Bem vindo!

Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 30 de abril de 2013

O tal de São Manso...

A Oração de São Marcos e São Manso

           Nos meios populares merece um respeito especial um grupo grande de preces reconhecidas como especiais, por alcançarem um resultado extraordinário em casos extremos de grande perigo ou dificuldade, abrandando inimigos e expulsando maus espíritos. São as chamadas "rezas bravas" ou "orações fortes".

           Os folcloristas tem cuidado de registrá-las e comentá-las e no livro Meleagro, de Luís da Câmara Cascudo, encontram-se algumas bastante significativas, cuja leitura recomendo, posto que contextualizadas nos rituais de catimbó, tão bem documentados por aquele mestre.

            Em outro livro seu, o Dicionário do Folclore Brasileiro, consultando o verbete "São Marcos" se depara com tradições que envolvem este santo à figura do boi, animal que não lhe é iconograficamente simbólico (o leão é o bicho que aparece ao lado de sua representação) e o estudioso ensina: "o touro de São Marcos, pertencia à classe das sobrevivências greco-romanas".

           Ora, certa feita, dialogando com Silvério Parada em São João del-Rei, disse-me que, em conversa com um velho carreiro, este lhe ensinou que se um carro de bois empacasse, ou seja, os bois teimassem em não andar puxando o rude veículo, mesmo às custas de brados dos carreiros e golpes da vara de ferrão (sua ferramenta), então um inimigo teria "amarrado" o carro, isto é, às custas de algum feitiço o teria travado espiritualmente o funcionamento. Para solucionar o caso a receita secreta, que o carreiro experiente sabe é a seguinte: cruzar as juntas de boi, passando os bois de coice para a guia e os da guia para o coice (ou seja, de trás para frente e vice-versa) e rezar a "Oração de São Manso", capaz de, num caso desses, desmanchar o malefício.

Carro de bois entre os povoados da Cruz das Almas e o Fé, São João del-Rei/MG. Década de 1990.

       O conhecimento que tinha dessa reza era a de amansar o próprio gênio humano, acalmando o nervosismo e a inimizade. Ainda como reminiscência da infância lembro-me de minha mãe recitando uma oração dessas e eu sempre a achava engraçada por causa daquele nome, "São Manso". Afinal, quem seria? Ela me repreendia mas criança é criança, enfim. Fora uma tia emprestada, do bairro Tijuco, que a ensinara a muitos anos, a "Titota":

"(... fulano:) São Marcos que te marque,
São Manso que te amanse. 
São Sincome!
São Sincome!
São Sincome!" 

            Procurando por seu caderno de orações, ciumentamente conservado por décadas, encontrei outra e ora a transcrevo, tal e qual: 

"São Marcos que me marque,
São Manso que me amanse.
Jesus Cristo me abrande o coração
E me parte o sangue mau.
A hóstia consagrada entre em mim.
Se meus inimigos tiverem mau coração
Não tenham cólera contra mim.
Assim como São Marcos e São Manso foram no monte
E nele havia touros bravos e mansos cordeiros
E os fizeram presos e pacíficos nas moradas de suas casas,
Debaixo do meu pé esquerdo,
Assim como as palavras de São Marcos e São Manso são certas, repito:
“Filho, pede o que quiseres, que serás servido,
E na casa em que pousar,
Se tiver cão de fila,
Retire-se do caminho.
Que nenhuma coisa se mova contra mim,
Nem vivos, nem mortos,
Batendo na porta com a mão esquerda,
Desejo que imediatamente se abra.”
Jesus Cristo, Senhor Nosso, desceu da cruz,
Assim como Pilatos, Herodes e Caifás foram os algozes de Cristo.
Ele consentiu todas essas tiranias, assim como o próprio Jesus Cristo quando estava no horto , fazendo sua oração,
Virou-ser e viu-se cercado de seus inimigos, disse: “sursum corda” [corações ao alto]
Caíram todos no chão,
Até acabar sua santa oração.
Assim como as palavras de Jesus Cristo,
São Marcos, São Manso, abrandaram o coração de todos os homens de mau espírito,
Os animais ferozes e de tudo que consigo, se quiser opor,
Tanto os vivos, tanto os mortos,
Tanto na alma, quanto no corpo e dos maus espíritos,
Tanto visíveis, quanto invisíveis,
Não sereis perseguido de justiça,
Nem dos meus inimigos que me quiserem causar dano,
Tanto no corpo, como na alma.
Viverei sempre sossegado (a) na minha casa,
Pelos caminhos e lugares por onde transitar,
Vivendo de qualidade alguma me possa estorvar,
Antes todos me prestem auxílio que eu necessitar.
Acompanhado (a) da presente oração santíssima,
Terei amizade de todo mundo
E todos me quererão bem
E de ninguém serei aborrecido,
Amém."

             É de se imaginar numa provável troca de pronomes na parte inicial, que teria alterado o sentido: o "me" seria em verdade "te", da primeira para segunda pessoa do singular, posto que o objetivo desta prece é amansar o inimigo (te marque, te amanse, te abrande, te parte o sangue mau).

Caderno de orações citado, de Édila Santos Passarelli, 
aberto à página da qual foi transcrita a Oração de São Manso. 2013.

          Antecedendo esta postagem, uma rápida consulta à internet me revelou que esta oração, exatamente com esta letra é muito conhecida e tem vários registros, parte de um livro espiritualista chamado Antigo Livro de São Marcos e São Manso.

           Algumas versões que ao longo dos anos li ou ouvi referem-se a "São Marcos Bravo e São Marcos  Manso", variações do mesmo tema. 

             Hoje, quero crer que "São Manso" seja mera corruptela de Santo Amâncio

         Uma oração muito curiosa me informou minha esposa, Maria Aparecida de Salles, quando preparava esta postagem, relembrando tê-la ouvido de sua tia materna, Joana de Paula Nascimento, natural da zona rural de Bias Fortes/MG:

"São Manso que te amanse
Assim como amansou a cabra preta
Deu leite a sete mil diabos
Amansai o coração dos meus inimigos
Que estão mais bravos que o capeta." 

           A cabra preta é figura mitológica, de ares demoníacos. Da prece que lhe refere, o mesmo Meleagro supra-citado dá uma importante versão do nordeste brasileiro. 

              Tem ainda uma trova curiosa, senão mesmo engraçada, que a mais de duas décadas ouvi em São João del-Rei:


"Valha-me, senhor São Manso,
sentado na pedra preta!
Se ele não me valer,
valha-me todos os capeta ..."

            Por fim fica claro que o folclore não está distante de nós e mesmo entre nossos parentes e amigos encontramos rica fonte de pesquisa. Carolice à parte, o devocionário popular é uma fonte inesgotável de tradições, que se desdobra em muitas abas, cada qual abrindo um novo universo à pesquisa, cativante à leitura e instigante à etnografia. 


Notas e Créditos

* Para saber mais sobre este tema leia: Vinte e Cinco Rezas Fortes e Benzeções
** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

domingo, 28 de abril de 2013

Moçambique bate-paus de Santana do Garambéu

Moçambique bate-paus de Santana do Garambéu/MG em
participação no Jubileu do Divino, São João del-Rei/MG.
Canto de licença para adentrar no adro do Santuário do
Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 05/06/2011.

Notas e Créditos

* Vídeo: Maria Aparecida de Salles Passarelli
** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli


Saudades ferroviárias

Nasci na "Rua das Fábricas" (Avenida Leite de Castro, São João del-Rei), onde acompanhei em minha infância o ir e vir dos trens do sertão, a famosa maria fumaça, bitolinha, fumegando saudades, apitando notícias alvissareiras de outras terras que chegavam a "São João dos Queijos". Cargueiros, composições mistas e trens de passageiros ainda passam em minha memória, ora com grandes faróis acesos, como a clamar que seu último remanescente neste vale fluvial do Rio das Mortes não seja perdido de vistas no esquecimento. Fechando os olhos ainda vejo o sinaleiro na travessia da Rua Antônio Rocha com uma antiga lanterna na mão, luz verde de um lado, vermelha de outro, demarcando a segurança do tráfego noturno, ou com pequenas bandeiras no diurno. Relembro de muitos vagões pesados atrelados a duas máquinas sincronizadas em tração dupla. A paixão maior de minha infância era ver tal cena. E uma frustração: nunca ter dado um passeio no trolley movido a varas, que se envergavam ante a força braçal dos operários da via. Ia este rude veículo cheio de ferramentas, marmitas, água, apetrechos. O trabalho árduo se impunha. 

Fico pensando: com o desenvolvimento turístico de hoje, o que não seria dessa malha ferroviária que foi destruída pela ingerência? A linha passando no centro da Leite de Castro com uma carreira de ipês arborizando de cada lado... Em época de florada o trem passaria num corredor amarelo de flores, atração que bem divulgada traria gente de toda parte para presenciar este espetáculo. Águas Santas, Pombal, Cachoeira de Padre Brito, Ponte do Inferno... Quantos atrativos específicos trariam milhares de turistas!

Olhemos para estes vestígios. Olhemos para nós mesmos. Preservar é preciso. Que este clamor ecoe, como o apito do trem de ferro soa em nosso coração.


Pontilhão da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), bitola 0,76m sobre o Rio Pirapitinga, afluente da margem direita do Rio das Mortes, em Aureliano Mourão (Bom Sucesso/MG), na saída para Ribeirão Vermelho. A carcaça de ferro abandonada no mato atiça a reflexão. 


Notas e Créditos

* Texto e fotografia (30/03/2003): Ulisses Passarelli
** Para ver mais fotos de trem clique neste link: FERROVIAS
***Para ler mais a respeito de ferrovias veja:

sábado, 27 de abril de 2013

Caixinhas das Almas

Painéis do purgatório e caixas de coleta em favor das almas


Hoje me veio à lembrança momentos da infância, nos quais entrava nalgum bar de São João del-Rei para comprar balas e doces e via na parede uma pequena caixa para depositar ofertas em benefício das almas. Estes óbolos eram recolhidos periodicamente por um zelador ou irmão das almas e destinados a celebrações em sufrágio das almas do purgatório. 

Caixa das Almas, Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG, no interior de um bar na localidade Buraquinho.

Muitos anos mais tarde pude compreender melhor o velho costume. De origem portuguesa, adaptado à realidade brasileira, era em sua origem uma composição em painel onde se pintava uma cena representativa do sofrimento das almas em chamas, ardendo no purgatório. Chamavam-lhe "alminhas". Apelando para tal comoção, naturalmente reflexiva sobre nosso próprio futuro, estava o painel ligado a um cofre onde o fiel depositava seu dinheiro, crendo que serviria às missas em favor das almas, único refrigério possível para elas.

 Painel das Almas. Forro do hall de entrada da sacristia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 
São João del-Rei. Pintura do século XVIII, atribuída a Manoel Vítor de Jesus. 

Em sua passagem por Minas Gerais na segunda década do século XIX, Saint-Hilaire (*) registrou em Rio Preto, na Zona da Mata: "Na extremidade que termina a povoação há uma cruz, e, segundo o costume, um tronco com um quadro que representa as almas do purgatório."

E Melo Morais Filho, certificou no fim do mesmo século (**): " ninguém há por aí que não tenha visto à porta de certas igrejas, dentro de tabernas e, nas ex-províncias do Brasil, em várias boticas, a caixinha das almas, com figuras pintadas ao alto, brancas e negras, com olhos de brasa e boca de fogo, levantando os braços no meio de labaredas vermelhas, listradas de amarelo..."

Aqui mesmo em São João del-Rei houve em tempos coloniais um Oratório das Almas, construção do século XVIII a muito inexistente, que ficava no Largo da Prainha, bem no centro da cidade, que nada mais devia ser que uma alminha à moda portuguesa. 

Porém com o passar dos anos houve mudanças e se desvincularam os painéis representativos das caixas de coleta, dessacralizando o conjunto. Na Catedral do Pilar, nesta cidade, ainda se vê dois painéis que mostram bem a concepção barroca (no sentido da dramaticidade) do sofrimento após a morte: figuras humanas de mãos postas clamam preces em pleno sofrimento ígneo. 

Detalhe central de medalhão frontal ao altar de São Miguel e Almas, 
Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, São João del-Rei

Mas além do aspecto propriamente piedoso, existe uma outra natureza nessas ofertas. O povo se habituou a ofertar moedas até nos pés dos cruzeiros e nas capelas de cemitério, por vezes de forma exposta (não depositada em caixas), sem preocupação aparente de desvio da esmola, ciente que, se deu às almas, a elas pertence. Caso alguém roube ficará com o pecado. Elas já viram sua verdadeira intensão e garantirão fartura em sua vida terrena. É o outro lado do costume, denotando uma relação de ordem mais devocional e de troca. Depositar uma esmola no cofre das almas durante sete segundas-feiras seguidas (dia votivo das almas), acompanhado de ave-maria e pai-nosso, garante ao devoto que sua carteira não falte dinheiro. Traz fartura. É uma simpatia divulgada aqui em São João del-Rei, conforme anotei em 2009.

As caixas tradicionais são pintadas de verde, cor votiva da Irmandade de São Miguel e Almas, e costumam trazer inscrições referentes ao objetivo ou a sigla S.M. (São Miguel), do santo guardião e condutor das almas noutro mundo, o espiritual. 

Em meu modesto entendimento essas caixas podem ser compreendidas como elementos da cultura popular. Renato Almeida (***) nos ensina que "o folclore não é o que o povo aceita, mas sobretudo o que utiliza". A tendência já visível ruma para o fim das caixas externas em estabelecimentos e sua permanência exclusiva no interior das igrejas, distanciando de vez o costume de suas origens e readequando os comportamentos dos fiéis. 

Caixa das Almas flagrada numa coluna do Mercado Municipal de São João del-Rei.

Referências bibliográficas

(*) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às Nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Nacional, 1944. 343p. p.52. 
(**) MORAIS FILHO. Alexandre José de Melo. Festas e Tradições Populares do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.] 562p. p.270-1.
(***) ALMEIDA, Renato. Vivência e Projeção do Folclore. Rio de Janeiro: Agir, 1971. 161p. p.50.

* Texto e fotos (ano 2000): Ulisses Passarelli 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Congo de Cachoeira da Prata/MG, na Festa do Divino de Matosinhos


Guarda de congo de Cachoeira da Prata/MG em apresentação
no adro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, 
São João del-Rei/MG, durante o Jubileu do Divino, no
Dia Maior, Domingo de Pentecostes, 05/06/2011.


Notas e Créditos

* Vídeo: Maria Aparecida de Salles Passarelli
** Texto, edição e acervo: Ulisses Passarelli

10 cenas do passado... (parte 2)

Um pouquinho de história (continuação)


Seguindo a linha de uma postagem homônima deste blog apresento mais dez fotografias antigas de São João del-Rei/MG, vindas de um álbum familiar de minha tia paterna, Cirene Passarelli, de autoria não identificada. Elas retratam cenas do complexo religioso salesiano da cidade; uma imagem antiga de "Rua das Fábricas" (Avenida Leite de Castro), tão transformada na atualidade a exemplo da perda da via férrea e de parte do casario; passeio nas montanhas (Serra do Lenheiro e Serra de São José) e na Casa da Pedra (gruta calcárea), os famosos piqueniques, desenvolvidos em ambiente familiar, muito tradicionais nessa região e por vezes acompanhados de música instrumental. Enfim, são velhas cenas cotidianas da alma de uma antiga cidade colonial. 

Altar da Igreja de São João Bosco

Andor de Nossa Senhora Auxiliadora na Igreja de São João Bosco

Presépio

Rasoura de São Domingos Sávio no pátio do Colégio São João.

Passeio na serra

Passeio na serra

Passeio na Casa da Pedra

Passeio na serra

Avenida Leite de Castro com a via férrea ao centro, vendo-se o casarão eclético (já demolido)
 que pertenceu ao Padre Tortoriello. 

Edificação não identificada, informada como sendo o Oratório Festivo São Caetano (Bairro Tijuco), 
porém sem confirmação.

* Texto: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Tiradentes/MG: duas lendas religiosas

Como surgiu a Igreja da Santíssima Trindade

No ano de 2004 em Tiradentes/MG, ouvi do conhecido oleiro Tião Paineira uma interessante narrativa sobre a origem do Santuário da Santíssima Trindade daquela cidade.

Teria sido construído por um padre peregrino, que andando mundo afora em busca de retiro espiritual, guiava uma procissão que trazia a grande imagem da Trindade Divina. Ao passar naquela colina, acima do Morro da Mandioca, os seus carregadores em penitência já não puderam mais com peso da imagem, nem mesmo descansando ou buscando reforços de outros braços para reerguer o andor, sendo isto interpretado como um sinal divino da escolha do lugar a se construir sua morada.

Porém, os dois irmãos do dito padre, igualmente sacerdotes, vinham juntos na mesma jornada, conduzindo outras imagens. Resolveram deixar o pessoal ali com a SS.Trindade e prosseguiram com seus respectivos acompanhantes.

Um deles, chamado Padre Gaspar, foi para as bandas do Elvas, onde, na paragem adequada fez erigir uma igreja em honra à Virgem do Pilar e por fim o terceiro irmão achou seu ponto certo na morraria de Prados, fazendo a Capela do Livramento. 

Dispostas num triângulo imaginário, cada igrejinha está num vértice. Com tempo aberto, de boa visibilidade, sem o embaçamento das brumas da manhã, estando-se numa delas se avista as outras duas e assim com qualquer uma delas.

Tal lenda busca de fato sacralizar ainda mais o ambiente já bastante religioso desse triângulo da fé e em verdade as três igrejas são ainda hoje importantes pontos de romaria e significativos exemplares da arte religiosa mineira.

Longe porém de ser o primeiro registro dessa lenda, é mister ressaltar que já era conhecida em 1968 uma versão da mesma, transcrita por Lacyr Schettino, sob o título de “As Três Igrejas num Triângulo”, e ainda, outra fonte também a registrou, sob o nome de “As Três Igrejas”, nas palavras competentes do folclorista Américo Pellegrini, no ano 2000. Com isto fica claro a popularidade do tema, cujo teor é o mesmo nas três versões, guardados naturalmente os detalhes estilísticos de cada uma delas.

Todavia, outra lenda que colhi naquela cidade também em 2004, nas imediações da Capela de Santo Antônio do Canjica, de uma senhora do povo, parece-me que zeladora da mesma, que já não posso identificar exatamente quem é, contraria a primeira aqui narrada, senão vejamos...

A imagem da SS.Trindade apareceu misteriosamente no mato, em pleno cerrado, no Morro da Mandioca, sendo achada por uma criança, que correu para avisar sua mãe. Voltou ao local acompanhada pela progenitora, mas não encontrou a imagem desta vez.

No outro dia a menina impressionada voltou àquele mato e reencontrou a imagem nas imediações. A mãe foi levada lá, mas, de novo, não viu a imagem.

Assim se repetiu algumas vezes, sempre um pouco aquém da aparição anterior, até que certa ocasião mãe e filha surpreenderam a imagem juntas, no ponto onde hoje está sua igreja. E ela não sumiu mais.A imagem escolheu o seu próprio lugar definitivo. Os homens foram chamados e naquele ponto construíram seu templo.

Lá, em jubileu, acorrem os fiéis pressurosos a agradecer e clamar auxílio, o ano todo, a mais de dois séculos, mas sobretudo no domingo próprio, o primeiro após cada Pentecostes.

Referências bibliográficas

- PELLEGRINI FILHO, Américo. Turismo Cultural em Tiradentes: estudo de metodologia aplicada. São Paulo: Manole, 2000. p.92.
- SCHETTINO, Lacyr. Lendas da Cidade de Tiradentes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, v.13, 1968. p.150-151.

Velário da Santíssima (SS.) Trindade, Tiradentes/MG,
no dia maior de seu jubileu em 2009. 

Notas e Créditos

* Texto e foto: Ulisses Passarelli
** Já se encontrava pronta esta postagem quando encontrei alguns dados sobre a ereção do templo em questão que julguei úteis como informação geral: 

o português Antônio Fraga fez-se ermitão e começou a esmolar na segunda metade do século XVIII para construir a Igreja da Santíssima Trindade em São José del-Rei (atual Tiradentes). A construção foi aprovada por provisão de 02/01/1776. Em 1781 a capela estava quase concluída, era minúscula, só cabendo dentro seis bancos. Acredita-se assim que a imagem não seria a enorme atual. O construtor morou num casebre ao lado da capela até 1794, quando faleceu. Em 1798 solicitou-se ao Conselho Real novo ermitão para a dita capela. Requerimento provisionado em 15/03/1799. Em 1810 o Tenente João Antônio inicia como administrador a construção da nova igreja, sob planta de Manoel Vítor de Jesus. Pedreiros: Cláudio Pereira Vianna, João Damasceno, Antônio Pereira da Silva, Manoel Alves de Sousa, Manoel Gomes Teixeira; ferreiro: José Antônio dos Santos. Além de escravos e aprendizes. 

Fonte: Sentinela das Vertentes. Tribuna Ilustrada, n.7, jun.1990. (Suplemento). 
Expansão de postagem em 01/05/2013. 

domingo, 21 de abril de 2013

Embaixada Santa: uma foto de homenagem ao mestre fundador (in memoriam)

A atual Folia de Reis "Embaixada Santa", de São João del-Rei quando ainda estava a cargo de seu saudoso fundador, Antônio Carvalho da Silva, que aparece na foto (esq.) de camisa vermelha, tocando cavaquinho. 

* Texto e foto (1995): Ulisses Passarelli
** Veja neste blog outras fotos deste grupo, recém inseridas na postagem TRINTA ANOS DE UMA FOLIA e também o novo vídeo a respeito lincado naquele post.


sábado, 20 de abril de 2013

A Festa do Divino está chegando!


Folia do Divino, Bairro Guarda-mor, São João del-Rei / MG. 
Mestre: João Matias. 
Foto: Iago C.S.Passarelli, 2011

***

Aproxima-se a Festa Jubilar do Divino Espírito Santo Paráclito em São João del-Rei, que se realiza no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. A programação começa no próximo dia 09 de maio e segue até 19, dia maior, no Domingo de Pentecostes. Uma grande atividade religiosa, social e cultural domina o grande bairro nesse tempo, que se enfeita de vermelho e branco e se musicaliza em muitos ritmos folclóricos para festejar o Divino. Desde já as folias estão visitando as casas e recolhendo donativos para a festa. Neste trabalho incessante, anunciam a festividade e convidam os fiéis para o grande jubileu. Fica consignada minha sincera homenagem aos mestres foliões que lutam para conservar mais esta tradição. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

10 cenas do passado... (parte 1)

Um pouquinho de história

A aceleração da vida moderna quase não nos permite olhar para o passado, onde existe um espelho para nossas reflexões silenciosas. Por vezes, para vislumbrar a história temos que perpassar os olhos em velhas fotografias. Foi o que fiz dentre o álbum familiar herdado de minha tia paterna Cirene Passarelli e de minha mãe, do qual ora compartilho algumas pérolas, de autoria e data não identificadas, que conservo em meu acervo em São João del-Rei / MG. 

Fotógrafo lambe-lambe.

Anjo de Procissão, São João del-Rei.
(Aluísio dos Santos, 1924-2005, meu avô materno, então com cerca de quatro anos)

Coroação de Nossa Senhora Auxiliadora, São João del-Rei.
(década de 1950, nas dependências de ensino salesiano)

Um carro de bois conduz uma família em pleno campo.

No carro de bois o carreiro conduz pessoas por caminhos tortuosos e neblinados da zona rural.

Um padre visita fiéis de uma fazenda.

Crianças de um internato salesiano, brincam no pátio do Oratório Festivo São João, 
na Avenida Leite de Castro, em São João del-Rei.

Indo para uma festa na cidade... 

Procissão de Nossa Senhora Auxiliadora, Igreja de São João Bosco,
São João del-Rei, vendo-se membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Romaria na Igreja de São João Bosco.

* Texto: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Bloco do Tatu: carnaval em Matosinhos

Bloco do Tatu em 1937, Vila Santa Terezinha, Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG.
* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto gentilmente ofertada para reprodução pelo Capitão de Congado Luís Pereira dos Santos. Autor desconhecido. 
*** Para saber maiores detalhes do carnaval em Matosinhos e deste bloco clique neste link: Carnaval

domingo, 14 de abril de 2013

Festa do Divino: preparativos para o jubileu

Iniciou-se após a Semana Santa o período mais intenso de preparativos para a festa jubilar em honra ao Divino Espírito Santo Paráclito no Bairro de Matosinhos, São João del-Rei /MG. A popular "Festa do Divino" se faz visível neste momento pelo giro das Folias do Divino, grupos folclóricos similares às Folias de Reis que ora visitam as residências dos devotos, entre a Páscoa e Pentecostes, rogando donativos em favor dos festejos, anunciando sua devoção ao Espírito da Verdade e convidando os fiéis para o grande jubileu. 


1-Folia do Divino dos bairros Guarda-mor / Bom Pastor se apresentando em Matosinhos.

No período que antecede os festejos também vem à rua um grupo de quatro caixeiros, antecedido pela bandeira pentecostal a cantar na casa do Imperador, conduzindo-o ao santuário para a missa na Quinta-feira da Ascenção do Senhor, quando é feita a entronização da imagem do Divino aos pés do Crucificado, Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 


2-Caixeiros chegam à casa do Imperador Detinho para sua escolta. 

Mais um evento preparatório acontece no domingo que antecede Pentecostes, quando pela manhã vem às ruas a Cavalgada do Divino, com dezenas de cavaleiros circulando por um itinerário pré-definido, com carro de som e estandarte do Divino na dianteira, anunciando a festa. Quando a população vê a cavalgada passar sabe que a festa chegou. 


3-Cavalgada do Divino atravessando a Avenida Josué de Queiroz.

Em breve neste blog novas postagens serão dedicadas à festa com notícias e programação. 

Créditos das fotos:
1- Iago C.S.Passarelli, 2012
2 e 3- Ulisses Passarelli, 2009


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Maria Fumaça na Estação de Nazareno

Para matar a saudade de muitos e registrar cenas da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas) quando ainda estava em plena atividade, posto a seguir quatro fotos de álbum familiar, transmitidas por meu pai, David Passarelli, tiradas na estação ferroviária de Nazareno / MG em 1976.


As locomotivas cortavam toda a região das Vertentes e cercanias. Acompanhavam o vale do Rio das Mortes, levando e trazendo produtos e passageiros, cultura, emprego, notícias, esperança, num serpenteio entre paisagens estupendas das vargens fluviais.


O jeito de apitar era uma característica de cada maquinista e o tom característico de cada locomotiva gerava um código sonoro de sinais legitimamente folclórico, posto que passava de geração em geração informalmente e sujeito à criatividade do trabalhador. O povo da beira da linha conhecia muito bem esses sons, interpretava o seu significado e até identificava qual maquinista vinha chegando. Folk-comunicação? Certamente.


Os moços do trolley envergavam varas flexíveis que impulsionavam o rude veículo carregador de fardos, ferramentas, marmitas. Beira-linha os conservas aguardavam. Nos trens iam referências do progresso que a máquina a vapor tinha trazido para os sertões; na fumaça esvaía-se a saudade, de cumpadres e familiares que chegavam para visitas e festas. Nas estações se trabalhava pelo pão de cada dia. Sitiantes plantavam e criavam, despachando sua produção no trenzinho. Ele movia a economia.


Mas o Chefe da Estação não acena mais suas bandeiras. O sino da plataforma calou-se. O apito sumiu nas agruras do tempo. Os trilhos foram erradicados. As estações se arruinaram em sua maioria. Agora é só asfalto onde os acidentes se multiplicam. A Maria Fumaça, que tem a cara de Minas Gerais (ou é o contrário?) é uma saudade contínua... que gera um protesto eterno contra a lamentável degradação dos trilhos. A desgraça só não é maior porque sobrou-nos um trecho até Tiradentes. Fica a lição da história e o lamento de tantos e tantos que entendem e sentem o que significava o "trem de ferro".


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: David Passarelli
*** Leia mais sobre a Estrada de Ferro Oeste de Minas clicando nos seguintes links:
Ferrovias 
A Chegada da Maria Fumaça

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Tiradentes / MG: Tião Paineira - mestre ceramista



Técnica de trabalho em cerâmica de Tião Paineira, Tiradentes / MG, cuja arte tem forte influência indígena no estilo e predomínio das peças utilitárias:
- A peça sai do torno (artesanal, movido a golpes da perna), após acabamento com faca, lasca de taquara e pedra e fica um dia secando no sol. Fica cor de cinza ("ponto de cimento").
- Vai depois para o forno de banqueta de barranco para seis horas de queima, sendo metade deste tempo esquentando em fogo brando e a outra metade em fogo bravo, até a peça ficar cor de laranja madura.
- Se colocar então em fogo brando de novo, amarelado, vai requeimar a peça
- Lenhas boas: pororoca, pombeiro, eucalipto e folha-miúda.
- Barro ideal: é o de campo (noruega). O de brejo não presta.


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli, a partir de apontamentos ditados pelo próprio Tião Paineira ao autor, em 1997.
** Vídeo: Ulisses Passarelli / Iago C.S. Passarelli

sábado, 6 de abril de 2013

Belas Bandeiras



Dois ex-votos centenários da terra de Nhá Chica

Em muitas igrejas, alguns cruzeiros, oratórios e sobretudo nos pontos de romaria, é possível encontrar representações de natureza material indicando uma graça alcançada. Esta representação se chama ex-voto. É a atestação concreta de um milagre alcançado. Nos grandes centros religiosos eles se reúnem em geral, num cômodo específico anexo à igreja popularmente chamado "Sala dos Milagres", onde podem ser vistos em grande número e variedade de tipos. Nos casos menores os ex-votos costumam ficar na sacristia ou em alguma outra dependência, como é o caso dos quadros abaixo, da igreja de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, sede de um dos distritos de São João del-Rei / MG, que fotografei em 15/11/1998. 

TEXTO: "Milagre que fez o glorioso Martyr S.Sebastião a Antônio Sabino da Silva e Francisco Onofre da Silva que no passar o rio grande p.ª o outro lado do porto do Belchior a canôa tornou a direção da correntesa que vai despejar na cachoeira abaixo e perdeu os remos aí que se lembraram do mesmo santo a canoa parou fora da correntesa e prenderam a (... trecho ilegível) mandam estampar o presente. Rio das Mortes 15 de novembro de 1905." (sic)

TEXTO: "Milagre que fêz Nossa Senhora a Pedro Sabino que estando trabalhando armando uma casa quando assentava o pontalete cahiu de cabeça para baixo e não soffreu a quèda graças a mesma Senhora e por lembrança manda estampar o prezente. Rio das Mortes 24 de agosto de 1910." (sic)


O confronto estilístico dos quadros acima sugere se tratar de um mesmo pintor, suspeita que ganha força na fórmula idêntica de abrir e encerrar seu enunciado.

O estudo dos ex-votos é de grande interesse para a folclorística e a etnografia e está ainda incipiente. A preservação dessas peças religiosas é da maior importância, pois fazem parte do conjunto patrimonial do templo e por conseguinte, são elementos palpáveis da religiosidade e da fé populares.


Notas e Créditos


* Texto e fotos (15/11/1998)
**Veja mais sobre este assunto em:

Ex-votos
Ainda dos ex-votos ...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Uma fábula da bicharada: o bicho-folharal


Foi numa época de seca muito forte. Toda água estava esgotando e os animais da mata estavam com sede. Fizeram uma reunião: o tatu, a onça, o tamanduá, o macaco, toda bicharada estava lá. A assembléia decidiu por um mutirão formado por todos aqueles bichos furar um poço na parte mais baixa na esperança de achar água potável. O coelho foi o único a discordar, negando-se ao trabalho.

Os animais protestaram com razão porque se ele não ajudasse na labuta não poderia beber. A onça por ser a mais temida deu o veredito: ela mesma tomaria conta do poço. Ai do coelho se atrevesse beber sem ter trabalhado. O devoraria.

Os animais começaram o serviço custoso. Os tatus logo puseram a cavoucar. Outros bichos carregavam terra, outros mais buscavam paus para escora e assim foi por alguns dias, mas o coelho... nada de ajudar! Só de longe olhando e rindo da serviçada sem fim.

A cisterna ficou pronta depois de muita peleja e a bicharada matou a sede à vontade, sem perseguição alguma. O coelho não apareceu. “Viu só”, comentou a onça com impáfia, “o orelhudo não se atreveu...”

Mas de longe ele observava e deu um jeito de enganar a escolta da onça. Besuntou o corpo todo de mel e depois rolou sobre as folhas secas da mata que grudaram no se pelo deixando-o irreconhecível. Arrancou uns ramos de samambaia e chuchou-os ao pelo embolotado. Lá foi o coelho disfarçando o andar, num gingado diferente. A onça vislumbrou desconfiada a chegada.

_ Boa tarde!
_ Boa tarde, senhora!
_ Que mal lhe pergunte, mas... quem é o senhor?
_ (Respondeu o coelho com vozeirão gutural, disfarçando) sou o bicho folharal.
_ Folharal?! Uai... mas eu nunca vi o senhor aqui. Donde o senhor é?
_ Eu vim lá de longe daqueles morro. Tô de viagem e lá vou pras banda de lá... Mais tô com muita sede, esse sole bravo, seca danada...
_ Quê isso! Num vai ficar com sede não. Óh, furamo esse poço aqui, os bicho tudo, de menos o sem vergonha do coelho... Mas deixa ele passar por aqui... Mais...e, o sinhôre pode bebê o quanto quisé. É um visitante.
_ Brigado!

Foi lá o coelho, digo, o folharal, e tomando de uma cumbuca, matou a sede o quanto quis enquanto a onça o olhava de baixo em cima, cismada, mas sem atinar o logro.

_ Água boa essa aqui, viu. Fresquinha! Brigado a sinhóra...
_ De nada!
_ oh, num arrepara não mais já tamo na vorta do dia e ainda tenho mais de légua pr’aquele rumo. Eu vô chegâno. Muito agradicido!
_ Vai com Deus, seu Folharal!

Saiu o descarado do coelho naquele requebrado. A onça meio pasmada olhava sua figura no fim da trilha. Quando a distância era já segura, O Bicho folharal voltou-se para a direção da onça e começou a sacudir o corpo todo e arrancar todas aquelas folhas e ramos e vendo-se livre do disfarce, riu demais daquela bruta. E saiu correndo disparado pra grota abaixo, entremeio de moitas e moitas até sumir.

Ficou revoltada, aos urros de estremecer a mata. A bicharada veio saber da nova. Ficaram fulos de raiva. Foi a raposa que deu a idéia da vingança.

_Oh, vão fazê assim: nóis cavuca uma cova e dona onça deita nela de barriga pra cima. Cubrimo ela tudo de capim e fôia seca. Fica lá paradinha...  sem mexê nada, só com um furinho no mei’ das  fôia pra mode respirá. Aí vamo ispaiá nutícia que a terra tá revortada co’a seca e vai escancará a boca e mostrá seus dente, que devora tudo quanto é bicho morto no chão. O cuêi’ é munto curioso e vai chegá pra vê. Aí a sinhora arreganha a guela que impurro ele lá dentro. Daí é só mordê. Esgana ele! Disaforado!
_ uai, sô... Muito boa idéia! Cumé que num pensei nisso...
_ Ah,com todo respeito, eu sô a raposa num é a toa...
Assim fizeram. Os animais em roda, circulando o lugar onde a suposta boca da terra iria se abrir.
_ Chega aqui perto cuelho, óia ali que a terra lá vai rachando... Chega aqui pertinho, pr’ocê vê!
_ Não, daqui mesmo tá bão. Tá dano pra vê...
_ Ah lá os dente pontano! Óia que bruto, cuêi’ !

Ele esticou o pescoço e vendo que era uma presepada da onça com a raposa, abaixou ligeiro pegou uma grande pedra e jogou na garganta da onça. E deu o fora o mais rápido que pode. A onça se debatendo sufocada esperneava de dor sem poder reagir e nenhum bicho teve coragem de chegar perto para acudir. O coelho sumiu no mundo. Nunca mais voltou naquela região.


Notas e Créditos

* Informante: Luís Pereira dos Santos, povoado da Candonga (Tiradentes / MG), 2007.
** Adaptação textual e desenho: Ulisses Passarelli.