroeiro.
(ex-voto da esquerda): sem referências.


Texto: "Maria da Conceição de Carvalho, agradece uma graça de sua filha, Carmem Isabel Alves Guimarães, a cura de um quisto que foi operado quatro vezes e com a graça de São Gonçalo do Amarante e Nossa Senhora e ao Santíssimo Sacramento ela se encontra curada. 30/08/83."


Texto: (ex-voto da esquerda): "Uma graça alcançada a São Gonçalo de uma perna entrevada. JEN.  Carmen." Obs.: JEN. = José Eugênio Neto.
(ex-voto da direita): "Milagre de São Gonçalo a Alipio R. Fer.ra" [Alípio Rodrigues Ferreira]


Texto: "Um devoto AC.S agradece a São Gonçalo uma graça alcançada pela cura de suas 'pernas' e oferece a fotografia em cumprimento de promessa. São João del-Rei". 


Notas e Créditos

(1) Promessa e Milagre no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos Congonhas do Campo Minas Gerais. Brasília: Pró-Memória, 1981. 154p.il.
(2) DIAMANTINO, Deniston. A Dança de São Gonçalo. Documentário. Vídeo. Belo Horizonte: Opará.
*Texto e fotos: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ritual de Coroação do Imperador


O ritual de coroação do novo Imperador do Divino transcorria de formas diferentes a cada ano, algumas vezes conforme idéias novas do escolhido. Em 2011 o então presidente da Comissão do Divino, Nelson Domingos de Abreu solicitou-me formatar o ritual e disto lhe entreguei o esboço abaixo, que prevê local exato para assento, entrada solene, ato de descoroação, coroação e aclamação. Foi-lhe dada total liberdade de descartar esta sugestão ou de adaptá-la como melhor conviesse. Com pequenas adaptações de ordem prática foi seguido desde então. Segue-se abaixo, conforme o original. 

*  *  *

1- Toda a orientação do ritual compete a um Mestre de Cerimônias, trajado de terno, ciente de cada detalhe e momento, sem interferência de outras pessoas e independente do Locutor Sacro, embora suas ações estejam sincronizadas.

2- Todos os imperadores se trajarão de terno completo (ex e atuais) e deverão ter um comportamento irrepreensível, mantendo a compostura, respeito e silêncio no santuário.

3- Para a celebração os ex-imperadores entrarão em fila dupla, antecedendo os atuais.

4- Seguem os atuais, cercados pela Guarda de Honra.

5- Os imperadores atuais (coroado e eleito) tem assento junto ao altar, no lugar de costume, tendo à sua frente uma mesinha forrada de toalha e sobre ela será posta a salva. Também deve haver dois genuflexórios.

6- Ex-imperadores tem assento na primeira fila, no eixo principal da nave central, à direita de quem entra (lado contrário da orquestra).

7- Após os imperadores atuais se sentarem os ex-imperadores se sentarão também, seguidos da Guarda de Honra que assentará junto aos ex-imperadores.

8- No momento da Consagração o Imperador Coroado tira a coroa da cabeça e a põe sobre a salva. Ele e o Imperador Eleito ajoelham-se no genuflexório. Após a Consagração se levantam e permanecem de pé e então recoloca a coroa sobre a cabeça.

9- Na Ação de Graças o Imperador Eleito e o Coroado irão para a entrada principal do santuário. Os ex-imperadores formarão fila dupla diante do altar.

10- A entrada dos imperadores se dará em duas etapas:

-          primeiro: entra o Imperador Coroado, passa pelo abre-alas dos ex-imperadores e sobe ao altar. Cumprimenta o celebrante. Ele mesmo retira a coroa e a põe sobre a salva, que estará com o Mestre de Cerimônia. A seguir entrega-lhe o cetro, que será atravessado na coroa. O Mestre de Cerimônia põe as insígnias sobre a mesinha e volta para ajudá-lo a retirada da capa e por fim da faixa, pendendo-as no genuflexório.

-          A seguir entra o Imperador Eleito e vai até o altar. O Mestre de Cerimônia põe-lhe a faixa e a seguir a capa. O novo Imperador ajoelha no genuflexório enquanto o celebrante asperge água benta sobre as insígnias e a seguir o coroa. Ao levantar-se recebe o cetro. A salva permanece sobre a mesinha. É cumprimentado pelo Padre e Mestre de Cerimônia.

11- Nesse momento todos os ex-imperadores voltam aos seus lugares e o novo imperador é apresentado à aclamação dos fiéis.


*  *  *

É de praxe ao término da bênção do padre todos os imperadores de anos anteriores virem saudar o novo, recém-coroado, bem como, familiares, parentes, amigos e até curiosos. É um momento especial, de grande fraternidade. Abaixo algumas fotos que revelam o Mestre de Cerimônias pondo-lhe a capa, o Bispo Diocesano coroando e um imperador de ano anterior saudando-lhe com um abraço. 






Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: Iago C.S.Passarelli, 20/05/2013 

Marcas da Fé

A cultura popular de Minas Gerais via de regra passa pela religiosidade profunda da população, como se fosse sua guia. Os grupos folclóricos e os festejos são profundamente eivados de manifestações concretas de fé, algumas aparentemente pitorescas ao olhar superficial e apressado, mas todas com certeza são sinceras. Estas manifestações são bem típicas da alma mineira, impregnada de barroquismo. Nas festas do Rosário, nas do Divino, nas de São João e Santa Cruz vê-se com clareza essa piedade do homem simples, que a toma tão a sério porque o sintoniza com o Criador. Nas fotos abaixo alguns flagrantes de devotas atitudes durante a Festa do Divino de São João del-Rei, Bairro Matosinhos.

 Uma senhora toma a bênção da bandeira do Catupé "N.S.do Rosário", de Resende Costa/MG, do Capitão "Vino". Foto: Affonso Furtado, 2002. 

Folião Geraldo Elói entra de joelho no santuário, com sua bandeira. 
Foto: Jacó, 2011. Oferta: Antônio da Silva Serpa, Comissão do Divino.

Marca de baton num mastro da festa, prova visual de um beijo devoto. 
Foto: Iago C.S.Passarelli, 2013.


Um congadeiro de Barroso /MG toca um berrante diante do andor do Divino. 
Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013. 
Expressões de fé como essas são em verdade a própria essência da religiosidade popular, que faz tão autênticas nossas manifestações folclóricas. Contextualizadas num ambiente acolhedor, as congadas e as folias são muito mais que meras apresentações culturais, tornando-se caminhos legítimos de integração do povo à evangelização. Por elas também o fiel se reafirma como povo de Deus. 

*** Assista ao novo vídeo CHEGADA DA PROCISSÃO DO DIVINO

Texto: Ulisses Passarelli. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Folia da Rua São João

                                      

"Folieiro caminhando,
com o Divino Espírito Santo!"

Folia do Divino da Rua São João, Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG. 
Folião: Antônio Ventura. 18/05/2013.
Procissão do Imperador Perpétuo, Festa do Divino.


Notas e Créditos

*Vídeo e texto: Ulisses Passarelli
**Edição: Iago C.S. Passarelli





10 Cenas de um Pentecostes

As imagens falam mais que mil palavras. O silêncio desta postagem se torna gritante nestas simples cenas. Contemple-as ... 

 A Deus Ceres observa silenciosa a passagem dos congadeiros

 Respeito do Capitão do Moçambique "São Bernardo", de Macaia

 Bandeira de Tiradentes / MG

 O alegre congado de Conceição da Barra de Minas em marcha

 Reinado 

 Tambor artesanal

 Acordeon

Tomando a bênção  



Vilão, Perdões/MG

* Fotos: Iago C.S Passarelli, 2013, Festa do Divino, São João del-Rei / MG. 


segunda-feira, 20 de maio de 2013

16ª Festa do Divino após o Resgate

Paralisada por 74 anos em suas festividades externas foi em 1998, que sob a liderança do artista sacro Osni Paiva, com inestimável apoio do então pároco José Raimundo da Costa, reuniu-se numa das dependências da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei / MG, uma modesta comissão que tinha uma tarefa gigante: a de recuperar uma festa esquecida no remoto 1924, em honra ao Divino.

Cumprida a proposição e consolidados os trabalhos, festejou-se neste fim de semana a culminância de tal jubileu, com intensa participação popular.

No sábado, 18 de maio, oito grupos de folia se congregaram no Largo de São Francisco, de onde partiram em marcha rumo a Matosinhos, revezando-se na cantoria, conduzindo o Imperador Perpétuo Santo Antônio, dentro de uma liteira carregada por militares, em procissão até o santuário, tendo como abre-alas cavaleiros com trajes próprios conduzindo estandarte, guiões e bandeiras. Sob a nova umbela, o Imperador Ivan Campos Nascimento desceu pelas ruas guardado por espadas. O vigário de Matosinhos, Padre Admilson Heitor de  Paiva, acompanhou todo o trajeto sobre uma charrete, como no ano passado o fizera o pároco, Padre José Bittar. Noutra charrete foi o sr. Mário Calçavara, Mordomo da Bandeira, conduzindo respeitosamente a sua bandeira. Na passagem pela dianteira da Igreja de São Gonçalo Garcia os sinos recepcionaram a procissão como de costume. No Salão Comunitário de Santa Clara ingressou no cortejo o Imperador Eleito para 2013, Edmilson Washington da Silva. A chegada a Matosinhos foi festiva, em clima eufórico como bem condiz com a comemoração pentecostal.


A missa transcorreu sob a execução musical de cada folia em seu ritmo próprio entoando um dos cânticos da celebração, ao fim da qual tiveram suas bandeiras abençoadas pelo celebrante. Cada uma se exibiu no coreto armado no adro, ante considerável público. Receberam do Imperador uma lembrança do evento: uma pombinha artesanal, em madeira, com raiada em redor. No salão da catequese fizeram seu lanche. Os grupos presentes foram os seguintes: da Restinga de Cima (Ritápolis/MG), sob a responsabilidade do folião José Mário, coadjuvado pelo Embaixador Vicente José de Sousa; os demais grupos sediam-se em São João del-Rei: três do Bairro Tijuco, a saber _ das Águas Férreas, da Rua São João e do Jardim São José; do Bom Pastor (Matosinhos), do Araçá ("Embaixada Santa"), do Guarda-mor (do folião João Matias) e por fim uma da Colônia do José Teodoro.


O domingo foi literalmente brilhante, colorido e musical. O dia todo dançantes de São João del-Rei, Tiradentes, Barroso, Ritápolis, Coronel Xavier Chaves, Resende Costa, Conceição da Barra de Minas, Ibituruna, Itutinga, Carrancas, Santo Antônio do Amparo, Perdões, Santana do Garambéu, Macaia, Pedra Negra, São Gonçalo do Amarante e Conselheiro Lafaiete ritmaram a festa com suas evocações afro-brasileiras. Os congados de diferentes tipos e estilos estiveram atraentes como sempre e este ano é de se destacar os esforços da comissão de festeiros em oferecer-lhes aquele que foi o melhor almoço desde o resgate.


As celebrações de Pentecostes ressaltaram os valores da fé, a importância do Espírito Santo em nossa vida cotidiana e a importância da data como verdadeiro aniversário da igreja. O reverendíssimo Bispo Diocesano Dom Frei Célio de Oliveira Goulart celebrou a missa solene, que contou com a presença de autoridades, dentre as quais, vereadores, prefeito e deputado federal. O sr. bispo ao fim da missa corou o novo imperador em tocante cerimônia cuja locução coube ao culto musicista desta terra, professor Abgar Tirado. 
Foi de se notar a intensa movimentação de fiéis para participarem da procissão do Divino, tomando maciçamente a avenida principal do grande bairro, seguida de bênção do Santíssimo Sacramento. 
Por fim, a descida dos mastros conclui a participação dos congadeiros e o Evangeliza Show de Frei Zeca, finalizou mais um jubileu.


* Texto: Ulisses Passarelli
* Fotos: Iago C.S. Passarelli, 2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Alvorada

Amanhã é sábado e as Folias do Divino se reunirão 17 horas diante da Igreja de São Francisco de Assis. Descerão tocando e cantando na Procissão do Imperador Perpétuo, Santo Antônio. Lá no Santuário de Matosinhos conduzirão os cantos da missa e mais, logo mais, cantarão no coreto. É a entrega da missão. A longa jornada de visita às casas, de anúncio e convite, de recolhimento de donativos chegou ao fim mais uma vez. As folias se vão e no dia seguinte ... 

Domingo de Pentecostes. De madrugada, com a barra do dia apontando, os capitães de congado estão por aí, fazendo suas firmezas de saída, acendendo suas velas para o anjo da guarda, ajuntando as guias ou tomando um banho de ervas para preparar a aura para mais um dia de lutas. 

Enquanto isto, já um foguete alerta: a Festa do Divino é hoje!


Acorda povo! Vem rezar... É o Divino que dá juízo. Os caixeiros vem chegando para a alvorada e tocam seu ritmo típico, acelerado: "vão s'imbora, Vitalina! Vão s'imbora, Vitalina!"


O mastro é como um para-raio que puxa para a terra as energias do alto, a força iluminada do santo que está estampado em sua bandeira, posta lá no topo. Telúrico, verticalizado, liga o céu à terra, carreando as  preces. Saudá-lo logo na alvorada é uma praxe respeitosa que garante o bom andamento do festejo.


E quando dá 6 horas em ponto, limite entre o dia e a noite, momento sagrado que a luz do sol espanca as trevas, "hora aberta", em Matosinhos o Pentecostes explode em fé, colorido, ritmos ...


Os sinos dobram, o homem expande seu devocionário, irmana sua crença, comunga sua fé. O júbilo toma conta. Em Matosinhos, o jubileu é mais ritmado... O brilho prateado da coroa imperial reluz para os súditos desse império que vendo esta festa sentem a renovação das esperanças, que só podem vir pela graça divina. 

Salve o Divino! Inúmeras vezes ouvimos esta saudação entre festeiros e congadeiros. É como uma senha de acesso a uma irmandade ilimitada, que congrega, pela força de uma tradição palpitante, os fiéis do Espírito Santo.

* Texto: Ulisses Passarelli, 2013.
* Animações: Iago C.S. Passarelli, 2012 (imagens extraídas do vídeo JUBILEU PERPÉTUO DO DIVINO ESPÍRITO SANTO - 2001, imagens e edição Antônio Rocha, São João del-Rei/MG)